terça-feira, setembro 26, 2006

Cara ou coroa?

O brasileiro Ediberto Lima, homem que trouxe para Portugal pérolas como o Big Show Sic e o Bar da TV, foi contratado pelo canal regional do Porto, Invicta TV, tendo assumido, no passado dia 16, funções como director geral do canal. Aposto que, antes do fim do ano, apanha Vitor Fernandes, o administrador de 29 anos, na curva, e transforma-se, ele próprio, no administrador da coisa.

domingo, setembro 24, 2006

Filosofia

Gostei de Filosofia como de poucas disciplinas ao longo dos não sei quantos anos que estudei. Sobretudo a do 12º ano. Sobretudo a de Kierkegaard que, aos 16 anos, me abriu a porta para o maravilhoso mundo dos existencialistas. E para uma parte da própria obra dele, que não era obrigatória nas aulas, mas que se tornaria indispensável para a vida, como "O desespero humano", "Conceito de Angústia" ou "Doença mortal". Kant, por exemplo, entendi mais tarde de uma forma diferente. E Hegel, que era uma espécie de ódio de estimação, sofreu a mesma evolução. A verdade é que senti vontade de voltar a todos eles. E ainda volto, recorrentemente. A Platão, a Sócrates, a Nietzsche... Definitivamente, a Kierkegaard. Sempre.
A disciplina ministrada pela temível mas muitíssimo notável professora Amélia Koellher influenciou como nenhuma outra cadeira aquilo em que, de alguma forma, me tornei. A começar pelo acesso à universidade. Lembro, como se tivesse sido hoje, o dia em que fiz a prova específica. Lembro a noite de véspera e aquela manhã em que a mãe me levou a Vila Real para fazer o exame. Lembro que, talvez pela primeira vez na vida, seguramente pela única vez na vida, tinha consciência de saber realmente alguma coisa sobre um assunto concreto. Tive 98% na prova. Entrei na primeira das seis opões: Comunicação Social, em Lisboa - cidade na qual, por outros motivos, nunca cheguei a viver. Sem filosofia ter-me-ía ficado pela terceira ou quarta opção.
Juro que não entendo por que razão o Ministério da Educação tenciona, no próximo ano lectivo, desvalorizar a disciplina enquanto ferramenta de acesso a um dos 357 cursos que a exigiam. Nem as faculdades com licenciaturas em filosofia podem exigir o exame. Em nome de quê?!

sexta-feira, setembro 22, 2006

Isabel Alves Costa

Há qualquer coisa de dolorosamente irónico na medalha de Chevalier des Arts et des Lettres atribuída pelo Governo francês a Isabel Alves Costa, directora artística do Teatro Rivoli, pela sua carreira. O que deveria ter sido, hoje, ao fim da tarde, uma cerimónia de consagração, não passou de um ritual de despedida. Poderia ser mais triste?

Guillemots


Blue world still be blue

It's not raining cats, it's not raining dogs
And pigs are not flying, or turning the cogs
The sun has no hat on, whenever it shines
And I've never seen a cat with nine lives
I'm not in a film, I'm not in a play
I saw no aliens today
I just saw you, and thought of me

And if I had you,
all the stars wouldn't fall from the sky,
and the moon wouldn't start to cry
There'd be no earthquakes
I'd still make mistakes
If i had you
Oh there'd still be day and night,
and I'd still do wrong and right
Ooh Blue would still be blue
But things would be easier with you

And this is no palace, the place that I live
And I am no king, but I've got things to give
And I waste so much time, thinking of time
And I should be out there, claiming what's mine
Any day I could die, just like I was born
And this bit in the middle is what I'm here for
And I just want to fill it all with joy

And if I had you,
all the stars wouldn't fall from the sky,
and the moon wouldn't start to cry
There'd be no earthquakes
I'd still make mistakes
If i had you
Oh there'd still be night and day,
and we'd all still have to pay
Ooh
Blue would still be blue
But things would just be easier with you

quarta-feira, setembro 20, 2006

Guillemots


A mais recente descoberta musical:

Annie, Let's Not Wait

I found something crying;
It was my soul
I fed it milk so it wouldn't grow old
We crossed the borderline at dawn and woke up in a field of corn
My father told me i was late
I better start oiling the gate
Said that those that rush will fall
But i don't want to wait for waves
I don't want to wait at all

Annie, let's not wait
Let's cross the river now
We could sit for years
Staring at our fears
Oh they're such pretty things
They're so cute
But our dreams are all we really need
To grow

I found something dying;
It was my light
It had resigned itself to night
So i threw it out a fishing line
And said catch your will and then catch mine

Annie, let's not wait
Let's cross the river now
We could sit for years
Staring at our fears
Oh they're such pretty things
They're so cute
But in the end they're just a suit

Oh annie let's not wait
Time's not on our side
Well it never was
You know that deep inside

Oh just look at you
With your ruffled hair
Oh i love you
And that's all you need to know annie annie

Espiral de insegurança

Ela já me tinha falado dele. Que é ciumento, possessivo, sufocante, cansativo. Que não conseguia viver nesse colete de forças, nessa desconfiança permanente traduzida em telefonemas sucessivos, perguntas repetidas, insinuações que para ela serão sinal da mais absoluta falta de consideração. Ela, uma daquelas meninas especiais e raras e ímpares na nobreza do carácter, acredita que não existe amor sem respeito e que haver amor - ainda -, estará escondido como um trapo no fundo de uma mala, camuflado. Assisti a alguns telefonemas desse homem, de quem sabia apenas que é arquitecto e mais velho do que ela quatro ou cinco anos. Telefonemas sobre amigas que ele jurava não existirem senão na versão masculina, sobre respirações que ele tinha a certeza de ouvir do lado de lá da linha, do lado onde ela estaria tranquilamente avançando sobre uma traição que só existia na cabeça dele. E no coração, porventura ainda mais frágil, mais inseguro desde que ela, atingindo o limite da tolerância, colocara um ponto final na relação.
Ontem, esse homem ganhou um rosto, uma voz, um corpo. Conheci-o no rescaldo do recomeço da relação e no momento exacto em que ele, depois de ter prometido veementemente mudar, voltou a errar. No que ela considera errar. Voltara, mais depressa do que ela teria desejado, a tropeçar no medo de a perder e quis confirmar que ela, a mulher da vida dele, a mulher sem a qual não se imagina capaz de ser feliz, não o estava a preterir. Vi um homem esguio, belo, doce, tímido, a falar sem voz. Petrifiquei. Literalmente. Vi um homem envergonhado, terrivelmente apaixonado, tantos anos depois de se ter apaixonado por ela pela primeira vez, a morrer de pânico de ficar sem a sua menina espevitada, extrovertida, a sua única razão. E vi uma menina-mulher exercer terapia de choque. Como se a terapia de choque pudesse aniquilar a fraqueza dele. Ou a fraqueza de alguém. Vi-o ali, indefeso, lançar-se nessa espiral letal que só experimenta quem tem um medo cego, doente, maior do que as palavras, de perder alguém.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Missão: salvar o Douro



(Fotos: Leonel de Castro)
Não se ouve sequer o ruído trivial da vida a acontecer. O silêncio impera nas casas, quase todas vazias, quase todas no rés-do chão, encardidas pelo desuso e pela passagem do tempo. E nas vielas estreitas, muitas das quais não vão dar a sítio nenhum. Até os homens a carregar cestos das vindimas trilham o caminho com mudez. Só a chuva, a primeira de Outono, parece contrariar o peso daquela quietude. A paisagem, para quem não vive em Casais do Douro, uma das três povoações de Ervedosa, concelho de S. João da Pesqueira, será idílica. Para qualquer uma das cerca de 40 pessoas que ainda lá resiste, alheia às inovações do mundo, é triste.
“É uma vida muito triste”, confirma dona Maria José, mulher de 76 anos, sentada no beiral da porta a tricotar um conjunto de panos para as netas que, tal como as filhas, só a visitam no dia dos fiéis. “Não lhes levo a mal. Elas têm lá a vida delas, chegaram a pisar uvas para ganhar para os estudos”. Tem uma pediatra, uma enfermeira e uma professora de matemática, todas a morar em Vila Real. A quarta filha casou aos 14 anos, já tem seis descendentes e vive em Tabuaço a “limpar a escola”. Os dois rapazes trabalham em Espanha, que ali ninguém lhes dava emprego. “Mesmo para as vindimas, vão buscar gente de fora”.Ela, viúva há 26 anos, vive sozinha a enganar as horas.”Vivo aqui sozinha nesta chafarica. Sozinha com a televisão e as minhas doenças”. Nem no Natal é diferente. Os dias, todos iguais, e as maleitas fazem com que nem sequer abra a cama para dormir. “Deito-me em cima da coberta. Tanto me faz”. Há coisas que a incomodam mais e que também nunca mudaram. “Nunca tive casa de banho. Meto-me para ali num beco escondido com um balde de água quando quero lavar-me. Para o resto, levo uma sachola para enterrar o que faço”.
Em Casais do Douro não há um único café – os dois que existiam fecharam há muito tempo; não há hospital – o Centro de Saúde mais próximo fica em S. João da Pesqueira, a mais de dez quilómetros de distância; a escola primária também encerrou no último ano lectivo – as seis crianças que lá estudavam vão agora diariamente para Ervedosa. O único estabelecimento comercial é a mercearia de Augusto Sobral, no rés-do-chão da casa que comprou “por 60 contos há 43 anos”.
“A vida é muito difícil. Vendo fiado porque ninguém tem dinheiro. Há quem pague à semana; há quem nunca pague. O que hei-de fazer?”, pergunta o homem, 72 anos, cujo filho, como o filho dos outros todos, abalou para outras paragens. “Teve que ir, que isto não é terra de empregos. Nem de empregos nem de nada. Pode passear aqui a qualquer hora que não vê viva alma. Podiam roubar Casais do Douro que ninguém daria por nada”. A culpa, garante, “é dos maiorais” que monopolizam a localidade. “Gente rica com muitas propriedades, muitas casas. Mas não as alugam; preferem tê-las fechadas. A malta nova casa e tem que sair daqui. Daqui a pouco seremos só meia dúzia”, resigna-se.
Manuel Fernandes, tesoureiro da junta de freguesia de Ervedosa, corrobora. “Não é possível fixar aqui novas gerações, porque há um monopólio de três ou quatro famílias que não vendem nem alugam terrenos. Não conseguimos arranjar espaço para construir zonas verdes ou um polidesportivo. Não é possível sequer alugar casa”, lamenta. Daí que a comemoração dos 250 anos da Zona Demarcada do Douro não interesse à população. “As pessoas têm coisas mais urgentes a ocupar-lhes a cabeça: não têm poder de compra, estão cada vez mais endividadas. Se dizem que trabalham na lavoura, o banco não lhes concede crédito. Vivem uma crise terrível, que não é atenuada com o aniversário”, sublinha.
O pessimismo é de tal ordem que a própria Junta tem recusado as sucessivas solicitações para tomar conta dos Correios. “Os CTT dizem que pagam o funcionário. Mas, já sabe como é, daqui a um ano retiram-no para que sejamos nós a assumir o salário. Como não podemos, perderiamos também o Correio. Já perdemos o médico que vinha cá dar consultas; não podemos dar-nos ao luxo de perder mais coisas”.
Dona Otília já perdeu tudo – até a idade. “Não sei quantos anos tenho. Só sei que qualquer dia mudo-me para aquela casa branca, ali ao fundo”. A casa branca é o cemitério. “É a vida de quem sofre do coração. Já não estou aqui a fazer nada”, diz a encolher-se dentro de casa. Só dona Maria, 68 anos, não é atingida pela nuvem de tristeza que parece corroer Casais do Douro. “Quase não ando, vivo de migalhas, mas chega para todos”. Abre a porta de casa e oferece tudo o que tem. “Recebo com amor e com vontade”.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Diálogos pueris III

Ele: Se não tivesse necessidade num vinha, que hoje está ruim. Dos dias todos do ano, este é o mais bravo! (vento seco). Mas você sim, você vem toda bonita!
Ela: (a entrar) Lá vou para o médico... Isto, uma pessoa basta num bir em coiro que já está asseada.
Ele: Ora, também assim digo.
Ela: Vou lá tratar da baixa da minha filha, que o meu neto foi operado e ela tem que tomar conta dele.
Ele: E quê? Foi grave?
Ela: Foi à garganta, coitado. Não pode levar com os cobertores de noite que abafa; não pode correr que cai com a aflição... Mas o médico diz que mais vale sofrer agora em novo senão quando tal passava a carneiro morto.... o coitadinho....
Ele: E inda é muito novo ou quê?
Ela: Tem 12 anos, anda em 13.
Ele: Oh diacho, então! Sinda ó menos fosse entradote!... Você conhecia o marido da dona Eduarda? Tão novo e lá foi. E olhe, também foi com uma coisa ruim na garganta!
Ela: Então não conhecia?!... Tinha 51 anos o pobre....
Ele: Nããã!!! Tinha mais. Já andava nos 70!
Ela: Isto, tantas vezes o digo, antigamente é que era! Num comíamos sopa; era caldo de lavrador e o pão co diabo amassou. Escravatura, fome de cão, a ceibar o campo o dia inteiro e o povo inda cantava. Isso é que era uma reinação!
Ele: Você pode não acreditar que eu era mais feliz na altura com dois tostões no bolso do que hoje com cem contos! Mas olhe que é a verdadinha.
Ela: E eu que ganho 113 contos só para mim?! Chega-me e sobra-me! Mas porra lá pró dinheiro se num tenho alegria pró gozar!!
Ele: Olhe, também assim digo. Que Deus me perdoe, mas quem me dera me levasse daqui, que isto já num está para nós. Antes a morte à cama!
Sei-o no ranger dos dentes a desfazerem-se uns contra os outros. E na pele da boca esticada por dentro. E na garganta que bloqueia, trava a saliva e enjoa. Sei-o nas mãos que arrefecem e suam e perdem a precisão e tremem. Não param de tremer. Sei-o - como não saber? -, no coração e no impacto das implosões que se ouvem no corpo todo. Sei-o nos olhos a arder e nas noitesinteiras sem os fechar. E na cabeça de peso multiplicado e aquecido. E no frio. Sei que é o princípio do fim.

terça-feira, agosto 29, 2006

O Porto de Ricardo Pais

Ricardo Pais, em entrevista ao Público, hoje, à boleia da mudança de estatuto do Teatro Nacional S. João, no Porto, que deixa de ser Instituto Público e passa a ser uma Entidade Pública Empresarial, na qual ocupará a presidência do Conselho de Administração:

"É difícil dar o salto quando estamos nesta ilha, sentados no meio do lumpen, com a vizinhança que temos por aí à volta, e estando a Baixa votada ao que está. A cereja em cima do bolo foi agora a privatização do Rivoli. A requalificação da Baixa a partir da cultura, que começou em 1998 e continuou em 2001, culmina agora. O contrato de concessão do Rivoli a um privado é um gigantesco subsídio a fundo perdido. Finalmente, a subsidiodependência!"

"As pessoas não vêm à Baixa senão para vir ao S. João ou aos Maus Hábitos. A Baixa é um deserto. Acreditou-se que o percurso S. João-Coliseu-Maus Hábitos-Passos Manuel-Rivoli-TeCA pudesse vir a regenerá-la, mas isto tem vindo a ser sistematicamente destruído desde 2001. Nós estamos cada vez mais sozinhos."

"A alta finança mudou-se toda para o eixo Avenida da Boavista-Marechal Gomes da Costa - também é por lá que mora. A Baixa deixou de interessar completamente: foi um emblema divertido para se fazer saneamento básico em 2001. A cortina de fumo sobre o investimento privado lançada na Fundação de Serralves e aproveitada para a CdM abriu portas a esta espécie de inevitabilidade contabilística que o dr. Rio impôs à cidade, ao entregar o Rivoli aos privados. Continuamos a negociar com os privados como se os privados pagassem alguma coisa: Serralves e a CdM são maciçamente pagos pelo Estado e a comparticipação dos privados, que é com certeza muito bem vinda, especialmente agora que podem fazer um brilharete com as arquitecturas, é muito relativa. Mas, à boa tradição burguesa do Porto, deu-se aos empresários e aos financeiros um protagonismo absoluto na discussão do estatuto e do equilíbrio de forças dentro da CdM. E o dr. Rui Rio riu-se, porque também é sócio sem pagar grande coisa."

"Cá somos muito mais respeitados como gente de poder do que como criadores, com toda a franqueza. Somos respeitados por termos conseguido fazer, de uma coisa que poderia ser um elefante branco, um agilíssimo produtor de teatro e um belíssimo interlocutor do tecido teatral português. Mas não somos tão queridos como criadores, nem convém muito que o sejamos, porque é muito poder dado à mesma gente. Duas casas, um orçamento, a capacidade de fazer e, ainda por cima, belíssimos artistas - não pode ser".

"Os meus mandatos por tendência esticam-se indefinidamente".

Eduardo Prado Coelho

"O intelectual alemão"
O fio do horizonte, no Público

Um escândalo a preparar um sucesso literário. Günter Grass, esse intelectual alemão mais intelectual do que os outros, anunciou que aos 17 anos tinha feito parte das unidades do Waffen SS, vanguarda militar nazi. Diversas desculpas. O ambiente familiar era demasiado opressivo. Uma amiga dirá que a casa era demasiado pequena. Outra insinuará que ele sempre teve fascinação pelas fardas... Mas as reacções foram imensas e não há escritor que se preze, seja alemão ou português, que se não tenha pronunciado sobre o caso.Lech Walesa pediu que ele renunciasse ao Prémio Nobel.
Adam Micnick lembrou o passado nazi do Papa Bento XVI. E Günter Grass, trocando um bocado os pés pelas mãos, afirmou que toda a sua vida tinha vivido com este sentimento de culpa. E que já não aguentava mais este segredo. Donde, nas vésperas do lançamento da sua autobiografia, vistosamente intitulada Descascando a Cebola, o segredo rebentou-lhe na boca, sem que ninguém tivesse percebido porquê só agora.
De qualquer modo, o lançamento do livro foi antecipado e tornou-se desde logo um extraordinário êxito de vendas.Entre nós, para além do famoso argumento de Saramago, quando pergunta "então o resto da vida não conta?", sem que tome consciência de que não é o alistamento, mas o resto da vida que o compromete, o grande discurso sobre o caso diz fundamentalmente o seguinte: o que conta é o grande escritor, não este episódio infeliz da vida dele.Admito que Günter Grass seja um grande escritor. Confesso que não é o meu registo. Acho este imaginário enxundioso em que se combinam nazis com cebolas bastante insuportável. Confesso mesmo que nunca consegui ler um romance de Günter Grass até ao fim. Irritei-me sempre pelo caminho.Mas esta não é a questão fundamental.
Estamos aqui no mero juízo de gosto. O que eu gostaria de fazer é uma distinção: entre os meros escritores e os intelectuais. Gastão Cruz ou Hélia Correia são, fundamentalmente, escritores. Já António Mega Ferreira é um escritor mas também um intelectual, Se pensarmos em Pacheco Pereira, temos alguém que publica livros, mas sem dimensão literária, e é sobretudo um intelectual. Qualquer intelectual que se preze não prescinde hoje de ter o seu blogue. Muitos têm blogues para ser intelectuais.
Ora acontece que Günter Grass não foi apenas um escritor, tem sido também um intelectual, e que intelectual! Ele pretendeu ser uma espécie de consciência alemã apoiada no dever da memória. Não se deve recalcar, deve-se assumir um passado vergonhoso. E este aspecto de intelectual ajusta-se com dificuldade ao seu percurso pessoal: o de um segredo com que conscientemente se vive ao longo de quase uma existência. É claro que o resto da vida conta, mas conta negativamente. E a questão da qualidade da sua escrita e da composição das suas ficções não está aqui em causa. Professor universitário

segunda-feira, agosto 28, 2006

Bairro do Leal, Porto

(Foto: José Mota)
Regresso ao Bairro do Leal. É fim de tarde e o sol benze as casas com cheiro a jantar na mesa. Ainda há comadres à porta a por a última conversa em dia. Há mulheres de bata vestida, ainda coradas da praia de Matosinhos onde todos os dias levam os netos, que o dinheiro não lhes permite "alugar uma barraca mais longe". E mulheres a guardar outras mulheres, mais velhas, em casa. Para comer a sopa. A dona Teresinha, de oitenta e tantos anos, está a ser comida pela cegueira. Já não faz seja o que for sozinha. Trata a vizinha por mãe e diz que a praia "são muitas horas". Ainda parecem todos uma família, apesar de serem cada vez menos. E eu, que só lá estive uma vez, sou recebida como se fosse um deles - um familiar de longe que vem cumprir uma visita. Com direito ao inexplicável calor de um abraço, de um beijo que não pede nada em troca. Só dois dedos de conversa. De atenção. Recebo mais do que dou.
Aquela senhora mais velha, a da casa da esquina, a dona Claudina, que vive sozinha há tantos anos, depois de ter enviuvado precocemente e, mesmo assim, ter criado seis filhos, já não sai de casa. Está cansada. "Cansada das pernas e de ter medo". Fala através das grades da porta. "Não é por falta de respeito; é por não me ajeitar com a bengala". Também está cansada da cabeça, diz baixinho para não ser mal interpretada. "Ainda sei bem o que digo - e sabe -, mas estou muito cansada. Tão cansada", repete, com as lágrimas a quererem saltar-lhe dos olhos e ela a não permitir. Faz 87 anos para o mês que vem. Está "cansada de não dormir durante a noite". Vive no meio do restolho, cercada por dois casulos em ruínas, onde os rapazes vão drogar-se e fazer "outras porcarias" de que diz nem saber o nome. Só sabe que levam um rádio de música a "dar alto", que dizem muitos palavrões e que, de manhã cedo, quando acorda, os vê ainda "erguer as calças".
No bairro do Leal ninguém parece ter a idade que tem. Dona Irene, "quis Deus tivesse jeitinho de mãos" para fazer arranjos e com isso governar a vida, brinca com a dela. Sabe que parece mais nova do que os seus 59 anos. E diz que é por estar no céu. "Tu estás no céu", diz-lhe a irmã a aludir ao bem por ela praticado. E ela repete. "Só queria que não me tirassem daqui, que a minha casinha é pequenina, mas muito asseada". Se ganhasse o totoloto comprava o terreno inteiro para "cada pessoa poder ficar no seu cantinho". Mas ela nem sequer joga. Gastou 80 cêntimos no outro dia pela primeira vez e a meias com a irmã. Foram 80 cêntimos perdidos
As pessoas do Bairro do Leal já foram felizes. Nos tempos em que ali passavam carros de bois e compravam um quarto de litro de azeite ao azeiteiro - "azeiteiro, era mesmo assim que se chamava" -, um litro de leite ao leiteiro e por aí fora. O senhor Fernando, de olhos verdes como o filho mais novo, tem 52 anos. Nasceu ali e sabe bem do que fala. Não tem saudades do tempo que não volta; tem saudades dos tempos em que diziam que o bairro ia abaixo sem nunca ir. "Tinha a idade do meu mais novo e já ouvia isso". Quase aprendeu a desvalorizar. Foi fazendo obras na casa que é do senhorio, colocando azulejos à medida que ia podendo. Até fez umas escadas por dentro para ter acesso à adega onde guarda as suas coisas e a garrafeira. Mas isso foi nos tempos em que ainda tinha emprego. Tempos em que ainda acreditava que ia morrer no sítio onde nasceu. Ele e a sua Maria Virgínia.
Rui Rio, presidente da Câmara do Porto, destruiu-lhe a pretensão. A dele e de todos os outros, mais velhos, cansados, doentes, que depositou, como cacos velhos, longe de tudo, nos terceiros e quartos andares de bairros que, até serem o deles, não sabiam que existiam. Acelerou-lhes a idade. Condenou-os à morte. "E isso não tem perdão", diz a dona Tininha da casa entaipada de chapa amarela para não cair. "Não tem".

The Pillowman



Paula Rego afirmou em 2004, numa entrevista à Grande Reportagem, que gostava que fosse Ricardo Pais a encenar o texto de Martin Mcdonagh, jovem dramaturgo irlandês que inspirou o tríptico "The Pillowman" - a obra esteve, pela primeira vez, em exposição no Tate Museum, em Londres, ao mesmo tempo que Serralves, no Porto, exibia uma retrospectiva da obra da pintora. Aparentemente, o encenador e director do Teatro Nacional S. João não terá sido sensível à solicitação e acaba por ser Tiago Guedes, co-realizador do afamado "Coisa Ruim", o responsável pela estreia do texto, no próximo dia 7 de Setembro, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

“The Pillowman” (O homem da almofada) surge descrito na apresentação da peça, como sendo "um conto teatral que analisa a natureza e o propósito da arte de contar uma história. Num regime totalitário, um escritor é interrogado acerca do conteúdo grotesco dos seus contos e das suas semelhanças com uma série de homicídios infantis que estão a acontecer na sua cidade. O título da peça é o nome de um dos contos desse escritor, onde um simpático e fofo personagem feito de almofadas encoraja crianças pequenas a suicidarem-se, de forma a evitarem assim uma vida inteira de sofrimento".
Paula Rego descreveu-o antes desta forma: "Ele fala de uma menina que faz maçãzinhas todas recortadas com gilettes lá dentro e dá a comer ao pai. Depois, à noite, ela está a dormir e aquilo vem tudo por ali acima. É uma história muito macabra. Como é que ele consegue escrever coisas fantásticas daquelas aos 17 anos?"

O espectáculo estará em cena na sala principal do Teatro Maria Matos até 15 de Outubro. De quarta a sábado, às 21.30; e aos domingos às 17 horas.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Diálogos pueris II

Ele: Nunca mais consegui refazer a minha vida.
Ela: Tanga. Já passaram dez anos!!!
Ele: Dez anos de sofrimento.
Ela: (risos) Tu é que sofreste?!
Ele: Sim, eu. E continuo. Por isso é que não consigo ser teu amigo.
Ela: Isso é ridículo. Então, nunca chegaremos a ser.
Ele: Não acreditas que continuo a sofrer? Que nunca mais tive nenhuma relação séria?
Ela: Claro que não! Tiveste pelo menos uma namorada. Lembro-me de te ver com ela...
Ele: Não durou muito. Ela não tinha paciência para mim...
Ela: Eu tinha?
Ele: Também não.
Ela: Então o problema deve ser teu.
Ele: Pode ser. Mas, no nosso caso, a culpa foi tua.
Ela: Minha?! Tu é que me traíste, lembras-te?
Ele: Era fraco. De repente, parece que era assediado por todas mulheres... mas mudei.
Ela: Quer dizer que não me traíste só uma vez?
Ele: Não.
Ela: Quantas? Lembras-te?
Ele: Algumas. Mas todas sem importância.
Ela: (...)
Ele: Sem importância, a sério. Eu gostava de ti. Teria ficado contigo até hoje.
Ela: Dez anos depois, eis o sound byte do dia. Devia ter imaginado.
Ele: Mas tu fizeste pior...
Ela: (risos) A sério? (risos, risos, risos). O que é que eu fiz? Isto é, além de ter continuado contigo mais não sei quanto tempo?
Ele: Tu tinhas um melhor amigo.
Ela: (risos) A sério? Isso é grave? É que ainda o tenho. É o meu melhor amigo há 20 anos. E?
Ele: E eu tinha ciúmes dele.
Ela: E por isso desataste a sair por aí... porque eu tinha um amigo?!
Ele: Sim. Para me vingar. E tinha razão...
Ela: Tinhas?!
Ele: Tinha. Continuas a ser amiga dele. E eu continuo sozinho.

Verdade ou consequência?

- O Pedro Rolo Duarte vai ser o próximo director do Independente?
- O Expresso vai ter, a partir de Setembro, menos 30% de texto?
- O Sol vai ultrapassar o Expresso em seis meses?
- O Público (contratou o designer do The Guardian) vai ser refundado em Janeiro de 2007?
- O DN vai mesmo despedir 35 jornalistas?
- A publicidade na rádio teve uma queda drástica na primeira metade deste ano?
- O Porto Canal vai mesmo abrir em Outubro?

Top

"Conheci um lugar top"; "Tenho um projecto top"; "És uma pessoa top"; "Tive umas férias top"; "Vi um filme top"; "Li um livro top"; "Ouvi um disco top"; "Tive uma noite top"; "Descobri uma cena top"; Top; Top; Top. Sei que há expressões que entram inexplicavelmente na moda sendo depois reproduzidas indiscriminadamente a propósito de tudo e por toda a gente. Mas, com franqueza, haverá alguma expressão mais irritante?

MEC

É só um problema meu ou o Miguel Esteves Cardoso lida mal com a popularidade e voltou a desaparecer da blogosfera?

Diálogos pueris I

Ele: Não fui eu que inventei a infidelidade. Ela já existia antes de mim. Eu sou só como os homens todos.
Ela: Há homens fiéis. Eu conheço muitos.
Ele: Eu conheço muitos mentirosos.
Ela: A tua mulher sabe isso?
Ele: Não faz perguntas para não ouvir as respostas. E sabe que o nosso casamento é uma instituição inabalável.
Ela: Inabalável como? Quantas vidas paralelas consegues manter?
Ele: Inabalável. O nosso casamento é uma espécie de SA. A máquina - os filhos, a casa, a vida social, o médico e a escola das crianças -, nunca deixa de funcionar. Depois, há o resto.
Ela: O resto?
Ele: A adrenalina, o contrário da rotina. O casamento deixa de ser divertido em muito pouco tempo. E a vida é uma passagem rápida. Não se pode desperdiçar.
Ela: E a cumplicidade fica de que lado?
Ele: Do lado de fora. A cumplicidade é o lado bom da vida.
Ela: A cumplicidade não é isso. Adiante. Quantas vidas paralelas consegues manter?
Ele: Normalmente, duas. A minha mulher e a outra. Tive uma que durou dois anos.
Ela: Dois anos não é rotina?
Ele: Não, porque não havia as obrigações. Não havia os chinelos e o robe.
Ela: E porque é que acabou?
Ele: Porque ela queria casar. As mulheres querem sempre casar.
Ela: Nunca vacilaste?
Ele: Vacilar como?
Ela: Nunca te apaixonaste por um desses casos? Nunca tiveste vontade de começar tudo outra vez, e dessa vez a sério?
Ele: Não. Ou melhor, talvez. Mas espero que passe. E passa sempre. A minha única preocupação é fazer a minha mulher feliz.
Ela: Isso é uma piada? Fazê-la feliz? Achas que ela é feliz?
Ele: Tenho a certeza.