domingo, outubro 27, 2013

Lou Reed (1942 – 2013)



Aos nossos vizinhos:

Que belo Outono! Tudo a cintilar, dourado, e essa espantosa luz suave. E a água que nos rodeia.

Nos últimos anos, Lou e eu passámos aqui muito tempo, e, ainda que sejamos gente de cidade, este é o nosso lugar espiritual.

Na semana passada prometi a Lou que o tiraria do hospital e que voltaríamos a casa, a Springs. E conseguimos!

Lou era um mestre de tai chi e passou aqui os seus últimos dias a ser feliz, deslumbrado com a beleza e o poder e a doçura da natureza. Morreu no sábado de manhã, contemplando as árvores e fazendo a famosa posição 21 do tai chi, apenas com as suas mãos de músico a mover-se no ar. 

Lou era um príncipe e um lutador, e sei que as suas canções sobre a dor e a beleza no mundo vão encher muita gente com a sua incrível alegria de viver. Longa vida à beleza que desce, e perpassa, e chega a todos nós. 

A sua dedicada esposa e eterna amiga,

Laurie Anderson

A artista Laurie Anderson, viúva de Lou Reed, despediu-se publicamente do músico através de um breve texto publicado no East Hampton Star, um jornal que serve a comunidade de Springs, a cerca de 160km de Nova Iorque, onde o casal vivia e onde Lou Reed quis voltar para morrer. 

domingo, outubro 20, 2013

O Porto de Gisela João


Defeito insuportável: quase nunca atender o telefone. Na terça-feira em que esta reportagem estava a acontecer, o telefone tocou. Não atendi. Mesmo se do lado de lá estava um amigo que amo e que vejo tão pouco. Estava enterrada no sofá, neurótica e incrédula, a ouvir Rui Machete na comissão parlamentar a destilar cinismo e mentiras, comportamento típico de uma geração que neste país enriqueceu, em dinheiro e poder, diante do que julgaria a eterna impunidade. Aqui no bairro, espécie de bairro-milagre do Porto, Gisela João silenciava a Tasca da Piedade e o Ricardo congelava o momento que, por via de um defeito insuportável e prioridades enviesadas, não partilhei. Só percebi nessa noite o que perdera. Fui hoje compensada com a reportagem na Notícias Magazine. Que bonita, Ricardo! Vale tanto a pena ouvir a Gisela como ler os textos deste rapaz. Ainda dizem que os jornais não servem para nada... servem para tanto, caramba!

sábado, outubro 19, 2013

Absolut Sócrates



Quem leu o livro "Resgatados" sabe o que é ficar a salivar pela sequela, pelo resto da história. Uma parte dela, mesmo se pequena, é publicada hoje no Expresso. Na primeira pessoa. Nunca, mas nunca Pedro Passos Coelho seria capaz de dar uma entrevista com um décimo da inteligência e da coragem e da bravura que José Sócrates usa na que deu a Clara Ferreira Alves. Nem Santana Lopes, nem Durão Barroso. Nem Cavaco! Nem tão cedo o país voltará a ter outro primeiro-ministro como Sócrates, nem à esquerda nem à direita. Seria possível usar vários superlativos para o definir, e nenhum coincide com os que têm sido usados até aqui. Enfim, há dias em que é mais fácil ser feliz do que noutros. Votei três vezes em José Sócrates - e com um intocável e monumental orgulho.

Vamos "colocar isto em perspectiva", como ele diz: quem são mesmo os trastes na política portuguesa?

A história universal da infâmia


É uma espécie de prefácio da entrevista. E é um bálsamo. Pode ser que, a partir de agora, a narrativa seja outra.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Um ano sem o Pina


Ficámos muito mais pobres num ano sem o Pina do que em anos sucessivos de austeridade.

segunda-feira, outubro 14, 2013

Perfect sense by David Mackenzie ***



Ensaio sobre a cegueira em versão alargada a todos os sentidos.

terça-feira, outubro 08, 2013

valter hugo mãe: A desumanização


"Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe beleza no que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só existe porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objectos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. 

(...) Senti-me muito feia por andar ainda atrás da beleza. Era tão diferente de fugir. O meu pai desentristeceu-me. Prometeu que leríamos um livro. Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia. (...) Devia ser a poesia do meu pai que me mimava. Os livros. Eram os livros. Diziam-me coisas bonitas e eu sentia que a beleza passava a ser um direito. (...) Quando passam os bandos a voar, o meu pai diz que é um texto. Diz que o podemos ler. 

(...) A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Disse o meu pai. Terrível ou belo, o poema pensa em nós como palavras ensanguentadas. Somos palavras muito específicas, com a terna capacidade da tragédia. A tragédia, para o poema, é apenas uma possibilidade. Com um humor momentâneo.

(...) Eu disse: nunca vou gostar mais de outra pessoa do que de ti, pai."

[Não sei se é o melhor livro de valter hugo mãe, porque não li todos. Mas sei que depois deste livro só nos resta uma hipótese: declarar-lhe amor para sempre.]

segunda-feira, outubro 07, 2013

Sem direito a absolvição

[Foto: André]

A justiça portuguesa em todo o seu esplendor: sete anos depois de me ter sido movido um processo por difamação, e depois de um longo julgamento, impróprio para cardíacos, e depois de a leitura da sentença ter sido adiada três vezes, eis o resultado: "um erro processual da acusação impede o juiz de avaliar a matéria de facto". Diz o juiz: "na prática, é como se tivesse sido absolvida". Não, não é! Na prática, andámos a brincar à justiça! Há uma diferença de gigante entre não ser obrigada a pagar as custas judiciais e a indemnização e ouvir o que seria justo: absolvida! Há uma diferença de gigante entre a verdade e a suposta ausência de capacidade para a provar. Quem tem a consciência tranquila, quem não prescinde nunca da verdade, não quer, como disse o André, e bem, ganhar na secretaria. É muito triste!



De qualquer forma, muito e muito obrigada a quem andou comigo nisto, testemunhando a meu favor, tendo tantas vezes os dias prejudicados por sessões adiadas ou interrompidas José Leite Pereira, Domingos Andrade, Carla Rocha, Nelson Rocha, José Miranda, Cândida Ribeiro, José Ricardo Martins e José Couto.


E, sempre, ao André Raposo Fontinha, extraordinário advogado e hoje querido amigo.

sexta-feira, outubro 04, 2013

Io e Te by Bernardo Bertolucci ****



Lindo, lindo, lindo! Incluindo o Bowie em italiano, com uma letra adaptada de Major Tom infinitamente mais bonita. Continua a falar de perdição, mas em vez de ser no Espaço é no amor. 

quinta-feira, outubro 03, 2013

Like someone in love by Abbas Kiarostami *****



Kiarostami recupera um clássico maravilhoso de Ella Fitzgerald para um filme inacreditavelmente bonito.

quarta-feira, outubro 02, 2013

Julian Barnes: O sentido do fim


"O tempo primeiro fixa-nos e depois confunde-nos. Pensámos que estávamos a ser adultos quando estávamos só a ser prudentes. Imaginávamos que estávamos a ser responsáveis, mas estávamos só a ser cobardes. Aquilo a que chamávamos realismo acabava por ser uma maneira de evitar as coisas e não de as enfrentar. Tempo... dêem-nos tempo suficiente e as nossas decisões mais fundamentadas parecerão instáveis e as nossas certezas bizarras.

(...) Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas - principalmente - a nós próprios.

(...) "A questão da acumulação. Apostamos dinheiro num cavalo, ele ganha, e o que ganhámos segue para o próximo cavalo da próxima corrida, e assim por diante. Os nossos ganhos acumulam-se. E acumulam-se as perdas? No hipódromo não - lá só perdemos a aposta inicial. Mas na vida? Talvez aqui se apliquem regras diferentes. Apostamos numa relação, ela falha; avançamos para a próxima relação, falha também: e talvez o que perdemos não sejam duas somas negativas, mas o múltiplo daquilo que apostámos. É isso que sentimos, de qualquer modo. A vida não é só adição e subtracção. Também há acumulação, multiplicação da perda, do fracasso.

(...) quando temos vinte e tal anos, mesmo que estejamos confusos e inseguros quanto às nossas intenções e objectivos, temos um forte sentido do que é a vida, e do que nós somos na vida e poderemos vir a ser. Mais tarde... mais tarde há mais incerteza, mais sobreposição, mais arrependimento, mais falsas memórias. Lá atrás, lembramos a nossa curta vida na sua inteireza. Mas tarde, a memória torna-se uma coisa de farrapos e remendos. É um pouco como a caixa negra que os aviões transportam para registar o que acontece num desastre. Se nada corre mal, a gravação apaga-se sozinha. Assim, se nos despenhamos, é óbvia a razão por que o fizemos; se não, é muito menos claro o diário do trajecto.

(...) existe o tempo objectivo, mas também o tempo subjectivo, aquele que se traz no interior do pulso, junto ao lugar da pulsação. E este tempo pessoal, que é o tempo verdadeiro, é medido na nossa relação com a memória. (...) Aproximamo-nos do fim da vida - não, não da vida em si, mas de uma outra coisa: o fim de qualquer probabilidade de mudança nessa vida."