quarta-feira, novembro 29, 2006

Rita Castro Neves


Rita Castro Neves, comissária do extinto Festival Brrrrr - Festival de Live Art - tem patente na Galeria Lab.65 uma exposição de fotografia e vídeo, que vale a pena visitar. Até 2 de Dezembro.

Dr. House


Ex-mulher: Tinhas razão. Continuas a ser o homem da minha vida... És esperto, bonito, sensual...
Dr. House: Mas preferes ficar com aquele que, por dedução, não será o homem da tua vida...
Ex-mulher: O teu principal defeito sempre foi teres a mania que tens sempre razão. A maior qualidade, infelizmente, é que tens quase sempre.
Dr. House: Por que é que escolheste ficar com o teu actual marido?
Ex-mulher: Porque na vida dele há um lugar para mim; porque na vida dele eu não pareço estar a mais.

terça-feira, novembro 28, 2006

Festival de cinema japonês


E outra vez esta inveja de Lisboa. De 4 a 9 de Dezembro, a Culturgest vai apresentar quase cem filmes de cineastas japoneses. Os bilhetes custam dois euros.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Do you wanna dance?


Não há que enganar: Dezembro é o mês das compilações. Ontem recebi o "Mundo" [1993-2006] de Rodrigo Leão, um cd duplo com 27 temas - seis inéditos. Mas ainda não consegui sair da "Pasíon", canção que ouço quase ininterruptamente, há quase 48 horas.

No me olvides
yo me muero
Amor
mi vida es sufrimiento
Yo te quiero en mi camino
Por vos
cambiaba mi destino

Ay,
Abrázame esta noche
Aunque no tengas ganas
Prefiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas

Acércate a mí
Abrázame a ti por Dios
Entrégate a mis brazos.

Tengo un corazón penando
Yo sé
Que vos lo está escuchando
Con mil lágrimas te quiero
Pasión
Sos mi amor sincero

Ay,
Abrázame esta noche
Aunque no tengas ganas
Prefiero que me mientas
Tristes breves nuestras vidas
Acércate a mí
Abrázame a ti por Dios
Entrégate a mis brazos

domingo, novembro 26, 2006

Mário Cesariny (1923-2006)


Tinha medo de pensar na morte. Mas se o desafiassem a pensar nela, nesse fim do caminho, ele respondia que gostava de ter uma morte boa. Uma dessas em que "a gente deita-se para dormir e nunca mais acorda". Mário Cesariny, poeta e pintor, morreu hoje na cidade onde nasceu - Lisboa. Tinha 83 anos. Morreu hoje apesar de ter dito, há dois anos, que já não estava vivo. "Custa-me muito estar vivo, e isso já não é estar vivo", disse a Miguel Gonçalves Mendes, autor do prodigioso trabalho "Verso de autografia" - livro acompanhado de fotografias únicas de Susana Paiva, e filme.
Cesariny - "avião que sobe levando-te nos seus braços, que atravessam agora o último glaciar da terra" - é a representação do surrealismo português. "Eu acho que se se é surrealista, não é porque se pinta uma ave ou um porco de pernas para o ar. É-se surrealista porque se é surrealista". Ele era. Ele é. Sê-lo-á agora mais do que antes. Mais agora, porque é sempre assim quando se morre. Antes, dizia, aplaudiam-no muito, mas depois deixavam-no ir para casa sozinho. Sentia-se sozinho. Ainda mais sozinho desde que lhe morreu a irmã, Henriette, oito anos mais velha e companheira de uma vida inteira. Desde que os cafés passaram a ter televisão aos berros, impedindo-o de ir para lá escrever poemas e conversar com os amigos que apareciam. E desde que deixou de foder. "O outro é o nosso espelho, sem esse espelho não nos vemos. Não existimos. Eu no espelho ou vejo os dois ou vejo o outro, através de mim. Os seres habituais têm necessidade desse encontro".
Ele também tinha. Não acreditava na alma gémea - tinha que ser alguém diferente dele, mais ingénuo, mais puro -, mas acreditava que é possível morrer de amor. No amor, que também procurou, apesar de achar que "a necessidade extrema do outro acarreta o ódio". No amor que encontrou. E perdeu. "O que é que aconteceu ao amor? Ah, eu sei lá". Guarda dele apenas um poema que "alguém publicará".
Cesariny - "carruagem de propulsão por hálito" - não se importava de ser enterrado em Espanha, "que esta porra desta pátria nunca fez absolutamente nada" por ele. O ano passado recebeu duas distinções - as únicas da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio. Este ano viu o seu nome ser integrado na "Anamnese", projecto da Fundação Ilídio Pinho que compila a esmagadora maioria dos artistas plásticos portugueses da década de 90.
Cesariny não sabia o que era a saudade. Mas sabia que a saudade podia "não ser dor". Sabia que tinha saudades de voar. "Quase desde miúdo até aos cinquenta anos, todas as noites já adormecia a sorrir de gozo, porque sonhava sempre que voava, e era uma coisa tão boa, tão boa, tão boa... E depois não havia paisagem, era o espaço puro, não se via nada. Maravilha. Depois, aos sessenta anos, nunca mais sonhei".

Mário Cesariny voltou a voar.

[A maior parte de nós acha que passaria a viver razoavelmente mal se a vida lhe subtraísse, apenas, um número reduzido de pessoas. Mas depois desaparecem pessoas como Cesariny, que nunca vimos senão nos livros, nos quadros... e não consegue evitar-se o vazio, a quase dor... um arrepio a lembrar que esse número de pessoas é maior do que imaginamos.]

Children of men



Duas coisas: apetecia-me que o Clive Owen fosse nosso vizinho e que o Mr. Jasper [Michael Caine] existisse na vida real. De resto, desta vez, as falhas do filme de Alfonso Cuarón saltam à vista, até para pessoas como eu. Mas eu não quero saber. Deixo as críticas para os críticos e fico estacionada nas belíssimas metáforas da história.

sábado, novembro 25, 2006

Off

Tinha cada vez menos vontade de falar. A cabeça nunca estava onde estavam os pés. O coração então era uma entidade completamente autónoma. Um dia deixou de falar. E continuou assim nos dias seguintes até desaprender a voz. Deixou de ter problemas. Se lhe tivessem dito mais cedo que era assim tão fácil...

Loop

Tratava as pessoas como brinquedos. Quando tinha um novo queria sugá-lo até ao tutano. Reaprendia uma noção insuspeita de prazer e conforto. Abria a casa e o coração e sentava-se na cama a falar de tudo pela primeira vez quando a normalidade dormia. Depois cansava-se. Já não era o melhor amigo dele. Não, agora era o melhor amigo do outro. Do próximo.

sexta-feira, novembro 24, 2006

quinta-feira, novembro 23, 2006

Pedro Burmester na Visão

(Foto: Pedro Correia)

Pedro Burmester, director artístico da Casa da Música, em entrevista de Cesaltina Pinto, hoje, à Visão:
(Excertos)
Regressou à Casa da Música. Fez-se Justiça?
(...) Ponderei o regresso, depois de avaliar se poderia ainda acrescentar alguma coisa ao projecto. Orgulho-me de contribuir para o que está a ser: uma casa para todas as músicas, para toda a gente, com várias estruturas residentes.
Confessou várias vezes que esse afastamento lhe doía.
Doía. Doía de saudades. Empenhei-me muito, por isso doía. Tinha uma relação pessoal muito próxima com o projecto. Hoje, é mais profissional, o que é bom para mim e para a Casa da Música (CM).
Foi demitido da administração, depois de ter dado uma entrevista em que arrasou a política cultural de Rui Rio. Agora, temos um director artístico mais domesticado?
Mais sensato. Na altura, sentia-me, de alguma maneira, sozinho naquela luta. Não sentia grande apoio do Ministério da Cultura nem da Câmara e considerava que não estava a ser feito o que devia. Hoje, já não estou sozinho, há uma reflexão, há uma administração capaz, que demosntra perceber bem o projecto. Estou mais sensato e muito mais descansado.
A política cultural de Rui Rio mudou?
Vai inevitavelmente mudar. (...) O Porto tem equipamentos culturais muito bons e uma efervescência criativa grande. Portanto, inevitavelmente, o Porto vai afirmar-se como cidade de cultura. A CM contribuirá para isso.
A cidade cresceu culturalmente, mesmo com um presidente de Câmara sempre em guerra com os agentes culturais?
Pelo menos, fala-se bastante da importância da cultura, o que é bom. É uma oportunidade para pensar como deve ser a nossa relaçao, enquanto agentes culturais e artistas, com o poder. Talvez deva ser mais distanciada, mais profissional...
Mais independente?
Mais independente. O problema de fundo é que o investimento português na cultura é muito reduzido. O orçamento do Ministério da Cultura é 0,4% do PIB, 260 milhões de euros. Bastava duplicar (...) e já se ganhava muitíssimo. Sem investimento a sério, não se fazem coisas.
Há subsidiodependência?
Há subsidiodependência geral em relação ao Estado. (...) Não só em termos financeiros mas também psicológicos. Esperamos sempre que alguém faça as coisas. Temos que ser nós todos a fazer.
O Porto tem uma sociedade civil e empresarial capaz de substituir o Estado?
Tem. A Fundação de Serralves e a CM são provas disso. É inevitável que façamos a regionalização, se queremos desenvolver o país todo por igual. (...) Um país regionalizado será muito mais forte, justo e equilibrado.
Que Casa da Música veio encontrar?
(...) Uma equipa de pessoas muito diferentes, multifacetada e ainda não unida em torno de um objectivo comum, o que é fundamental e só a partir de agora será possível.
A Casa da Música é para o Porto, para o país ou para o mundo?
(...) Recuso-me a ser bairrista, mas primeiro temos que nos afirmar no sítio onde estamos, depois num sítio nacional mais alargado e, finalmente, em termos internacionais. Se o primeiro não funcionar, os outros também não funcionam.
Não tem que apostar também numa programação exclusiva da CM?
O ser exclusivo pode e deve acontecer pontualmente, mas não será uma obsessão. Mais importante é que a CM desafir grupos a lançarem projectos artísticos. (...) Se a lógica for apenas a exclusividade, ficaremos isolados, numa ilha.
Até que ponto está submetido à necessidade de ter público e receitas próprias?
(...) Acredito que a nossa programação é boa, tem qualidade, e se comunicarmos com eficácia teremos público. Podemos e devemos programar coisas de risco, que sabemos à partida não ter a adesão do grande público, mas temos de as comunicar bem, porque acreditamos serem importantes para a formação e educação de públicos. (...) Mas também não tenho qualquer preconceito em programar uma coisa comercial, mas boa.

Quiz V

É possível que quando alguém se aproxima de um jornalista - o amigo que vem de longe, na distância ou no tempo; a criatura que se acabou de conhecer e com quem se simpatizou; a senhora bonacheirona da mercearia que coloca sempre no saco umas tangerinas a mais; o porteiro do prédio que todos os dias amortece a má disposição matinal com um caloroso bom-dia; o empregado do café do costume; o indivíduo que partilhou um cigarro numa noite qualquer e todos aqueles que não integram o núcleo duro da existência individual do jornalista -, é possível, dizia, que algum deles possa genuinamente aproximar-se sem que mais-dia-menos-dia acabe a pedir uma entrevista ou uma notícia ou uma reportagem porque ela, a dita pessoa, ou a prima ou a irmã da prima vai lançar um livro ou um filme ou uma banda ou um projecto ou abrir uma loja ou fazer uma denúncia ou o raio?!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pause



Os pés traídos por umas botas permeáveis à chuva, as mãos roxas de frio, o cabelo a pingar água, a roupa a colar-se ao corpo, a garganta a denunciar uma constipação. E no rosto, o maior sorriso dos últimos dias. O Porto acima da cabeça. É sempre possível ver pela primeira vez tudo aquilo que já se viu mil vezes.

terça-feira, novembro 21, 2006

Rewind

É ainda o cheiro da terra molhada da chuva, este cheiro que quase tem sabor, e o das lareiras que se sabem acesas dentro de casa, das casas todas das ruas por onde não resisto a passar sempre que estou aí, que me devolve as noites inteiras a conversar, a conversar a sério, a rir desalmadamente, a fazer coisas que só nós tínhamos a presunção de saber fazer. As noites dos dias-após-dias em que ignorávamos que existia mais mundo além do nosso. É possível que esse tenha sido já o tempo mais feliz da nossa vida?

segunda-feira, novembro 20, 2006

Gregory Page

A propósito de música, vale a pena (vale mesmo a pena) ouvir "Love made me drunk" de Gregory Page. Subescrevo alguém: O disco "é simplesmente uma obra prima, sem um género bem definido, mas sem dúvida pop/rock, com muitas influências do jazz e da música Francesa".

O mal é geral...


O Centro Cultural de Belém (CCB) decidiu substituir a "Festa da Música" por um evento chamado "Dias da Música", cuja primeira edição, a decorrer entre 20 e 22 de Abril do próximo ano, será dedicada ao piano. O motivo da substituição? O orçamento! A verba para este evento de recurso não deverá "ultrapassar um terço do da anterior iniciativa", explicou hoje à comunicação social António Mega Ferreira, director do CCB.
A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, já passou a sua bolinha de algodão sobre o assunto: "A programação que temos para o próximo ano é muitíssimo melhor do que aquela que tivemos para 2006". Palavras para quê?!
Se continuasse, a "Festa da Música" iria entrar na sua oitava edição. Se continuasse, iria abordar as influências de algumas das mais importantes escolas de música da Europa. Se continuasse, talvez conseguisse, como este ano, ao fim do segundo dia, esgotar 48 mil dos 52 mil bilhetes existentes. Se continuasse....
Mas, como justifica Pires de Lima, "a Festa esgotava em três dias uma percentagem absolutamente substancial do orçamento do CCB para a programação". E isso, sabemos todos, não pode ser.

Aldina Duarte na Casa da Música


Aldina Duarte é a simplicidade. E a simplicidade desarma. Vi-a, há dois anos, no Senhor Vinho, em Lisboa, a encher, a contagiar a sala. Ontem, vi-a na Casa da Música, no Porto. Pareceu-me uma espécie de peixe fora-de-água. Como se o fado que canta não coubesse numa sala de ostentação. Uma sala preenchida por pouco mais de metade da lotação. Quem estava, estava de corpo e alma. Inteiro. Mas ela quase não falou. Disse uma única vez um "obrigada". Quase sussurrado. Ninguém se importou. Aldina Duarte não precisa de palavras faladas. Houve encore. "Ai meu amor se bastasse". E aplausos de pé.

sábado, novembro 18, 2006

As prioridades de Rui Rio



Rui Rio, hoje, em entrevista ao semanário Sol: "[Além da Segurança Social] era preciso reformar a Comunicação Social". Perante um jornalista que ignora a afirmação e segue em frente, só posso concordar com o autarca.

quinta-feira, novembro 16, 2006

"Cultura com mais peso na economia europeia do que sector automóvel"


[Nota: é um prazer, e um alívio, haver um - pelo menos um - jornal em Portugal que tenha coragem de fazer manchete com Cultura. Não exactamente a cultura do espectáculo; mas a outra, a que a precede. ]
O Público faz hoje manchete com um estudo da União Europeia - "A Economia Cultural na Europa", encomendado pela Comissão Europeia à KEA, European Affairs -, que já tinha sido divulgado por Isabel Pires de Lima, anteontem, na sua fugaz visita ao Porto, apesar de só ontem ter sido apresentado em Bruxelas.
A conclusão, mesmo para quem se move apenas por números, parece não deixar margem para dúvidas: a cultura contribui mais para a economia dos 25 do que os automóveis. O sector cultural e criativo contribuiu para 2,6 por cento do PIB da União Europeia em 2003, mais do que o imobiliário e produtos alimentares e bebidas. Em Portugal, é o terceiro principal contribuinte para o PIB, a seguir aos produtos alimentares e bebidas.
O peso no emprego também é significativo: em 2004 empregou 5,8 milhões de pessoas, o que representa 3,1 por cento do total de empregos na Europa dos 25. E, enquanto o emprego decresceu na UE, aqui cresceu 1,8 por cento. E é um emprego qualificado: 46,8 por cento dos trabalhadores têm pelo menos um curso universitário (contra 25,7 por cento do global e 31,9 por cento em Portugal).
A Economia Cultural na Europa revela que, entre 1999 e 2003, o contributo do sector cultural para o PIB português cresceu 6,3%. Em Portugal, o volume de negócios do sector cultural aumentou a uma taxa média anual de 10,6% entre 1999 e 2003, o dobro da média global da União Europeia - 5,4%.
No retrato mais negro, Portugal é o país com menos universitários a trabalhar no sector da cultura: 31,9%. A UE não consegue encaixar Portugal em nenhum dos três grandes modelos da economia cultural que identifica: não está no modelo britânico (o das indústrias criativas), nem no francês (indústrias culturais), nem no nórdico (economia da experiência). Não é claro se esta ausência tem a ver com falta de dados nas mãos da União Europeia, ou com falta de posicionamento político de Portugal.

Ricardo Pais na Visão

(Foto: Lucília Monteiro)

Ricardo Pais, director do Teatro Nacional S. João, hoje, entrevista de Joana Loureiro à Visão.
(Excertos)
Em tempos, chegou a dizer que detestava biografias. Como é que reagiu a este livro?
(...) Antes de tudo, revejo-me no livro como um objecto de trabalho histórico exemplar. Perspectiva a minha relação com muita coisa – nomeadamente, a crítica e a imprensa – e, principalmente, faz-me acreditar que há um corpus de reflexão paralelo ao meu trabalho. E isso é muito recompensador.
Com este esforço de sistematização do seu percurso criativo, ficou clara a pluralidade de projectos em que já se envolveu, explorando várias linguagens cénicas. Existe um estilo Ricardo Pais? Houve quem já tivesse utilizado o adjectivo ricardopaisiano...
Pois, imagino que sim? provavelmente, isso terá mais a ver com a minha maneira de vestir do que com os meus espectáculos (risos)!
Com os espectáculos também. São apontadas uma série de características marcantes do seu percurso: a imaginação plástica, a importância reconhecida à música, o rigor na direcção de actores, a abordagem global das linguagens convocadas...
Sem dúvida. (...) Há imensas coisas de que me tinha esquecido, verdadeiras monstruosidades ditas sobre trabalhos meus, que me dá muito prazer ver agora reproduzidas. E fiquei também muito admirado com a quantidade de coisas que fui dizendo ao longo dos tempos (risos).
(...) Gosta de polemizar? Falem, bem ou mal, mas falem de mim?
(...) Não tenho particular gosto que falem sobre mim. Tenho este ar meio extrovertido, exibicionista um pouco, e há um lado lúdico e comunicativo nos meus espectáculos que se diria que desejaria pôr-me no vórtice de alguma coisa. Mas preferiria considerar-me periférico ao trabalho em vez de estar no centro dele.
Tem tido, ao longo dos anos, uma relação um pouco tensa com a crítica?
Não é tanto assim. Se, em algum momento da minha vida, respondi de forma mais violenta foi porque as críticas também foram violentas. Ninguém gosta que se diga mal de si, todos nós preferiríamos que houvesse uma generosidade na abordagem do nosso trabalho.
Fala do TNSJ com tanto entusiasmo que até nos esquecemos dos primeiros 20 anos da sua carreira, em que era o «free lancer por excelência»?
Estou morto para voltar a ser free lancer, atenção! Isto é uma prisão!
Uma vez disse que talvez seguisse a carreira de cantor de piano bar?
Adorava! É o artista para quem ninguém olha. E ninguém está a ouvir, o que, para um péssimo cantor como eu, garantiria um grau de protecção extra.
Imagina-se a voltar a trabalhar como actor?
Isso é um problema. Há um projecto marcado para 2008, de muita responsabilidade, dirigido pela Maria de Medeiros. Comecei a ter pânico da memória aqui há uns anos, porque não tenho estudado. Cada vez que me falam nisso, fico muito assustado.
Defende que um artista pode ter uma linguagem de gestão. Disse: «Para muitos ainda, as profissões artísticas não têm a legitimidade de inscrever-se na grande máquina do trabalho – são uma espécie de ócios especializados». Esta frase parece ir direitinha para o Dr. Rui Rio?
Mande-lha! (risos) Isso está correctíssimo, reflecte inteiramente o que se está a passar no Porto e no país. Sempre se pensou que, quando se trata de grandes investimentos, não se pode dar a administração aos artistas. Têm que se chamar os engenheiros ou os economistas. Gostaria muito de saber se, porventura, houvesse um problema na Sonaecom, se me vão chamar a mim para gerir, porque dei muitas boas provas enquanto artista de teatro. Não sei porque é que um bom gestor ou engenheiro têm que vir gerir coisas das artes, quando a cultura não deveria ser mais do que o labor incessante sobre a criação artística, a sua comunicação e a sua sobrevivência.
Caracterizou o contrato de concessão do Rivoli a um privado como um «gigantesco subsídio a fundo perdido?»
E não é? Quem é que não quer ter um teatro daqueles com a electricidade paga, as águas e tudo o resto? Se fosse um privado, quem me dera!
Passou-se de oito para oitenta?
(...) Dar-se uma volta destas, de um dia para o outro, é uma espécie de inconstitucionalidade autárquica. Se o que se pretende é aumentar as receitas do Rivoli, não é porque se entrega a um privado que isso vai acontecer. (...) Um equipamento daqueles, com recursos fabulosos, só se não rentabiliza financeiramente se não se quiser. Cortar-se com um património, altamente respeitável, é de uma violência pela qual um indivíduo tem que ser julgado.
Continua a sentir-se bem no Porto?
Não muito. Neste momento é muito difícil viver culturalmente e trabalhar no Porto. (...) O círculo de afastamento e a reentrada do Pedro Burmester na Casa da Música é absolutamente exemplar do que pode ser a perversão de um percurso administrativo, cultural e programático que era claríssimo.
Acha curioso que os argumentos contabilísticos provoquem tanta simpatia?
Geram simpatia porque a contabilidade está mal feita. Os números estão todos trocados, mente-se por tudo quanto é sítio. Não temos software de gestão, de contabilidade analítica para dizer que um espectador custa “x”. E os números estão sempre a ser vendidos. Se for ter com uma pessoa que está a dormir numa caixa de cartão e disser-lhe que foram atribuídos 20 mil euros a um grupo de teatro para uma produção, é evidente que essa pessoa vai achar que lhe estão a roubar. Mas alguém perguntou à cultura o que acha do que se gasta na saúde e na educação? Algum agente cultural criticou as políticas de apoios atribuídos a outros sectores essenciais? Porque é que a cultura tem que ser o bode expiatório?
Nos primeiros seis meses de 2007, o TNSJ vai co-produzir, com oito grupos do Porto, que se irão apresentar no Teatro Carlos Alberto. Isto é também um gesto de solidariedade?
Sempre foi. A solidariedade com as formas de teatro privadas sempre foi uma das nossas marcas.
Sente-se confortável neste papel?
Não, nada. Estamos a transformarmo-nos, perigosamente, numa espécie de delegação norte do Ministério da Cultura. Gostaria imenso de refocalizar completamente a nossa actividade. Por mim, o TECA deveria ser gerido pelo IPAE, por um organismo de Estado, vocacionado à amostragem sistemática do trabalho independente.

"Começar a acabar" - Beckett


É quase sempre assim: João Lagarto não precisa senão de si próprio para fazer do teatro uma arte maior. Num monólogo, este rigor será mais flagrante. Em “Começar a acabar”, patchwork de textos de Samuel Beckett cozidos pelo próprio dramaturgo e escritor irlandês, com remissões para algumas das suas obras mais emblemáticas – Molloy, Malone está a Morrer, À Espera de Godot, O Inominável, Watt, A Última Gravação de Krapp e Endgame –, o actor, que também é responsável pela tradução e encenação, solta o último sopro antes de morrer.
Num cenário despojado, a luz pardacenta, o figurino gasto, as frases interrompidas, engolidas, a ferrugem do corpo, a expectoração, a ingenuidade dos velhos, a ironia e a auto-ironia indicam o caminho para o fim. Ele sabe que “em breve estará morto, finalmente”. Finalmente, porque a imagem que o espelho lhe devolve já não é a do homem “novo e esperto”, nem a do homem de “raivas repentinas” que lhe transformavam “a vida num inferno”.
O espelho confronta-o agora com a necessidade de ter alguém só para ele, alguém que lhe faça companhia e que finja que o ouve. Que ouça o peso dos dias que passava em frente ao mar a lamber pedras; os dias em que o pai garantia que ele é um “aborto”; os dias em que visitava a mãe, essencialmente para lhe pedir dinheiro. E ouça a carga arrependida dos dias em que preferiu a solidão a um eventual casamento.
São as questões de uma vida inteira a mordê-lo como uma matilha impiedosa que João Lagarto consegue traduzir no palco e sintetizar em pouco mais de hora e meia. As questões de “um indivíduo sempre alerta consigo próprio”. Um homem que poderia morrer hoje se quisesse. Se morrer não fosse demorado. Um homem sem ter onde depositar os seus gritos – como os outros todos. “O ar está cheio dos nossos gritos, mas o hábito é um grande amortecedor”.
A peça, que estreou há dois meses no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, está até domingo em cena, no auditório da Academia Contemporânea do Espectáculo - Teatro do Bolhão, no Porto. Assinala o centenário do nascimento do autor e tem música de Jorge Palma.