domingo, fevereiro 11, 2007

Pelo sim


"Para Platão, a contemplação era a forma mais elevada da actividade humana. Uma visão semelhante existia na Índia Antiga. O objectivo da vida não era a alteração do mundo. Era dele possuir uma visão correcta".
John Gray in "Sobre Humanos e outros animais"

sábado, fevereiro 10, 2007

No Aleixo II

É um "solitário na selva" porque diz não ter com quem conversar. Herdeiro da "loucura dos anos 70" e de um ideal de liberdade, que continua a perseguir, e que passa por não ter horários a cumprir, Júlio é, aos 43 anos, pai de dois filhos exemplares: um tem 22 anos e é finalista de engenharia mecânica; o outro tem 16 e é campeão nacional de natação. Vivem com a avó materna. Quase nunca os vê "para não os traumatizar". Mas lembra-se do tempo em que o dinheiro que ganhava como chefe superior da alfândega dava para consumir - ele e a mulher que entretanto perdeu - e para lhes pagar os melhores colégios, sempre particulares. "Tenho muito orgulho por eles não serem como eu e umas saudades que às vezes me tiram o ar. Mas não quero que me vejam assim", insiste. Se o vissem, veriam um homem extraordinariamente bonito, aparentemente apaziguado, de voz doce e culto. "Tenho o 11º ano completo e o gosto pela leitura. Leio o Público todos os dias. Não sou burro. Por isso, sou solitário".
Não quer ver os filhos. E também não quer ver a mulher com quem esteve casado 12 anos e por quem continua "terrivelmente apaixonado". Diz que sabe que ela sente o mesmo, que não o esqueceu. "Sei porque sei, sei porque sinto". Se se juntarem arruínam-se. "Não é possível manter uma relação saudável entre duas pessoas que consomem. Fica muito caro. Caro ao ponto de não ser possível sustentar". É possível quando uma das duas não consome? "É pior. Implica muito sofrimento e privação. Tudo gira em torno de quem precisa. Por isso continuo sozinho. Não quero magoar ninguém".
Não pede dinheiro para a droga, não rouba, não arruma carros. Faz os "canecos" - espécie de cachimbo em miniatura - necessários para o consumo da heroína com restos de alumínio e com varetas de guarda-chuvas que encontra na rua e vende-os a cinco euros. "Faço uma coisa e pagam-me por isso. É honesto, não é?". Há dez anos consumia cem contos por dia; hoje, dez euros bastam-lhe. "Acalmei, é verdade, mas continuo a querer ver as luzes todas que vi quando experimentei drogas duras pela primeira vez. O Porto todo com milhares de luzes e o lado de lá da marginal. Não nego: continuo a querer sentir isso. Mas também ainda não morri, não é?"
Não morreu e sente-se "abençoado por não ter sida". Quando ouviu falar do vírus, algures em Espanha dos anos 80, já tinha trocado demasiadas seringas, já tinha penetrado demasiados corpos que nunca mais voltou a ter. "Fiz as análises de olhos fechados. Quando soube o resultado senti que a vida tinha recomeçado, que nunca mais nada voltaria a ser como antes".
Quando avisou o patrão que ia despedir-se, o homem abraçou-se a ele a chorar. "Contei-lhe que estava de tal maneira desorientado que podia começar a fazer asneiras. E não queria. Ele chorou por nunca ter percebido". Por nunca ter percebido que não havia uma única hora do dia em que "o funcionário em quem mais confiava" vivia preso. Que se fechava na casa de banho para se injectar. E que o salário já não acompanhava o ritmo das ressacas. Deixou de se injectar depois de ter passado cinco anos na prisão. "Mas não posso dizer que não gostei. Era diferente". Aliás, acrescenta, "tão diferente como a droga do estabelecimento: melhor, mais fácil de comprar e mais barata".
Tem dúvidas em relação à instalação de uma sala de consumo assistido no bairro que agora frequenta. "Não gostava que os meus filhos me vissem a entrar para lá. Não gostava que as pessoas começassem a encarar o consumo com naturalidade. Não é natural. E não gostava que um dia os meus próprios filhos entrassem numa dessas salas". Por bem menos repreendeu o mais novo. "Tive uma conversa séria com ele quando soube que fumava tabaco. Não há sensação pior do que falar com alguém quando não se tem moral para falar". Mas tem certezas em relação ao futuro. "Sei que vou sair daqui. E que vou deixar de ter que viver sozinho para não magoar as pessoas". Recorda a última conversa que teve com o pai no último dos nove dias em que esteve internado no sanatório com tuberculose. "Sei que não cumpri a 100% o que esperavas de mim. Desculpa-me", pediu-lhe, com a mão na mão de quem não lhe respondeu.

Um dos dois telemóveis que traz presos na cintura começa a vibrar. "Os telemóveis são tão importantes para mim como um braço. Sem eles não vivo". Do lado de lá do telefone alguém o chama. Júlio perde a serenidade, diz que tem que ir embora. Um dia diz que vai montar um projecto nas escolas "para explicar aos jovens que a droga não é o caminho". Mas hoje ainda é demasiado cedo para isso.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

No Aleixo I

Tem um pé calçado com vários pares de meias, mas sem sapato. O outro pé não existe. Nem a perna. Perdeu-a juntamente com dois amigos num acidente de automóvel. “O carro ia em excesso de velocidade e foi contra uma árvore. O condutor e a rapariga que ia ao lado morreram. Eu fiquei assim". Não diz há quanto tempo foi. Mas foi há tempo suficiente para aprender a manusear a cadeira-de-rodas com perícia. O cabelo-avelã está todo desgrunhado e nem assim perde o brilho. Usa dois totós, apesar de já ter 24 anos. E, no colo, não dispensa uma boneca e um saco de rebuçados.
Sobre a pele morena, os olhos azuis, grandes, luminosos, desviam a atenção dos olhares dos outros da cadeira sem a qual não existe, ali, no meio da estrada, quase sempre em frente ao Hotel Ipanema Park, a caminho da Foz. Os carros passam, desviam-se. Às vezes, param. Ela rodopia, raramente sorri, estende a mão e regressa à linha que divide as duas faixas de rodagem. "Sim, sei que sou bonita. Como posso não saber? Estão sempre a dizer-me isso".
Quando há jogos de futebol e a cidade fica vazia, ela continua lá. Quando chove, como agora, e os trovões caem do céu para se estatelarem no chão como caixas de sapatos com lâmpadas, também. Quando o cansaço a atormenta, desce a rua até ao Aleixo. Não tem casa. Dorme no hall de entrada da segunda torre. E come o que lhe dão. Quando lhe dão.

Bruna tem cara de boneca como a boneca que traz pousada no regaço. “Gosto de bonecas e de ursos de peluche”, conta como se tivesse parado de crescer no momento em que deixou S. Miguel, nos Açores, para ir para o Porto com a mãe e os dois irmãos mais novos. Tinha nove anos. O pai nunca soube muito bem quem era. Estudou num colégio de freiras até ao 7º ano. Depois foi trabalhar para Aveiro. “Era empregada numa loja de roupa”. Nessa altura, conheceu o amor que seria de uma vida inteira se agora não o odiasse. “Vivi com ele sete anos. Ele tinha problemas de droga. Tentei ajudá-lo, mas não consegui. Estragou-me a vida. Tirou-me tudo o que tinha”. E também a filha, Catarina, que agora tem sete anos e vive com os avós paternos. “Eles deixam-me vê-la, mas eu não quero que ela me veja assim. Já é grande, já percebe as coisas. E, um dia, quando isto acabar, não quero que ninguém saiba que passei por isto”.

Não diz o que é isto. Os amigos (?) dizem que isto é a heroína. Dizem que vê cobras quando alucina. Ela diz que tem fobia a cobras. E que não tem amigos.

No dia 1 de Abril faz 25 anos. “Já estamos em Fevereiro?”, pergunta. O presente de aniversário é incontornável: regressar aos Açores. “Não estou farta do Porto; mas estou farta da vida que tenho aqui”. E farta que todos digam que a vão ajudar e que depois nunca façam nada. “Todos dão conselhos, principalmente as mulheres: que eu não precisava de andar assim, que me podiam ajudar… mas eu é que sei. Sei que não me lembro da última vez que fiz fisioterapia, sei nem para uma instituição consigo ir e sei que as pessoas falam sempre demais…”

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Pillowman vota Sim

O Pillowman, criação soberba do soberbo dramaturgo irlandês Martin McDonagh's, é a favor da despenalização voluntária da gravidez. O Pillowman, que Paula Rego transformou numa extraordinária obra de arte, defende a possibilidade de abortar como forma de evitar o sofrimento das crianças quando crescerem. O Pillowman, que Tiago Guedes encenou naquela que foi talvez a melhor peça de teatro do ano passado, já faz disso a sua vida: o visionário personagem de almofadas procura crianças a meio da noite, enquanto dormem, e encoraja-as a suicidarem-se para que não tenham de sofrer depois.

E se o Pillowman existisse?

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Repeat

I was lying in my bed last night staring
At a ceiling full of stars
When it suddenly hit me
I just have to let you know how I feel
We live together in a photograph of time

I look into your eyes
And the seas open up to me
I tell you I love you
And I always will
And I know you can't tell me
I know you can't tell me

So I'm left to pick up
The hints, the little symbols of your devotion

And I feel your fists
And I know it's out of love
And I feel the whip
And I know it's out of love
And I feel your burning eyes burning holes
Straight through my heart
It's out of love

I accept and I collect upon my body
The memories of your devotion

Give me a little bit serious love
Give me a little full love
Be full of love
Fists, fists, fists full of love...

'Fistful of Love' by Antony and the Johnsons
( Featuring Lou Reed )

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Rui Rio - Um livro de estilo

Numa semana em que o país parece estar exclusivamente concentrado na discussão sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, só Rui Rio consegue resgatar-me do tédio noticioso e envolver-me na deliciosa bruma das coisas que ainda conseguem surpreender-me.
O autarca portuense prepara-se para lançar um Livro de Estilo de jornalismo, à semelhança dos que foram, há já vários anos, editados pela TSF e pelo Público. E partilhou, no início desta semana, a pré-publicação da obra - espécie de tese de mestrado, que usa como objecto e amostra de estudo as edições dos dias 1 e 2 de Fevereiro do Jornal de Notícias, para tentar provar o "jornalismo de péssima qualidade" seguido por aquele matutino - no habitual site da autarquia. O texto, imodestamente, intitula-se: "Análise: Jornalismo de péssima qualidade para denegrir a Câmara". (Há semióticos na Câmara e ninguém nos disse nada...)
1. Os jornalistas não devem usar "verbos que simbolizam desagrado, hostilidade, manipulação de factos". A saber: revoltar, sobretudo se em causa estiver o que a edilidade supõe ser meia dúzia de pessoas "a trocar impressões" - hoje, às 16 horas, veremos quantas são as pessoas e quais as impressões que efectivamente as mobilizam; ignorar, contestar, retirar, protestar... A lista de verbos vem adicionar-se a uma lista de adjectivos já anteriormente divulgada e onde figura o famigerado "energúmeno", que levou Augusto M. Seabra a sentar-se num tribunal, acusado de abuso de liberdade de expressão.
2. Os jornalistas não podem ser factuais. Alguns exemplos: se existir um lavadouro que parece uma espécie de esgoto a céu aberto, os jornalistas não devem denunciá-lo; menos ainda ilustrá-lo com a fotografia do local sob pena de transmitir da cidade a ideia "de um cenário tipicamente rural"; se a Câmara não renovar, pela primeira vez em cinco anos, um acordo que garante a aferição da qualidade da água pública, o jornal não deve dizê-lo para não parecer que "a Câmara não tem projectos, nem cuida da cidade"; se a Câmara pedir um empréstimo (2,5 milhões de euros), os munícipes não devem sabê-lo.
3. As notícias devem ser equitativamente distribuídas pela região. Se um jornal tiver, por exemplo, um caderno local dedicado à Área Metropolitana do Porto, não deve privilegiar o noticiário daquela que é, por enquanto, e supostamente, a sua principal cidade. Ou seja, em seis páginas de suplemento dedicar-lhe metade é absolutamente inaceitável. O que acontece em Santa Maria da Feira ou na Trofa é tão importante como o que acontece no Porto. Não o encarar desta forma é uma fórmula traiçoeira para "dar uma imagem geral de contestação e revolta na cidade", sobretudo quando "todas as notícias apresentam um título negativo sobre a Câmara do Porto ou mesmo sobre o seu Presidente".
4. Títulos negativos são, obviamente, punidos com retirada de carteira profissional. Rui Rio não é insensível a nada, não ignora nada, não é culpado de nada. Quem disser o contrário, esse sim, é um energúmeno.
5. As citações que até aqui eram usadas para atestar a veracidade das notícias, deverão passar a ser usadas com parcimónia caso não sejam vantajosas para a autarquia. “Vou pagar o dobro e nem vidros tenho” ou “É o mesmo que me dizerem para não comer”; e ainda “A minha reforma só foi aumentada seis euros” serão claramente censuradas.
6. As fotografias deverão ser substituídas por pinturas de... vá lá, Monet. Sim, paisagens. Porque os repórteres fotográficos, contaminados pelo espírito malévolo dos jornalistas, tenderão a construir imagens que coloquem o leitor a ver, literalmente, o contexto da notícia. Por exemplo, o Bairro do Aleixo - um dos maiores centros de tráfico de droga do Porto - não pode fotografar-se a partir de um dos muitos vidros partidos que por lá existem. Isso é querer "montar um efeito de caos" que obviamente não existe ali.
Nas notas finais, Rui Rio conclui que "a polémica linha editorial" do JN é, como esclarece no título da obra, "de péssima qualidade", mas salvaguarda que o estilo usado para noticiar a cidade "contrasta claramente com as restantes páginas do jornal onde os assuntos positivos e negativos são noticiados com aceitável factualidade".
O Livro de Estilo ainda não tem data de publicação, mas é provável que os próximos capítulos continuem a aparecer no site da Câmara.

domingo, fevereiro 04, 2007

Clubbing na Casa da Música

São recorrentes as críticas. E a Casa da Música, enquanto projecto, às vezes, parece estar sempre à beira de se afundar. Ontem esteve toda cheia outra vez. É nessas alturas que é bom sentir que tudo continua a fazer sentido.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Portugal dos pequeninos

No início de Janeiro, quando a maioria ainda não tinha despertado da noite de passagem-de-ano, um bebé era abandonado num centro comercial do Porto. Ninguém o reclamou; ninguém, no seio da família ou do círculo de amigos, suspeitou de alguém que pudesse ter estado, e subitamente deixado de estar, grávida. Nem sequer o putativo pai. O bebé será agora entregue para adopção num processo que, como todos os processos dessa índole, poderá durar 36 meses. Se no último dia desse período surgir algum parente relacionado com a criança, o processo voltará à estaca zero. Nessa altura, o bebé já não será bebé. Terá, pelo menos, três anos. E um ponto de interrogação no caminho.

Em Novembro do ano passado, um bebé foi encontrado ao lado de um contentor do lixo, depositado num banco de jardim de uma qualquer cidade, embrulhado num saco térmico. Resistiu ao frio de Natal por ter sido abandonado como uma sopa. Os médicos ficaram comovidos. Poderá a criança comover-se com a sua resistência quando crescer?

Alguns bebés têm nomes, têm rostos. E têm coisas que nunca ninguém saberá. Mas não tiveram futuro. Porque alguém o abortou. A sangue frio.

Em Maio de 2005, Vanessa, depois de cinco anos de pingue-pongue entre a avó, a mãe e a vizinha a quem chamava madrinha, foi encontrada a boiar no rio Douro. Alguém jurava que ela tinha fugido. Ao contrário, os factos provariam que a criança tinha as pernas queimadas, os braços torrados pela serpentina eléctrica de tostar o leite-creme, o corpo inteiro com marcas de mergulhos involuntários e demorados em água a escaldar. As feridas do coração não eram visíveis a olho nu. Nem no raio X de qualquer especialista.
Na recta final de 2004, Joana desapareceu para sempre. A parede da casa onde foi morta pela mãe e pelo tio denuncia que as suas mãos escorregaram, com suor incrédulo, sobre ela. A parede diz ainda que ouviu a sua dor: “Por favor, por favor”. Mas uma parede não tem vida; não a podia salvar. Quando, um dia, a criança – ou o que sobrou dela -, reaparecer a boiar no rio, numa pocilga, ou numa lixeira será tarde demais. É sempre tarde demais.
Os bebés não podem ser privados da sua vida, mesmo se ainda têm, apenas, dez semanas dentro de um útero. Aprovar a interrupção voluntária da gravidez é quase pecado. Mas podem se ser tratados como sacos descartáveis; podem sofrer até onde as palavras não chegam para o descrever; e podem, quando sobrevivem, crescer ao sabor da imprevisibilidade neurótica de quem os gerou.

No Portugal dos pequeninos valores é assim: podemos ser todos felizes se todos fecharmos os olhos e fizermos de conta. De conta que o Portugal dos pequeninos é o país da Alice-maravilha.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Jay-Jay Johanson


Assistir à falta de competência de alguém que tem para comunicar alguma coisa manifestamente má e não tem capacidade para a transformar numa coisa boa, relevando o que haverá de melhor no que não presta, é frustrante. Num departamento de comunicação ou de relações públicas ou de assessoria, este desempenho nunca poderá ser visto como honesto, porque obviamente ninguém de qualquer um desses departamentos é pago para ser honesto. É pago e educado para fazer brilhar o que poderá ser baço.
Mas quando se assite ao desempenho de alguém que tem nas mãos uma coisa verdadeiramente genial e revela igual incapacidade para a comunicar, a frustração transforma-se numa gritante irritação!
A Casa da Música - quantos assessores e consultores de assessoria tem o raio do equipamento? Cinco? Mais?... - vai ter, no próximo sábado, o imperdível Jay Jay Johanson do magnífico Whiskey de estreia, em 1996 - álbum seguido a espaços mais ou menos longos de Tatto, Poison e Antenna (trabalho mais electrónico) e agora The long term physical effects are not yet know. O sueco esteve no Porto, há dois anos, para um concerto no Teatro Sá da Bandeira. Mas o precioso bónus foi oferecido na discoteca Act, onde o nórdico fez literalmente o que quis com a pista - improvável pista, é certo, de quem claramente desconhecia a luz daquele altar, mas ainda assim, receptiva -, com um DJ set absolutamente efervescente. Único. Com um travo a inacabado. Confesso: há dois anos que espero o regresso do homem. Ele volta daqui a três dias e ninguém disse nada! Devia ser crime. "So tell the girls that I am back in town".
O concerto de Jay Jay (aliás, concerto ou DJ set? Ninguém diz...) insere-se na segunda maratona do Clubbing, potencialíssimo formato que a Casa da Música inaugurou o mês passado... mas em segredo. Vá lá saber-se porquê. Será como o resto da programação que, no curso deste ano, é toda dedicada a Espanha, embora eu desconfie seriamente que o país vizinho desconhece a ilustre dedicatória.
O Clubbing de 3 de Fevereiro começa às 22 horas, é dedicado aos eighties e terá ainda @c+Lia (projecto de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais), Phantom Ghost, WhoMadeWho, Rui Pregal da Cunha (ex-vocalista dos Heróis do Mar) e Hang The DJ. A noite custa 20 euros.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Raul Brandão


Não é novo: é verdade que não me conformo com a falta de popularidade de Raul Brandão, espécie de Dostoievsky português. Por estes dias, a Relógio D'Água fez de mim uma pessoa mais feliz ao reeditar, na colecção "Obras Clássicas da Literatura Portuguesa - Séc. XX", um dos meus livros de eleição, que nunca consegui ter senão por fotocópias: "A morte do palhaço e o mistério da árvore". Com um bónus precioso: "História dum palhaço (A vida e o diário de K. Maurício). A edição, na verdade, é de Novembro de 2005. Por alguma estranha razão, só a descobri agora.
História dum palhaço
"Vi que a multidão é má e se ri e se despedaça, indiferente, criaturas; vi que há homens tão desgraçados que, se têm dores, são ridículas. As suas amarguras fazem rir a multidão. Nascem para sofrer, eternamente perseguidos, encolhidos, habituados até á desgraça... Outros têm na vida um método e vão por aí fora e tudo subordinam às suas ideias, torcendo a vida para que ela caiba dentro de regras. Riem, choram, atropelam-se. Sofrem e fazem sofrer".
A morte do palhaço
"Encontro a dor no fim de tudo. Não vou para um prazer sem pensar no fim, na desgraça em que tudo se aninha, no tédio de ter realizado... E na minha alma se fez pouco a pouco um grande vácuo, um amargo tédio por a vida ser só isto, por o sol brilhar de uma só forma e por já ter imaginado todas as coisas... E no entanto eu não vivi senão por imaginação... Deixa-me explicar-te isto melhor: é como se eu fosse composto de diferentes seres, cada um com as suas ideias, os seus sonhos e as suas ilusões, e por cada tarde que finda, na luz que cerra os olhos, um desaparecesse para sempre, levando-me uma parte de ventura e de tristeza... Eu nunca estou só. Quando me isolo é que estou mais acompanhado."

"O que é que tu sabes?"

(Foto:JMG)

Sei que vais casar. Sei que é daqui a quatro meses. Sei que ainda não me disseste. Mas não sei porquê. Sei que prometemos casar um com o outro se aos 30 anos ainda não tivéssemos casado com alguém. Sei que dizíamos isso para irritar as pessoas. E sei que gostávamos de as irritar. Sei que ainda não casei. E sei que tu vais casar no mês em que completas 30 anos. Não sei o dia.
Sei que falamos de tudo. Sei que tu, sendo homem, és a minha melhor amiga. E sei que não precisamos falar para nos entendermos. Sei que preferias viver seis meses, talvez mais, sozinho antes de casares. Porque nunca viveste sozinho e gostavas de experimentar. E sei que isso não vai acontecer porque achas que os argumentos do outro lado são mais válidos que os teus. Não sei se serão; mas tu sabes e eu confio em ti.
Sei que gostávamos de trabalhar juntos. Sei que o meu mau feitio anula-se no teu e vice-versa. Sei que talvez isso nunca venha a acontecer porque optámos por carreiras diferentes. Outra vez porque achaste que os argumentos do outro lado eram mais válidos que os teus. Não eram. Isso, eu sei. Sei que gostavas de ter ido por onde fui. E sei que se tivesses ido serias melhor do que eu - és melhor do que eu de qualquer maneira. Mas sei que não achas mesmo que sou burra e gorda e feia quando dizes que sou burra e gorda e feia. Sei que quando estamos juntos somos insuportáveis. Sobretudo em grupo. Sei que fazemos de propósito.
Sei que me ligaste hoje. E sei que hoje não me apetecia nada falar (desculpa!). Sei que não disseste nada do que querias dizer. E sei que o meu silêncio abreviou a conversa. Mas sei que entendeste o que quis dizer quando disse que hoje me sentia com 15 anos.
Sei que vais casar. E sei que tu sabes que eu sei. Era isso que querias saber?

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Importa-se de repetir?

"Se os outros esqueceram porque hei-de eu lembrar-me?"

Teresa Costa Macedo, ouvida no processo Casa Pia, jurando não reconhecer o homem da fotografia depois de anteriormente ter afirmado o contrário.

Passos Manuel


- Até quando vamos andar aqui a beber cervejas?
- Até sempre!
- Até sempre?
- Até já.

Quiz VII

Porque é que há gurosan para a ingestão excessiva de álcool e não há gurosan para a ingestão desmedida de afecto? Porque é que é possível solicitar de urgência uma lavagem ao estômago e não é possível fazer uma lavagem ao coração? Porque é que uma noite de sono cura tudo e ainda não curou isto?

"It's about time"

Assim, de repente, nada contra as instalações que têm sido apresentadas na Casa da Música, no Porto. Primeiro, a de Nuno Grande; na sexta, a de Ricardo Jacinto; até ao fim do ano, serão apresentadas outras nove. Mas o empenho de Guta Moura Guedes em apresentar no edifício de Rem Koolhaas uma espécie de extensão da sua Experimenta Design sempre me pareceu, no mínimo, deslocado. Sobretudo se se considerar que no âmbito específico dos objectivos que o equipamento visa cumprir - a música -, ainda há muitas prioridades por materializar.
O mistério foi entretanto desvendado: a quinta edição da bienal, cujo tema já estava definido - "It's about time" -, foi cancelada "por motivos profundos", explicou a responsável. Suponho que tão profundos como aqueles que ameaçam transformar a Casa da Música numa casa de acolhimento de quem não poderá expor o seu trabalho em Lisboa. We'll see.

sábado, janeiro 27, 2007

Grandes Portugueses

Quem ainda não está farto da eleição do alegado melhor português de sempre que ponha o dedo no ar!

sexta-feira, janeiro 26, 2007

A voz. E o clone.

Falas-me sempre da voz. Sempre, desde o primeiro dia. É a primeira coisa que dizes quando digo olá, sou eu. E és o único a falar dela, da voz. Da voz sem ser para referir a má dicção ou a pronúncia daqui ou dali. Falas da voz com adjectivos insuflados. E lês-me uma crónica de Eduardo Prado Coelho, ao telefone: "Se alguma coisa se incorpora na matéria das vozes que as torna recalcitrantes a quase todas as palavras com que as tentamos definir, essa resistência tem por contraponto o estranho mistério de elas parecerem inesquecíveis - e por vezes, ao atender um telefonema, ao ouvir um programa de rádio, ao encontrar alguém na esquina de uma rua,é uma antiquíssima voz que vem segredar-me ao ouvido que a memória tem mais voltas, estragos e volutas do que possamos imaginar". Falas da voz primeiro e da gargalhada depois. É a segunda coisa que fazemos depois de dizermos olá, sou eu. Invariavelmente. Da gargalhada da saudade. Da saudade de sempre. Sempre incumprida. Parecemos tontos!...
Criámos um ritual de pretextos: tu ligas-me quando tropeças em qualquer coisa escrita sobre o poder da voz ou, mas menos, quando vês um cabelo "a arder". Eu ligo-te quando ouço uma música que descobrimos os dois ou, cada vez mais, quando encontro aquele que me parece ser um clone teu. E voltamos a rir. Dos pretextos. Sempre iguais. Devolvo-te o Prado Coelho por correio: "Há um dia em que sentes que o essencial ficou para trás, que a partir de agora tudo pode ser igual ao anterior mas nada terá a tonalidade que o distinguia, porque nenhum desejo investe o que acontece, porque ultrapassámos uma linha invisível, e aí experimentámos essa forma de morrer que é o puro derrame do sentido, a desolação sem resgate, o declive sereno mas inexorável, a impiedosa expansão de um depois". Seremos tontos?...
Nem a minha voz é como dizes ser, nem o clone é como tu. E também não há caminhos que nos conduzam ao passado, mas "um dia, vamos juntos a Nova Iorque". Promessas para o futuro. Somos tontos.

Beckett


"O ar está cheio dos nossos gritos, mas o hábito é um grande amortecedor".

terça-feira, janeiro 23, 2007

Triplex

Saio de casa como um homem para um encontro de homens que vejo, no máximo, duas vezes por ano. Quando chego, os homens estão a ter uma discussão de mulheres. Usurpo-lhes o tempo de antena. Despejo em catadupa dois ou três assuntos pendentes como quem deposita casacos e carteiras em cima de uma mesa anoréctica, roubando espaço para copos e tabaco. Os interlocutores sorriem, fingem agradecer a aparição súbita. No momento certo para abortar a discussão, disfarçam. Mas quando termino, voltam ferozmente a ela. E já não conseguem sair dali. Não é futebol, nem política, nem a profissão, nem propriamente gajas. É só a versão de uma história que não encaixa. Uma história com bolor ressuscitada numa sala sem aquecimento do Triplex, vá lá saber-se porquê. "Tu sabes que querias que eu contasse"; "Tu sabes que não era para contar"; "Afinal não te conheço como julgava"; "É melhor ficarmos por aqui"; "Mais uma cerveja? Não, estou cansado, quero dormir"; "Fica tu"; "Não, ok, vamos todos".
E fomos. Eu, muda, também. Eu, que nem sequer paguei bilhete para assistir à peça, aceitei desligar os Band of Horses com a St Augustine em repit [we're dancing on the poison in their graves, at the end of the night, we'd all seen better days] e abandonar o calor cansado da lareira só para, por eles, mergulhar no nevoeiro orvalhado da cidade. Encomendei uma daquelas conversas de pessoas que nunca se vêem; serviram-me uma discussão por-pouco-mais-do-que-quase-nada. Ter-me-ía enganado no sítio? Não consegui evitar sentir-me uma criança na cama de um casal, com o olhar em incessante e incrédulo pingue-pongue. Impôs-se o clássico silêncio, sim, matrimonial. Entrecortado a espaços. "Está frio, não está?".
Foi mais comovente do que parece. São amigos de verdade. O telemóvel não precisava tocar. Não passaram dez minutos desde que entrei no táxi. "É só para te dizer que já fizemos as pazes. Vai um copo?"

domingo, janeiro 21, 2007

Otelo

(Foto: Estela Silva)

Otelo, a tragédia de William Shakespeare, é Iago, o personagem. Se a interpretação do inóspito cão-de-guarda do general negro não convencer, a peça fica irremediavelmente manca; se é boa basta para arrastar consigo a ansiedade de uma história que deposita na consciência do espectador uma estranha empatia com o vilão, que o faz quase desejar que ele se salve. Otelo da visão assumidamente pessoal de Nuno M. Cardoso, e centrada no intervalo de tempo em que a opção entre dizer ou calar poderia mudar o desfecho da vida, é irrepreensível.

Os papeis inverteram-se e Nuno Cardoso (sem M) volta ao palco pelas mãos de um dos actores que mais vezes dirigiu nos últimos anos: Nuno M. Cardoso, agora, também, no lugar -conseguido - de encenador. A última vez havia sido em Gretchen, a partir de «Fausto», de Goethe (2003), numa interpretação morna. Desta vez, Nuno Cardoso/Iago mostra que não é só o melhor encenador que Portugal descobriu nos últimos anos ["Parasitas", de Marius von Mayenburg; "Woyzeck", de Georg Büchner; "O Despertar da Primavera", de Frank Wedekind; "Plasticina", de Vassili Sigarev...]; é também um dos actores mais consistentes, versáteis e absolutamente inatacáveis. É ele que conduz a peça, que a faz avançar e travar, suster a respiração e rodopiar até à apoteose final.

Iago tem tantas caras quantos os personagens com quem se cruza; talvez mais. É ríspido e frio com Emília (Sara Barbosa), sua mulher e única a saber que ele não é o que parece ser; é solícito e (des)leal com Otelo (Ângelo Torres), o ingénuo general de quem consegue uma ansiada promoção; é ombro amigo de Desdémona (Rita Loureiro), cândida companheira de Otelo que renuncia a tudo, a Veneza, à nobreza, e também à vida, por amor; é o parceiro de sempre de Cássio (Daniel Pinto), supostamente, seu melhor amigo; e força instigadora das ambiçoes amorosas de Rodrigo (Carlos António). Iago é isto tudo. E não é nada disto. É manipulador, cínico, traidor, cruel até à morte.
Otelo, inspirado na novela “Mouro de Veneza” de Giraldo Cinthi, é uma síntese do pior e do melhor que existe em cada um de nós. Do que somos cegamente capazes quando confrontados com o ciúme e a hipótese de infidelidade. E, inversamente, da abnegação quando imbuídos de uma consciência nítida e de amor verdadeiro. Também, e sobretudo, do que o desmedido desejo de poder nos faz fazer. Otelo joga com todas as contradições, todos os desejos, todas as crises, todas as armas. Quem sobreviverá à culpa?
A peça está em cena, hoje, pela última vez, no Teatro Nacional S. João, no Porto.

sábado, janeiro 20, 2007

Paulo Pimenta

(Bloc Party no Festival de Paredes de Coura, em 2006)

Imperdível exposição de Paulo Pimenta, um dos melhores fotojornalistas do panorama nacional, na Galeria da Fnac, em Santa Catarina, no Porto. "As três primeiras músicas" é um álbum de memórias pelos concertos indizíveis de Caetano Veloso, Moonspell, Bloc Party, etc, etc, etc... Até 15 de Março.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Troféu para a analogia mais ridícula

Depois de Sua Santidade o Papa ter comparado o aborto a um "acto terrorista" e D. António Montes Moreira, bispo de Bragança, ter afirmado que o aborto é "uma variante da pena de morte", chegou a vez do economista João César das Neves, segundo o qual a despenalização tornará o aborto "tão banal como um telemóvel".

Deveria haver um prémio para a comparação mais ridícula sobre o tema. Daqui até 11 de Fevereiro hão-de aparecer mais. Pessoalmente, a questão continua a parecer-me tão elementar quanto isto: que direito tenho de decidir a vida da vizinha do lado?

domingo, janeiro 14, 2007

O Porto visto de Lisboa

"Quem espera quatro horas, ao frio, noite dentro, para ver uma exposição de pintura?", pergunta José Manuel Fernandes (JMF), hoje, no editorial do Público. "Os portugueses", responde. À última hora, deveria ter acrescentado. Há quem só tenha acordado para a retrospectiva de Amadeo de Souza-Cardoso, patente na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, desde 14 de Novembro, no último dia e depois de os media terem sucessivas vezes alertado para o acontecimento. Inclusive com aberturas de telejornal. Ainda assim, é um facto: mais de cem mil pessoas em dois meses é, no mínimo, motivador.

"Quem esgota os espectáculos de qualidade, da ópera à dança, que passam pelas nossas grandes cidades? Os portugueses. Quem transformava um longo fim-de-semana numa maratona familiar em que se saltitava de sala de concerto em sala de concerto no Centro Cultural de Belém para não perder pitada da defunta Festa da Música? Ainda os portugueses. Quem torna num sucesso, esgotando sessões, um festival de documentários? De novo os portugueses".

Tal dose de optimismo é quase contagiante! No entanto, é toda relativa à agenda cultural da capital. É lá que se realizam todos os acontecimentos citados por JMF. Agora, atente-se na perigosa diferença quando o olhar do director do Público se inclina sobre o Porto (com excepção da sempre elogiada Serralves).
Depois de afirmar que "o nosso problema não é "criar públicos para a cultura" (...); o nosso problema é responder à solicitação dos públicos que existem e que só não aparecem porque muito do que lhes é oferecido pura e simplesmente não tem qualidade", atira esta pérola: "Protestamos menos pelo desaparecimento de uma Festa da Música (quantos miúdos tiveram naqueles dias, nestes últimos, o seu baptismo da grande música? quantos se começaram a interessar pelo que desprezavam?) do que por um teatro municipal do Porto deixar de acolher espectáculos para 30 pessoas quando tem lugar para centenas.
Pergunto-me quantas vezes JMF esteve no Rivoli e se tem noção de que nos últimos anos (não exactamente nos últimos-últimos) também lá houve meninos "a interessar-se pelo que antes desprezavam". Pela convicção com que escreveu, sou levada a crer que sim, que JMF era um assíduo espectador do Rivoli (apesar de também me considerar e, curiosamente, nunca me ter cruzado com ele). Gostava de saber em que se baseia a afirmação da lotação para 30 pessoas: observação directa? Duvido. Para um líder de um jornal que preza acima de tudo a confirmação e cruzamento de fontes parece-me, no mínimo, um mau exemplo.
Pergunto-me ainda se JMF tenciona vir ao Porto quando Filipe La Féria começar a programar o Teatro Municipal. E finalmente, muito gostava que esclarecesse em que lugar do Porto encontra festivais de documentários, festas da música, arias de ópera e espectáculos de dança... de qualidade.

Fico com a impressão que JMF perdeu uma excelente oportunidade de estar calado.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Preview La Féria

Peles verdadeiras, falsas, às cores - castanhas, pretas, matizadas, brancas; luvas curtas, compridas, sem dedos, de cetim, de pêlo; xailes, echarpes, estolas; tacões-agulha, tacões-régua, todos altos; carteiras e cintos da colecção; sobretudos caxemira e lencinhos-ao-tom no bolso superior direito; madeixas das modalidades todas, extensões, cabelos brancos, muitos, louros também, platinados; uma palete inteira de odores. E Carlos Castro, importado da capital. Passadeira vermelha, claro. E castiçais esguios com velas acesas nas laterais. Casa cheia!
Eis o preview Filipe La Féria exibido hoje na ante-estreia (no Porto; em Lisboa já saiu de cena) de Miss Daisy, peça encenada por Celso Cleto, no Teatro Rivoli, no Porto. Lá dentro, Eunice Muñoz é a estrela da companhia. Atrás dela, na parte que não se vê, uma equipa inteira de pessoas despedidas de fresco. Talvez alguém, no fim, as possa aplaudir. A cada uma das que ajudou a montar o espectáculo. Ou talvez não. Talvez o público seja impedido de o fazer pela dúzia de polícias disfarçada de ninguém. Sim, esses que com ar de lobo-mau e punho fechado afugentavam os arrumadores que pediam à porta do edifício.

Descansa, as estrelas estão lá



"Uma espécie de blog a partir de imagens", de Renato Roque. Vale a pena visitar.

"Vanitas"


Paula Rego está na moda em Portugal. Desta vez, foi a Gulbenkian a encomendar-lhe uma obra. O tríptico "vanitas" celebra o 50º aniversário da Fundação. Teve como ponto de partida um conto de Almeida Faria, agora reeditado, e vai ficar em exposição no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.

O tríptico de Paula Rego é uma “reflexão visual acerca do próprio conceito de vanitas enquanto precariedade da nossa frágil existência humana”, disse o autor da história. Eduardo Lourenço, administrador da Fundação, escreve na introdução do conto agora reeditado: “É nas nossas mãos que está a folclórica foice, sem a sombra temerosa de Goya, rodeada de todos os brinquedos do nosso divertimento, indiferente ao tempo e à sua música mortal”.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Rui Rio: obsessões, fobias, traumas

Há qualquer coisa de perverso (deveria dizer sórdido?) e quase masoquista na cabeça de Rui Rio, que o leva a actuar quase sempre da forma errada. Não são só os fins - obviamente discutíveis -; são os meios para os atingir. Se a Cultura parece ser uma fobia, a forma de a suprir é tanto mais insólita quanto o facto de nunca a conseguir concretizar sem o recurso a um circo que nunca prescinde de um batalhão da polícia municipal. Foi assim na substituição da Associação de Gabinete de Desporto do Porto pela Porto Lazer; foi assim quando decretou a privatização do Teatro Rivoli; foi assim hoje com a alegada extinção da Culturporto.
Pergunto-me: para lá da esfera estritamente legal, não encontrará Rui Rio, na sua concha ética, uma forma decente de concretizar as suas medidas? Sem atropelar funcionários ou sem encontrar, posteriormente, na comunicação social a causa do mal da sua desventura?
A esta altura, reler o capítulo do seu programa eleitoral dedicado à Cultura assemelha-se à leitura de uma manual de anedotas. O presidente da Câmara do Porto afirmou, há menos de meio ano, que "o futuro da cidade passa por uma aposta na cultura e por um esforço do sentimento de cidadania e da integração na comunidade". Nota-se.
Acrescentava ainda, para justificar a importância na aposta, que "o Porto 2001 foi uma oportunidade perdida, cujos efeitos se esgotaram no momento, não tendo conseguido criar novos públicos que ajudassem a construir mais facilmente o futuro". Curiosa afirmação quando a ele se deve a falta de continuidade do projecto. E de todos os projectos filhos desse projecto maior. Assim, de repente, em que estado estão os caminhos do romântico? Que foi feito dos ateliers da lada?
Rui Rio comprometia-se também a "ouvir as necessidades sentidas pelas instituições culturais e pelas associações/fundações e participar numa reflexão sobre a importância da cultura para a cidade, pedindo uma programação, com projectos de qualidade, estimulando a inovação". Alguém foi ouvido?
Dizia querer "reafirmar a importância da cultura na cidade, aproximá-la das pessoas, divulgando bem o conceito de cultura que está subjacente a este novo projecto (melhoria das competências, condição para melhor obtenção de emprego, factor de melhoria de vida e de ascenção social) (...), restabelecer uma relação orgulhosa e civilizada dos portuenses com a sua cidade, equilibrar as produções efémeras com o desenvolvimento de projectos estruturantes, remodelar toda a estrutura de divulgação, a começar pela Culturporto, que tem que ser restruturada".
Se isto não é mentir descaradamente, o que é?

terça-feira, janeiro 09, 2007

Importa-se de explicar?

"O Nuno Cardoso foi o jovem encenador mais privilegiado em Portugal nos últimos 30 anos".

Ricardo Pais, hoje, em entrevista ao Diário de Notícias

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Do aborto. E da hipocrisia.

Um problema de saúde obriga-me há alguns anos a visitar o ginecologista com apurada assiduidade. Aliás, os ginecologistas, no plural - quando um está de férias em qualquer lugar exótico tenho sempre o outro. Não é um capricho; é o que tem que ser. Dois homens, amigos de longa data, a trabalhar em cidades diferentes. Médicos irrepreensíveis cuja longevidade do acompanhamento acarreta já algum afecto e muitas, muitas histórias. Uma-consulta-uma-história. Que nunca escrevi. Porque não.
Mas no encalce do segundo referendo sobre a despenalização do aborto é-me inevitável a partilha de uma história que ouvi numa dessas visitas, e que me leva a não ter grandes dúvidas sobre a vitória do "não" a 11 de Fevereiro próximo e sobre a perpetuação da hipocrisia reinante neste país. Faço este preâmbulo para que fique bem claro que a história é real, que estará longe de ser inédita, e que pulula, impune, aqui e ali, mascarada do melhor verniz.
Um dos ginecologistas mantinha uma qualquer tertúlia semanal e de café com companheiros da classe, mas de especialidades diferentes. Conta-me que eram conversas animadas pelas questões da ordem do dia e das convicções de cada um. Numa tarde de 1998, em plena contagem decrescente para o primeiro referendo sobre o aborto em Portugal, discutia-se inevitavelmente a questão. Um dos parceiros defendia as vantagens de o assunto continuar como está, ou seja, com mulheres a irem parar ao banco do Tribunal quando a interrupação da gravidez é descoberta. Ou a rumarem clandestinamente a Espanha. Ou à mesa de um boteco mais ou menos grotesco de uma rua escondida onde uma anacrónica parteira ou enfermeira lhes trata literalmente da saúde.
A argumentação, conta o médico, estava mais centrada no princípio moral do que propriamente na ciência ou em saber quando é que o feto é ou não um efectivo ser humano. Dizia o colega que esse tipo de utentes - as mulheres - seriam na sua grande maioria pessoas mal formadas de classes desafavorecidas ou adolescentes incautas. E que não seria possível, na era do preservativo e do não-tabu sexual, ser conivente com esse tipo de comportamento imprudente. Seria necessário educá-las, mas nunca à custa de uma morte. O fervor da discussão terá levado o homem a abandonar a tertúlia. Não só essa como as que se seguiram. Até um dia.
Até ao dia em que entrou no consultório do ginecologista, julgando este que seria para se desculpar e eventualmente fazerem as pazes. Não era. Era para lhe pedir que fizesse um aborto à mulher. Uma adolescente? Não, obviamente! Uma mulher mal formada de classe baixa? Também não. Uma mulher de 40 anos, no auge da carreira, com dois filhos, e a quem não convinha um terceiro. Não tocaram na conversa que motivou a discórdia entre ambos. Mas o ginecologista confessa que aguardou durante vários dias um cartão ou um telefonema que emitisse um sinal de redenção.
O sinal chegou no dia em que fumava um cigarro à janela. Lá em baixo, no meio de uma manifestação contra a despenalização do aborto, alguém empunhava um cartaz com um braço e erguia o outro na sua direcção, acenando-lhe. Era o homem, sem qualquer laivo de vergonha ou arrependimento, que semanas antes havia pago um aborto à mulher.

domingo, janeiro 07, 2007

FCP 0 - Atlético 1

Fico com a estranha impressão de que para o Atlético foi mais importante ganhar ao FC Porto do que poder vir a ganhar a Taça de Portugal. Em relação aos comentadores da TSF não há dúvidas: ganharam o euromilhões!

Coisas que não disse nos últimos dias...

Demissão de Fernando Almeida: Não há pachorra para os colunistas, vereadores da Oposição, actores e encenadores da praça que agora vêm elogiar as inequívocas qualidades do ex-vereador da Cultura do Porto no seu percurso profissional extra-camarário. Não há pachorra porque nunca isso esteve em causa. No contexto, qualidade seria reconhecer os seus limites e ter capacidade de não aceitar um cargo para o qual não tem manifestamente competência ou margem de manobra. Qualidade seria ainda assumir imediatamente a ruptura quando atinge, seja por que razão for, um ponto de saturação. De preferência, através de outro veículo que não o do silêncio. Aceitar o timming de Rui Rio para anunciar uma demissão que já era conhecida pelo menos há duas semanas nos corredores, e ainda por cima disfarçá-la de incompatíveis compromissos profissionais, tentando aparecer como um infeliz sacrificado, em nada o dignifica. Nem a ele nem a essa cada vez mais misteriosa actividade chamada política.
Passagem-de-ano nos Aliados: Passei pela Baixa do Porto no último dia de 2006 a meio da tarde. E vi a parafernália de palcos e tendinhas patrocinada pela Sport Zone a ser montada nos Aliados. Não resisti a procurar um cartaz para saber o que reservava o programa nocturno. Sem surpresa: Quim Barreiros. O povo dança e Rio Rio agradece. O que distingue o Porto de uma aldeia?
Cabaret Molotov: Fui assistir ao segundo round da peça encenada por João Paulo Seara Cardoso para o Teatro de Marionetas do Porto, no Convento de S. Bento da Vitória. As cadeiras instaladas num salão improvisado (e o mais inadequado possível para aquele tipo de espectáculo) estavam todas ocupadas e o desempenho dos actores é inatacável. Mas no fim, quando vieram receber os aplausos, imensos e justos, foram incapazes de esboçar o mais ténue sorriso. Pareciam quase desconfortáveis. Fiquei a pensar no que aquela súbita timidez representa. Fiquei a pensar no que sentem actores que insistem em actuar numa cidade que rejeita a esmagadora maioria das manifestações culturais. Pensei que se Rui Rio por uma vez assistisse a uma peça de teatro talvez pudesse mudar a sua estratégia. E fiquei a pensar onde estarão as salas alternativas que diz ter para o teatro; essas que ele diz que vai lá “pega e paga”.
Casa da Música: 2007 é o ano de Pedro Burmester – o primeiro em que apresentará a sua programação na instituição e em que será possível confirmar, ou não, a razão de tanta gente ter defendido o seu lugar no equipamento como director artístico. Espero que a entrada de Guta Moura Guedes, posterior ao regresso do pianista, não confunda os mais distraídos na atribuição do mérito, se o houver, a quem é devido.

Execução de Saddam Hussain: Sou contra a pena de morte. E não é pelo nobre elogio da vida ou porque sou incapaz de reconhecer a alguém a autoridade para ceifar a vida de outrem. Sou contra a pena de morte sobretudo pelo que ela, no seu fim, contém de libertação. Um ditador morto por uma ínfima parte dos seus crimes incomoda-me. Incomoda-me a ausência de sofrimento prolongado. E incomoda-me que a sua morte, longe de resolver a guerra do Iraque, sirva apenas para a incendiar. Incomoda-me quase tanto como as aliviadas declarações de George Bush. Que pena não ser possível assistir também ao seu julgamento. Sem pena de morte.

Balanço televisivo Eduardo Cintra Torres: Um crítico a servir-se de um jornal de referência para exercer uma vigança em duas páginas inteirinhas contra a decisão do Conselho Regulador da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). De acordo com ECT, a condenação do Conselho relativa ao texto onde escreveu que o Governo teria pressionado a RTP para não dar relevo aos incêndios florestais desse dia, protagoniza um dos piores momentos do ano. Diz ele sobre ele próprio. Lamentável. Para ele e para o Público.

Aulas de compensação: Nas férias de Natal reencontrei a mais temida professora que tive em todo o secundário: nunca faltou, nunca se atrasou, nunca admitiu barulho nas aulas ou desconhecimento sobre a matéria dada. Jantámos e conversámos até perdermos a noção das horas. Aproveitei a oportunidade para a questionar sobre as medidas da Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, que sempre me pareceram absolutamente dignas de distinção. E a resposta chegou certeira: “É a melhor ministra que a Educação alguma vez teve. Passei anos e anos a ver colegas cansados na sala de professores sem darem uma única aula, sem prepararem um único assunto; a chegarem ao fim do ano lectivo sem saberem o nome dos alunos; a fazer intervalos em aulas de uma hora…” Era a reacção que esperava. Será que um professor de Matemática só sabe matemática? Será assim tão limitado? Limitado ao ponto de não conseguir dar uma aula sobre cultura geral? E os alunos, esses que apareceram nas mais ridículas manifestações de rua a não saber sequer conjugar correctamente os tempos verbais das frases que cuspiam, serão tão pobres ao ponto de se deixarem manipular pelos professores?
Atentado da ETA: Os espanhóis são demasiado dados a manifestações de rua. Ao mínimo sinal de contrariedade juntam-se aos largos magotes em desfiles solenes. Nada contra. Mas pedir a demissão de Zapatero por ter tentado tréguas com o grupo separatista é, no mínimo, rídiculo.

2007

Gosto de anos ímpares. E do dia que chega a seguir ao anterior, como todos os outros, todos os dias, mas que parece mudar tudo. Gosto da sensação de poder começar tudo outra vez. Como se não houvesse memória. E do tempo limitado que essa esperança dura. Quando passa há sempre já alguma coisa que mudou.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Cultura da camioneta

No controverso processo de concessão do Teatro Rivoli a Filipe La Féria existem inúmeras perguntas às quais seria importante dar respostas. Respostas que Rui Rio não deu e ameaça nunca vir a dar. Mas hoje, no programa "O dia em análise", no Porto Canal, Agostinho Branquinho, deputado do PSD, sócio e braço direito de muitos anos do presidente da Câmara, no fundo, o seu zorro de capa-e-espada, sintetizou, com invulgar eloquência, o objectivo desta espécie de concurso público. Passo a citar, eventualmente cedendo à imprecisão formal da memória, mas sem desvirtuar o sentido. "Filipe La Féria faz com que muitas camionetas se desloquem de todo o país para assistir aos seus espectáculos. E isso, não tenhamos dúvidas, é fundamental para animar a Baixa".
Restam dúvidas sobre os critérios de selecção? É a verdadeira cultura da camioneta! Sendo que "cultura" foi termo que Branquinho nunca utilizou, substituindo-o sempre por "animação". Residirá aqui um dos principais equívocos do processo: a confusão grave entre os dois conceitos. À Câmara pouco importa se existe cultura, se ela desempenha um papel efectivo na vida das pessoas, se contribui para o real desenvolvimento de um território (físico e mental); à Câmara só importa animar a malta! Até podia ser com cãezinhos amestrados!
[Agostinho Branquinho foi um dos administradores da Casa da Música no reinado de Manuel Alves Monteiro. Por ser Natal, e só por isso, resistirei à tentação de falar sobre esse período e sobre o entendimento, já então demonstrado, que o séquito de Rui Rio tem de cultura.]

Estrela cadente

Há silêncios que não são exactamente silêncios. São só silêncios para não doer. Para não lembrar. Ainda somos uma estrela cadente. Em pause.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Os resistentes

Esta ideia de os jornalistas do Porto serem uns resistentes poderá ser vagamente romântica; mas depois, na prática, não podia ser mais deprimente. Sem visibilidade, sem mercado de trabalho alternativo ou complementar, e longe do centro das decisões todas do país estão condenados a viver numa espécie de sub-campeonato, alimentando, nos dias de maior inquietude, a esperança - que sabem quase falida -, de que um dia alguém, por um qualquer acaso do destino, tropece neles e lhes estenda uma possibilidade, uma só para mostrarem que podem ser tão bons como os outros. Que provavelmente são.
Entretanto, nesse compasso, o mundo - o deles -, fica reduzido a uma miniatura: aos pecadilhos de sacristia, às tricas de uns palhaços que mandam numa coisa qualquer e às pequenas glórias de outros. Sempre a uma escala à qual às vezes de habituam e que parece até fazê-los felizes. Mas nunca faz. Adormece só. Como um analgésico para a dor de um dente furado.

Homem invisível

A propalada demissão de Fernando Almeida da vereação da Cultura da Câmara Municipal do Porto, eventualmente seguida da publicação do clássico livro de memórias - tão em voga -, levar-me-ia a nutrir por ele algum respeito. Mas temo que até para se demitir tenha que obedecer aos timings estipulados por Rui Rio.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

"À primeira vista"

Post-it

Vinicius de Moraes escreveu que tinha amigos que não sabiam o quanto eram seus amigos. Que não percebiam o amor que lhes devotava e a absoluta necessidade que tinha deles. Nem sabiam que a sua vida dependia da existência deles. Mesmo que não os procurasse. Bastava-lhe saber que eles exitiam. "Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso dizer-lhes o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar", explicou.
"E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários. De como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu tremulamente construi, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!" (...) "Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos".
Lembrei-me instantaneamente deste texto quando recebi um bilhete de "amor-ódio". Que entendo, mas que não evita a tristeza. De que forma se prova o amor na ausência? E, de facto - reconheço -, para que serve a prova se ela não se materializa no quotidiano?
"Tenho fotos tuas na parede da casa que ainda não conheceste. Há ciclos de amor-ódio. Esperámos-te. Quase nunca vieste, quase nunca disseste, quase nunca quiseste ou lembraste. Perguntamos: quem és tu? E onde ficas no presente-futuro ou nas fotos?... Alimentar a tua presença de olhar as fotos como se de uma defunta se tratasse não é verosímil, sendo até imbecil, porque é sobretudo imbecil e ou estranha esta distância que nos separa. Respeitamos-te! Não há problema nenhum com as tuas opções; apenas com a ambiguidade. Desejamos-te o melhor. Afinal, de tudo, incluindo já a tua sms, pergunto-me quantas formas há de comunicar, de estar presente?"

Escolhas do ano

Na recta final do ano, partilho os melhores momentos passados a ver, a ler, a ouvir...

Peça de teatro: Pillowman e Plasticina
Concerto: Antony and Jonhsons, no Teatro Circo, em Braga. E depois, alguns furos abaixo, Baby Dee, na Casa das Artes, em Famalicão; !!! (chk chk chk), na 14ª edição do Festival de Paredes de Coura; Final Fantasy, também na Casa das Artes, em Famalicão; e Undertow Orchestra, na Casa da Música, no Porto.
Livro português: "A casa quieta", de Rodrigo Guedes de Carvalho (que não é de 2006, mas é quase); e "Lume sobre cinzas" , de Raul Brandão. Num âmbito completamente diferente, também a "Anamnese".
Livro estrangeiro: "A minha mulher", de Anton Tchekov; "Saudade", de Ortega Y Gasset (que também é quase-quase deste ano); "O vento", de Claude Simon; "Gente Pobre" de Fiódor Dostoiévski (notável colecção das obras do autor na Editorial Presença); e "Várias vozes", de Harold Pinter.
Filme português: Confesso que só vi o Pele, de Fernando Vendrell. Vale o que vale.
Filme estrangeiro: Little Miss Sunshine e Children of men.
Exposição: Frida Kahlo, no CCB, em Lisboa; e serigrafias da Paula Rego na Galeria 111, no Porto, World Press Photo.
Canção: Blue world still be blue, dos Guillemots.

terça-feira, dezembro 19, 2006

MEC, o verdadeiro


Ontem, na Fnac, procurei o novo livro de Pedro Paixão, "Asfixia", porque me tinham dito que continha uma crónica dedicada a Miguel Esteves Cardoso. E é verdade. Está lá. Será talvez a única coisa que se aproveita das várias dezenas de páginas.
Pedro Paixão diz que tem saudades dele, do seu génio, do seu riso, do seu lado insuportável. De quando passavam os domingos à tarde a escrever. E de como acreditavam que a literatura os haveria de salvar. Não lhe perdoa que tenha casado com a mãe do seu filho. Diz que tem saudades de o abraçar só mais uma vez e que espera um dia ver publicados todos os textos que lhe guardou do computador da casa que durante muito tempo partilharam. E que ainda possui.
A crónica comoveu-me. Comecei a ler o Paixão por causa do MEC. Deixei de o ler quando percebi que a loucura de um estava a milhas da estultícia do outro. Nunca deixei de ler o MEC. Nem mesmo quando reuniu para publicação as crónicas que durante tanto tempo fui guardando como pedras preciosas. Nem quando, como o próprio disse esta semana ao DNA, numa entrevista notável, começou a ser "mais difícil ser diferente".
É inegável: há mesmo uma geração MEC. A geração de quem, como eu, quis começar a escrever por causa dele. Como ele. Por muito que ele já não seja o que foi, será sempre a causa de tudo. Na Assírio & Alvim acaba de publicar "A minha andorinha".

Big Ben

Andamos perdidos pelas ruas da cidade até de madrugada. É sempre assim, mas continuamos a ser dois estranhos. Já não há bares abertos. Só o Big Ben. Vamos lá à procura dos travestis e das putas que prometeste voltar a fotografar. Mas nem eles (elas) povoam a noite. Pelo menos, a noite que conseguimos ver. Dizes que está mais frio do que o frio que realmente está. E dizes a tremer que o Porto é a Sibéria. E que tens saudades do Rio e de Buenos Aires. Do sol e dos banhos gelados. Também não há amendoins. Nem pipocas?, perguntas. Não, nem nada quentinho. Comes um pacote qualquer de qualquer coisa que não comias desde os 12 anos. E bebes o terceiro gin tónico.
Pareces um menino pequenino a falar com os homens carecas pousados no balcão. Eles dizem que ainda podiam estudar, se quisessem - mas não querem. E que também não querem trabalhar porque o rendimento mínimo deixa-os acordar às horas que lhes apetece e chega para emborcarem umas cervejas. Vais dizendo a tudo que sim com a cabeça. E pouco depois já dou contigo a apertar-lhes a mão e a desejar-lhe um feliz natal. Logo tu, que tens vontade de assassinar os bonecos vermelhos e gordos que nesta altura assaltam as varandas das casas quase todas.
Como sempre, contas catrefadas de histórias das tuas viagens: de Moscovo e da máfia que te salvou a vida para se declarar a seguir; de Barcelona, onde viveste até aos cinco anos, de Edimburgo apalpado de comboio, de Amesterdão. Da viagem cancelada a Paris e ao Congo, por razões diferentes. E a Cuba, para veres a morte de Fidel Castro a partir da praia. Como sempre, rendo-me às histórias. À paixão com que falas gesticuladamente de tudo. E tudo inclui sempre trabalho, as notas que escreves nos blocos para não te esqueceres das ideias, os locais que conheces desde sempre e para onde transportas depois figuras para encenações que, no início, só tu tens a certeza que vão funcionar.
Garantes que não és obcecado por isso, que não és refém das expectativas que existem sobre ti, mas reconheces que não te sobra muito tempo. Sobretudo muito tempo para estares presente ao lado de alguém. E que será por isso que agora perdeste o dinheiro do bilhete de avião e do hotel que nunca marcas com antecedência e do carro que nunca alugas, mas que desta vez quiseste marcar e alugar. "Como uma pessoa normal". É nesse momento que sei que estás mais triste do que aquilo que dizes estar. Mas tu desvalorizas. Dizes que só não vais porque está frio. E tu não gostas de frio. "É melhor pensar assim, não é?"
Leslie Feist do concerto que perdeste calou-se-se. "I don't need to know your favourite aunt's name; I don't need to know what woman's felt the same; I don't need to see you every single day; But I'd like to". Hoje sou o homenzinho e devolvo-te intacto ao hotel. Continuaremos a ser dois estranhos.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

The big question

Que favor deverá Rui Rio a Filipe La Féria?!

Rui Rio e o Rivoli

Sábado. 18 horas. A Câmara Municipal do Porto emite um comunicado a dar conta do que já se supunha, pelo menos, há seis meses. Supunha-se tanto que achei que nunca fosse verificar-se. O Teatro Municipal Rivoli, restaurado e equipado há cerca de dez anos com dinheiros públicos para, supostamente, cumprir um projecto específico será gerido, a partir de Maio de 2007, e durante quatro anos, por Filipe La Féria. A peça de estreia será um musical dedicado a Carmen Miranda. O encenador e produtor de Lisboa abraçará a responsabilidade de fazer a Baixa portuense mexer.
Três dias antes do anúncio, veiculado, como habitualmente, pelo site da autarquia, Florbela Guedes, assessora de Rui Rio, jurava ao JN que o processo ainda não estava fechado. Nem poderia ser levado à reunião camarária de terça-feira, dia 19, porque os vereadores, justificou, teriam que receber a documentação correspondente até quarta-feira da semana anterior. Sem processo fechado não havia papelada para entregar. Nem nada para discutir.
Apesar disso, nesse mesmo dia, Manuel Teixeira, chefe de gabinete de Rui Rio almoçou em Lisboa com La Féria e a sua equipa. Pessoas ligadas à empresa do produtor afirmaram que a Câmara havia feito exigências técnicas que eles não tinham condições de cumprir. Ainda assim, La Féria ganhou. Já antes a Câmara havia duvidado da liquidez financeira da empresa "Bastidores". Ainda assim, La Féria ganhou. A Câmara, cuja política diz orgulhosamente pautar-se por números de audiência, já em 2005 tinha apoiado La Féria em dois espectáculos ["Rainha do ferro velho" e "A menina do mar"] apresentados no Teatro Sá da Bandeira. Um deles foi cancelado por falta de público. Ainda assim, La Féria ganhou. Rui Rio, depois de ter dado (a fundo perdido?) 100 mil euros em compra de bilhetes a La Féria para as peças referidas sugeriu-lhe ainda que ocupasse o Cinema Batalha, já sob a exploração de Luís Montez, que rejeitou por ser demasiado pequeno.
Mas à terceira foi de vez. Rio Rio conseguiu trazer La Féria para o Porto. Ele e a sua comissão independente, constituída por Álvaro Castello-Branco, Raul Matos Fernandes e o próprio Manuel Teixeira. Como se vê, independente e ligadíssima à cultura! Nada contra La Féria no Porto. Tudo contra a falta de correcção das pessoas. E sobretudo contra a falta de honestidade de pessoas como Rui Rio, que não cansa de afirmar a sua seriedade. Rui Rio não é sério. Não é honesto. Não é correcto. Não é verdadeiro. Se dúvidas ainda pudesse haver, o processo Rivoli é absolutamente revelador da sua falta de carácter. Os outros candidatos ficaram a saber pelos jornais que perderam. Nunca hão-de saber porquê.
Pela primeira vez compreendi o discurso, que sempre me incomodou, dos "braços caídos", da "derrora antecipada" proferido repetidamente há uns meses, por um vereador socialista. Perderam todos os que defendem e acreditam numa cultura da linha da frente. E perderam todos aqueles que, como eu, ingenuamente, acreditaram que vale a pena discutir, espernear, esgrimir argumentos. Mas nenhum de nós perdeu a dignidade. Isso será sempre mais importante.
No dia em que me perguntarem que livro estou a ler, saberei responder, no mesmo milésimo de segundo, os dois ou três que me acompanham sempre. No dia em que me perguntarem qual foi o último concerto ou peça de teatro a que assisti, saberei igualmente responder com rapidez. Nunca direi que a pergunta é "difamatória".
Rui Rio continuará a rir... até ao despenhamento total da cidade.

domingo, dezembro 17, 2006

Maria de Buenos Aires


Foi hoje a última récita de "María de Buenos Aires", no Teatro Nacional S. João, no Porto. Com a música apaixonante de Astor Piazzolla, texto notável de Horacio Ferrer e direcção musical de Rui Massena. Adorei!

sábado, dezembro 16, 2006

Uma espécie de debate

José Manuel Dias da Fonseca, presidente do Conselho de Administração da Casa da Música, no Porto, lamenta que "a cidade trate mal os seus heróis". A violoncelista Guilhermina Suggia, o poeta Eugénio de Andrade ou a pianista Helena Sá e Costa são apenas alguns exemplos de prova.
Ricardo Pais, director do Teatro Nacional S. João, lamenta que a autarquia trate mal os artistas. "Ninguém pode ser acusado de não ser um grande artista por não ter muito público". Aliás, argumentou, "os números das audiências são sempre escabrosamente manipulados, porque a Câmara não tem capacidade analítica".
Os responsáveis por dois dos mais importantes equipamentos culturais do Porto foram os convidados do debate "Quantas peças à procura de um actor?" , realizado anteontem à noite na Universidade Católica, subordinado à política cultural da cidade e moderado por Manuel Carvalho, director adjunto do "Público". Mas o encontro, o último da quarta edição do ciclo de conferências "Olhares cruzados sobre o Porto", promovido pela Católica e pelo "Público", não foi tão elucidativo como seria expectável.
As questões do moderador - Qual é o papel dos privados, das autarquias e do poder central na dinamização cultural de uma cidade? Qual é a tendência da vida cultural do Porto a médio prazo? Que modelos deveriam ser seguidos para a afirmação do Porto? A cultura é um instrumento de competição entre as cidades? - ficaram quase sem resposta. Os dois oradores foram evasivos, optando por dissertar sobre as experiências de sucesso de cidades europeias como Berlim, Helsínquia, Londres ou Viena, onde a cultura determina a dinâmica do turismo.
Mas a ausência de soluções já estaria antecipada na plateia, curta, ensonada e desprovida de agentes culturais. O público, maioritariamente constituído por pessoas com uma média de idades de 50 anos, levantou, apenas, duas questões. O moderador havia disponibilizado três séries de três perguntas cada.Dias da Fonseca e Ricardo Pais estiveram em sintonia na aversão à "animação cultural". "A animação resulta muito da conjuntura faz-se quando há dinheiro; desaparece quando não há. Temos que apurar mais o lado estrutural do que o conjuntural", avançou o responsável pela Casa da Música.
Ricardo Pais corroborou: "Detesto a animação cultural. O Porto 2001 serviu apenas para fazer o saneamento básico: colocou de pé coisas enormes como a Casa da Música, mas faltou a rede de distribuição de informação que é devida às companhias de teatro da cidade e a outras estruturas. É curioso", acrescentou, "falar-se em subsídios quando os subsídios não chegam sequer para fazer face às despesas correntes". Paralelamente, instituições maiores, como Serralves, por exemplo, têm sido sempre poupadas à contenção financeira. "Tenho medo que se transformem em ilhas de um lago sem água, absorvendo de tal maneira a atenção, que se esgote ali a vida cultural de uma região", concluiu Dias da Fonseca.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Carta aberta

Exmo. Sr. Fidel Castro,
Escrevo apenas para pedir encarecidamente que se aguente a respirar mais uns meses. Há vários anos que adio a minha viagem à sua Cuba. Tinha tudo preparado para a visitar em Janeiro, mas um imprevisto obrigar-me-á a adiar o périplo mais uma vez. O seu tempo, bem o sei, está a esgotar-se; e com o seu o meu também. É o meu que me preocupa. Sei que entende e aprecia este egoísmo, porque foi essa lógica que praticou a vida inteira.
Estou certa também de que compreenderá que tenho este desejo de conhecer o país antes da sua morte, ou seja, antes da libertação do povo que aprisionou sem dó nem piedade em nome do que julgou ser uma heróica revolução social. Foi tudo pelo povo, eu sei. Os exilados sairão, finalmente, à rua; os milhares de conterrâneos que assassinou, infelizmente, já não poderão regozijar-se com o seu fim.
Sempre gostei de conhecer o antes e o depois de tudo. E interessa-me analisar o comportamento das pessoas antes e depois do direito à liberdade e à liberdade de expressão; antes e depois de um regime que aplica a tortura e a pena de morte; antes e depois da miséria a que foram condenados enquanto o senhor possui uma das maiores fortunas do mundo. Interessa-me também, confesso, ver os rosto daqueles que o seguiram a admiraram. Darão esses soldadinhos de chumbo seguimento aos seus ideais?! E quero muito levar livros ao seu povo; mais livros do que pão. Literatura não sujeita a censura, entende?
Não sei se a História o absolverá. A histeria manifestada por estes dias aquando da morte de Augusto Pinochet, no Chile, faz-me crer que não. E pessoalmente espero mesmo que tal não aconteça. E que apodreça nas terra o mais depressa possível. Veja lá o que pode fazer por mim. Só lhe peço mais uns meses.
Sem outro assunto,
helena.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

"Eu, Maria Madalena"


E eis que Maria Madalena, quiçá iluminada pelo espírito natalício, percebe que mandar bater em meninos é mau e feio e pede às divindades da justiça portuguesa a expiação dos seus pecados e o perdão. Será o Ministério Público tão condescendente com a prostituta arrependida como o foi Jesus Cristo? Será este o conto de Natal dos tempos modernos?

domingo, dezembro 10, 2006

"Eu, Carolina Salgado"

Não há nada na história publicada esta semana por Carolina Salgado que não seja absolutamente repugnante. Como portista lanço já um repto ao FCP para que proíba a dita senhora de entrar no Estádio do Dragão. Mas isso será, apesar de tudo, o que menos importa.
O que me choca no livro que custa onze euros e cuja primeira edição de oito mil exemplares parece já estar esgotada? Antes de tudo que a D. Quixote, supostamente uma das editoras mais reputadas do país, que alberga escritores como António Lobo Antunes ou Rodrigo Guedes de Carvalho, tenha aceite publicar a obra. Ceder ao lixo é ser lixo. E, pessoalmente, não voltarei a contribuir com um único tostão para a prosperidade da empresa.
Depois, num país (à semelhança de muitos outros, é certo) onde se sabe que qualquer morcão pode escrever e publicar o que lhe passar pela cabeça - recordem-se os exemplos das criaturas do Big Brother - choca-me a facilidade da instituição desta cultura em que os livros tendem a substituir-se aos tribunais para denunciar comportamentos e condenar pessoas. Para quê recorrer às instituições próprias, com a discrição que exigem, quando se pode ganhar dinheiro com a denúncia e ainda acalentar a esperança de ser considerado uma espécie de herói nacional? No mesmo país (por oposição a muitos outros) onde a cultura é vista como um sério inimigo a abater já não me surpreende, embora me provoque náuseas, que o povo vá a correr comprar a coisa.

Estou pouco interessada em saber se Carolina Salgado é ou foi uma puta. De primeira classe ou de classe nenhuma. Como estou pouco interessada em saber se Pinto da Costa aprecia esse tipo de escumalha. Puta ou não, Carolina é claramente escória. Porque só a escória não sabe estar à altura da sua própria privacidade e, infinitamente pior, da privacidade dos outros. Os relatos, paupérrimos, que vi transcritos nos jornais, da flatulência do presidente do FCP, dos bilhetes de amor que escreveu ou da sua higiene íntima deviam ser punidos por lei.

A mulher que agora se lembrou que é "mãe acima de tudo", uma mãe a lutar pela honra dos filhos - coitados!... -, bem como as pessoas que a estarão a instrumentalizar, deviam acabar no mesmo local onde eventualmente desejam que Pinto da Costa vá desaguar. Por co-autoria dos crimes, claro, mas também por existirem.

Quiz VI

Alguma vez estaremos preparados para tomar conta de quem sempre tomou conta de nós?

sábado, dezembro 09, 2006

Paula Rego na Galeria 111


Sabem a pouco as serigrafias de Paula Rego que estão patentes na Galeria 111, no Porto. Mas vale a pena passar por lá.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Mário Soares - 82 anos


"Tudo o que fiz foi com simplicidade, sem nunca desejar ocupar lugares, mas com a ideia de servir os portugueses e Portugal".

terça-feira, dezembro 05, 2006

Amizade (?) II

Os amigos, crianças que nos viram crescer e cresceram connosco, lado-a-lado, que partilharam sonhos e ideais comuns, que partilharam momentos de tristeza, de extrema alegria, de evasão. Os amigos que eram os nossos melhores amigos, mesmo!, a nossa crítica de excepcional competência, que andavam connosco pela mão. Os amigos que eram o nosso ideal e de quem éramos ideal também. Os amigos, crianças com quem partilhámos gestos, atitudes, caminhos de futuro. Os amigos que eram para nós o que o sol é para a vida. Os amigos, esses, de verdade, espalharam-se cada um por cada canto. E a catástrofe só se percebe quando a vida tende a eternizar-se nas trevas, tranformando-nos numa espécie de reles bola de pingue-pongue amarela: já não pertencemos lá, ao ninho quentinho onde desenvolvemos asas; mas também não pertencemos cá, ao território onde agora voamos. Nunca havemos de pertencer. Mesmo que os códigos exteriores pareçam, por simples mimetismo, cada vez mais aproximados.
Haverá qualquer estranha razão que nos faz - inconscientemente, suponho, ou por mera sobrevivência -, procurar substituir as cadeiras vazias, que nunca ficaram vagas no coração, mas incontornavelmente no quotidiano. Uma vez, duas, dez, cem. Sempre igual. Nunca resulta. E nunca se aprende. As meninas, quando crescem, as que não cresceram connosco, parecem desenvolver uma sórdida mania de perseguição: há sempre alguém que lhes quer roubar os namorados ou os maridos ou o emprego ou a cor de cabelo ou o protagonismo ou as pipocas. Ou a luz do sol. Os meninos, quando crescem, os que não vimos crescer, parecem perder a capacidade de ver as meninas como pessoas: as mulheres são alvo de casamento ou de one-night-stand. É isso ou o vazio.
O leque de hipóteses não podia ser mais desolador. Abençoada a existência de livros e sofás e lareiras e mantas e transportes que nos devolvam ao lugar onde somos felizes.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Amizade (?)

Por que é que amizades (?) assim funcionam melhor se nunca se cumprirem na desculpa da falta de tempo? Porque no início de cada jantar raro, a alegada saudade acumulada e a promessa de que agora-é-que-vai-ser monopolizam a conversa; porque no fim de cada jantar raro, a falta de confiança e de conhecimento do outro obrigam a jurar que desta-vez-é-de-vez. Nunca mais.

domingo, dezembro 03, 2006

Hi5 porcas - the end


Acabou um dos blogues que mais me divertia. O Hi5 Porcas, chegou ao fim. "Tentámos mostrar a Portugal e ao mundo os problemas que afectam hoje as jovens, que merecem ser controladas nos excessos de liberdade, e fizemos sempre com rigor, muito humor, bastante escárnio e por vezes com pena da ignorância de algumas Porcas; mas sobretudo muito profissionalismo e em bom português!", explicam os autores Pig e Porcus, no texto final.
O blogue continha mais do que aparentava. Atrás do inevitável humor está, como eles dizem, "o pior da modernidade e a falta de princípios morais que só um país com uma jovem liberdade conhece. Infelizmente assistimos a um deplorável espectáculo de mulheres fúteis que vendem a imagem do corpo para assim satisfazerem os olhos daqueles que são tão ocos quanto elas".

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Será Rui Rio "tolinho da cabeça"?

Uma entrevista pode não ser suficiente para denunciar a qualidade de um autarca, mas é sempre reveladora do seu carácter, da sua forma de estar e encarar a vida. Sobretudo em televisão, porque o meio em causa, além das palavras, mostra os silêncios, as expressões faciais, o encolher de ombros...
Rui Rio afirmou hoje perante as câmaras do Porto Canal, numa conversa conduzida por Rui Baptista, que perguntas sobre o que está a ler, qual a última vez que foi ao teatro ou ao cinema são "difamatórias"!!! Tão difamatórias que o presidente da Câmara do Porto entendeu que não devia responder. E quando o jornalista lhe recordou que no mandato anterior o havia visto numa ópera, ele encolheu os ombros e torceu os lábios. Sublinhou: "Eu não sou uma presença constante em lado nenhum".
Confrontado com a cláusula - que já não está em vigor porque, pela via das dúvidas, os subsídios acabaram para toda a gente -, segundo a qual qualquer entidade subsidiada pela autarquia estaria inibida de a criticar, esclareceu: "Se eu tivesse feito isso devia ser tolinho da cabeça". Fica no ar a questão: será Rui Rio tolinho da cabeça?! É que a seguir, e depois de condenar os jornalistas, essas malévolas criaturas sempre dispostas a distorcer o teor das suas afirmações - e que, ainda por cima, parecem ter capacidade de influenciar as pessoas do seu próprio partido, uma vez que quase todos os elementos da concelhia manifestaram a sua renitência relativamente à dita cláusula -, sustentou que "quem recebe [recebia, no caso] subsídios pode criticar a Câmara e o seu presidente; não pode é assinar um protocolo e depois virar costas e dizer mal dele ou da instituição". Em que ficamos?
Revelação que Rui Rio se terá esquecido de partilhar durante a campanha eleitoral: "Já tinha germinado na minha cabeça, muito antes de ser presidente da Câmara, que haveria de acabar com os subsídios à cultura. Porque sempre me fez muita confusão essa coisa de toda a gente ir à autarquia pedir um subsídio. Pedem e acham que isso é um direito!", indignou-se. Por isso, a partir de agora, a cultura municipal tem, apenas, preocupações com três estruturas da cidade: Casa da Música (curiosa escolha, por conhecidíssimas razões, mas também porque a Câmara detém, apenas, 13% das acções); Fundação de Serralves (talvez a instituição mais subsidiada a nível nacional); e o Coliseu. E desabafou: "Ó Rui Baptista, não vamos falar só de cultura, pois não?"
Não. Mas antes de mudar de assunto, ainda ficámos a saber que a queixa-crime contra o grupo de pessoas que ocupou, em Outubro, e durante quatro dias, o Teatro Rivoli, foi apresentada pela maioria PSD/CDS-PP em nome de TODO o Executivo, ou seja, também em nome dos elementos da Oposição, porque, explicou "não estava à espera que fosse ligar aos 13 vereadores, pois não? Já viu, se uns gatunos forem assaltar os Paços do Concelho e eu os apanhar, não posso perder tempo a ligar a toda a gente para saber se posso chamar a polícia, não é?"
Ficámos ainda a saber que Eduardo Prado Coelho é uma das "doze pessoas" - assim mesmo, bem contadinhas -, que escreve mal dele nos jornais. No caso do cronista do Público, justificou, "porque deixou de lhe dar dinheiro". O professor e ensaísta foi comissário, a convite de Isabel Alves Costa, do ciclo Capicua, uma iniciativa promovida pela Culturporto, que abordava várias vertentes culturais: teatro, conferências, novo circo, etc. E, tanto quanto me lembro, levou o Porto para os jornais. Lembro-me concretamente da crítica à peça "Valparaíso” de Don DeLillo, encenada por Nuno Cardoso em 2002, sobre quem disse ser o mais promissor encenador da contemporaneidade.
A conversa entre os Ruis, Baptista e Rio, galopou ainda pela empresa do Metro, pela requalificação da Baixa e pelos bairros sociais. Aliás, reforçou o presidente da Câmara, "a poupança brutal da Cultura será canalizada para o que eu sempre disse que seria a minha prioridade: a coesão social". Fiquei a pensar nisto: fiquei a pensar no Bairro do Leal, onde vou de vez em quando, e nas condições em que vivem aquelas pessoas; fiquei a pensar no que sempre me dizem os taxistas quando recusam terminantemente ir ao Bairro S. João de Deus... fiquei a pensar no que quer dizer coesão social.... talvez, baralhar e voltar a dar. Mas sempre de olhos fechados.