sexta-feira, julho 25, 2014

Sensible Soccers no Milhões de Festa

When the sun hits...

segunda-feira, julho 14, 2014

Paulo José Miranda: A máquina do mundo


"O medo existe. O medo é real; não é um estado de espírito como o amor. Não podemos construir o amor com as nossas próprias mãos, mas podemos construir o medo com as mesmas mãos que nada podem fazer para a construção do amor. (...) Há ainda ingénuos que pensam que o pior que pode acontecer é estar vivo! A tortura é muito pior que estar vivo. O mundo caminha para muito pior que estar vivo. Felizes aqueles que estão tristes! O medo fica para além da tristeza. A tristeza é um medo pequenino, um medo de crianças. O mundo e o medo estão a crescer. O ser humano só é triste antes de ser torturado. A tortura acaba coma tristeza. A tortura é o exercício máximo de poder. Através da tortura mudamos o destino, mudamos a natureza das coisas. 

(...) Os objectos, as coisas são substitutos das faltas que não conseguimos colmatar nem explicar. Sente-se um vazio enorme dentro de nós, como a fome. Um vazio enorme à nossa volta, continuamente à nossa volta, como um cão abandonado a pedir comida. E, perante isto, o que fazemos? Damos-nos coisas, compramos coisas. E o tamanhos das coisas que nos oferecemos não é necessariamente proporcional ao nosso vazio. Neste vazio, e na invenção da sua sublimação, está provavelmente a origem da violência. A violência é o modo mais eficaz de se apagar o vazio dentro de nós, de fazê-lo parar de correr ao nosso redor. (...) Querer negar a violência é querer negar a própria história do homem, negar até o próprio homem. Há entre a humanidade e a violência uma indesmentível e forte ligação.

(...) O mundo não é outra coisa senão uma empresa, a Existe Lda., na qual apenas alguns participam nos lucros, e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide, por quem tem os dados nas mãos."

[É oficial: Paulo José Miranda é a melhor coisa que nos aconteceu este verão. Por razões outras que não a de querer proteger-nos de uma ressaca, o mercado livreiro brindou-nos com três livros do autor ao mesmo tempo, os três completamente diferentes, mas o resultado final é esse: proteger-nos da síndrome de abstinência em que mergulharíamos se não pudéssemos imediatamente saltar para outro livro. "A máquina do mundo", com maravilhosas ilustrações do André Carrilho, é absolutamente genial! Não é sobre a violência, é violento, é para maiores de 18 anos, impõe bola vermelha no canto superior direito, obriga a esgares de terror que geralmente só fazemos no cinema. É sobre mercados, sobre dinheiro, sobre política, sobre poder. Sobre morrer ou matar. Tudo em cima da mais subtil das metáforas: o que faríamos se tivéssemos cinco vidas para desperdiçar antes de perdermos? E se o amor correspondido fosse uma das duas únicas formas de ganharmos uma vida extra? É sobre existir ou viver. Absolutamente magnífico.]

domingo, julho 13, 2014

sexta-feira, julho 11, 2014

Greve

Ninguém quer ser jornalista para enriquecer. Ao contrário, ser jornalista é ter a certeza de que se será sempre pobre (esses que conseguem salários mirabolantes e cláusulas milionárias de rescisão não contam). E, ainda assim, escolhe-se ser jornalista, escolhe-se ser pobre, escolhe-se não ter horários, escolhe-se ser pequeno depois de adulto, porque escolhe-se continuar a acreditar que é possível mudar o mundo. Mesmo que seja só um bocadinho, mesmo que seja só de vez em quando. Mesmo quando o mundo não muda. O jornalismo é um vício e é uma profissão de fé. Insistir, acreditar, insistir, acreditar, insistir contra tudo e contra todos. E é amor destrambelhado, porque continua a fazer parte de nós, do que queremos continuar a ser, mesmo quando nos deixa ficar mal. E deixa tantas vezes. 

Quando corre bem, a felicidade que o jornalismo nos dá não é comparável a nenhuma outra. Quando corre mal, é uma merda. É difícil de superar. Em quase 14 anos de profissão, já tive dias em que me apeteceu insultar pessoas, dias em que me apeteceu bater em pessoas, dias em que me apeteceu partir tudo no jornal. E muitos dias em que me apeteceu desistir. E, no entanto, o pior dia da minha vida no jornal foi, de longe, aquela sexta-feira em que vi o Jorge ir embora. Pior do que esse dia só mesmo o dia seguinte, quando cheguei e o Jorge já não estava aqui, na secretária em frente à minha. E o Paulo já não estava em Lisboa, à distância de um telefonema repetido mil vezes por dia. Os dois para me editarem, para me fazerem rir, para me ensinarem tanto, para me colmatarem uma memória que não posso ter. Os dois, dessa gente rara que não precisa de gritar para ser obedecida, nem de atropelar para ser respeitada. Os dois, enormes, preparados para trabalharem em qualquer jornal deste país. Esses dois que, entre tantas outras coisas impagáveis, devolveram-me a alegria no trabalho. 

Devia estar hoje a fazer greve por eles? E pelo Madaíl e pelo Hélder e pela Joana e pelo Lobo e pela Lisa e pelo Carmo e pelo Mota e por esses tantos e tantos que foram despedidos? Talvez devesse. Mas não consigo. O desconforto que sinto por estar a trabalhar não supera a hipocrisia que sentiria se tivesse faltado. Não identifico na greve, arma anacrónica, qualquer resquício de eficácia. Ainda assim, votei em plenário uma moção em que foi dito que discutiríamos os termos, a data e a duração de uma possível greve. Votei a possibilidade, não a greve. Ter sido essa greve apresentada como acto consumado, sem a prometida discussão, é uma deslealdade do sindicato. 

Mais importante, há meses e meses que sabíamos que o grupo tinha a cabeça a prémio. O assunto foi noticiado inúmeras vezes no último ano. Não sou sindicalizada, posso estar a ser injusta, mas não me parece que o sindicato tenha tratado de antecipar os danos. Criar agora nas pessoas a expectativa de que é possível reverter o processo, parece-me novamente uma deslealdade. E se estiver enganada, ficarei muito feliz por isso. 

Finalmente, a greve não responde a nenhuma das inquietações que creio não serem só minhas, nem responde a nenhuma das perguntas para as quais gostava de ter respostas, nem invalida sequer a continuação da derrocada. Pessoalmente, gostava de saber quanto ganha a direcção do meu jornal e as direcções de todos os outros títulos do grupo. Gostava de saber quantos directores têm direito a carro e a cartão de crédito e porquê. E gostava de saber que percentagem representam no universo salarial do grupo. Não sou aumentada desde 2007, provavelmente estou só a ser mesquinha. Mas recentemente a administração de um jornal da praça ameaçou despedir não sei quantos jornalistas e os directores propuseram uma redução nos seus próprios salários para impedir esses despedimentos. Com sucesso, tanto quanto sei. Também gostava de saber se a direcção do DN ganhou no ano passado, ano em que as vendas do jornal tiveram uma quebra substancial, um prémio de produtividade ou se isso não passa de boato. Também gostava de saber se o director do DN tem uma cláusula de rescisão de contrato de um milhão de euros ou se isso é um mito urbano.

Também gostava de saber que critérios foram usados para despedir os jornalistas e abolir secções. Ou que critérios são usados para manter quem cá ficou. Ou que garantia dá essa poupança para a sustentabilidade do grupo. Ou que estratégia está a ser desenvolvida para crescermos. Ou que critérios editoriais pautarão o futuro. E que valores. E se haverá fusão de títulos. E ancorada em que argumentos. E que direcção, em cada título, cai ou continua. E porquê. E a que preço. E quem é afinal a administração que agora temos? De onde vem e o que pretende? 

Também gostava de saber por que razão qualquer político do burgo, por mais anão que seja, sabe sempre antes de qualquer um de nós o que nos espera. Ou por que razão - mais isto, concedo, já é outro assunto - as autarquias do Porto, Gaia e Matosinhos estiveram, e bem, ao lado do centro de produção da RTP Porto e não se pronunciaram sobre o JN, único diário no Norte? Ou por que razão a Câmara de Gaia anunciou que queria ser accionista da agência Lusa para evitar uma putativa privatização, alegando como interesse a democratização da informação, e nada disse sobre o JN?

Antes de ir embora, o Jorge disse que todos temos culpa do que está a acontecer-nos. E é verdade. E continuaremos a acumular culpa se continuarmos a querer desmascarar os pecados dos outros e a varrer os nossos para debaixo do tapete. Se continuarmos a querer sacar a verdade aos outros para emoldurar belas manchetes e pouparmos os nossos do cumprimento dos mínimos olímpicos da verdade. 

Infelizmente, a greve não repõe esse implacável desejo de verdade pelo qual pauto a minha vida e que me fez querer ser jornalista. Nem me dá a sensação de estar a salvar um colega que seja. Não é uma desculpa cobarde, é um apelo de consequência. Gostava que fôssemos mais longe, muito mais longe, do que uma greve de sindicato.

sexta-feira, julho 04, 2014

Hugo Torres: Se eu quisesse, enlouquecias *

Revienga no Herberto: se eu quisesse, enlouquecias. Sei uma quantidade de comentários terríveis. (Finta, passa, recebe na linha, cruza, bola na meia-laranja, remata Assírio, golo. Golo!) Hitler Salazar Torquemada, nazi fascista, inquisidor evangelista, ateu funcionário cientista, republicano reviralhista, imperialista colonialista comunista, estalinista maoista castrista, branco preto amarelista, azedo cadáver modernista, imberbe pelintra caciquista, judeu crente islamista, lobo borrego abrilista, isolado pascácio centralista, censor acelerado passadista. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio...

(Está tudo no Herberto, mas não está.) Há poesia suficiente nas caixas de comentários para mil servidões, dez mil ofícios, cem mil mortes, mil milhões de photomatons &. Não há estratégia nenhuma nisso – editorial ou outra. Se houvesse, enlouquecias. Se eu quisesse, se tu quisesses, enlouquecíamos todos. Se o mundo desabasse, os comentários online resistiriam. Contra a entrega da soberania do planeta às poeiras cósmicas, contra o fim, contra o nada. Se o desaparecimento do mundo durasse o suficiente, haveria quem comparasse o fenómeno ao III Reich ao Holocausto aos gulags à ocupação do Tibete ao genocídio do Ruanda ao neoliberalismo estatista ao Sócrates. Qual é o problema do Corinthians? Ninguém se entende. Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha o Benfica. Nunca me deu para insultar o árbitro. Nem nos jogos do Varzim. Palhaço! Palhaço! Anda um tipo a segurar as taxas de juro, a agradar aos mercadinhos aos machadinhos, e isto é penálti? 

Tenham calma, tudo se resolve. Não não não: esperem. Tenham calma. Leiam tudo. Leiam até ao fim. Aqui ninguém é pago pela CIA, ninguém é ex-KGB. Que as sardinhas me caiam no lume. Vá, olhem o coração, o aneurisma, as hemorróidas. Ninguém se desgraça. Todos a contar até dez. Inspira, expira. Inspira, expira. O que pensa que vai fazer? Pouse essa palavra no chão – é uma ordem! Vamos jantar ao bom-senso – pronto, está resolvido. Mantemos o Velho Oeste no cinema e ninguém se mexe até o filme acabar. Até o texto acabar. Até acabarmos todos. A vida. Inteira. Acontecimento. Excessivo. Tem de se arrumar muito depressa e felizmente há o estilo, diz o Herberto, mas para ele é fácil e para os outros não é tão simples, não é só acordar às quatro da manhã e rezar pela literacia dos leitores, embalar e mandar para a gráfica, não é assim, às três da manhã estão a assar-nos a carne e às cinco roem-nos os ossos. Moem-nos durante o sono e acordamos com aspas. Jornalistas com as aspas. Gente com aspas.

Ninguém. Participa, filho, participa. Seu vendidozinho mangas-de-alpaca, meu pós-modernistazinho, minha bomboca revolucionária. Senta-te direito! Porta-te como um homem! Finge que és 2.0 e esconde-te nos outros. Evangeliza, filho, evangeliza. Só sobrevivem os irredutíveis. Só dialoga quem nunca se engana. Só tem dúvidas quem não puxa pelo Google. Faço-me entender? Fazer sentido está sobrevalorizado. A política está sobrevalorizada. A cultura, a educação, a saúde, as viagens, os vinhos, a gastronomia, a ciência, a tecnologia. Tudo está sobrevalorizado: segundo os mais recentes estudos, acabaremos todos por morrer. Não sabiam? Isto é um jornal ou um pasquim sem préstimo? Já não é o que nunca foi e eu tenho muito pena. Tanta. Quando foi a última vez que pediu o café e a torrada, e disse ao empregado: o senhor é um ignorante, um cábula, uma besta? Quando foi a última vez que: o senhor anda conluiado com as forças ocupantes da manteiga e com os lacaios do pão às postas. Não tem geleia? Censura!

Estamos tão focados nas falhas dos outros que não damos conta de como as repudiamos e de como as debatemos. As caixas de comentários online são usadas para expelir agressividade e desconfiança. Conversamos ao ataque e, por vezes, debitamos generalidades antes de ler. Mesmo quem lê vocifera. Como se estivesse num processo visceral, como se escrevesse poesia: não aguentamos a desordem estuporada da vida. Toda a democracia digital para isto. Não são os trolls, somos todos. Uns mais do que outros. A maior parte suficientemente contida para passar na moderação. Apontamos muitos dedos. “De facto, se os participantes num debate online deixassem de se envolver em ataques ad hominem, os debates teriam relativamente pouca incivilidade”, diz-nos um estudo publicado no Journal of Communication. Então, por que não? E por que não ouvir, tolerar, respirar? E não misturar: para tudo, o Passos, o Cavaco, o poder, a corrupção. Cada pé em seu sapato. E bola para a frente.

* Hoje, no P3, o melhor texto que lemos nos últimos tempos