quinta-feira, novembro 23, 2006

Pedro Burmester na Visão

(Foto: Pedro Correia)

Pedro Burmester, director artístico da Casa da Música, em entrevista de Cesaltina Pinto, hoje, à Visão:
(Excertos)
Regressou à Casa da Música. Fez-se Justiça?
(...) Ponderei o regresso, depois de avaliar se poderia ainda acrescentar alguma coisa ao projecto. Orgulho-me de contribuir para o que está a ser: uma casa para todas as músicas, para toda a gente, com várias estruturas residentes.
Confessou várias vezes que esse afastamento lhe doía.
Doía. Doía de saudades. Empenhei-me muito, por isso doía. Tinha uma relação pessoal muito próxima com o projecto. Hoje, é mais profissional, o que é bom para mim e para a Casa da Música (CM).
Foi demitido da administração, depois de ter dado uma entrevista em que arrasou a política cultural de Rui Rio. Agora, temos um director artístico mais domesticado?
Mais sensato. Na altura, sentia-me, de alguma maneira, sozinho naquela luta. Não sentia grande apoio do Ministério da Cultura nem da Câmara e considerava que não estava a ser feito o que devia. Hoje, já não estou sozinho, há uma reflexão, há uma administração capaz, que demosntra perceber bem o projecto. Estou mais sensato e muito mais descansado.
A política cultural de Rui Rio mudou?
Vai inevitavelmente mudar. (...) O Porto tem equipamentos culturais muito bons e uma efervescência criativa grande. Portanto, inevitavelmente, o Porto vai afirmar-se como cidade de cultura. A CM contribuirá para isso.
A cidade cresceu culturalmente, mesmo com um presidente de Câmara sempre em guerra com os agentes culturais?
Pelo menos, fala-se bastante da importância da cultura, o que é bom. É uma oportunidade para pensar como deve ser a nossa relaçao, enquanto agentes culturais e artistas, com o poder. Talvez deva ser mais distanciada, mais profissional...
Mais independente?
Mais independente. O problema de fundo é que o investimento português na cultura é muito reduzido. O orçamento do Ministério da Cultura é 0,4% do PIB, 260 milhões de euros. Bastava duplicar (...) e já se ganhava muitíssimo. Sem investimento a sério, não se fazem coisas.
Há subsidiodependência?
Há subsidiodependência geral em relação ao Estado. (...) Não só em termos financeiros mas também psicológicos. Esperamos sempre que alguém faça as coisas. Temos que ser nós todos a fazer.
O Porto tem uma sociedade civil e empresarial capaz de substituir o Estado?
Tem. A Fundação de Serralves e a CM são provas disso. É inevitável que façamos a regionalização, se queremos desenvolver o país todo por igual. (...) Um país regionalizado será muito mais forte, justo e equilibrado.
Que Casa da Música veio encontrar?
(...) Uma equipa de pessoas muito diferentes, multifacetada e ainda não unida em torno de um objectivo comum, o que é fundamental e só a partir de agora será possível.
A Casa da Música é para o Porto, para o país ou para o mundo?
(...) Recuso-me a ser bairrista, mas primeiro temos que nos afirmar no sítio onde estamos, depois num sítio nacional mais alargado e, finalmente, em termos internacionais. Se o primeiro não funcionar, os outros também não funcionam.
Não tem que apostar também numa programação exclusiva da CM?
O ser exclusivo pode e deve acontecer pontualmente, mas não será uma obsessão. Mais importante é que a CM desafir grupos a lançarem projectos artísticos. (...) Se a lógica for apenas a exclusividade, ficaremos isolados, numa ilha.
Até que ponto está submetido à necessidade de ter público e receitas próprias?
(...) Acredito que a nossa programação é boa, tem qualidade, e se comunicarmos com eficácia teremos público. Podemos e devemos programar coisas de risco, que sabemos à partida não ter a adesão do grande público, mas temos de as comunicar bem, porque acreditamos serem importantes para a formação e educação de públicos. (...) Mas também não tenho qualquer preconceito em programar uma coisa comercial, mas boa.

Quiz V

É possível que quando alguém se aproxima de um jornalista - o amigo que vem de longe, na distância ou no tempo; a criatura que se acabou de conhecer e com quem se simpatizou; a senhora bonacheirona da mercearia que coloca sempre no saco umas tangerinas a mais; o porteiro do prédio que todos os dias amortece a má disposição matinal com um caloroso bom-dia; o empregado do café do costume; o indivíduo que partilhou um cigarro numa noite qualquer e todos aqueles que não integram o núcleo duro da existência individual do jornalista -, é possível, dizia, que algum deles possa genuinamente aproximar-se sem que mais-dia-menos-dia acabe a pedir uma entrevista ou uma notícia ou uma reportagem porque ela, a dita pessoa, ou a prima ou a irmã da prima vai lançar um livro ou um filme ou uma banda ou um projecto ou abrir uma loja ou fazer uma denúncia ou o raio?!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pause



Os pés traídos por umas botas permeáveis à chuva, as mãos roxas de frio, o cabelo a pingar água, a roupa a colar-se ao corpo, a garganta a denunciar uma constipação. E no rosto, o maior sorriso dos últimos dias. O Porto acima da cabeça. É sempre possível ver pela primeira vez tudo aquilo que já se viu mil vezes.

terça-feira, novembro 21, 2006

Rewind

É ainda o cheiro da terra molhada da chuva, este cheiro que quase tem sabor, e o das lareiras que se sabem acesas dentro de casa, das casas todas das ruas por onde não resisto a passar sempre que estou aí, que me devolve as noites inteiras a conversar, a conversar a sério, a rir desalmadamente, a fazer coisas que só nós tínhamos a presunção de saber fazer. As noites dos dias-após-dias em que ignorávamos que existia mais mundo além do nosso. É possível que esse tenha sido já o tempo mais feliz da nossa vida?

segunda-feira, novembro 20, 2006

Gregory Page

A propósito de música, vale a pena (vale mesmo a pena) ouvir "Love made me drunk" de Gregory Page. Subescrevo alguém: O disco "é simplesmente uma obra prima, sem um género bem definido, mas sem dúvida pop/rock, com muitas influências do jazz e da música Francesa".

O mal é geral...


O Centro Cultural de Belém (CCB) decidiu substituir a "Festa da Música" por um evento chamado "Dias da Música", cuja primeira edição, a decorrer entre 20 e 22 de Abril do próximo ano, será dedicada ao piano. O motivo da substituição? O orçamento! A verba para este evento de recurso não deverá "ultrapassar um terço do da anterior iniciativa", explicou hoje à comunicação social António Mega Ferreira, director do CCB.
A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, já passou a sua bolinha de algodão sobre o assunto: "A programação que temos para o próximo ano é muitíssimo melhor do que aquela que tivemos para 2006". Palavras para quê?!
Se continuasse, a "Festa da Música" iria entrar na sua oitava edição. Se continuasse, iria abordar as influências de algumas das mais importantes escolas de música da Europa. Se continuasse, talvez conseguisse, como este ano, ao fim do segundo dia, esgotar 48 mil dos 52 mil bilhetes existentes. Se continuasse....
Mas, como justifica Pires de Lima, "a Festa esgotava em três dias uma percentagem absolutamente substancial do orçamento do CCB para a programação". E isso, sabemos todos, não pode ser.

Aldina Duarte na Casa da Música


Aldina Duarte é a simplicidade. E a simplicidade desarma. Vi-a, há dois anos, no Senhor Vinho, em Lisboa, a encher, a contagiar a sala. Ontem, vi-a na Casa da Música, no Porto. Pareceu-me uma espécie de peixe fora-de-água. Como se o fado que canta não coubesse numa sala de ostentação. Uma sala preenchida por pouco mais de metade da lotação. Quem estava, estava de corpo e alma. Inteiro. Mas ela quase não falou. Disse uma única vez um "obrigada". Quase sussurrado. Ninguém se importou. Aldina Duarte não precisa de palavras faladas. Houve encore. "Ai meu amor se bastasse". E aplausos de pé.

sábado, novembro 18, 2006

As prioridades de Rui Rio



Rui Rio, hoje, em entrevista ao semanário Sol: "[Além da Segurança Social] era preciso reformar a Comunicação Social". Perante um jornalista que ignora a afirmação e segue em frente, só posso concordar com o autarca.

quinta-feira, novembro 16, 2006

"Cultura com mais peso na economia europeia do que sector automóvel"


[Nota: é um prazer, e um alívio, haver um - pelo menos um - jornal em Portugal que tenha coragem de fazer manchete com Cultura. Não exactamente a cultura do espectáculo; mas a outra, a que a precede. ]
O Público faz hoje manchete com um estudo da União Europeia - "A Economia Cultural na Europa", encomendado pela Comissão Europeia à KEA, European Affairs -, que já tinha sido divulgado por Isabel Pires de Lima, anteontem, na sua fugaz visita ao Porto, apesar de só ontem ter sido apresentado em Bruxelas.
A conclusão, mesmo para quem se move apenas por números, parece não deixar margem para dúvidas: a cultura contribui mais para a economia dos 25 do que os automóveis. O sector cultural e criativo contribuiu para 2,6 por cento do PIB da União Europeia em 2003, mais do que o imobiliário e produtos alimentares e bebidas. Em Portugal, é o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas.
O peso no emprego também é significativo: em 2004 empregou 5,8 milhões de pessoas, o que representa 3,1 por cento do total de empregos na Europa dos 25. E, enquanto o emprego decresceu na UE, aqui cresceu 1,8 por cento. E é um emprego qualificado: 46,8 por cento dos trabalhadores têm pelo menos um curso universitário (contra 25,7 por cento do global e 31,9 por cento em Portugal).
A Economia Cultural na Europa revela que, entre 1999 e 2003, o contributo do sector cultural para o PIB português cresceu 6,3%. Em Portugal, o volume de negócios do sector cultural aumentou a uma taxa média anual de 10,6% entre 1999 e 2003, o dobro da média global da União Europeia - 5,4%.
No retrato mais negro, Portugal é o país com menos universitários a trabalhar no sector da cultura: 31,9%. A UE não consegue encaixar Portugal em nenhum dos três grandes modelos da economia cultural que identifica: não está no modelo britânico (o das indústrias criativas), nem no francês (indústrias culturais), nem no nórdico (economia da experiência). Não é claro se esta ausência tem a ver com falta de dados nas mãos da União Europeia, ou com falta de posicionamento político de Portugal.

Ricardo Pais na Visão

(Foto: Lucília Monteiro)

Ricardo Pais, director do Teatro Nacional S. João, hoje, entrevista de Joana Loureiro à Visão.
(Excertos)
Em tempos, chegou a dizer que detestava biografias. Como é que reagiu a este livro?
(...) Antes de tudo, revejo-me no livro como um objecto de trabalho histórico exemplar. Perspectiva a minha relação com muita coisa – nomeadamente, a crítica e a imprensa – e, principalmente, faz-me acreditar que há um corpus de reflexão paralelo ao meu trabalho. E isso é muito recompensador.
Com este esforço de sistematização do seu percurso criativo, ficou clara a pluralidade de projectos em que já se envolveu, explorando várias linguagens cénicas. Existe um estilo Ricardo Pais? Houve quem já tivesse utilizado o adjectivo ricardopaisiano...
Pois, imagino que sim? provavelmente, isso terá mais a ver com a minha maneira de vestir do que com os meus espectáculos (risos)!
Com os espectáculos também. São apontadas uma série de características marcantes do seu percurso: a imaginação plástica, a importância reconhecida à música, o rigor na direcção de actores, a abordagem global das linguagens convocadas...
Sem dúvida. (...) Há imensas coisas de que me tinha esquecido, verdadeiras monstruosidades ditas sobre trabalhos meus, que me dá muito prazer ver agora reproduzidas. E fiquei também muito admirado com a quantidade de coisas que fui dizendo ao longo dos tempos (risos).
(...) Gosta de polemizar? Falem, bem ou mal, mas falem de mim?
(...) Não tenho particular gosto que falem sobre mim. Tenho este ar meio extrovertido, exibicionista um pouco, e há um lado lúdico e comunicativo nos meus espectáculos que se diria que desejaria pôr-me no vórtice de alguma coisa. Mas preferiria considerar-me periférico ao trabalho em vez de estar no centro dele.
Tem tido, ao longo dos anos, uma relação um pouco tensa com a crítica?
Não é tanto assim. Se, em algum momento da minha vida, respondi de forma mais violenta foi porque as críticas também foram violentas. Ninguém gosta que se diga mal de si, todos nós preferiríamos que houvesse uma generosidade na abordagem do nosso trabalho.
Fala do TNSJ com tanto entusiasmo que até nos esquecemos dos primeiros 20 anos da sua carreira, em que era o «free lancer por excelência»?
Estou morto para voltar a ser free lancer, atenção! Isto é uma prisão!
Uma vez disse que talvez seguisse a carreira de cantor de piano bar?
Adorava! É o artista para quem ninguém olha. E ninguém está a ouvir, o que, para um péssimo cantor como eu, garantiria um grau de protecção extra.
Imagina-se a voltar a trabalhar como actor?
Isso é um problema. Há um projecto marcado para 2008, de muita responsabilidade, dirigido pela Maria de Medeiros. Comecei a ter pânico da memória aqui há uns anos, porque não tenho estudado. Cada vez que me falam nisso, fico muito assustado.
Defende que um artista pode ter uma linguagem de gestão. Disse: «Para muitos ainda, as profissões artísticas não têm a legitimidade de inscrever-se na grande máquina do trabalho – são uma espécie de ócios especializados». Esta frase parece ir direitinha para o Dr. Rui Rio?
Mande-lha! (risos) Isso está correctíssimo, reflecte inteiramente o que se está a passar no Porto e no país. Sempre se pensou que, quando se trata de grandes investimentos, não se pode dar a administração aos artistas. Têm que se chamar os engenheiros ou os economistas. Gostaria muito de saber se, porventura, houvesse um problema na Sonaecom, se me vão chamar a mim para gerir, porque dei muitas boas provas enquanto artista de teatro. Não sei porque é que um bom gestor ou engenheiro têm que vir gerir coisas das artes, quando a cultura não deveria ser mais do que o labor incessante sobre a criação artística, a sua comunicação e a sua sobrevivência.
Caracterizou o contrato de concessão do Rivoli a um privado como um «gigantesco subsídio a fundo perdido?»
E não é? Quem é que não quer ter um teatro daqueles com a electricidade paga, as águas e tudo o resto? Se fosse um privado, quem me dera!
Passou-se de oito para oitenta?
(...) Dar-se uma volta destas, de um dia para o outro, é uma espécie de inconstitucionalidade autárquica. Se o que se pretende é aumentar as receitas do Rivoli, não é porque se entrega a um privado que isso vai acontecer. (...) Um equipamento daqueles, com recursos fabulosos, só se não rentabiliza financeiramente se não se quiser. Cortar-se com um património, altamente respeitável, é de uma violência pela qual um indivíduo tem que ser julgado.
Continua a sentir-se bem no Porto?
Não muito. Neste momento é muito difícil viver culturalmente e trabalhar no Porto. (...) O círculo de afastamento e a reentrada do Pedro Burmester na Casa da Música é absolutamente exemplar do que pode ser a perversão de um percurso administrativo, cultural e programático que era claríssimo.
Acha curioso que os argumentos contabilísticos provoquem tanta simpatia?
Geram simpatia porque a contabilidade está mal feita. Os números estão todos trocados, mente-se por tudo quanto é sítio. Não temos software de gestão, de contabilidade analítica para dizer que um espectador custa “x”. E os números estão sempre a ser vendidos. Se for ter com uma pessoa que está a dormir numa caixa de cartão e disser-lhe que foram atribuídos 20 mil euros a um grupo de teatro para uma produção, é evidente que essa pessoa vai achar que lhe estão a roubar. Mas alguém perguntou à cultura o que acha do que se gasta na saúde e na educação? Algum agente cultural criticou as políticas de apoios atribuídos a outros sectores essenciais? Porque é que a cultura tem que ser o bode expiatório?
Nos primeiros seis meses de 2007, o TNSJ vai co-produzir, com oito grupos do Porto, que se irão apresentar no Teatro Carlos Alberto. Isto é também um gesto de solidariedade?
Sempre foi. A solidariedade com as formas de teatro privadas sempre foi uma das nossas marcas.
Sente-se confortável neste papel?
Não, nada. Estamos a transformarmo-nos, perigosamente, numa espécie de delegação norte do Ministério da Cultura. Gostaria imenso de refocalizar completamente a nossa actividade. Por mim, o TECA deveria ser gerido pelo IPAE, por um organismo de Estado, vocacionado à amostragem sistemática do trabalho independente.

"Começar a acabar" - Beckett


É quase sempre assim: João Lagarto não precisa senão de si próprio para fazer do teatro uma arte maior. Num monólogo, este rigor será mais flagrante. Em “Começar a acabar”, patchwork de textos de Samuel Beckett cozidos pelo próprio dramaturgo e escritor irlandês, com remissões para algumas das suas obras mais emblemáticas – Molloy, Malone está a Morrer, À Espera de Godot, O Inominável, Watt, A Última Gravação de Krapp e Endgame –, o actor, que também é responsável pela tradução e encenação, solta o último sopro antes de morrer.
Num cenário despojado, a luz pardacenta, o figurino gasto, as frases interrompidas, engolidas, a ferrugem do corpo, a expectoração, a ingenuidade dos velhos, a ironia e a auto-ironia indicam o caminho para o fim. Ele sabe que “em breve estará morto, finalmente”. Finalmente, porque a imagem que o espelho lhe devolve já não é a do homem “novo e esperto”, nem a do homem de “raivas repentinas” que lhe transformavam “a vida num inferno”.
O espelho confronta-o agora com a necessidade de ter alguém só para ele, alguém que lhe faça companhia e que finja que o ouve. Que ouça o peso dos dias que passava em frente ao mar a lamber pedras; os dias em que o pai garantia que ele é um “aborto”; os dias em que visitava a mãe, essencialmente para lhe pedir dinheiro. E ouça a carga arrependida dos dias em que preferiu a solidão a um eventual casamento.
São as questões de uma vida inteira a mordê-lo como uma matilha impiedosa que João Lagarto consegue traduzir no palco e sintetizar em pouco mais de hora e meia. As questões de “um indivíduo sempre alerta consigo próprio”. Um homem que poderia morrer hoje se quisesse. Se morrer não fosse demorado. Um homem sem ter onde depositar os seus gritos – como os outros todos. “O ar está cheio dos nossos gritos, mas o hábito é um grande amortecedor”.
A peça, que estreou há dois meses no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, está até domingo em cena, no auditório da Academia Contemporânea do Espectáculo - Teatro do Bolhão, no Porto. Assinala o centenário do nascimento do autor e tem música de Jorge Palma.

Isabel Pires de Lima versão TGV


O problema de algumas pessoas é não saberem dizer 'não'. E não terem a mínima noção do que ganhariam se o soubessem dizer. Isabel Pires de Lima, sem surpresa, é uma dessas criaturas. Lamentou, em Outubro, aos ex-ocupas do Rivoli não poder resolver-lhes/nos o problema - evitar a concessão do Teatro Municipal do Porto a entidades privadas - mas prometeu estar disponível para tertúlias. Seguramente - percebe-se agora -, na esperança de que eles não aceitassem a sua generosidade. Mas eles - azar o dela - aceitaram.
Então, lá veio a ministra da Cultura por aí acima, sem assessores, claramente sem aprovação superior, sem estratégia, sem coragem, sem tempo, sem nada, tentar honrar a palavra, ignorando que nenhuma honra é passível de ser cumprida pela metade. No Cinema Passos Manuel, perante uma plateia de algumas dezenas de pessoas - mais ou menos as mesmas de sempre, é certo -, leu um discurso aos solavancos sobre as apostas futuras da tutela e foi embora.
Foi embora sem ouvir uma única pessoa; uma única ideia; sem responder a uma única questão. Curioso terem dito que seria ela a presidir a sessão... Quem a defenderá amanhã depois da conferência de imprensa de Rui Rio???

quarta-feira, novembro 15, 2006

Sentença

"És uma romântica perversa!"

Santana Lopes - "Percepções e Realidade"

Toda a gente tem necessidade de cumprir os seus lutos; toda a gente, a partir de determinado período, tem necessidade de enterrar a dor, digerir a mágoa, soltar da garganta o nó, e seguir em frente. Pedro Santana Lopes não é excepção. O menino-guerreiro precisava, confessou aos jornalistas, "encerrar um capítulo da sua vida política". É justo.
Num país em que toda a gente publica o que lhe apetece não há razão nenhuma para que o ex-primeiro-ministro mais fugaz da história do país não pudesse escrever um livro a contar a sua versão dos factos sobre a crise política de 2004, que culminaria com as eleições legislativas antecipadas, de onde saiu o sucessor socialista José Sócrates.
A única coisa que me irritou - exclusivamente pelo que li na imprensa e objectivamente não tenho a menor intenção de ficar mais informada, adquirindo o livro -, foi Santana Lopes não ter citado o principal responsável pela situação: Durão Barroso!!! Foi essa a esperança que alimentei nos últimos dois anos. A esperança de que dissertasse um dia sobre o facto de se ter limitado a tentar estar à altura do desafio que lhe tinham colocado à frente. Mesmo consciente das suas limitações. Aí sim, teria ganho o meu respeito. Nunca percebi por que razão o actual presidente da Comissão Europeia - espécie execrável de rato do porão - continua a ser poupado, quando foi ele que abandonou o cargo poucos meses depois de ter assegurado que o cumpriria até ao fim. Quando foi ele que escolheu Santana Lopes. Quando foi ele que assobiou - e continua - para o ar como se nunca nada tivesse passado pela sua cabeça. Culpar Cavaco Silva e Jorge Sampaio é ficar infinamente aquém da ressuscitação política. O guerreiro continua a ser um menino.

"O saque" - Joe Orton

Para Joe Orton, escreveu John Lahr, "nada era sagrado; mas a fúria dos seus ataques, a sua peculiar combinação de alegria e horror, não estava isenta de um motivo espiritual mais abrangente. Orton queria chocar a sociedade e ao mesmo tempo purificá-la. No palco, as suas personagens são animais em acção. E, assim que se vê a fera que existe em cada homem, então a tolerância pode mais facilmente substituir o bem... Ao mostrar como nos destruímos a nós próprios, as peças de Orton também fazem parte de uma táctica de sobrevivência. Ele faz-nos rir para nos fazer aprender. Há uma salvação qualquer nisto".
O que existe em comum entre o dramaturgo britânico - assassinado aos 34 anos pelo amante Kenneth Halliwell, que não suportou o seu súbito sucesso, suicidando-se a seguir -, e Ricardo Pais, encenador de singular unanimidade pública, que ontem estreou, no Teatro Nacional S. João (TNSJ), no Porto, a peça do autor "O saque"? Ambos querem chocar a sociedade? Não sei. Mas ambos querem fazer-nos rir. Não sei se exactamente para nos ensinar ou salvar alguma coisa.

"O Saque" é, como era o "Ubu's", de Alfred Jarry e outras encenações do director do TNSJ, uma comédia. Negra, neste caso. E Ricardo Pais não resiste a querer que nos lembremos ininterruptamente da etiqueta. Usa o burlesco, abusa do absurdo. O resultado, por vezes próximo de uma espécie de revista mais sofisticada, oscilará, naturalmente, de acordo com o juízo e gosto de cada um. Não é o meu registo de eleição. Mas no dia em que o homem que gosta de "sensações fortes" for embora, todos vamos sentir a falta dele.

O Saque, Joe Orton
Teatro Nacional São João, Porto
De 14 a 26 Novembro

Aldina Duarte


Aldina Duarte é uma pessoa especial. Porque sim. E por tudo. E também pelo texto que se segue. Na sexta estará na Culturgest, em Lisboa; no domingo actua na Casa da Música, no Porto.
"Eu quero a alegria profunda que nos ampara para a frente ou para trás conforme o que houver por fazer ou refazer. Em pequena sonhei com uma casa grande e, depois de crescida, encontrei a casa à minha medida, quando sozinha e, noutras alturas, na companhia dos poucos que muito amo. A repetição de tudo o que é intrinsecamente verdadeiro torna-se sabedoria e, por isso, amor maior… quero repetir-me em liberdade e convicção; quero a repetição dos silêncios alheios que me cabem cantar, porque é essa a minha função; quero repetir todas as palavras, a música das palavras é o seu sentido quando enviadas e recebidas por alguém; quero um tempo onde a leitura e o pão vivem na mesma casa, as crianças dançam e os amigos se encontram para descobrir músicas e onde, sem preconceitos, todos se juntam na construção dum mundo mais digno para qualquer forma de vida, fazendo e aprendendo o que for necessário..."

aldina duarte

terça-feira, novembro 14, 2006

Tienes fuego?



aqui tinha dito que sou, com exemplar frequência, a última a chegar às coisas - regra que pareço continuar a cumprir com invulgar precisão. À exposição de 162 dispositivos fotográficos que João Tabarra expôs no Centro de Arte de Santa Mónica, em Barcelona, chego com dois anos de atraso. E por um absoluto acaso. O exercício do artista - fotografar durante não sei quantas horas uma fogueira a arder - não seria motivo de referência se não tivesse tropeçado num maravilhoso texto seu, que não resisto a partilhar. Numa tradução esforçada de espanhol, que foi como o encontrei.

"Propôr acompanhar durante alguns segundos ou minutos uma projecção de dispositivos onde se manifesta e vê um homem a fazer uma fogueira limitando-se a alimentá-la, controlá-la, avivando ou diminuindo as chamas, dramatizando e manipulando em 162 imagens projectadas, momentos repetitivos de quase plena in(acção) é uma ideia que inicialmente me pareceu muito interessante.

Poderia representar um sinal de protesto, um aviso, uma mensagem (De fumo? De fogo?), um pedido de socorro, um acto revolucionário... talvez a proposta utópica de manter o fogo permanentemente aceso; ou, pelo contrário, mantê-lo por necessidade, pelo efeito neanderthaliano de que, quando se apaga, nada haverá que possua o conhecimento necessário para permitir voltar a fazer fogo, nada que conheça o segredo para voltar a acender a fogueira. Isto poderia ser uma metáfora de muitas coisas e talvez seja. Nesta fogueira de vaidades em que vivemos, e na qual nos vemos e revemos imersos, tudo é possível..."

domingo, novembro 12, 2006

Ainda o Antony II

José Miguel Gaspar, no Jornal de Notícias:
Antes de nos espantarmos com um espectáculo que levou para o palco de uma pop de câmara 13 modelos numa maioria de transexuais, é preciso ir atrás para compreender Antony. Antony tem, literalmente, aspirações de transformação de sexo? "Quem não tem?", responde invariavelmente o artista ("New York Daily News", Fevereiro, 2005). "Os transexuais estão entre as mais evoluídas e belas criaturas do planeta".
(...) Antony é das mais belas criações da arte popular contemporânea e usa, justamente, a música para se solucionar. Anteontem passou novamente por Portugal (Theatro Circo, Braga, lotação esgotada de mil espectadores) e provocou um arco emocional que não tem paralelo com nada que se conheça no hodierno quarto da pop capaz de materializar ao vivo a mesma qualidade ouvida em disco. É um homem que canta como uma mulher, que desconcerta diversos géneros artísticos (e dois sexuais) e consegue nessa complexidade superar a linha sempre tão certa quanto impossível que é alcançar sucesso entre a pureza da performance artística e a música comercial. O espectáculo chama-se "Turning" e impressiona.
Primeiro o seu cantor Antony. É uma figura alta e larga e branca metida em vestes pretas; mexe-se numa lenta epilepsia enquanto canta; canta, agudo e lírico, uma limpa dor autobiográfica como esta: "One day I'll grow up, I'll be a beautiful woman/One day I'll grow up, I'll be a beautiful girl" (da canção "For today I am a boy"). E como esta: "I am very happy/ So please hit me /I am very happy/So please hurt me" ("Cripple and the starfish").
Atrás de Antony, na permanente penumbra, há um ensemble de oito, The Johnsons: piano, violino, violoncelo, viola, acordeão, clarinete/saxofone, baixo e bateria. Mas depois, à música que discorre sobre os dois discos que valeram a Antony o Mercury Prize 2005, junta-se a ilustração desse território num grande ecrã de vídeo, com duas câmaras manipuladas pelo artista plástico Charles Atlas há uma plataforma giratória onde se irão instalar 13 modelos, tantas quantas as canções, que subirão uma a uma, lentas, decididas e inseguras, para o patamar da sua vulnerabilidade.
É aqui que o espectáculo se torna complexo - porque provoca a certeza do nó na garganta de quem vê aquelas belas criaturas expostas, maquilhadas, penteadas, pintadas, uma delas de tronco a nu, uma outra tremente e idosa, ali a girar no insuportável horror que é a sua indecisão física, ali despojadas, frágeis e expostas na intimidade de mil. "Turning", coisa capaz de uma catadupa de emoções, é um achado de performance artística. Dizer que tudo aquilo é bravo é dizer pouco.

Ainda o Antony I

Natália Faria, no Público:

Everything is new. As salas portuguesas nunca tinham visto Antony da forma como ele se mostrou, anteontem à noite, no Theatro Circo, em Braga. Por isso, a canção que o músico britânico escolheu para abrir o concerto soou como um aviso. E quem se propunha encontrar rótulos fáceis para descrever o que se passou no palco saiu com uma tarefa dificílima. Não há etiquetas prontas a usar para colar a uma voz que obriga quem a ouve a atravessar para o outro lado do espelho e a aproximar-se da fronteira, para lá da qual o mundo permanece inominável. Everything was new e, ao mesmo tempo, tão secularmente humano, ou não fossem as fronteiras pobres tentativas de arrumação dos monstros secretos que cada um mantém silenciados dentro de si.
(...) Turning porque o andrógino Antony - que surgiu embalado pelo sexteto The Johnsons - decidiu focar-se naquilo que "caminha rumo ao feminino". E cada uma das músicas (...) convocou para o palco um modelo (eram homens? eram mulheres? eram homens a caminho de ser mulheres?) que, sobre uma plataforma giratória, ia rodando perante a câmara de filmar manipulada por Charles Atlas, com os rostos a sucederam-se desfocados e potenciados na tela gigante ao fundo do palco. Noivas virginais, mulheres de seios incipientes desnudados, mulheres carnais à moda de Almodóvar com saias a deixarem espreitar os cintos de ligas e saltos agulha: as musas que se passeiam na música triste de Antony mostraram-se no palco como numa vitrina, vulneráveis e aceitando que nós, pobres mortais, partilhássemos por momentos os territórios de amor e morte onde elas se movem.
O resultado comoveu, porque foi totalmente não-irónico. E, enquanto isso, a voz delicada e agressiva de Antony ia soltando apelos como este "Hope there"s someone/ Who"ll set my heart free/ Nice to hold when I"m tired", do clássico "Hope There"s Someone". E, ao contrário do que aconteceu na actuação de Maio passado na Casa da Música, no Porto, Antony mostrou-se com roupa masculina, sem maquilhagem e sem peruca, embora igualmente desenquadrado do seu corpo, gigantesco e desengonçado, quase infantil nas expressões que se diriam assustadas com o efeito que provocam.
No final, as drag queens acomodaram-se no palco para "You are my sister, com o cantor a puxar novamente os espectadores para os lugares que todos temem, protegidos apenas pela delicadeza que se pode esperar dos outros. Houve carícias quase sexuais em palco, mas ninguém pareceu importar-se com isso. Ou não fosse Antony aquele cuja voz obriga quem a ouve a atravessar para o outro lado do espelho.

sábado, novembro 11, 2006

"Turning" - Antony and the Johnsons

Se soubesse escrever sobre música tentaria explicar de que forma um concerto pode ser terrivelmente comovente do início ao fim. Como não sei, qualquer palavra seria a mais. Estragaria tudo. Foi o concerto do ano. Único e irrepetível.

sexta-feira, novembro 10, 2006

É hoje! É hoje! É hoje!


Antony and the Johnsons e mais vinte performers apresentam hoje, em exclusivo para Portugal, o espectáculo "Turning". É no Teatro Circo, em Braga. Ansiedade em perigosa contagem decrescente.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Quando a melhor Oposição é a que vem de dentro...

(Manuel de Almeida/ Lusa)

Pedro Duarte, actual vice-presidente da bancada do PSD no Parlamento, em entrevista ao JN:

"A imagem, que não é real, que o Porto vende ao país e ao mundo de ser uma cidade de costas voltadas para a cultura, é extraordinariamente negativa e espero que seja rapidamente invertida. (...) Evidentemente que o presidente da Câmara está envolvido nesse contexto e acaba por passar uma má imagem da cidade".

[Se houvesse eleições hoje] "Rui Rio obviamente não seria o candidato do PSD".

Estaremos sós?


O projecto fotográfico “Estaremos sós?” de António Chaves (Porto, 1957) inclui 18 imagens captadas nas cidades de Varanasi e Haridwar, fruto de viagens realizadas nos últimos anos à Índia. A ideia do fotógrafo é partilhar imagens que entende servirem "como calmantes à mente, por convidarem a um estado brando e contemplativo, pretendendo apelar à quietude, à paz de espírito e ao despertar da consciência espiritual de cada um".

Para ver a partir de hoje e até à véspera de Natal. No café Lusitano, no Porto; ou em Braga, no saudoso Deslize bar.

Ricardo Pais. Actos e variedades.

É objectivamente uma edição de luxo.
O livro "Ricardo Pais. Actos e variedades" (326 páginas) acabadinho de editar pela Campo das Letras, escrito por Paulo Eduardo Carvalho e repleto de fotografias propõe-se - lê-se na contracapa -, "recuperar o percurso plural e a diversidade de relações criativas de um dos mais marcantes e singulares encenadores portugueses contemporâneos. As muitas criações cénicas pelas quais foi responsável ao longo da sua carreira surgiram sempre acompanhadas de um investimento, tão lúdico quanto profundamente sério, na exploração e articulação das possibilidades expressivas das várias linguagens que constituem a própria matéria do teatro - o corpo e o movimento, o espaço e a música, a voz e o som, a palavra e as suas diversas formas de reverberação -, com uma especial atenção ao redimensionamento dos recursos do actor. Indissociável desta intervenção criativa tem sido também a sua diversificada actividade como formador e como gestor cultural, eloquentemente demonstrada através da sua demorada experiência da direcção do Teatro Nacional S. João".

Quiz IV

Não é obrigatório que todos os políticos tenham que ser desonestos; que todos os jornalistas tenham que viver desencantados; que todos os artistas sejam loucos! Ou é?

quarta-feira, novembro 08, 2006

"Carta aberta ao presidente da CMP"

Caro Ricardo Alves, claro que Rui Rio pensou antes de falar e fazer as contas. Claro que ele tem exacta noção do que é preciso para encenar uma peça... Basta montar uma bancadas na Boavista, não é?

terça-feira, novembro 07, 2006

Mania da perseguição

Na sequência do fim dos subsídios pecuniários anunciados por Rui Rio na sexta-feira, o Jornal de Notícias, o Público e o Primeiro de Janeiro fizeram manchete com o assunto. Os três diários ouviram também os mesmos elementos da Oposição. Mas a Câmara, como sempre, só leu o JN....

domingo, novembro 05, 2006

Gone with the wind...

Em Junho de 2003, Pedro Burmester, mais visionário do que o próprio haveria de ter imaginado, afirmou ao JN que a Câmara Municipal do Porto estava "mais preocupada com questões, que também têm que ser resolvidas, mas que reduzem o Porto a uma aldeia". Três anos e meio depois, o resultado está amplamente à vista. Impera o deserto e o silêncio. E pior: a total ausência de luz ao fundo do túnel. Existe uma Oposição, porventura demasiado civilizada e decente, mas cujo resultado prático é tragicamente ineficaz. E um bando imenso de pessoas e estruturas que não cessam de pedir desculpa por existir. O resto da população não faz a mais pequena ideia das coisas a que tem direito. Vai ficando para trás e não percebe. E, infelizmente, também não parece haver alguém disposto a acordá-la.
Na sequência da entrevista, o pianista e director artístico da Casa da Música foi insultado por Rui Rio, que o acusou de não ter respeito pela autarquia, exigindo a sua demissão. Alguém, nos piores pesadelos, imaginou que a falta de tacto e de tudo do autarca, quando confrontado com críticas, pudesse verter sobre todos os quadrantes da esfera cultural da cidade? Que pudesse realmente comportar-se como o rapaz da escola que agarra a bola e grita: "Se eu não brinco ninguém brinca!" quando não o deixam jogar na posição pretendida?! Na altura, Jorge Sampaio, então Presidente da República, saiu, e muitíssimo bem, em defesa de Burmester. Por que raio agora não há ninguém de Belém ou do gabinete do primeiro-Ministro ou do Ministério da Cultura capaz de erguer-se e dizer "BASTA"?! Agora somos todos um bocadinho "burmesters", todos inimigos do rei Rio.
Pedro Burmester, que inicialmente parecia personificar o único ódio de estimação do homem do PSD, saiu da Casa da Música, hibernou durante dois anos e voltou. Rui Rio acabou o primeiro mandato, que iniciou na ressaca do Porto 2001, e foi eleito há um ano para um segundo round com maioria absoluta. Pelo caminho teve três vereadores da Cultura: Marcelo Mendes Pinto, António Sousa Lemos e agora Fernando Almeida - e sim, sinto que cumpro uma espécie de serviço público ao divulgar o nome dos dois últimos senhores. Aliás, aproveito a boleia para dizer que o actual vereador, que nunca ninguém ouviu falar, tem um assessor de imprensa (vá lá saber-se para quê): Rui Gonçalves.
Vale a pena reparar na espiral de Rui Rio: Em 2002 impôs um corte no pelouro da Cultura de 40% - a Rádio Festival nunca foi beliscada; no ano seguinte subiu a fasquia para 60%. O então vereador, Marcelo Mendes Pinto (CDS-PP), foi obrigado a cortar a direito nas colectividades, associações recreativas, desportivas, de solidariedade social e outras, nos grupos de dança e teatro; poupou apenas cinco festivais da cidade. A vida poderia até ter-lhe corrido menos mal, não fosse ter-se dado o caso de ter decidido defender publicamente Pedro Burmester. Ainda conseguiu resistir às ameaças de que no caso de não aceitar retratar-se seria afastado do Executivo, mas na primeira oportunidade saiu, pelo próprio pé, para a Assembleia da República. (Dois pontos para a loucura de Rio: Não aceita críticas de fora - Burmester; nem de dentro - Mendes Pinto).
Ninguém imaginava que pudesse piorar. E, no entanto, piorou mais do que é possível traduzir em palavras. Rui Rio que no calor da vitória das últimas eleições autárquicas prometeu redimir-se da reconhecida falta de atenção prestada à cultura fez tudo ao contrário: primeiro, desfez-se das preocupações que alegadamente lhe daria o Teatro Rivoli; depois inventou uma cláusula, segundo a qual as entidades que o criticassem não teriam direito a subsídio; finalmente, quando percebeu que os "subsídiodependentes" têm mais dignidade do que ele cortou os subsídios a toda a gente. É o rapaz da escola: "Se eu não brinco ninguém brinca!"
(Não sou do Porto; não voto no Porto. Estacionei na cidade há menos de seis anos e, provavelmente, vou embora antes de ter o prazer de ver Rui Rio sair da Câmara. Mas nunca uma situação pública me deixou tão envergonhada. Tão verdadeiramente envergonhada!!! E com tanta pena de todos quantos, na sua imensa ignorância, elegeram para presidente um homem das cavernas, não percebendo que estavam a suicidar-se. Porque não há mesmo nada pior - fica mais uma vez provado - do que o acesso condicionado ao conhecimento.)

sábado, novembro 04, 2006

Depois disto sobra o quê?

Despacho da Câmara Municipal do Porto:
Tem-se vindo a acentuar na sociedade portuguesa um preocupante fenómeno de desajustada subsidio dependência. Essa perversa cultura de mão estendida para os orçamentos públicos, atingiu um tal ponto que há, inclusive, quem recorra a Tribunal no sentidode que lhe seja reconhecido o “direito ao subsídio”.
A evolução que Portugal tem sofrido em matéria de finanças públicas, demonstra o caminho completamente errado que temos seguido. Estamos cada vez mais atrasados relativamente ao espaço europeu em que nos inserimos, ao mesmo tempo que atingimos um patamar de despesa pública e um consequente nível de impostos, claramente castrador do nosso desenvolvimento.
O gasto e o desperdício público são, de certa forma, proporcionais à degradação do nível de vida do nosso povo, designadamente, das camadas sociais mais desfavorecidas. Impõe-se, por isso, tomar medidas que contrariem uma visão socialmente injusta e claramente ultrapassada, de que o Estado a todos deve e que tudodeve suportar.
A Câmara Municipal do Porto, como relevante instituição do País, pode e deve dar o exemplo em todas as matérias que se afigurem convenientes e adequadas.
Nesse sentido, determino:
1. A partir de 1 de Janeiro de 2007, não será mais concedido pela CMP qualquer subsídio pecuniário a fundo perdido.
2. Excluem-se desta norma as transferências para participadas daCâmara, Juntas de Freguesia e situações altamente excepcionais decaracter exclusivamente social que deverão ser alvo de análise casuística.
3. Deverão ser honrados os compromissos já assumidos verbalmente ou por escrito à data deste despacho.
Porto, 3 de Novembro de 2007
O Presidente da Câmara Municipal do Porto
(Rui Fernando da Silva Rio)

sexta-feira, novembro 03, 2006

"E quando o amor começa à chuva?"

domingo, outubro 29, 2006

Diálogos pueris (fim)

A transmissão da série "Diálogos Pueris" neste blogue provocou certas e determinadas altercações nos últimos dias, nomeadamente a pessoas que se terão erradamente identificado com conversas que lhes não pertenciam. Para não criar mais equívocos, os diálogos passarão a ser transmitidos em canal codificado, não acessível aos habituais clientes do Coriscos.
Os "Diálogos Pueris" eram conversas pequenas, fugazes e ficcionadas sobre relacionamentos - situações banais, eventualmente aplicáveis a uma infinidade de pessoas sem que, todavia, se referissem a alguém em concreto. As confusões, no entanto, levarão a supor que o mundo e as relações são, afinal, mais pobres - porque menos singulares -, do que seria desejável.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Portugal Fashion

Depois de um intervalo razoavelmente longo nas minhas incursões pelo Portugal Fashion abro uma excepção para assistir ao desfile de Nuno Baltazar. A passerelle ainda não começou e já sinto o arrependimento. O evento de moda do Porto continua tão mau como antes; tão mau como sempre. Sem glamour, sem organização, sem nada que contribua para o dignificar.
Sendo gigantesco, o Cace - local escolhido há alguns anos para albergar a mostra dos criadores portugueses promovida pela ANJE - fica reduzido a uma plataforma com uma bancada incapaz de receber os convidados todos. O acesso aos lugares será a parte mais dramática: tudo ao molho, tudo aos encontrões, tal e qual como num estádio de futebol. Depois, no caso de ontem, a ideia seria ouvir os poemas recitados pelo actor João Reis enquanto as manequins exibiam a colecção. Poderia ter sido bonito se alguém se tivesse lembrado de cumprir o exercício básico dos testes de som. Assim, restou a intenção. E uma colossal dor de cabeça pelo ruído de uma voz incompreendida acompanhada por uma música literalmente aos berros.

quarta-feira, outubro 25, 2006

"Está-se sempre mais perto se não ficarmos parados".
Thom Gunn, On the move

terça-feira, outubro 24, 2006

A maioria do silêncio I



Descubra as diferenças. Se conseguir.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Equador resulta de um plágio?

Li o Equador de Miguel Sousa Tavares tal como não sei quantos milhares de portugueses. Li esse livro e li os outros e as crónicas: as do Público, as da Máxima, e agora, as do Expresso. Gosto de Miguel Sousa Tavares e, apesar das evidências, espero que esta notícia não seja verdade.

domingo, outubro 22, 2006

A "rivolução" de Pacheco Pereira (conclusão)

Pergunto-me, o que sabe realmente Pacheco Pereira do actual tecido cultural do Porto? Ele que acha que o protesto contra a privatização do Teatro Rivoli foi encetado pelo Bloco de Esquerda? Ele que acha que "o número escassíssimo de pessoas" que se barricou no equipamento pertence ao Teatro Plástico, desconhecendo que a companhia não tem propriamente uma família residente? Ele que parece não saber sequer que, em Portugal, salvo raras excepções, nenhuma companhia a tem? Ele que acredita que os espectáculos do Plástico têm 30 pessoas na plateia, não tendo em dez anos visto uma única peça da estrutura? Ele que não está minimamente a par do teatro e do resto que se faz na cidade, embora na crónica tenha decidido perseguir só o teatro e só o Plástico? Ele que definitivamente não sabe que Lorca, Miller, Virginia Woolf andam por aí nos palcos do Porto, provavelmente com qualidade igual ou superior àquela que ele parece ter visto quando tinha 20 anos?
Ele que considera "completamente absurdas" as "manifestações públicas de apoio inequívoco" da ministra da Cultura - se as tivesse havido e, ao contrário do que escreveu, não houve -, num "governo democrático"? Não será, justamente, liberdade de expressão de um membro eleito que se espera num governo democrático?
O que sabe realmente Pacheco Pereira do tecido social do Porto? Ele que acha que Rui Rio, o autarca "contabilista", ao contrário de Fernando Gomes "dos bons velhos tempos do binómio futebol-"cultura" anda a investir o dinheiro que sobra da sua "severa gestão" na acção social? Pergunto-me há quantos anos não virá Pacheco Pereira ao Porto ou em que ruas passeará quando cá vem.
Aliás, que sabe Pacheco Pereira de Rui Rio? Se acredita, como escreveu, que a "cultura" - e ele lá saberá por que escreve cultura sempre entre aspas -, "é o meio mais eficaz para obter propaganda", por que raio se esqueceu que o autarca do Porto, quando ganhou as últimas eleições, anunciou (mentindo, é certo) uma inflexão nas suas posições culturais prometendo compensar os cidadãos da cidade pelos últimos quatro anos em que subestimou a cultura? Seria uma tentativa de Rui Rio para obter "boa imprensa, legitimidade, figuras de cartaz e "nome"?!

Que poderá saber Pacheco Pereira de uma cidade onde não vive quando defende que antes do 25 de Abril é que era? Antes do 25 de Abril é que "o povo - O povo?! Será que é isto que chateia Pacheco e todo o sequitozinho de Direita? Que o "povo" tenha descoberto outras coisas para lá daquelas a que o queriam limitar?! Que o povo tenha invadido universidades e alcançado horizontes que antes do 25 de Abril estavam apenas à disposição de uma minoria, essa sim, de elite?- dispunha de espectáculos de teatro, quer "sério", quer de revista, com a vinda regular das companhias de teatro de Lisboa ao Rivoli e ao Sá da Bandeira. Será que Pacheco sabe que agora não vêm só de Lisboa? Que vêm do mundo todo? Antes do 25 de Abril, continua, é que havia óperas, "óperas mais "fáceis" como O Barbeiro de Sevilha, o Rigoletto ou a Cavalaria Rusticana, mas era ópera e os espectáculos conheciam enchentes". Reparem bem no desdém: eram óperas mais fáceis mas para o povinho servia e o povinho ia. "Eram espectáculos populares e baratos".
Pacheco Pereira representa o que de pior existe na Direita. Nessa Direita para quem os pobres e os menos esclarecidos fazem imensa falta para lhes recordar que eles não fazem parte desse universo. Só lhes fazem falta para isso, porque depois nem lhes dão cultura nem lhes melhoram a qualidade de vida. Por muito contabilistas e severos que se achem.
Por fim, que sabe Pacheco Pereira do "completo divórcio entre a "cultura" subsidiada e o público, que gera um establishment cultural de muito má qualidade, caro e solipsista, que existe apenas para si próprio e fora de quaisquer critérios que avaliem o uso de dinheiros públicos" quando parece desconhecer que a irmã, Beatriz Pacheco Pereira, e o cunhado, Mário Dorminsky, serão a maior esponja de subsídios da cidade, mentindo sempre, ano-após-ano, no número de espectadores, e também de convidados da imprensa estrangeira que frequenta o seu Fantasposrto? [Ninguém tem culpa da família que tem. E ninguém tem que responder pelos pecadilhos dos outros. Mas o decoro deve obrigar-nos ao silêncio].
"Não não é isso a rivolução dos nossos dias?"

sábado, outubro 21, 2006

Paulo Pimenta


O fotógrafo chama-se Paulo Pimenta. É repórter fotográfico do jornal Público desde 1997 e tem um dos meus olhares de eleição sobre as coisas, as pessoas e o resto. A exposição que tem patente até 9 de Novembro no espaço "Barba & Cabelo" [Rua S. João Bosco, nº 295, Porto] chama-se "Apontamentos de Paris em sete dias". Trancrevo o texto da exposição:

"Falamos de Paris, falamos de moda, falamos de estilistas e de cabeleireiros. E de "coiffure", e dos sorrisos dos cartazes, e das imagens trabalhadas e retocadas. Falamos de imagens, sim. Mas não destas reproduções retocadas e ampliadas em cartazes. Mas das imagens/apontamentos que nos chegam pela retina Paulo Pimenta e pela sua máquina de fotografar. Falamos, então, da imagem de sexta-feira, se a sequência começa à segunda, e se a cada apontamento de Paulo Pimenta corresponder a dia da semana. O título da sequência parece confirmá-lo: "Apontamentos de Paris em sete dias", e basta sabê-lo, para partimos em viagem. O homem que esconde o seu cabelo mas espreita a montra do "coiffeur" é um dos instantes que nos transportam para a Paris que não vem nos postais, mas onde, mesmo assim, conseguimos reconhecer sempre a cidade-luz.

É impossível não reconhecê-la, até porque a lente não fugiu do símbolo parisiense. Mas a Torre Eiffel muda de enquadramento, subalterniza-se para dar lugar a outro estilo de vida, parecendo posicionar-se num ghetto norte-americano. Mas a cidade aparece sempre reenquadrada pelo olhar singular do fotógrafo. A Paris cosmopolita, que alberga muitas comunidades, entre as quais a chinesa; a paris dos cafés e das portas abertas, das esquinas e dos cruzamentos; a Paris monumental, onde as peças de arte convivem com as esculturas vivas; a Paris do quotidiano e a Paris do futuro. Em cada dia, um apontamento. E em cada apontamento, uma visão. Em cada imagem, uma fracção de vida."

sexta-feira, outubro 20, 2006

Reposição da justiça

Anteontem escrevi que lamentava a ausência de solidariedade de algumas respeitáveis figuras do Porto para com aqueles que incessantemente, mesmo que de forma discutível, têm defendido a continuidade do serviço público no Teatro Rivoli. Mas fui injusta com algumas das pessoas que referi. Ou porque desconhecia o estado de saúde de Isabel Alves Costa, que soube entretanto estar de baixa; ou porque não estava devidamente a par das acções de João Fernandes, de Serralves, que manifestou publicamente o seu apoio ao movimento, acabando inclusivamente por pedir demissão do Conselho Geral da Culturporto; ou porque não soube simplesmente esperar pelo despertar de declarações como a de Pedro Burmester da Casa da Música ou pelos esforços investidos por alguns vereadores da Oposição, no sentido de estancar a crise. Isto é um pedido de desculpa. A todos.

A "rivolução" de Pacheco Pereira

José Pacheco Pereira tem de inteligência, às vezes, o que tem de burrice profunda, outras vezes. É como o tempo. E ontem, no Público, a propósito da ocupação do Rivoli, o rosto do autor da crónica, irmão daquela que é, muito provavelmente, a senhora mais subsidiada da cidade e que mais descaradamente mente em relação à média de espectadores dos seus "não-objectos" - ou ainda ninguém reparou que não passam realmente 500 mil pessoas em 15 dias no Fantasporto? -, deveria cobrir-se de vergonha. Mesmo.
Hoje estou cansada, mas amanhã voltarei, definitivamente, ao assunto.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Teatro Rivoli IV

Não será ainda caso para pedir a demissão do vereador da Cultura? E, de preferência, não o substituir? Era uma boa maneira de poupar dinheiro...

quarta-feira, outubro 18, 2006

Teatro Rivoli III

Já passa da meia-noite. Passo no Teatro Rivoli uma vez, duas, três. E de todas as vezes sou atropelada pelas mesmas questões: por que é que só alunos de teatro e pessoas que, de uma forma ou de outra, estão ligadas às artes, sobretudo cénicas, estão a manifestar solidariedade com a minoria que se barricou no edifício para defender os interesses da maioria? Onde estão aqueles amantes da cidade e da cultura que há uns anos se amarraram ao Coliseu para o defender? Ou não seria um grito a reclamar o direito à cultura mas antes e só um protesto mesquinho contra a IURD - Igreja Universal do Reino de Deus? Onde estão os responsáveis pelas outras respeitáveis estruturas da cidade? Ricardo Pais do Teatro Nacional S. João, Nuno Cardoso do Teatro Carlos Alberto, Pedro Burmester da Casa da Música, João Fernandes do Museu de Serralves... onde estão? Não têm nada a ver com isto?! E a própria Isabel Alves Costa, alguém viu? E os políticos, os que prometiam uma oposição inédita na história da cidade?
Inicialmente comecei por estranhar que a indignação do caso tivesse ficado circunscrita ao Porto; que não tivesse havido manifestões e mensagens cúmplices dos directores de outros teatros municipais, de outras entidades de Lisboa e do resto país. Depois entendi: se nem a cidade se mobiliza por que haveriam os outros de o fazer? Para esses seremos sempre, provavelmente, apenas, a cidade em que os polícias matam um condutor quando ele não pára.

terça-feira, outubro 17, 2006

Teatro Rivoli II

O presidente da Câmara do Porto tem há quase 72 horas várias dezenas de ocupantes no interior de uma casa que é, ainda, da autarquia. Podia seguir um de dois caminhos: expulsá-los, o que seria eticamente discutível, mas legal; ou enviar alguém capaz de entender as razões pelas quais decidiram barricar-se. Mas Rui Rio não foi por aí. Rui Rio decidiu brincar com as pessoas (não só com as que estão dentro do Teatro Rivoli) como uma criança brinca com uma mosca enfiada dentro de um copo: primeiro arranca-lhe uma pata, depois outra e outra até ter-lhe subtraído as quatro. Depois passa para as asas, que amputa. Não satisfeito com o sofrimento, quando a mosca já não pode caminhar ou voar, Rui Rio tapa o copo com a mão e fica ali a vê-la, lentamente, morrer asfixiada. E sorri cá fora, orgulhoso por ter assassinado o insecto. O comportamento, bizarro, demonstra bem o carácter do homem que o Porto tem à frente da cidade.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Teatro Rivoli I

Rui Rio está para os artistas que continuam a protestar contra a sua decisão de privatizar o Rivoli como os deuses para Sísifo (do mito de Albert Camus): os deuses condenaram Sísifo a incessantemente rolar uma rocha até o topo de uma montanha, de onde a pedra voltaria a cair devido ao seu próprio peso. Eles pensaram que não há punição mais terrível do que "o trabalho inútil e sem esperança".

quinta-feira, outubro 12, 2006

Diálogos pueris IV

Ele: Ela acabou tudo comigo.
Ela: Quem? A tua mulher ou a tua amante?
Ele: Claro que não foi a minha mulher!
Ela: E acabou tudo porquê?
Ele: Porque queria casar comigo. Fez-me um ultimato.
Ela: Como queria casar contigo? Não sabe que és casado?
Ele: Claro que sabe. Mas queria na mesma. As mulheres, a partir de determinada altura, querem sempre casar comigo.
Ela: É aquele momento em que soa o "Game over. Next player", não é?
Ele: É. Porque as mulheres são todas umas burras!
Ela: Porquê?
Ele: Porque sabem que sou um filho-da-puta como marido e mesmo assim querem casar.
Ela: E como amante?
Ele: Nunca mais voltam a ter um como eu.
Ela: Vejo que a ruptura não afectou o teu ego...
Ele: Não tem nada a ver com ego; é a verdade. Elas sabem e mesmo assim querem casar. Parece que não gostam de ter só o lado bom da vida.
Ela: Achas que esse lado bom é uma mulher abdicar da sua vida, de eventualmente encontrar o seu amor exclusivo, para viver um amor pela metade?
Ele: Não é exactamente pela metade. Ela também era casada.
Ela: Não sabia.
Ele: Pois, mas era. Eu bem insisti para ela não se divorciar...
Ela: Divorciou?
Ele: Sim.
Ela: Ela também tem filhos?
Ele: Sim.
Ela: Há uma coisa que não percebo: por que que estás triste se não queres casar com ela?
Ele: Porque gostava dela. Porque ainda gosto. E porque ela é uma burra.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Havia dúvidas?

Tiago Craveiro, autor do blogue Bode Expiatório, é o novo secretário-geral da Liga dos Clubes. O antigo jornalista do Diário Digital há havia sido assessor de Hermínio Loureiro quando esse foi secretário de Estado do Desporto. E mais não digo.

Faz sentido, não faz?

(Foto: Gustavo Machado)

Por vezes, a crónica não resiste ao chamamento da política, como é o caso, a propósito das declarações de Francisco Assis, deputado europeu e vereador do PS na Câmara do Porto, abrindo a porta a uma plataforma de esquerda, a mais de dois anos das próximas autárquicas, para derrubar Rui Rio e a sua maioria.O assunto tem a ver com a cidade e o modo de a governar, daí o interesse do "desabafo tardio ou mea culpa" de Assis, aliás extemporâneo, na forma e na substância. Ninguém pensa, neste momento, no assunto, está é expectante, na esperança de ver Francisco Assis capitanear uma frente de oposição na Câmara, o que não tem acontecido. Sem isso, tudo o que diga ou proponha, não passa de retórica, fora de tempo e pouco credível.
E comecemos pela questão está hoje a Câmara a governar bem a cidade? É o dr. Rui Rio o presidente adequado para inverter o declínio que se apoderou dela?Cada um responde de sua justiça, mas uma coisa é certa os portuenses, se estão desencantados com a sua Câmara e em verdade muitos estão, metem no mesmo saco poder e oposição, pois tirando "uns fogachos" do eng.º Rui Sá, aliás sem "poder de fogo" representativo, nada mais acontece de substancial. Ou seja, há o Plano da Baixa que se mantém "emperrado", o Rivoli que vai mudar de "gerência", os bairros que estão na mesma, o Bolhão que poucos sabem onde vai desaguar e, sobre isto e muito mais, que estratégias alternativas fundamentadas e consistentes tem o PS/Porto, ou tem divulgado o seu líder na vereação portuense?
Aqui é que bate o ponto tão importante como ser poder e governar é afirmar uma alternativa na oposição e conferir-lhe suficiente credibilidade para "a vender" à opinião pública. Quanto ao resto, aritméticas eleitorais atrás ou à frente é questão a ver na hora própria, por quem para isso tenha legitimidade e para tal esteja mandatado. A esta distância, pode parecer um "foguete" bonito, mas arrisca-se a não passar disso, porque as maiorias constroem-se politicamente e, também, sociologicamente, o que significa análise cuidada e preparação séria, sobretudo conteúdo e compromisso.
Assim a frio e sem cobertura de rectaguarda, é abrir "a agenda" na página errada, no calendário e no acontecimento!Mas voltemos à questão será Assis uma "bandeira" do PS suficientemente forte e credível para arrastar sociologicamente o Porto para uma alternativa de governação da cidade à esquerda? Por outras palavras, já cumpriu o PS/Porto o "período de nojo" suficiente para convencer os portuenses a apostarem de novo nele?Não menos importante será que Rui Rio e a sua equipa vão manter o mesmo "estilo e conteúdo de governação", ou serão capazes ainda de "um golpe de rins", que lhes permita, como aconteceu no mandato anterior, fazer inverter a dúvida dos portuenses a seu favor, sobretudo se a alternativa não oferecer credibilidade e consistência?
São muitas coisas e bastante sérias, para não poderem ser iludidas com a "cortina de fumo" lançada por Francisco Assis, pois o tema até merece ser seriamente tratado e o PS definir-se com clareza sobre ele, mas, no devido tempo, em sedes próprias e com aval de indiscutível manifestação de vontade de quem a deve afirmar. Até lá, tudo bem como opinião pessoal, mas desajustado para quem tem responsabilidades políticas delegadas pelos cidadãos e pouco sinal útil tem dado desse compromisso.Ou não será assim que pensam os eventuais parceiros do "negócio" ora proposto e os cidadãos portuenses em geral?É bom não esquecer que uns e outros sabem muito bem o que querem!

A obscena senhora D

(Foto: Teatro do Morcego)
O Teatro do Morcego vai voltar a levar à cena (16, 17, 19 e 20 de Outubro) no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, "A obscena Senhora D" - uma adaptação da obra de Hilda Hilst. Não conheço a companhia nem o encenador Carlos Martins. Mas Hilda Hilst é a melhor escritora brasileira que conheço e, talvez, uma das melhores do mundo. E o livro em causa, sobre uma mulher que perde o amante é definitivamente mais comovente do que obsceno.
"Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem por isso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud a senhora D, eu nada, eu nome de ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa".

The Pillowman


(Fotografia tirada no atelier de Paula Rego, em Londres, em Novembro de 2004. A pintora construiu o "Homem almofada" depois de ter assistido à peça de Martin McDonagh's. E pintou-o posteriormente num tríptico que esteve em exposição no Museu de Serralves, no Porto, há dois anos.)
Quem teve o incomensurável privilégio de assistir à peça "The Pillowman", em cena no Teatro Maria Matos, em Lisboa, até ao próximo domingo, já conhece o texto que se segue. Quem não assistiu à brilhante estreia de Tiago Guedes na encenação, mas ainda espera assistir, não deve, ainda, ler o texto. Quem não assistiu nem tenciona fazê-lo pode ler. Deve ler. É uma história assinada pelo irlandês Martin McDonagh's - um dos dramaturgos mais polémicos, negros e absolutamente geniais da actualidade.
Se há teatro que não nos deixa nunca mais iguais, esta peça será disso o exemplo maior. Com um elenco inatacável - Albano Jerónimo (agente Ariel), Gonçalo Waddington (Katurian, o escritor), Marco D'Almeida (Michael, o irmão do escritor), João Pedro Vaz (agente Tupolsky) -, Pillowman é a peça que há-de ficar a ressoar durante vários dias (meses?) no que existe de mais fundo em nós. A arte justifica tudo?

"O escritor e o irmão do escritor"

"Era uma vez um rapazinho cujos pais, desde o dia em que nasceu, inundaram de amor, gentileza, carinho e essas coisas todas. Vivia numa grande casa no meio de uma linda floresta e o seu quarto era perfeito em todos os sentidos. Ele não precisava de nada: todos os brinquedos do mundo eram seus, todas as tintas, todos os livros, papéis e canetas. Todas as sementes da criatividade foram implantadas nele desde muito cedo e foi a escrita que se transformou no seu grande amor: historinhas, contos de fadas, pequenos romances, todos positivos, muito felizes, sobre ursinhos, porquinhos e anjinhos. Algumas das coisas que ele escrevia eram boas e outras eram muito boas. A experiência dos seus pais tinha funcionado. A primeira parte da experiência dos seus pais tinha funcionado.
Foi na noite do seu sétimo aniversário que tudo mudou e os pesadelos começaram. O quarto do lado do seu tinha estado sempre fechado a sete chaves com alguns cadeados e vários trincos, por razões que o rapaz nunca percebera mas que também nunca questionara. Nessa noite começou a ouvir baixinho, vindos desse quarto, através da parede grossa de tijolos, sons de berbequim, sons de correntes a arrastarem, sons de pequenas descargas eléctricas e o som de gritos abafados de uma criança. Foi assim nessa noite e em todas as noites que se seguiram a essa.
- O que eram aqueles barulhos todos a noite passada, mãezinha? - perguntava ele depois de cada interminável noite que passava em claro.
Ao que a mãe respondia sempre:
- Oh meu querido, é apenas a tua maravilhosa e exagerada imaginação a pregar-te partidas.
- Então todos os meninos da minha idade ouvem sons horríveis durante a noite?
- Não, meu querido. Apenas os extraordinariamente talentosos.
- Ah, boa!
E foi assim. O rapaz continuou a escrever e os pais continuaram a encorajá-lo com amor profundo. E todas as noites, o som dos gritos e do berbequim continuaram a ouvir-se e as histórias do rapazinho foram ficando mais negras e mais negras e mais negras. Foram ficando cada vez melhores, o que é normal, por causa de todo o amor e encorajamento dos pais, mas foram cada vez mais negras, o que também é natural por causa do constante som de crianças a serem torturadas.
Foi no dia em que fez 14 anos, num dia em que estava à espera de saber o resultado de um concurso literário, do qual era finalista, que um papel deslizou por baixo da porta do quarto que estava trancado. Um papel que dizia: "Eles amaram-te enquanto me torturaram durante sete anos seguidos com o único objectivo de realizarem uma experiência artística, uma experiência artística que funcionou. Tu já não escreves sobre porquinhos verdes, pois não?" O papel estava assinado "Teu irmão", e estava escrito a sangue.
Depois de ler o papel, o rapaz pegou num machado, rebentou a porta e entrou no quarto para encontrar os seus pais a sorrir para ele, sem mais ninguém. O pai dele tinha um berbequim na mão e carregava um gatilho para fazer sons; a mãe estava a fazer uns gritos abafados como se fosse uma criança em apuros; no meio deles estava um pequeno balde com sangue de porco. O pai sorriu e disse ao rapaz para espreitar para o verso do papel escrito em sangue. O rapaz obedeceu e leu no verso do papel que tinha vencido o grande prémio do concurso literário. Todos se riram muito. A segunda parte da experiência dos seus pais tinha funcionado.
Mudaram de casa logo a seguir e apesar dos sons e dos pesadelos terem terminado, os seus contos permaneceram estranhos e retorcidos, mas bons. E ele até chegou a agradecer aos pais por tudo o que lhe tinham feito. Anos mais tarde, no dia em que o seu primeiro livro foi publicado, decidiu voltar à cas da sua infância pela primeira vez desde que de lá se tinham mudado. Ele pendurou-se em pensamentos e recordações do seu quarto, a olhar para todos os desenhos e para todos os brinquedos que lá tinham ficado e depois entrou no quarto do lado do seu e também esse permanecia intacto, com os velhos e ferrugentos berbequins, correias e fios eléctricos por todo o lado e sorriu perante a insanidade de tudo aquilo.
Mas o sorriso acabou por desaparecer rapidamente quando o rapaz descobriu o cadáver de uma criança de catorze anos que tinha sido ali deixada a apodrecer, com praticamente todos os ossos partidos ou queimados, e que segurava na mão, uma história completamente coberta de sangue. E, horrorizado, o rapaz leu aquela história, uma história que só poderia ter sido escrita nas mais horríveis circunstâncias e que era a coisa mais bonita e gentil que alguma vez tinha lido, mas ainda mais grave, melhor do que qualquer coisa que ele próprio alguma vez escrevera. Ou que pudesse alguma vez vir a escrever.
Então, o rapaz queimou a história e cobriu o seu irmão outra vez, e nunca mencionou uma palavra do que tinha visto a ninguém. Nem aos seus pais, nem aosseus editores, a ninguém. A última parte da experiência dos seus pais tinha terminado".
Katurian K. Katurian

terça-feira, outubro 10, 2006

Casa da Música



Quem estiver satisfeito com o rumo da Casa da Música ponha o dedo no ar! A Casa da Música de todos e de todas as músicas; a Casa da Música democrática; a Casa da Música que prometia dessacralizar a própria música; a Casa da Música que não nos iria permitir esquecer que a música existe, que a podemos aprender e apreender e que ela pode mudar a nossa vida; a Casa da Música que recordaria diariamente a importância histórica da música no Porto; a Casa da Música das permutas do que melhor se faz no mundo; a Casa da Música que não seria apenas o edifício de um arquitecto holandês reputado, nem apenas um edifício que nos custou cem milhões de euros; a Casa da Música que não seria apenas um manual de quezílias e histórias mal contadas. A Casa da Música que nos faria planar de orgulho, alguém se lembra? Quem achar que a missão está cumprida coloque, por favor, o dedo no ar.

segunda-feira, outubro 09, 2006

World Press Photo



Tenho sempre dúvidas quanto ao facto de esta exposição contemplar as melhores fotografias do mundo; mas é inegável que é o melhor resumo concentrado de sofrimento experimentado, no caso em 2005. No Centro Cultural de Belém, em Lisboa, pela 11ª vez, até 22 de Outubro.

terça-feira, setembro 26, 2006

Cara ou coroa?

O brasileiro Ediberto Lima, homem que trouxe para Portugal pérolas como o Big Show Sic e o Bar da TV, foi contratado pelo canal regional do Porto, Invicta TV, tendo assumido, no passado dia 16, funções como director geral do canal. Aposto que, antes do fim do ano, apanha Vitor Fernandes, o administrador de 29 anos, na curva, e transforma-se, ele próprio, no administrador da coisa.

domingo, setembro 24, 2006

Filosofia

Gostei de Filosofia como de poucas disciplinas ao longo dos não sei quantos anos que estudei. Sobretudo a do 12º ano. Sobretudo a de Kierkegaard que, aos 16 anos, me abriu a porta para o maravilhoso mundo dos existencialistas. E para uma parte da própria obra dele, que não era obrigatória nas aulas, mas que se tornaria indispensável para a vida, como "O desespero humano", "Conceito de Angústia" ou "Doença mortal". Kant, por exemplo, entendi mais tarde de uma forma diferente. E Hegel, que era uma espécie de ódio de estimação, sofreu a mesma evolução. A verdade é que senti vontade de voltar a todos eles. E ainda volto, recorrentemente. A Platão, a Sócrates, a Nietzsche... Definitivamente, a Kierkegaard. Sempre.
A disciplina ministrada pela temível mas muitíssimo notável professora Amélia Koellher influenciou como nenhuma outra cadeira aquilo em que, de alguma forma, me tornei. A começar pelo acesso à universidade. Lembro, como se tivesse sido hoje, o dia em que fiz a prova específica. Lembro a noite de véspera e aquela manhã em que a mãe me levou a Vila Real para fazer o exame. Lembro que, talvez pela primeira vez na vida, seguramente pela única vez na vida, tinha consciência de saber realmente alguma coisa sobre um assunto concreto. Tive 98% na prova. Entrei na primeira das seis opões: Comunicação Social, em Lisboa - cidade na qual, por outros motivos, nunca cheguei a viver. Sem filosofia ter-me-ía ficado pela terceira ou quarta opção.
Juro que não entendo por que razão o Ministério da Educação tenciona, no próximo ano lectivo, desvalorizar a disciplina enquanto ferramenta de acesso a um dos 357 cursos que a exigiam. Nem as faculdades com licenciaturas em filosofia podem exigir o exame. Em nome de quê?!

sexta-feira, setembro 22, 2006

Isabel Alves Costa

Há qualquer coisa de dolorosamente irónico na medalha de Chevalier des Arts et des Lettres atribuída pelo Governo francês a Isabel Alves Costa, directora artística do Teatro Rivoli, pela sua carreira. O que deveria ter sido, hoje, ao fim da tarde, uma cerimónia de consagração, não passou de um ritual de despedida. Poderia ser mais triste?

Guillemots


Blue world still be blue

It's not raining cats, it's not raining dogs
And pigs are not flying, or turning the cogs
The sun has no hat on, whenever it shines
And I've never seen a cat with nine lives
I'm not in a film, I'm not in a play
I saw no aliens today
I just saw you, and thought of me

And if I had you,
all the stars wouldn't fall from the sky,
and the moon wouldn't start to cry
There'd be no earthquakes
I'd still make mistakes
If i had you
Oh there'd still be day and night,
and I'd still do wrong and right
Ooh Blue would still be blue
But things would be easier with you

And this is no palace, the place that I live
And I am no king, but I've got things to give
And I waste so much time, thinking of time
And I should be out there, claiming what's mine
Any day I could die, just like I was born
And this bit in the middle is what I'm here for
And I just want to fill it all with joy

And if I had you,
all the stars wouldn't fall from the sky,
and the moon wouldn't start to cry
There'd be no earthquakes
I'd still make mistakes
If i had you
Oh there'd still be night and day,
and we'd all still have to pay
Ooh
Blue would still be blue
But things would just be easier with you

quarta-feira, setembro 20, 2006

Guillemots


A mais recente descoberta musical:

Annie, Let's Not Wait

I found something crying;
It was my soul
I fed it milk so it wouldn't grow old
We crossed the borderline at dawn and woke up in a field of corn
My father told me i was late
I better start oiling the gate
Said that those that rush will fall
But i don't want to wait for waves
I don't want to wait at all

Annie, let's not wait
Let's cross the river now
We could sit for years
Staring at our fears
Oh they're such pretty things
They're so cute
But our dreams are all we really need
To grow

I found something dying;
It was my light
It had resigned itself to night
So i threw it out a fishing line
And said catch your will and then catch mine

Annie, let's not wait
Let's cross the river now
We could sit for years
Staring at our fears
Oh they're such pretty things
They're so cute
But in the end they're just a suit

Oh annie let's not wait
Time's not on our side
Well it never was
You know that deep inside

Oh just look at you
With your ruffled hair
Oh i love you
And that's all you need to know annie annie

Espiral de insegurança

Ela já me tinha falado dele. Que é ciumento, possessivo, sufocante, cansativo. Que não conseguia viver nesse colete de forças, nessa desconfiança permanente traduzida em telefonemas sucessivos, perguntas repetidas, insinuações que para ela serão sinal da mais absoluta falta de consideração. Ela, uma daquelas meninas especiais e raras e ímpares na nobreza do carácter, acredita que não existe amor sem respeito e que haver amor - ainda -, estará escondido como um trapo no fundo de uma mala, camuflado. Assisti a alguns telefonemas desse homem, de quem sabia apenas que é arquitecto e mais velho do que ela quatro ou cinco anos. Telefonemas sobre amigas que ele jurava não existirem senão na versão masculina, sobre respirações que ele tinha a certeza de ouvir do lado de lá da linha, do lado onde ela estaria tranquilamente avançando sobre uma traição que só existia na cabeça dele. E no coração, porventura ainda mais frágil, mais inseguro desde que ela, atingindo o limite da tolerância, colocara um ponto final na relação.
Ontem, esse homem ganhou um rosto, uma voz, um corpo. Conheci-o no rescaldo do recomeço da relação e no momento exacto em que ele, depois de ter prometido veementemente mudar, voltou a errar. No que ela considera errar. Voltara, mais depressa do que ela teria desejado, a tropeçar no medo de a perder e quis confirmar que ela, a mulher da vida dele, a mulher sem a qual não se imagina capaz de ser feliz, não o estava a preterir. Vi um homem esguio, belo, doce, tímido, a falar sem voz. Petrifiquei. Literalmente. Vi um homem envergonhado, terrivelmente apaixonado, tantos anos depois de se ter apaixonado por ela pela primeira vez, a morrer de pânico de ficar sem a sua menina espevitada, extrovertida, a sua única razão. E vi uma menina-mulher exercer terapia de choque. Como se a terapia de choque pudesse aniquilar a fraqueza dele. Ou a fraqueza de alguém. Vi-o ali, indefeso, lançar-se nessa espiral letal que só experimenta quem tem um medo cego, doente, maior do que as palavras, de perder alguém.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Missão: salvar o Douro



(Fotos: Leonel de Castro)
Não se ouve sequer o ruído trivial da vida a acontecer. O silêncio impera nas casas, quase todas vazias, quase todas no rés-do chão, encardidas pelo desuso e pela passagem do tempo. E nas vielas estreitas, muitas das quais não vão dar a sítio nenhum. Até os homens a carregar cestos das vindimas trilham o caminho com mudez. Só a chuva, a primeira de Outono, parece contrariar o peso daquela quietude. A paisagem, para quem não vive em Casais do Douro, uma das três povoações de Ervedosa, concelho de S. João da Pesqueira, será idílica. Para qualquer uma das cerca de 40 pessoas que ainda lá resiste, alheia às inovações do mundo, é triste.
“É uma vida muito triste”, confirma dona Maria José, mulher de 76 anos, sentada no beiral da porta a tricotar um conjunto de panos para as netas que, tal como as filhas, só a visitam no dia dos fiéis. “Não lhes levo a mal. Elas têm lá a vida delas, chegaram a pisar uvas para ganhar para os estudos”. Tem uma pediatra, uma enfermeira e uma professora de matemática, todas a morar em Vila Real. A quarta filha casou aos 14 anos, já tem seis descendentes e vive em Tabuaço a “limpar a escola”. Os dois rapazes trabalham em Espanha, que ali ninguém lhes dava emprego. “Mesmo para as vindimas, vão buscar gente de fora”.Ela, viúva há 26 anos, vive sozinha a enganar as horas.”Vivo aqui sozinha nesta chafarica. Sozinha com a televisão e as minhas doenças”. Nem no Natal é diferente. Os dias, todos iguais, e as maleitas fazem com que nem sequer abra a cama para dormir. “Deito-me em cima da coberta. Tanto me faz”. Há coisas que a incomodam mais e que também nunca mudaram. “Nunca tive casa de banho. Meto-me para ali num beco escondido com um balde de água quando quero lavar-me. Para o resto, levo uma sachola para enterrar o que faço”.
Em Casais do Douro não há um único café – os dois que existiam fecharam há muito tempo; não há hospital – o Centro de Saúde mais próximo fica em S. João da Pesqueira, a mais de dez quilómetros de distância; a escola primária também encerrou no último ano lectivo – as seis crianças que lá estudavam vão agora diariamente para Ervedosa. O único estabelecimento comercial é a mercearia de Augusto Sobral, no rés-do-chão da casa que comprou “por 60 contos há 43 anos”.
“A vida é muito difícil. Vendo fiado porque ninguém tem dinheiro. Há quem pague à semana; há quem nunca pague. O que hei-de fazer?”, pergunta o homem, 72 anos, cujo filho, como o filho dos outros todos, abalou para outras paragens. “Teve que ir, que isto não é terra de empregos. Nem de empregos nem de nada. Pode passear aqui a qualquer hora que não vê viva alma. Podiam roubar Casais do Douro que ninguém daria por nada”. A culpa, garante, “é dos maiorais” que monopolizam a localidade. “Gente rica com muitas propriedades, muitas casas. Mas não as alugam; preferem tê-las fechadas. A malta nova casa e tem que sair daqui. Daqui a pouco seremos só meia dúzia”, resigna-se.
Manuel Fernandes, tesoureiro da junta de freguesia de Ervedosa, corrobora. “Não é possível fixar aqui novas gerações, porque há um monopólio de três ou quatro famílias que não vendem nem alugam terrenos. Não conseguimos arranjar espaço para construir zonas verdes ou um polidesportivo. Não é possível sequer alugar casa”, lamenta. Daí que a comemoração dos 250 anos da Zona Demarcada do Douro não interesse à população. “As pessoas têm coisas mais urgentes a ocupar-lhes a cabeça: não têm poder de compra, estão cada vez mais endividadas. Se dizem que trabalham na lavoura, o banco não lhes concede crédito. Vivem uma crise terrível, que não é atenuada com o aniversário”, sublinha.
O pessimismo é de tal ordem que a própria Junta tem recusado as sucessivas solicitações para tomar conta dos Correios. “Os CTT dizem que pagam o funcionário. Mas, já sabe como é, daqui a um ano retiram-no para que sejamos nós a assumir o salário. Como não podemos, perderiamos também o Correio. Já perdemos o médico que vinha cá dar consultas; não podemos dar-nos ao luxo de perder mais coisas”.
Dona Otília já perdeu tudo – até a idade. “Não sei quantos anos tenho. Só sei que qualquer dia mudo-me para aquela casa branca, ali ao fundo”. A casa branca é o cemitério. “É a vida de quem sofre do coração. Já não estou aqui a fazer nada”, diz a encolher-se dentro de casa. Só dona Maria, 68 anos, não é atingida pela nuvem de tristeza que parece corroer Casais do Douro. “Quase não ando, vivo de migalhas, mas chega para todos”. Abre a porta de casa e oferece tudo o que tem. “Recebo com amor e com vontade”.