sexta-feira, novembro 29, 2013

Julian Barnes: Os níveis da vida


"Talvez o mundo não progrida pela maturidade, mas por ficar num estado de permanente adolescência, de descoberta arrebatada.

(...) Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado; e às vezes o mundo transforma-se, outras vezes não. Podem despenhar-se e arder, ou arder e despenhar-se. Mas às vezes algo de novo acontece, e então o mundo transforma-se. Juntos naquela primeira exaltação, juntos naquele primeira e estrondosa sensação de alento, são maiores do que os dois eus separados. Juntos, vêem mais longe e mais distintamente.

(...) Vivemos uma vida normal, verdadeira, e no entanto - e por isso mesmo - temos aspirações. Terráqueos, conseguimos às vezes chegar tão longe como os deuses. Alguns elevam-se com a arte, outros com a religião; a maioria com o amor. Mas quando subimos também podemos despenhar-nos. Há poucas aterragens suaves. Podemos dar connosco aos saltos pelo chão, com uma força capaz de partir pernas, arrastados para uma qualquer via-férrea estrangeira. Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Se não para um, para outro. Às vezes para ambos.

Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é ponto onde se encontram a verdade e a magia.

(...) Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenha e arda ou que arda e se despenha? Mas às vezes resulta, e algo de novo se faz e o mundo transforma-se. Então, a dada altura, mais cedo ou mais tarde, por esta ou aquela razão, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma que lá estava. isto pode não ser matematicamente possível; mas é emocionalmente possível. 

(...) O desgosto é uma condição humana e não médica e, se há comprimidos para nos ajudar a esquecê-lo - e tudo o resto - não há comprimidos para o curar. Os que são atingidos pelo desgosto não estão deprimidos, estão só devida, justa e matematicamente tristes (custa exactamente o que vale). 

(...) O amor pode não levar onde pensamos ou esperamos, mas, independentemente do desfecho, ele deveria ser uma chamada à seriedade e à verdade. Se não for por isso, se o seu efeito não for moral, então o amor não é mais do que uma forma exagerada de prazer. Ao passo que a dor, ao contrário do amor, parece não habitar o espaço moral. A posição defensiva e enroscada a que nos obriga, se queremos sobreviver, torna-nos mais egoístas. Não é um lugar arejado; não tem vista. Deixamos de nos ouvir viver. (...) Há muitas coisas que não nos matam, mas nos debilitam para sempre."

quinta-feira, novembro 28, 2013

terça-feira, novembro 26, 2013

Da música que nos salva



Hoje, no Hard Club, agarrada à barriga.

segunda-feira, novembro 25, 2013

Urbano Tavares Rodrigues: Nenhuma vida


Escrevi apaixonadamente este curto romance num Verão bastante fresco, pouco antes de fazer noventa anos. Escrevi-o com o amor à palavra e à invenção verbal de toda a minha obra. É um texto algumas vezes duro e agressivo, mas onde também têm cabimento a ternura e o amor, que são o esplendor da vida.
Não me compete a mim julgá-lo e estou, aliás, ainda muito perto dele para o ajuizar criticamente. 
Quem escrever bem de verdade pode abordar, sem cair na mediocridade, questões sociais e políticas  e inclusive a gesta épica da luta pelo socialismo e pelo comunismo. Já não tenho tempo de vida para me arrojar a esse cometimento, e basta-me sonhá-lo.
Daqui me vou despedindo, pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo um maravilhado adeus à água fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres.
Um cravo vermelho e a bandeira do meu Partido hão-de acompanhar-me tudo será luz.

[Carregado de simbolismo, porque foi a despedida e porque Urbano quis despedir-se com o seu último olhar sobre o país. Infelizmente,  é um conto bastante sofrível.]

domingo, novembro 24, 2013

So long, so hard, until you understand...



It's hard to stay, it's hard to look into your eyes
when I say I'm leaving.

I can't be sure, but I think I've made up my mind,
although your heart is bleeding.

I wish the only one I had to be was me
for you to see this clearly.
I wish the only thing I had to do was to
hold my arms around you.

So long, so hard, until you understand
So long, so hard, until you understand

I somehow feel that I'm pulling away your ground before I've even started.
To realize my word just caught you by surprise, makes it even harder.
I wish there was a way to make you read the signs I'm bringing you this evening.
I wish the only thing I had to do was to hold my arms around you.

sábado, novembro 23, 2013

Rui Nunes: Uma viagem no Outono


"O massacre concentrou-se em pequenas coisas. E sobrevive, nas cansadas viagens urbanas. Sob os olhos colados de sono, a mão esquecida pesa ou afasta, às vezes cai, abandonada. Um cão enrola-se debaixo de um banco: as palavras têm aqui a aspereza de um vidro riscado. Estação a estação fica mais nítido o vómito nas janelas. E cada minuto recua até encontrar a sua explicação.
Quem não conhece estas manhãs, duvida:
somos todos o passado clandestino dos felizes, quando o rio era um brilho entre salgueiros, um desvio incerto da infância.
(...)
façam com as palavras aquilo que quiserem,
desfaçam-nas:
uma palavra desfeita não magoa,
uma palavra inteira rasga a boca,
uma palavra inteira é a certeza
de outra palavra inteira, a corda fina
que vai da trave à terra, do caibro ao vento
de uma janela aberta:
a imprecisa
minúcia da poeira
(...)
todas as verdades têm
a solidez de um desabamento
(...)
Uma vezes as palavras partem-se,
outras, inteiras rejubilam,
onde estão os cães que ladram em qualquer intimidade?
em que praia desembarcará o medo rastejante?
Em que toca o cimento engolirá alguma décadas
até não apodrecer?
O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas."

[Nem Saramago nem Lobo Antunes. Rui Nunes será sempre o meu Nobel da Literatura português. Este é provavelmente o seu último livro.]

Isabel Moreira: “Uma Viagem pelo Outono” – a despedida de Rui Nunes


Ler quem passou uma vida a viajar, fugindo à ficção de uma pátria, a escrever por si, mesmo que depois de si, um epitáfio que emudece vozes póstumas, esta é a voz de quem diz que uma voz é sempre a continuação de uma outra voz; mas não esta.

Este é um livro que viaja pelo Outono numa memória particularmente ideológica; alguém que na sua cegueira – ou é a cegueira que viaja?; ou é a cegueira a personagem? – vê o que viu e sobretudo como viu; é o mesmo homem que percorre a intenção mortal das pontes do Reno; é o mesmo homem que está enterrado na memória coletiva, não recorda, escuta o terror, porque é o mesmo homem que os homens mortos, Horst-Wessel-Lied, uma e outra vez, o hino e as botas ao seu ritmo, o projeto mais letal que a cegueira conheceu na história da humanidade, na Europa, na sua vida; é o mesmo homem que viveu o que a idade diz que não, o mesmo homem que entra, no Outono da vida, na casa singular de uma infância concreta; a mãe antes e o que resta dela, essa dor: burocracia. O pai, sempre quase a morrer. Crescer sabendo de quem vive quase a morrer, uma espera, a infância estagnada; é o mesmo homem que se vê miúdo ou o lagarto na mão do miúdo. Da infância até à viagem pelo Outono, sempre a descoberta das minúcias. Uma outra casa, um avô não soletrado, a encher uma página. Duas casas. Dois legados de nomes.

Um Outono de um cego velho – ou sempre foi velho? – com o dever de um legado, um último suspiro, sem trocos, um livro retirado de todas as estantes, para si, e este, ou aquele, para quem o encontre, para mim, não interessa, um homem despojado. Não interessa. Quem morre escrevendo num Outono, numa viagem do mês da véspera, o homem com a “véspera” estampada numa outra capa, é indiferente. Despojamento absoluto. Contar para ninguém.

Esta é a viagem em que Deus é reduzido à sua miséria, esta é uma viagem sintética, definitiva, um ofício que ficou por terminar: destruir todas as palavras e começar sem essa corda, essa opressão, essa corda, palavras filhas de outras, bastardas, armas, letais, cordas, muitas vezes escrever “corda” para escrever isto, esta opressão, porque corda, diria, é o símbolo do enforcamento.

Ler o livro como uma partida, de quem sempre partiu, de quem sempre viajou para lugar nenhum, uma derradeira viagem, a sua, no Outono, porque Outono é a véspera do Inverno, que também pode chamar-se morte.

Uma dor em cada vírgula, uma dor inscrita sem intuito de pedagogia, mas inscrita porque o viajante chama-se Rui Nunes.

O Rui Nunes ideológico na casa da mãe e na Europa estupidamente animada pelo apelo de Homero, essa coisa de morrer pela pátria, essa arma aqui denunciada. O horror da ausência de substrato. A Europa vazia, a casa vazia, a árvore morta, que um cego progressivo abandona, sabendo da igualdade que conhece: o osso dos mortos, a igualdade nessa indiferença, os ossos dos fuzilados, os ossos dos gazeados, o viajante atira-se para a igualdade de uma vala comum.

Sem mais uma palavra porque a palavra “palavra” não é uma palavra hoje e porque a palavra “hoje” não é uma palavra. Que ladre um cão uma e outra vez em todos os lugares; que seja um cão a matar as palavras.

O Rui Nunes a morrer deixando um mundo morto; o Rui Nunes a morrer mutilado pelas palavras; o Rui Nunes numa Europa decadente; o Rui Nunes a morrer a insinuar a traição de quem pensou; o Rui Nunes a morrer, por isso, pondo a casa burocrática da mãe no Reno que atravessa a Europa; o Rui Nunes a morrer num mundo em que a traição “é uma luz póstuma”; o Rui Nunes a morrer pelos seus próprios olhos, ou o Inverno do seu rosto; o Rui Nunes a morrer sem o muro certo da sua morte, isto é, quem sabe da diferença entre quatro paredes e um muro, a que muro coletivo deve regressar para morrer?; o Rui Nunes a morrer usando a mão, em vez dos olhos, a mão que não sente palavras, mas que descobre a sua pedra; a sua lápide; Deus é apenas um nome e o viajante estará no Inverno num muro qualquer, a cair, como sempre acontece às heras de todos os muros: desaparecem. Ossos.


Que pobreza não saber sofrer nesta viagem; que pobreza não trair o viajante morrendo com ele.

[Isabel Moreira, no Público de dia 18]

sexta-feira, novembro 22, 2013

Pedro Santos Guerreiro: 50 maneiras de deixar o seu amor

Juergen Teller

Um jornal não se faz por quem o escreve, mas por quem o lê. Um jornal não é uma colagem de factos, mas um chaveiro para o entendimento. Um jornal tem poder - o poder que o leitor lhe endossa. Para que o jornalismo seja a celebração diária da liberdade. Para que o jornalismo garanta a liberdade do dia seguinte. Quase sete anos depois do primeiro, escrevo hoje o último editorial como director do Negócios. Nós passamos, o Jornal fica. É assim que está certo.

Imparcialidade não é neutralidade. Caos não é muito. Informação não é um vidro fosco entre realidade e verdade. Por isso, no canto desta página três, a direcção escreve todos os dias sobre o extraordinário mundo em que vivemos. Muitas vezes para simplificar o que é complexo. Muitas vezes para dar referências para que o leitor forme a sua própria opinião. Muitas vezes para enfrentar o poder, a situação, o que manda. Não é intrepidez, é função. Não é por exibicionismo, mas por serviço. Como disse Noam Chomsky, a questão não é dizer a verdade ao poder - o poder provavelmente já conhece a verdade e está sobretudo interessado em suprimir, limitar ou distorcer a verdade. Se te questionas se já foste longe demais, dizia Christopher Hitchens, é porque ainda não foste. Informe-se e que desabem os céus. 

Mas este canto de página é apenas um canto de página. Um jornal é a sua redacção e a redacção do Negócios é a mais excepcional equipa que já conheci. Pela dedicação. Paixão. Pela coragem. Discutimos milhões de vezes uns com os outros. Temos dúvidas sobre tudo o que nos rodeia. Nunca tivemos um conflito sobre o jornalismo que perseguimos e praticamos. Nunca tivemos dúvidas uns sobre os outros. E na lista infindável de agradecimentos que terei de fazer, aos editores e redactores, aos chefes e chefiados, expresso a gratidão à minha direcção, pela superação das mais indizíveis guerras e dificuldades. E em especial aos dois maravilhosos jornalistas que escreveram comigo este canto de página três, e que convidei para me porem sempre em causa e por serem melhores do que eu: a Helena Garrido, a quem entrego com orgulho e certeza a direcção do Negócios; e o João Cândido da Silva, homem da cepa dos que têm a generosidade persistente de fazer bem e de dizer não. 

Ensinaram-me que é mais importante sair bem do que entrar bem. Saio do Grupo Cofina com a mais franca confissão: fui feliz. Serei sempre testemunha abonatória de uma administração que pratica a independência editorial e respeita a liberdade dos jornalistas. Assim foi sempre no Negócios. Devo-o ao meu director-geral, Luís Santana, a alma da Cofina. Devo-o a Paulo Fernandes, que se firmou como industrial obcecado em criar valor, e que acreditou em mim, quando herdei a direcção do Sérgio Figueiredo. 

Estes anos não foram quaisquer. Foram anos de ruína na economia, de desgraça na política, de devastação na sociedade. Conto hoje o que me foi sempre mais difícil: assistir à inconsequência da denúncia antes do início da intervenção externa; e continuar a transmitir esperança depois dela. A destruição dos sonhos dos mais novos, a pobreza entre os mais velhos, os cortes, os impostos, os resultados falhados, as políticas sem comando, a austeridade desembestada, a regeneração fracassada, a sucessão arrogante e desatinada de medidas tortas e a direito, a preservação dos instalados, a supremacia dos mais fortes sobre os mais fracos foram – são – testes diários à capacidade de não desistir, de não perecer à derrota, de encontrar dentro de nós mesmos força e amor para continuar a lutar - contra eles se necessário; por nós, por sobrevivência . Para não perder a esperança. Para não espalhar miséria. Perdemos quando sucumbimos ao cinismo, doença que ensombra a luz e come os sonhos por dentro. Ganhamos quando vivemos cada dia ingénuos como se fosse o primeiro e desprendidos como se fosse o último.

O Negócios é um jornal com vida, com esta alegria, esta inconformação, esta liberdade de pensamento, esta esperança em Portugal, esta dedicação aos leitores. Eu serei doravante um deles. Um de vós. Um de nós. E é uma alegria. E é uma alegria!
Por tudo, por todas as vezes, obrigado. 

"Just slip out the back, Jack

Make a new plan, Stan

You don’t need to be coy, Roy

Just listen to me

Hop on the bus, Gus

You don’t need to discuss much

Just drop off the key, Lee

And get yourself free"

"50 ways to leave your lover",

Paul Simon 
Eu sei que já aqui o disse, mas vou voltar a dizer. Comecei a ler o Jornal de Negócios por causa dos editoriais do Pedro Santos Guerreiro. Depois, comecei a colecioná-los (não vá ele nunca querer publicá-los em livro). Entretanto, fiquei completamente rendida ao Fernando Sobral. E, de repente, estava viciada no jornal inteiro. Não conseguia esperar pela manhã, queria lê-lo à noite, acabado de fechar. Assinei-o. Nunca me tinha passado pela cabeça assinar um jornal de economia. Mas o Negócios é muito mais do que só um jornal de economia. E o tanto que aprendi e cresci a lê-lo é impagável.

Um dia, conheci o homem daqueles editoriais que me levavam às lágrimas, que me devolviam a esperança, que me faziam voltar a acreditar no jornalismo. Podia ser só um imbecil que escreve e pensa bem. Não é. É um tipo extraordinário, como sempre acreditei que os bons jornalistas devem ser. Quando há umas semanas devorei a Newsroom, foi logo no Pedro que pensei. É o maior elogio que poderia fazer-lhe. Há quem diga que é só uma série ingénua. Pois, será. Mas como ele escreve hoje: "Perdemos quando sucumbimos ao cinismo, doença que ensombra a luz e come os sonhos por dentro. Ganhamos quando vivemos cada dia ingénuos como se fosse o primeiro e desprendidos como se fosse o último."

Muito obrigada, Pedro.

quinta-feira, novembro 21, 2013

De fora



De vez em quando é preciso aprender a ficar de fora... mas custa tanto...

terça-feira, novembro 19, 2013

It seems beauty can't be hard to find



Underneath the silver maple tree
the only people there were you and me
and it seems beauty isn't hard to find
when you're around to ease my troubled mind

you were picking roses by the pond
and you find a careless love to put on
and it seems beauty can't be hard to find
when you try to freeze a moment in your mind

careless love
careless love
i didn't want to fall in love with you
but it seems that there is nothing i can do
careless love
careless love
and to stay is something that you wouldn't do
so i'm letting go to what i'm holding to tonight...

sexta-feira, novembro 15, 2013

Jay-Jay Johanson



Lamento a falta de patriotismo, mas hoje a única coisa que me interessa é o concerto do sueco Jay-Jay Johanson. É na Casa das Artes de Famalicão, começa quando acabar o jogo.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Requiem por uma amiga


A saudade é isto: viver nas ondas
e não ter pátria no tempo.
E desejos são isto: diálogos baixo
de horas diárias com a eternidade.

E a vida é isto: até que de um ontem
surge a mais solitária das horas
que, sorrindo diferente das outras irmãs,
vai calada ao encontro do eterno

Rainer Marie Rilke

domingo, novembro 10, 2013

Class Enemy


Algum dia teria de acontecer haver uma peça de Nuno Cardoso a que não nos rendêssemos. Não só não gostámos, como nos foi penoso permanecer no auditório (gelado!!!) do Teatro do Bolhão até ao fim. E esta sensação começou logo no início. Class Enemy, de Nigel Williams, escrita em 1978, é um monumental cliché do início ao fim. Desde o texto, o que é compreensível porque é mais do que datado, à - infelizmente - encenação. Os actores, seis miúdos franceses, também dificilmente conseguiriam ser piores. 

sexta-feira, novembro 08, 2013

Ondjaki: Uma escuridão bonita


"O escuro às vezes não é falta de luz
mas a presença de um sonho"
(velho muito velho que inventa as palavras)

A luz faltou de repente.

(...)

- Achas que pode caber o quê, no coração das pessoas?
- Muitas coisas. Um poema, uma recordação, um cheiro de infância, um "desejo de estrelas"...
- Como é um "desejo de estrelas"?
- É olhar para uma estrela e desejar uma coisa.
- Ainda lá deseja uma coisa para eu ouvir.
- Desejo que o meu pai não tivesse morrido na guerra.
- E eu desejo que os homens nunca mais inventem guerras novas.
- Como se o saco das guerras estivesse vazio?
- Como se tivessem perdido o saco das guerras.

(...)

- Vou-te contar um segredo - ela começou.
- Ainda conta - perdi o pirilampo de vista.
- Dizem que quando um silêncio chega e fica entre duas pessoas....
- Sim?
- É porque passou um anjo e lhes roubou a voz.
- Tu acreditas em anjos?
- Tu não acreditas em silêncios?
(...)
- Os "desejos de estrelas" podem ser falados?
- Sim. Sentes um?
- Mas não é um fácil. Desejava um arco-íris mesmo agora.
- No céu escuro ninguém consegue desenhar um arco-íris.
- Eu acho que os anjos que roubam vozes conseguem... 
- Eu queria um arco-íris, de presença bem nocturna, tipo uma ponte.
- Uma ponte?
- Para o outro mundo. E vice-versa. Para chamarmos quem tivesse partido ainda em hora de cá estar. Assim o teu pai podia voltar. E também as crianças de todas as guerras.

(...)

Era verdade, tínhamos tempo. A falta de luz também inventava mais tempo para as pessoas estarem juntas, devagar. Para mim a falta de luz era estar ali com ela, de mãos dadas - os meus lábios na espera dos lábios dela. (...) Quando somos crianças, o mundo fica bonito de repente. E simples. Parece um céu aberto com estrelas possíveis de serem apanhadas e guardadas numa gaiola sem paredes de fechar ninguém.

"a beleza às vezes é um lugar
onde o olharjá sabe aquilo que não quer esquecer"
(velha muito velha que destrói as palavras)

[Foi o meu livro mais aguardado do ano. De cada vez que Ondjaki libertava uma frase de "A escuridão..." no facebook, ficava a salivar por mais. Ontem, quando finalmente tive o livro na mão, emudeci. É muito mais pequeno do que imaginei e muito mais bonito do que é possível um livro ser. As páginas são pretas, os desenhos sibilinos de António Jorge Gonçalves brancos. Dá vontade de ficar só a olhar para o livro, mesmo sem o ler. "Uma escuridão bonita" é apresentada como sendo "talvez, a simples estória de um beijo". Num dia em que a luz faltou e o tempo sobrou. É de uma pureza absoluta. Poema vivido por um jovem casal à varanda numa noite em que foi possível ouvir a respiração e saborear o silêncio, saber do coração sem falar, trocar segredos na luz dos faróis e das estrelas, dividir a magia do aconchego e aguardar as mãos nas mãos. Uma explosão de amor em câmara lenta. Descobrir que tudo o que é importante só pode ser simples. É profundamente comovente. Se é, como julgo que está a ser apresentado, um livro infanto-juvenil, isso pode querer dizer que andamos a crescer na direcção errada. É um livro maravilhoso.]


quinta-feira, novembro 07, 2013

Aimee Mann na Casa da Música



Foi isto, Aimee Mann apareceu com ar de professora de liceu entediada, mal vestida e mal humorada, deu-nos a 'wise up' e a 'save me', levando-nos até à intemporal chuva de sapos de Magnólia, e bem podia ter ido logo embora. Mas não foi. Foi pena. Devia ter ido. 

quarta-feira, novembro 06, 2013

Luna Andermatt (1927 - 2013)


Entrevista publicada no Weekend do Jornal de Negócios de 2 de Dezembro de 2011
Luna Andermatt vive no Restelo, numa torre de apartamentos onde, em cada janela, o espaço e a vida continuam. A entrevista decorreu com um fundo de ópera, vinda do escritório do marido, Francisco Brás de Oliveira.
Na sala de estar, Luna reuniu recordações, provas de vida e de amor: os trabalhos de iluminura que aprendeu com a mãe; o programa da estreia da Companhia Portuguesa Bailado (no São Carlos em 61). Essa estreia, a casa a vir abaixo, foi uma conquista a dois e, no programa, o marido escreveu: "À loucura queremos dar equilíbrio / Ao medo queremos dar confiança e fé /Ao egoísmo opomos a dádiva de nós mesmos". Luna Andermatt e o marido continuam a querer exactamente o mesmo; exactamente o mesmo é necessário. Todos os dias, Luna Andermatt vai ensaiar para o CCB para estrear, dia 8, com a Companhia Maior (grupo de artistas com mais de 60 anos) a mais recente criação da sua filha, a coreógrafa Clara Andermatt. O corpo nem sempre obedece à mente, mas o fogo, esse fogo ao pisar o palco, não tem dores, não tem rugas, não tem idade.
1. O trabalho no palco tem que ter fogo. Se não tem fogo, não presta. É preciso viver por dentro do trabalho. Se não se vive, não presta. O público percebe muito quando não é sentido. 
Tenho a impressão de que a dança já nasceu comigo. Uma vez, num daqueles eventos do colégio, calharam-me uns versos muito engraçados. Era eu sozinha em palco, com um fato cor de rosa, todo plissado, tinha nove anos. O poema chamava-se "Sempre tive paixão pela dança": "Quando encontro no baile um bom par, não descanso, não paro e não deixo de dançar, de dançar, de dançar…", e fazia assim uns gestos de dança quaisquer, inventados, que ainda ninguém me tinha ensinado. 

2. Creio que as pessoas hoje são mais materialistas. O que interessa é a fatia de pão com manteiga. Mas não é tanto isso que me incomoda - é a falta de sentimentos nobres, de dádiva, nem que seja apenas para com o vizinho. Desapareceram aquelas atenções com que nós nascemos - puxar uma cadeira para o lado, para o outro se sentar, fazer uma delicadeza numa bicha - coisas pequenas, mas que definem o que vai lá dentro. Mas talvez eu esteja a exagerar. Talvez seja porque a televisão gosta mais de nos apresentar dramas. As atitudes nobres não têm atracção para a televisão. 

Quando estou a ver televisão e abrem a boca para discutir política, eu que detesto a cozinha, apetece-me ir para a cozinha. Também há aqueles que falam bem e que ouço do princípio ao fim do discurso, mas esses são poucos em relação aos outros. Repugnam-me as disputas. Não é assim que se conquista. Não é criticando os outros que subimos - a subida está dentro de nós próprios. 

3. Um tio meu, que era governador militar de Lisboa, chamou a minha mãe de parte para uma conversa muito brava: se ela estava a educar-me para eu entrar no Parque Mayer? Eu entrava em óperas no São Carlos. Uma vez, em "Os Pescadores de Pérolas", levava só uma espécie de biquini com um soutien com pérolas e dourados. O meu tio tinha um camarote privativo no São Carlos e eu sabia que ele me estava a ver. Quando cheguei a casa, disse logo: "olha mãe, amanhã tens um telefonema a descompor-te". 

A minha mãe achava bem eu aprender ballet para ser elegante, para ter gestos bonitos, mas não para fazer carreira. Foi o meu marido que me ajudou muito. Conhecemo-nos a bordo de um iate, tinha ele 17 ou 18 anos. Eu sou mais velha dois anos. A minha mãe gostou dele desde que começámos a namorar. Ele incitava-me. Já que tens essa paixão, dizia, cumpre-a. Isso deu-me força. Éramos muitos unidos e tínhamos muita garra, muita gana. 

A ele devo também a estreia da Companhia Portuguesa de Bailado no São Carlos [em 1961]. Não foi fácil. O director do São Carlos exigiu orquestra, não deixava pôr música gravada, e o preço de uma orquestra… Só as partituras da orquestra, na Sassetti, andámos dois anos a pagá-las… E depois era preciso pagar aos artistas e ao maestro. Mas tivemos a casa esgotada. O presidente foi à estreia, era o Américo Tomás nessa altura. E foi tudo com pompa, porque ainda hoje o meu marido não poupa em coisa nenhuma. Eu é que sou o travão. Não tenho outro remédio senão ser poupada, se não já estaríamos na prisão. 

4. A minha avó, pelo lado do meu pai, era alemã, e a família da minha mãe, Luna, vem dos reis de Espanha - ainda tivemos um Papa na família, o Benedito XIII -, de maneira que estes dois sangues têm aqui uma grande efervescência. 

O meu pai era oficial do Exército e morreu quando eu tinha três meses. A minha mãe trabalhava muito, era professora no Instituto de Odivelas e era também uma grande artista. Era iluminista e muito conhecida no estrangeiro. Fez trabalhos para o Hitler, para o Churchill, para o Rei Jorge VI de Inglaterra, e foi convidada pelo bispo da Cantuária para fazer a escritura de casamento da Rainha Isabel. Era uma profissão raríssima, que já não existe, pertencente ao século XVI. Ela só trabalhava em pergaminho - e pergaminho alemão, e não era o pergaminho alemão de hoje nem o da guerra, era o pergaminho alemão de antes da guerra. Ela ensinava-me e dava-me as encomendas mais acessíveis, que fazia questão que eu assinasse, e eu assinava M de [Maria Antónia] Luna. Ainda fiz 80 e tal trabalhos. A minha mãe fez mais de 1300 trabalhos e não fez um único igual a outro. Tinha um gabinete cheio de preciosidades. Trabalhava com ouro em pó e tinha que ser autêntico. Morreu com 82. Nos últimos anos foi viver para nossa casa. Ainda vivíamos na Infante Santo, naqueles prédios altos, onde tínhamos uma vista linda para o rio, e de onde tínhamos visto a inauguração da Ponte 25 de Abril. 

5. Estive em Inglaterra com uma bolsa de estudo e aí aprendi muito, não só tecnicamente. Quando voltei, ainda dancei, mas já estava com a mente só na ideia de criar algo que deixasse raízes. Não havia em Portugal uma companhia oficial, e os bons bailarinos iam para fora. Magoava-me ver tanta gente com valor mas sem futuro. 

Tive muitas desilusões - andei sete anos de gabinete em gabinete -, mas com o David Mourão Ferreira tive ouvidos, porque ele também era um artista e convidou-me para o conselho nacional de cultura e compreendeu a necessidade de dar apoio aos bailarinos.

Realmente orgulho-me muito de ter criado a Companhia Nacional de Bailado, em 1977. 

Parece-me que a companhia foi um embrião, um pontapé. Despertou o interesse e espírito da gente nova na altura e depois a dança teve uma explosão no nosso país. Observei como foi crescendo e fiquei muito feliz com isso. E, então, a dança era uma coisa, depois passou a ser outra, e agora é o futuro. 

6. Eu e o meu marido nunca deixámos de trabalhar. O meu marido continua a ir todos os dias para a Universidade [Lusíada] de que foi um dos fundadores, onde já não dá aulas, mas onde é uma espécie de conselheiro. 

Eu tenho uma vértebra deslocada na coluna, e às vezes quando tenho muitas dores, penso: hoje não vou ao ensaio… Mas saio de casa, vou mesmo, e nunca deixei de ir porque tinha dores. 

Não me vejo numa cama. Morreria de angústia em vez da doença. Se Deus me enviar um relâmpago, agradeço muito, porque quero viver até ao fim. Não sei o que é que me está reservado, mas gostava de morrer de pé.


A subida está dentro de nós próprios.

terça-feira, novembro 05, 2013

Ondjaki vence Prémio José Saramago....


... com o romance "Os transparentes". E é tão, mas tão merecido. Ainda por cima no dia em que saiu o livro que mais desesperadamente esperámos nos últimos meses, "Uma escuridão bonita". 

segunda-feira, novembro 04, 2013

Afonso Cruz: Para onde vão os guarda-chuvas



"Os caminhos são mais longos - disse um dia Elahi - para quem está sozinho. (...) Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios da alma humana? Não sabem nada, Alá me perdoe. O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passar a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz. 

(...) Disse Ali: Não é a falta de pessoas à nossa volta que faz a solidão. São as pessoas erradas."