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domingo, abril 29, 2012

"Não desistir de nada"



"E se nos perguntarmos o que é que nos junta, o que vimos no Miguel, cada um terá uma resposta diferente, mas eu queria dar-vos a minha. A perplexidade de um homem que era capaz de nos dizer que a vida pública e a vida política desumaniza. Por isso mesmo, há alguma coisa de verdade mais profunda, que são os sentimentos, que é a vibração da vida, que é a ternura da vida, e é isso que eu quis trazer. Eu sei que não é bom dia para vos falar de romantismo, mas é por isso que eu quero falar-vos de amor. O amor não tem boa fama, o romantismo muito menos. Eu sei que o amor é egoísta, quer tudo para si. Eu sei que o amor é arrogante, quer sempre mais, mas sei também que toca, que encanta, que entranha. E que com ele aprendemos o que nunca sabemos e sabemos o que nunca percebemos. Dizia o Miguel, quando explicou num texto por que é que achava que o amor era inextricável, inexplicável, perguntou a uma amiga, "estou nesta aflição, tenho que fazer uma conferência sobre os sentidos do amor". E ela disse-lhe: "mas tu não tens idade para saber que o amor não tem sentido nenhum?" Por isso ele hoje podia escrever na festa de Iemanjá que um beijo é para toda a eternidade. O amor é isso, o romantismo era Miguel Portas. O romantismo de quem vive a vida toda, a vida intensa, quem quer vivê-la, quem quer vibrar com ela, quem quer aprender com ela, quem quer crescer dela - Miguel Portas. E é deste romantismo de procurar os outros, de aprender com os outros, que eu queria falar. (...)

Conhecer é perguntar e ele queria conhecer e perguntava. Pelas lendas, pela gastronomia, pela cultura, pela arte, pela pinturas, pelas pessoas, por aquilo que elas contam, pelas suas histórias, pelo que elas são, pelo que elas querem, o que elas prometem. Romantismo todos os dias. E  romantismo consigo sempre também. Consigo mesmo. "Amar as coisas simples", dizia uma amiga nossa. Um cigarro numa esplanada, escrever com tempo, mas viver depressa. Esse romantismo que é escolher e acreditar, que é decidir e fazer, arriscar e perder, arriscar e lutar. Esse romantismo é o sentimento do amor, e era o mais genuíno e o mais forte que o Miguel tinha para nos dar. Todos reconhecemos nele essa centelha quando o conhecemos. E, por isso, quando ele lutava contra a troika, quando ele fazia das suas causas a sua vida, quando lutava na era dos credores pela capacidade de o povo poder decidir, poder fazer escolhas, poder criar alternativas, poder fazer caminhos, poder decidir, quando trazia a solidariedade em cada um desses momentos, ele dizia-nos, nós sabemos: não desistir de nada. Da solidariedade, não desistir de nada. Da justiça, não desistir de nada. Do socialismo, não desistir de nada."

Francisco Louçã

"Uma oportunidade para sermos pessoas melhores"

sábado, abril 28, 2012

Daniel Oliveira: Miguel

[Paulete Matos]

Nada tenho a escrever sobre política. O Miguel não me perdoaria isto. Deixar passar uma semana sem me entregar ao que sei fazer. As duas coisas a que me dediquei na vida – a política e o jornalismo – fiz ao lado dele, com ele. E para ele, por pior que tudo corresse, a escrita e a política não esperavam pelos nossos estados de alma. Nessa matéria, era implacável. Mas tinha, apesar disso, uma fome de vida como nunca vi em ninguém. E desconfiava de quem só vivia para grandes causas. Como podemos nós compreender o que devemos fazer pelos outros se nada sabemos deles? Como podemos nós lutar pelo outro se ele não for mais do que uma abstração? O Miguel gostava de pessoas antes de gostar de uma ideia.

Não, não me preparo para um panegírico. Panegíricos fazem-se a heróis. E o Miguel não era um herói. Não era uma estátua. Sim, foi detido com 15 anos pela PIDE. Sim, foi militante comunista quando era difícil. Sim, viveu sempre dividido entre a lealdade à sua “tribo” e o imperativo de não defender aquilo em que não podia acreditar. Mas, da sua coragem, o que mais importava era o desplante. Ter organizado os primeiros concertos em Lisboa quando isto era um deserto. Ter lançado um jornal e uma revista de esquerda quando isso era impensável. Ter-se mudado para o Alentejo e para a serra algarvia para trabalhar em desenvolvimento local quando o seu “estatuto” não o obrigaria. Ter voltado ao jornalismo, várias vezes, para nos oferecer maravilhosos documentários e livros. Ser, e isso era uma das nossas muitas cumplicidades, um incurável viajante. Os seus olhos terem continuado, até ao último dia, a brilhar com cada coisa nova que descobria, com cada coisa velha que defendia. Dos seus míticos ataques de fúria passarem com a mesma inesperada rapidez com que chegavam. Com as mulheres, com os lugares, com a política, com o trabalho, com tudo, o Miguel era intenso.

O Miguel era irremediavelmente humano em todos os seus defeitos e qualidade. Não faço um panegírico porque o Miguel não era apenas meu camarada. Não era sobretudo meu camarada. Era meu amigo. Com fraquezas, erros, injustiças. Como com todos os amigos, que não o são apenas por hábito, claro que me zanguei tantas vezes com o Miguel como ele se terá zangado comigo. Fizemos sempre as pazes sem uma palavra, apenas voltando porque tem de ser. O tempo permite que a amizade viva com o que não precisa de ser dito. E ao fim de 22 anos de um imenso carinho, mais de metade da minha vida, onde em cada momento me aparece o seu rosto, a sua voz, o seu riso estranho e o seu desvairado otimismo, os seus defeitos passaram a ser tão indispensáveis como as suas qualidades. Parte de mim.

O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou. Cedo demais para todos, e éramos muitos, que dele dependiam, como se depende de uma casa que, mesmo com infiltrações, sempre foi a nossa. Mas uma coisa é certa: o Miguel teve uma vida cheia. E encheu as dos outros. E como ele não me perdoaria que não falasse de política, deixou a nossa muitíssimo mais pobre. Há pouca gente com a sua ousadia. Na política, mundo repleto de bonecos insufláveis, não há quase ninguém. Sim, talvez o País aguente todas as perdas. Talvez a esquerda supere esta. Para mim, para todos os seus amigos, é que é mais difícil tapar este buraco.

[Hoje, no Expresso, com a seguinte nota no blogue Arrastão:

Fica aqui o texto que publiquei, hoje, no "Expresso", sobre o Miguel. Pela intensa amizade e cumplicidade pessoal, política e profissional que com ele mantive, nos últimos 22 anos, falta-me o distanciamento que consegui ler noutros, em textos muito mais claros e relevantes sobre o que foi a vida e o percurso do Miguel. Tentei, mas não consegui. Uma espécie de anestesia não me deixa. Mas era obrigatório passar para o papel (era no papel que o Miguel se entendia) o imenso carinho que tinha, que tenho, que sempre hei de ter por este ruivo que mudou, em muitas coisas, talvez em muitas mais do que ele julgava, a minha vida. Sinto falta dele, e isso impede-me de escrever com clareza. Ficam as minhas desculpas por isso. Mas, mesmo assim, tenho de deixar escrito.]

sexta-feira, abril 27, 2012

Francisco Louçã: Nunca fica tudo dito


Quando me contou que ia começar mais uma série de quimioterapia agressiva, o Miguel escreveu-me que “o bicho voltou mas eu ainda não disse a última palavra”. Era uma conversa entre nós – e todos os seus amigos terão estes momentos e estas conversas para recordar, cada um à sua maneira –, por causa de uma citação de Ernst Bloch, “ninguém tem a última palavra”. Um de nós, qual foi nem importa, tinha-a usado uma vez numa convenção do Bloco, nunca ninguém tem a última palavra. É uma lição de humildade e de humanidade, nunca ninguém tem a última palavra. E repetimo-la muitas vezes, os dois, já nos ouviram a dizer isto, lembram-se?

Eu ainda não disse a última palavra, disse ele. Nem o cancro. Ninguém tem nunca a última palavra. Fica sempre alguma coisa por dizer, há sempre alguém que dirá mais. Nunca fica tudo dito.

Do Miguel também não. Dos seus defeitos, que “quem nunca se arrepende ou é santo ou é tonto”, escreveu ele. Irritável como romântico, como se pode ser as duas coisas? Sorridente e ansioso, como se pode viver das duas maneiras? Das suas qualidades, a curiosidade, a abertura, a busca incessante de caminhos, as contradições sofridas, sobretudo a ternura. Uma alegria contagiante quando era. Tristeza quando não era, são assim os românticos, e nunca me digam que o romantismo não é belíssimo. Ninguém tem nunca a última palavra.

Nem com o que dele disseram. O Presidente da República e o Primeiro-ministro, seus adversários em eleições em que se empenhou, que foram correctíssimos, como o presidente do Governo Regional dos Açores. A Presidente da Assembleia da República, em mensagens de sensibilidade tocante. Os partidos políticos, todos e de todos os quadrantes, os eurodeputados, a CGTP, associações tantas, pessoas imensas. Todos, sabendo que não diriam a última palavra. Partidos europeus, a Polisário, tantos dos seus amigos do Médio Oriente. Todos.

Os que desfilaram no 25 de Abril na Avenida da Liberdade, fiéis ao que somos. Todos.

Palavras a mais, sim, também houve. A do presidente do Parlamento Europeu, que se disse espantado por não imaginar que o Miguel tivesse criado tantas amizades naquele parlamento, que não é propriamente lugar de sensibilidades. Ninguém tem a última palavra, senhor Martin Schulz, talvez tenha aprendido alguma coisa.

Fica sempre alguma coisa por dizer. Da viagem que faltava. Do gosto de ter os filhos a seu lado para continuar sempre a aprender a ser pai. Do livro que ficou por fazer, sobre a Europa. Do arroz de pato. Da banda desenhada, do Corto Maltese ao Bilal, quem desenha o quê? Do amor das coisas simples, como dele dizia Assunção Esteves. Da esperança a contar os dias até às eleições francesas e gregas. Da sua última viagem a Atenas, para ajudar quem luta. Nunca ninguém tem a última palavra, Miguel.

terça-feira, abril 24, 2012

Miguel Portas 1958-2012



"Substituí [a crenca em] Deus pelo homem, pela humanidade. Gosto pouco da palavra acreditar no sentido da fé. Eu não posso dizer que o mundo vai acabar bem. Eu gostaria que o mundo acabasse bem. E tenho a obrigação de dar a minha quota parte para que ele possa acabar bem. O modo como o mundo vai evoluir depende da forma como os humanos vão relacionar-se com o planeta. O mundo tem condições extraordinárias para que as pessoas possam viver melhor do que vivem, mas também tem capacidades destrutivas incomensuravelmente maiores do que teve em qualquer outra época da História. Não é um problema de crença saber se isto acaba mal ou bem. O que é para mim um problema de crença ou de sistema de valores é o de cada um de nós, no lugar onde está, da forma como está, viverá melhor consigo próprio se procurar ser sério, útil."