quarta-feira, agosto 30, 2006

Diálogos pueris III

Ele: Se não tivesse necessidade num vinha, que hoje está ruim. Dos dias todos do ano, este é o mais bravo! (vento seco). Mas você sim, você vem toda bonita!
Ela: (a entrar) Lá vou para o médico... Isto, uma pessoa basta num bir em coiro que já está asseada.
Ele: Ora, também assim digo.
Ela: Vou lá tratar da baixa da minha filha, que o meu neto foi operado e ela tem que tomar conta dele.
Ele: E quê? Foi grave?
Ela: Foi à garganta, coitado. Não pode levar com os cobertores de noite que abafa; não pode correr que cai com a aflição... Mas o médico diz que mais vale sofrer agora em novo senão quando tal passava a carneiro morto.... o coitadinho....
Ele: E inda é muito novo ou quê?
Ela: Tem 12 anos, anda em 13.
Ele: Oh diacho, então! Sinda ó menos fosse entradote!... Você conhecia o marido da dona Eduarda? Tão novo e lá foi. E olhe, também foi com uma coisa ruim na garganta!
Ela: Então não conhecia?!... Tinha 51 anos o pobre....
Ele: Nããã!!! Tinha mais. Já andava nos 70!
Ela: Isto, tantas vezes o digo, antigamente é que era! Num comíamos sopa; era caldo de lavrador e o pão co diabo amassou. Escravatura, fome de cão, a ceibar o campo o dia inteiro e o povo inda cantava. Isso é que era uma reinação!
Ele: Você pode não acreditar que eu era mais feliz na altura com dois tostões no bolso do que hoje com cem contos! Mas olhe que é a verdadinha.
Ela: E eu que ganho 113 contos só para mim?! Chega-me e sobra-me! Mas porra lá pró dinheiro se num tenho alegria pró gozar!!
Ele: Olhe, também assim digo. Que Deus me perdoe, mas quem me dera me levasse daqui, que isto já num está para nós. Antes a morte à cama!
Sei-o no ranger dos dentes a desfazerem-se uns contra os outros. E na pele da boca esticada por dentro. E na garganta que bloqueia, trava a saliva e enjoa. Sei-o nas mãos que arrefecem e suam e perdem a precisão e tremem. Não param de tremer. Sei-o - como não saber? -, no coração e no impacto das implosões que se ouvem no corpo todo. Sei-o nos olhos a arder e nas noitesinteiras sem os fechar. E na cabeça de peso multiplicado e aquecido. E no frio. Sei que é o princípio do fim.

terça-feira, agosto 29, 2006

O Porto de Ricardo Pais

Ricardo Pais, em entrevista ao Público, hoje, à boleia da mudança de estatuto do Teatro Nacional S. João, no Porto, que deixa de ser Instituto Público e passa a ser uma Entidade Pública Empresarial, na qual ocupará a presidência do Conselho de Administração:

"É difícil dar o salto quando estamos nesta ilha, sentados no meio do lumpen, com a vizinhança que temos por aí à volta, e estando a Baixa votada ao que está. A cereja em cima do bolo foi agora a privatização do Rivoli. A requalificação da Baixa a partir da cultura, que começou em 1998 e continuou em 2001, culmina agora. O contrato de concessão do Rivoli a um privado é um gigantesco subsídio a fundo perdido. Finalmente, a subsidiodependência!"

"As pessoas não vêm à Baixa senão para vir ao S. João ou aos Maus Hábitos. A Baixa é um deserto. Acreditou-se que o percurso S. João-Coliseu-Maus Hábitos-Passos Manuel-Rivoli-TeCA pudesse vir a regenerá-la, mas isto tem vindo a ser sistematicamente destruído desde 2001. Nós estamos cada vez mais sozinhos."

"A alta finança mudou-se toda para o eixo Avenida da Boavista-Marechal Gomes da Costa - também é por lá que mora. A Baixa deixou de interessar completamente: foi um emblema divertido para se fazer saneamento básico em 2001. A cortina de fumo sobre o investimento privado lançada na Fundação de Serralves e aproveitada para a CdM abriu portas a esta espécie de inevitabilidade contabilística que o dr. Rio impôs à cidade, ao entregar o Rivoli aos privados. Continuamos a negociar com os privados como se os privados pagassem alguma coisa: Serralves e a CdM são maciçamente pagos pelo Estado e a comparticipação dos privados, que é com certeza muito bem vinda, especialmente agora que podem fazer um brilharete com as arquitecturas, é muito relativa. Mas, à boa tradição burguesa do Porto, deu-se aos empresários e aos financeiros um protagonismo absoluto na discussão do estatuto e do equilíbrio de forças dentro da CdM. E o dr. Rui Rio riu-se, porque também é sócio sem pagar grande coisa."

"Cá somos muito mais respeitados como gente de poder do que como criadores, com toda a franqueza. Somos respeitados por termos conseguido fazer, de uma coisa que poderia ser um elefante branco, um agilíssimo produtor de teatro e um belíssimo interlocutor do tecido teatral português. Mas não somos tão queridos como criadores, nem convém muito que o sejamos, porque é muito poder dado à mesma gente. Duas casas, um orçamento, a capacidade de fazer e, ainda por cima, belíssimos artistas - não pode ser".

"Os meus mandatos por tendência esticam-se indefinidamente".

Eduardo Prado Coelho

"O intelectual alemão"
O fio do horizonte, no Público

Um escândalo a preparar um sucesso literário. Günter Grass, esse intelectual alemão mais intelectual do que os outros, anunciou que aos 17 anos tinha feito parte das unidades do Waffen SS, vanguarda militar nazi. Diversas desculpas. O ambiente familiar era demasiado opressivo. Uma amiga dirá que a casa era demasiado pequena. Outra insinuará que ele sempre teve fascinação pelas fardas... Mas as reacções foram imensas e não há escritor que se preze, seja alemão ou português, que se não tenha pronunciado sobre o caso.Lech Walesa pediu que ele renunciasse ao Prémio Nobel.
Adam Micnick lembrou o passado nazi do Papa Bento XVI. E Günter Grass, trocando um bocado os pés pelas mãos, afirmou que toda a sua vida tinha vivido com este sentimento de culpa. E que já não aguentava mais este segredo. Donde, nas vésperas do lançamento da sua autobiografia, vistosamente intitulada Descascando a Cebola, o segredo rebentou-lhe na boca, sem que ninguém tivesse percebido porquê só agora.
De qualquer modo, o lançamento do livro foi antecipado e tornou-se desde logo um extraordinário êxito de vendas.Entre nós, para além do famoso argumento de Saramago, quando pergunta "então o resto da vida não conta?", sem que tome consciência de que não é o alistamento, mas o resto da vida que o compromete, o grande discurso sobre o caso diz fundamentalmente o seguinte: o que conta é o grande escritor, não este episódio infeliz da vida dele.Admito que Günter Grass seja um grande escritor. Confesso que não é o meu registo. Acho este imaginário enxundioso em que se combinam nazis com cebolas bastante insuportável. Confesso mesmo que nunca consegui ler um romance de Günter Grass até ao fim. Irritei-me sempre pelo caminho.Mas esta não é a questão fundamental.
Estamos aqui no mero juízo de gosto. O que eu gostaria de fazer é uma distinção: entre os meros escritores e os intelectuais. Gastão Cruz ou Hélia Correia são, fundamentalmente, escritores. Já António Mega Ferreira é um escritor mas também um intelectual, Se pensarmos em Pacheco Pereira, temos alguém que publica livros, mas sem dimensão literária, e é sobretudo um intelectual. Qualquer intelectual que se preze não prescinde hoje de ter o seu blogue. Muitos têm blogues para ser intelectuais.
Ora acontece que Günter Grass não foi apenas um escritor, tem sido também um intelectual, e que intelectual! Ele pretendeu ser uma espécie de consciência alemã apoiada no dever da memória. Não se deve recalcar, deve-se assumir um passado vergonhoso. E este aspecto de intelectual ajusta-se com dificuldade ao seu percurso pessoal: o de um segredo com que conscientemente se vive ao longo de quase uma existência. É claro que o resto da vida conta, mas conta negativamente. E a questão da qualidade da sua escrita e da composição das suas ficções não está aqui em causa. Professor universitário

segunda-feira, agosto 28, 2006

Bairro do Leal, Porto

(Foto: José Mota)
Regresso ao Bairro do Leal. É fim de tarde e o sol benze as casas com cheiro a jantar na mesa. Ainda há comadres à porta a por a última conversa em dia. Há mulheres de bata vestida, ainda coradas da praia de Matosinhos onde todos os dias levam os netos, que o dinheiro não lhes permite "alugar uma barraca mais longe". E mulheres a guardar outras mulheres, mais velhas, em casa. Para comer a sopa. A dona Teresinha, de oitenta e tantos anos, está a ser comida pela cegueira. Já não faz seja o que for sozinha. Trata a vizinha por mãe e diz que a praia "são muitas horas". Ainda parecem todos uma família, apesar de serem cada vez menos. E eu, que só lá estive uma vez, sou recebida como se fosse um deles - um familiar de longe que vem cumprir uma visita. Com direito ao inexplicável calor de um abraço, de um beijo que não pede nada em troca. Só dois dedos de conversa. De atenção. Recebo mais do que dou.
Aquela senhora mais velha, a da casa da esquina, a dona Claudina, que vive sozinha há tantos anos, depois de ter enviuvado precocemente e, mesmo assim, ter criado seis filhos, já não sai de casa. Está cansada. "Cansada das pernas e de ter medo". Fala através das grades da porta. "Não é por falta de respeito; é por não me ajeitar com a bengala". Também está cansada da cabeça, diz baixinho para não ser mal interpretada. "Ainda sei bem o que digo - e sabe -, mas estou muito cansada. Tão cansada", repete, com as lágrimas a quererem saltar-lhe dos olhos e ela a não permitir. Faz 87 anos para o mês que vem. Está "cansada de não dormir durante a noite". Vive no meio do restolho, cercada por dois casulos em ruínas, onde os rapazes vão drogar-se e fazer "outras porcarias" de que diz nem saber o nome. Só sabe que levam um rádio de música a "dar alto", que dizem muitos palavrões e que, de manhã cedo, quando acorda, os vê ainda "erguer as calças".
No bairro do Leal ninguém parece ter a idade que tem. Dona Irene, "quis Deus tivesse jeitinho de mãos" para fazer arranjos e com isso governar a vida, brinca com a dela. Sabe que parece mais nova do que os seus 59 anos. E diz que é por estar no céu. "Tu estás no céu", diz-lhe a irmã a aludir ao bem por ela praticado. E ela repete. "Só queria que não me tirassem daqui, que a minha casinha é pequenina, mas muito asseada". Se ganhasse o totoloto comprava o terreno inteiro para "cada pessoa poder ficar no seu cantinho". Mas ela nem sequer joga. Gastou 80 cêntimos no outro dia pela primeira vez e a meias com a irmã. Foram 80 cêntimos perdidos
As pessoas do Bairro do Leal já foram felizes. Nos tempos em que ali passavam carros de bois e compravam um quarto de litro de azeite ao azeiteiro - "azeiteiro, era mesmo assim que se chamava" -, um litro de leite ao leiteiro e por aí fora. O senhor Fernando, de olhos verdes como o filho mais novo, tem 52 anos. Nasceu ali e sabe bem do que fala. Não tem saudades do tempo que não volta; tem saudades dos tempos em que diziam que o bairro ia abaixo sem nunca ir. "Tinha a idade do meu mais novo e já ouvia isso". Quase aprendeu a desvalorizar. Foi fazendo obras na casa que é do senhorio, colocando azulejos à medida que ia podendo. Até fez umas escadas por dentro para ter acesso à adega onde guarda as suas coisas e a garrafeira. Mas isso foi nos tempos em que ainda tinha emprego. Tempos em que ainda acreditava que ia morrer no sítio onde nasceu. Ele e a sua Maria Virgínia.
Rui Rio, presidente da Câmara do Porto, destruiu-lhe a pretensão. A dele e de todos os outros, mais velhos, cansados, doentes, que depositou, como cacos velhos, longe de tudo, nos terceiros e quartos andares de bairros que, até serem o deles, não sabiam que existiam. Acelerou-lhes a idade. Condenou-os à morte. "E isso não tem perdão", diz a dona Tininha da casa entaipada de chapa amarela para não cair. "Não tem".

The Pillowman



Paula Rego afirmou em 2004, numa entrevista à Grande Reportagem, que gostava que fosse Ricardo Pais a encenar o texto de Martin Mcdonagh, jovem dramaturgo irlandês que inspirou o tríptico "The Pillowman" - a obra esteve, pela primeira vez, em exposição no Tate Museum, em Londres, ao mesmo tempo que Serralves, no Porto, exibia uma retrospectiva da obra da pintora. Aparentemente, o encenador e director do Teatro Nacional S. João não terá sido sensível à solicitação e acaba por ser Tiago Guedes, co-realizador do afamado "Coisa Ruim", o responsável pela estreia do texto, no próximo dia 7 de Setembro, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

“The Pillowman” (O homem da almofada) surge descrito na apresentação da peça, como sendo "um conto teatral que analisa a natureza e o propósito da arte de contar uma história. Num regime totalitário, um escritor é interrogado acerca do conteúdo grotesco dos seus contos e das suas semelhanças com uma série de homicídios infantis que estão a acontecer na sua cidade. O título da peça é o nome de um dos contos desse escritor, onde um simpático e fofo personagem feito de almofadas encoraja crianças pequenas a suicidarem-se, de forma a evitarem assim uma vida inteira de sofrimento".
Paula Rego descreveu-o antes desta forma: "Ele fala de uma menina que faz maçãzinhas todas recortadas com gilettes lá dentro e dá a comer ao pai. Depois, à noite, ela está a dormir e aquilo vem tudo por ali acima. É uma história muito macabra. Como é que ele consegue escrever coisas fantásticas daquelas aos 17 anos?"

O espectáculo estará em cena na sala principal do Teatro Maria Matos até 15 de Outubro. De quarta a sábado, às 21.30; e aos domingos às 17 horas.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Diálogos pueris II

Ele: Nunca mais consegui refazer a minha vida.
Ela: Tanga. Já passaram dez anos!!!
Ele: Dez anos de sofrimento.
Ela: (risos) Tu é que sofreste?!
Ele: Sim, eu. E continuo. Por isso é que não consigo ser teu amigo.
Ela: Isso é ridículo. Então, nunca chegaremos a ser.
Ele: Não acreditas que continuo a sofrer? Que nunca mais tive nenhuma relação séria?
Ela: Claro que não! Tiveste pelo menos uma namorada. Lembro-me de te ver com ela...
Ele: Não durou muito. Ela não tinha paciência para mim...
Ela: Eu tinha?
Ele: Também não.
Ela: Então o problema deve ser teu.
Ele: Pode ser. Mas, no nosso caso, a culpa foi tua.
Ela: Minha?! Tu é que me traíste, lembras-te?
Ele: Era fraco. De repente, parece que era assediado por todas mulheres... mas mudei.
Ela: Quer dizer que não me traíste só uma vez?
Ele: Não.
Ela: Quantas? Lembras-te?
Ele: Algumas. Mas todas sem importância.
Ela: (...)
Ele: Sem importância, a sério. Eu gostava de ti. Teria ficado contigo até hoje.
Ela: Dez anos depois, eis o sound byte do dia. Devia ter imaginado.
Ele: Mas tu fizeste pior...
Ela: (risos) A sério? (risos, risos, risos). O que é que eu fiz? Isto é, além de ter continuado contigo mais não sei quanto tempo?
Ele: Tu tinhas um melhor amigo.
Ela: (risos) A sério? Isso é grave? É que ainda o tenho. É o meu melhor amigo há 20 anos. E?
Ele: E eu tinha ciúmes dele.
Ela: E por isso desataste a sair por aí... porque eu tinha um amigo?!
Ele: Sim. Para me vingar. E tinha razão...
Ela: Tinhas?!
Ele: Tinha. Continuas a ser amiga dele. E eu continuo sozinho.

Verdade ou consequência?

- O Pedro Rolo Duarte vai ser o próximo director do Independente?
- O Expresso vai ter, a partir de Setembro, menos 30% de texto?
- O Sol vai ultrapassar o Expresso em seis meses?
- O Público (contratou o designer do The Guardian) vai ser refundado em Janeiro de 2007?
- O DN vai mesmo despedir 35 jornalistas?
- A publicidade na rádio teve uma queda drástica na primeira metade deste ano?
- O Porto Canal vai mesmo abrir em Outubro?

Top

"Conheci um lugar top"; "Tenho um projecto top"; "És uma pessoa top"; "Tive umas férias top"; "Vi um filme top"; "Li um livro top"; "Ouvi um disco top"; "Tive uma noite top"; "Descobri uma cena top"; Top; Top; Top. Sei que há expressões que entram inexplicavelmente na moda sendo depois reproduzidas indiscriminadamente a propósito de tudo e por toda a gente. Mas, com franqueza, haverá alguma expressão mais irritante?

MEC

É só um problema meu ou o Miguel Esteves Cardoso lida mal com a popularidade e voltou a desaparecer da blogosfera?

Diálogos pueris I

Ele: Não fui eu que inventei a infidelidade. Ela já existia antes de mim. Eu sou só como os homens todos.
Ela: Há homens fiéis. Eu conheço muitos.
Ele: Eu conheço muitos mentirosos.
Ela: A tua mulher sabe isso?
Ele: Não faz perguntas para não ouvir as respostas. E sabe que o nosso casamento é uma instituição inabalável.
Ela: Inabalável como? Quantas vidas paralelas consegues manter?
Ele: Inabalável. O nosso casamento é uma espécie de SA. A máquina - os filhos, a casa, a vida social, o médico e a escola das crianças -, nunca deixa de funcionar. Depois, há o resto.
Ela: O resto?
Ele: A adrenalina, o contrário da rotina. O casamento deixa de ser divertido em muito pouco tempo. E a vida é uma passagem rápida. Não se pode desperdiçar.
Ela: E a cumplicidade fica de que lado?
Ele: Do lado de fora. A cumplicidade é o lado bom da vida.
Ela: A cumplicidade não é isso. Adiante. Quantas vidas paralelas consegues manter?
Ele: Normalmente, duas. A minha mulher e a outra. Tive uma que durou dois anos.
Ela: Dois anos não é rotina?
Ele: Não, porque não havia as obrigações. Não havia os chinelos e o robe.
Ela: E porque é que acabou?
Ele: Porque ela queria casar. As mulheres querem sempre casar.
Ela: Nunca vacilaste?
Ele: Vacilar como?
Ela: Nunca te apaixonaste por um desses casos? Nunca tiveste vontade de começar tudo outra vez, e dessa vez a sério?
Ele: Não. Ou melhor, talvez. Mas espero que passe. E passa sempre. A minha única preocupação é fazer a minha mulher feliz.
Ela: Isso é uma piada? Fazê-la feliz? Achas que ela é feliz?
Ele: Tenho a certeza.

quinta-feira, agosto 24, 2006

DECO!!!!!!!


Deco acaba de ser eleito pela UEFA o melhor médio da época 2005/2006. Grande, GRANDE Deco!!!!!

quarta-feira, agosto 23, 2006

Clínicas Privadas vs Hospitais Públicos

Cinco da manhã. Acordo com uma daquelas dores de qualquer coisa que me obriga a sair da cama para ir às urgências. Penso que, apesar de tudo, não será grave e talvez não seja boa ideia ir a um hospital público. Imaginei que numa vulgar triagem qualquer pessoa me passaria à frente e a minha dor não me permitia esperar. Tinha, apenas, cinco horas para me restabelecer e apresentar ao trabalho. Além disso, da última vez que fui a um hospital público com uma dor semelhante, entrei às 15 horas e fui operada à meia-noite. Essas traumáticas nove horas de espera negligente, que me obrigaram a ficar com uma absolutamente desnecessária e gigantesca cicatriz, fizeram-me optar, desta vez, pela clínica particular mais próxima de casa: a da Boavista.
Toco à campainha da dita clínica 15 minutos antes das seis da manhã. O equipamento parece abandonado, apesar da placa exterior assegurar existir serviço de atendimento durante 24 horas. À terceira tentativa, lá surge um porteiro ou um segurança ou uma figura parecida. Ajudo-o, a custo, a preencher uma ficha, apesar de o meu nome já constar daquela unidade de saúde. O funcionário ignora a minha angústia; escreve o meu nome com a lentidão de quem acaba de acordar. Não existe um único utente à espera, mas ele manda-me esperar. Espero. Espero mais de meia hora até aparecer uma enfermeira imberbe, também ela acabadinha de acordar. Está baralhada. Não encontra um mísero termómetro. Manda-me esperar enquanto vai procurar o instrumento de medição da temperatura. Volta. Diz que não o consegue encontrar. Volta a desaparecer. Regressa. Não faz perguntas. Não tenho febre. A tensão arterial também parece estar dentro dos valores normais. Manda-me esperar "lá fora" pelo médico. Não há ninguém na sala de espera, mas eu espero. Espero quase uma hora, indecisa entre estatelar-me no chão ou vomitar nele, até surgir o médico. Com olheiras, lento e quase mudo. Repete a operação já cumprida pela enfermeira. Dá-me pancadinhas na barriga e pergunta-me se quero tomar soro. Não quero. Não pergunta se tenho antecedentes. Manda-me embora. Já passa das oito horas da manhã. E deseja-me felicidades.
Felicidades?! Pago 70 euros por uma consulta sonolenta que não existiu e sou informada pelo porteiro das farmácias de serviço - todas erradas. Quando percebo a falha, já todas as outras estão abertas. Entro na primeira. A farmacêutica diz que o médico me receitou quase 50 euros de medicamentos que posso adquirir por menos de metade do preço se optar por genéricos. Opto obviamente por genéricos. E amaldiçoo a clínica. Os médicos deste país são isto: um bando de funcionários públicos disfarçados.

domingo, agosto 20, 2006

Raul Brandão


O melhor presente que pode dar-se ao leitor de um escritor de quem já se leu a obra inteira várias vezes é a descoberta de textos inéditos. Vasco Rosa fez isso por mim. Acabo de adquirir "Lume sobre cinzas" e "Paisagem com Figuras" de Raul Brandão (1867-1930) - o melhor escritor português de sempre. O primeiro volume reúne textos dispersos, ensaios dramatúrgicos e apontamentos de viagens, escritos entre 1887 e 1930. O segundo contém retratos de escritores como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós. Voltarei ao assunto quando acabar de os ler.

sexta-feira, agosto 18, 2006

!!! (Chk Chk Chk)



Sensualíssimo, Nic Offer dos !!!, jeans de cinta dois centímetros abaixo do que seria uma cinta descida, a serpentear o corpo, as ancas e os ombros, a incendiar a multidão. Impossível não dançar. Foi o melhor concerto da noite, ontem, no palco principal de Paredes de Coura.

Gunter Grass IV

Voilá! A autobiografia "Descascando a cebola" quase esgotou no dia do lançamento: 130 mil exemplares. Ao fim do segundo dia sobravam menos de 20 mil volumes nas livrarias alemãs, austríacas e suíças, escreve o Público. A Steidl, a editora, já anunciou que a segunda edição terá cem mil exemplares. Agora, é só esperar que chegue cá.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Morrissey

É Inês Nadais do Público quem melhor resume o concerto de Morrissey, anteontem, em Paredes de Coura: "Há coisas que estão destinadas a serem maiores do que as outras, mesmo quando acabam a meio."

Miguel Esteves Cardoso

Uma alma generosa avisou-me: o Mec está de volta! Reproduzo um dos seus posts recentes como quem reproduz a falta imensa que sentia dele.
«"O amor é como uma faca: tem dois gumes", diz-me C. entre um trago de vinho branco e um beijo molhado. Concordo sem reservas. Só tenho pena de ainda não ter conhecido o gume que não faz doer.»

Gunter Grass III

Afinal, eu tinha razão: a revelação feita pelo escritor alemão Günter Grass - pertenceu às Waffen SS -, a propósito da sua autobiografia, não passou de uma pobre, mas seguramente eficaz, manobra de marketing. A obra "Descascando a Cebola", cujo lançamento estava previsto para 1 de Setembro, foi lançada hoje.

Bloc Party

Não foi a chuva que me expulsou hoje de Paredes de Coura. Ainda assim, como Morrissey, abandonei o palco antes do fim. Porque, às vezes, desistir é a única forma possível de libertação. Ou, como disse o vocalista dos extintos Smiths, porque "a porta de entrada é também a porta de saída". E, às vezes, é melhor sair. Não me perdoo por ter perdido o concerto dos Bloc Party. Mas a Antena 3 salvou a minha noite. Foi a partilha possível. Do you wanna come over and kill some time?