domingo, setembro 29, 2013

The Last Word

[Anka Zhuravleva]

“I am a part of all that I have met;
All experience is an arch wherethrough
Gleams that untravelled world, whose margin fades
For ever and for ever when I move.
How dull it is to pause, to make an end,
To rust unburnished, not to shine in use!
As though to breathe were life. Life piled on life
Were all too little”

– from Tennyson’s Ulysses

sábado, setembro 28, 2013

Dia de reflexão



Chorei em 2001, quando António Guterres abandonou o Governo por ter perdido as autárquicas. Achava que ele era mesmo boa pessoa e acreditava que o país precisava mais de boas pessoas do que de bons políticos. Trabalhava há menos de um ano, senti-me ridícula por chorar na redacção, jurei que nunca mais voltaria a chorar.

Voltei a chorar em 2005, quando Francisco Assis perdeu as autárquicas para Rui Rio. Quando escolhi o Porto para viver, escolhi uma cidade cuja ambição cultural era maior do que a rua de bares trendy que haveria de vir e a praça de acolhimento da pipoca ao pimba. Rui Rio despira a cidade de cultura e sem cultura na cidade sentia-me perdida. Mas já era crescida, não tinha desculpa para chorar, senti-me obviamente ridícula, jurei que fora a última vez, não voltaria a acontecer.

Voltou a acontecer em 2008, quando Obama ganhou as eleições nos EUA. Estava em Chicago, num parque a explodir de gente ansiosa, gente ressacada de George W. Bush. Acreditava que no mundo haveria um antes e um depois daquele dia, alguém gritou "We win Ohio!", não me contive, chorei e toda a gente à volta chorou numa corrente arrepiante que mil anos não conseguirão apagar. Mesmo se Obama, precocemente Nobel da Paz, parece tê-lo apagado da memória.Não voltei a chorar, mas também não voltei a jurar que não voltaria a chorar. Perder a vergonha de chorar significa que sucessivos desapontamentos não são suficientes para despenhar a esperança. Continuo a acreditar que o mundo precisa mais de pessoas boas do que de políticos profissionais, que a cultura é tão importante como o pão, e que não nascendo todos iguais cabe a quem manda tudo fazer para abolir a distância que nos separa.

É por isso que, também desta vez, não consigo brincar com as autárquicas, mesmo se a maioria dos candidatos, aqui como noutras paragens, por defeito ou por excesso, não merece ser levada a sério. Nos dias que correm, a ingenuidade será um absurdo próximo de Sísifo, mas manter intacta a esperança nas pessoas é uma benção. Não é o que nos resta num regime que respeita hierarquias, é provavelmente o que nos salva num sistema em que tomar decisões e votar pode fazer toda a diferença.

Gostava muito de não chorar amanhã.

sexta-feira, setembro 27, 2013

The Newsroom


O melhor vício de Outono.

quarta-feira, setembro 25, 2013

M.A. Pina



A RTP 2 passou hoje um maravilhoso documentário sobre o Pina. Passou também a belíssima canção da "Ana quer", poema dele para a filha, e que me leva sempre às lágrimas. Se tivesse uma filha, havia de querer que soubesse esta canção de cor.

segunda-feira, setembro 23, 2013

António Ramos Rosa (1924 -2013)


As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.

Os livros da temporada



Se Sócrates tivesse escrito uma tese de mestrado sobre móveis e lacados, o assunto faria igual furor nos jornais, não pelo interesse no livro mas por uma inesgotável (e inexplicável) sede de atacar o homem. Pronto, escreveu sobre tortura nos sistemas democráticos, e daqui até Outubro, já se sabe, há-de ser torturado por isso.

Felizmente, os livros da temporada que nos deixam a salivar são outros e são muitos. Dos portugueses, vem aí (finalmente!!!!) "Uma escuridão bonita", de Ondjaki, "As longas tarde de chuva em Nova Orleães, de Ana Teresa Pereira, "Para onde vão os guarda-chuvas" de Afonso Cruz e "Nenhuma vida", último romance de Urbano Tavares Rodrigues. "Desumanização", de valter hugo mãe, já cá está! Também vem aí novo livro de crónicas de Lobo Antunes.

Depois... depois (aguentar a contagem decrescente!!!) vem aí os ensaios de David Foster Wallace, "Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer" e "Mason & Dixon" dessa espécie de irmão gémeo que é Thomas Pynchon. E vem o mais recente "O ano em que sonhámos perigosamente", do esloveno Slavoj Zizek e "Os níveis de visa" de julian Barnes, booker prize há dois anos.

E há novas edições de "Ulisses" de James Joyce e de "Guerra e Paz" de Tolstoi, o que é sempre um bom incentivo para os ler.

Há mais, mas estes são os que vão à primeira página no meu jornal imaginário.

sábado, setembro 21, 2013

Kjersti Annesdatter Skomsvold: Quanto mais depressa ando, mais pequena sou


"Gosto de estar cansada, diz-me que consegui algo. O cansaço é provavelmente o meu sentimento preferido. Depois do amor, claro.

(...) Tento levantar-me sem problemas enquanto penso nas árvores que caem na floresta. Se ninguém ouvir, a árvore cria um som, ou chega mesmo a cair? Talvez fosse melhor que eu caísse sem testemunhas. Enquanto penso isso, descubro que o que eu pensava ser um galho castanho junto ao meu pé não é nada um galho. É uma rã. Está sentada ao meu lado, imóvel, como se pertencesse ao reino vegetal, e estou certa de que ela, tal como eu, o faz por ter medo de morrer, estando provavelmente a tentar evitar ser comida. É um truque inteligente: enganar a morte ao tornar-se invisível.

(...) Acima de mim, tudo o que consigo ver são as nuvens que parecem bolinhos de merengue, e o único som que consigo ouvir é o das sirenes das ambulâncias. Desta vez, vêm por mim."

(Estreia maravilhosa de uma norueguesa de 34 anos, que venceu o Prémio Tarjei Vesaas para primeira obra, em 2009. Editado pela EUCLEIA, editora a que vale a pena prestar mais do que toda a atenção.)

sexta-feira, setembro 20, 2013

Pedro Santos Guerreiro: O que é que você acha?

Anka Zhuravleva

Pedro Santos Guerreiro lança 40 perguntas no editorial de hoje.
Se responder afirmativamente a pelo menos dez é porque anda distraído.
Se responder afirmativamente a metade é oficialmente ingénuo.
Se responder afirmativamente a trinta ou
 mais, tem um problema, mas como não tem consciência dele é de certeza feliz.
Se tiver respondido negativamente a quase todas as perguntas, concentre-se só nesta: "Acha mesmo que o seu papel, a sua opinião ou o seu trabalho são irrelevantes?"


"Acha mesmo que mais 0,5% de défice é o que vai fazer a economia crescer em 2014?

Acha mesmo que estarmos com taxas de juro de 7,2% nas obrigações a dez anos é estar no caminho certo?

Acha mesmo que o PSD chama hipócrita ao FMI por outra razão que não sejam as eleições autárquicas?

Acha mesmo que Passos e Portas confiam um no outro? Acha mesmo que sabe qual deles é que manda no Governo?

Acha mesmo que o Estado mudou muito?

Acha mesmo que a competitividade da economia portuguesa melhorou muito?

Acha mesmo que Portugal não vai precisar de outro programa de ajuda externa, se os mercados financeiros estão hoje tão fechados como em 2011, quando estavam abertos em Maio?

Acha mesmo que a crise política do Verão foi inócua?

Acha mesmo que não foi precisamente por causa da crise política que as obrigações portuguesas dispararam, quando as espanholas e as italianas caíram?

Acha mesmo que os mercados não são estúpidos, que não se comportam como animais numa manada, que os investidores conhecem os pormenores da vida política portuguesa, em vez de se limitarem a apreciações binárias, e portanto terem mudado Portugal da caixa "país com estabilidade política" para a caixa "país com instabilidade política"?

Acha mesmo que Paulo Portas foi responsável?

Acha mesmo que um programa cautelar é o mesmo que um segundo resgate?

Acha mesmo que o Governo não está a entrar no mesmo processo de negação em que Sócrates andou em 2010 e início de 2011 quando dizia que o Estado tinha dinheiro à vontade?

Acha mesmo que é uma boa decisão aplicar todo o fundo de estabilização de segurança social em dívida pública portuguesa?

Acha mesmo que, além dos 20 mil milhões que precisamos de empréstimos de longo prazo no próximo ano, vai ser fácil renovar outros 20 milhões de euros em Bilhetes de Tesouro?

Acha mesmo que o Tribunal Constitucional é o factor de bloqueio da reforma do Estado?

Acha mesmo que o Governo não está encostado à crença de que a Europa nos ajudará porque quer um sucesso em Portugal?

Acha mesmo que as eleições alemãs vão mudar a política de austeridade?

Acha mesmo que o Estado já assumiu toda a dívida pública que está nas empresas públicas e nas PPP?

Acha mesmo que conseguiremos pagar toda a dívida pública, numa economia de baixo crescimento?

Acha mesmo que vamos ter um crescimento económico espectacular, se mesmo as previsões optimistas do FMI dizem que só em 2018 voltaremos ao nível de PIB per capita que tínhamos em 2007?

Acha mesmo que o consumo não voltou a subir porque os portugueses estoiraram poupança que (bem) acumularam nos últimos dois anos?

Acha mesmo que os bancos não têm mais crédito malparado por reconhecer?

Acha mesmo que o Governo tem medidas alternativas à TSU das pensões, à mobilidade dos funcionários públicos e ao corte das pensões do Estado para apresentar daqui a três semanas?

Acha mesmo que o Governo não está a contar com flexibilização da troika no défice, mas também nas previsões do PIB e do desemprego, com pressupostos optimistas para que o Orçamento bata certo?

Acha mesmo que se a troika não facilitar não será preciso mais impostos?

Acha mesmo que o Governo não cai se houver aumento de impostos?

Acha mesmo que a culpa é só da troika?

Achas mesmo que o FMI fez "mea culpa"?

Acha mesmo que se cortaram gorduras no Estado, nas fundações, nos institutos, nas empresas públicas?

Acha mesmo que não foram as famílias que mais se ajustaram neste processo?

Acha mesmo que os excelentes resultados das empresas exportadoras não são deslocação de produção que era para o mercado interno e passou para o mercado externo, o que sendo óptimo não envolveu investimento nem novo emprego?

Acha mesmo que a reforma do IRC é suficiente para atrair investimento?

Acha mesmo que tudo é bom?

Acha mesmo que tudo é mau?

Acha mesmo que o seu papel, a sua opinião ou o seu trabalho são irrelevantes?

Acha mesmo que não há alternativa?

Acha mesmo que sabe qual é a alternativa?

Acha mesmo que Portugal, que se endividou e não conseguiu crescer durante dez anos, durante os quais furou sempre o défice, vai crescer agora que se endividou ainda mais e quer continuar a furar o défice?

Acha mesmo que os políticos lhe estão a dizer a verdade?"


[Hoje, Jornal de Negócios]

quarta-feira, setembro 18, 2013

Juan Luis Panero (1942-2013)


Quando te esqueceres do meu nome,
quando o meu corpo for apenas uma sombra
a apagar-se entre as húmidas paredes daquele quarto,
Quando já não te chegar o eco da minha voz
nem ressoarem as minhas palavras,
então, peço-te que te lembres de que fomos
uma tarde, umas horas, felizes juntos e foi belo viver.
Era um domingo em Hampstead,
com a frágil primavera de abril
pousada sobre os rebentos dos castanheiros,
Passavam para a igreja apressadas freiras irlandesas,
crianças, endomingadas e bisonhas, pela mão.
Em cima, atrás das sebes, na verde
penumbra do parque,
dois homens beijavam-se lentamente.
Tu chegaste, sem que me desse conta
apareceste e começámos a falar,
tropeçávamos de riso nas palavras,
balbuciávamos
no estranho idioma que nem a ti nem a mim pertencia.
De seguida, fizeste-te pequena nos meus braços
e a erva acolheu os teus cabelos escuros.
Depois as escadas sombrias, longas e estreitas,
o tapete com cinza e com gordura,
os teus pequenos seios desolados na minha boca.
Sim, às vezes é simples e é belo viver,
quero que recordes, que não esqueças
a passagem daquelas horas, o seu esperançado resplendor.
Eu também, longe de ti, quando perdida na memória
estiver a sede do teu sorriso, lembrar-me-ei,
tal como agora,
enquanto escrevo estas palavras para todos aqueles
que por um momento, sem promessas nem dádivas,

limpamente se entregam.
Desconhecendo raças ou razões que se fundem
num único corpo mais aventurado
e depois, acalmado já o instinto,
se separam e cumprem o seu destino
e sabem que, talvez só por isso,
a sua existência não foi em vão.

[O que resta depois dos violinos]

quinta-feira, setembro 12, 2013

Pedro Burmester

[Foto: Rita Burmester]

2013 ainda não acabou, o Matt Berninger ainda não chegou, e o ano já se fartou de dar-nos concertos para a vida. Mas nenhum dará uma lição tão grande como o de Pedro Burmester na Casa da Música. Porque poucas coisas são mais dignas de celebração do que a honra.

sexta-feira, setembro 06, 2013

We're after the same rainbow's end



Two drifters off to see the world
I'm not so sure the world deserves us
We're after the same rainbow's end
How come it's just around the bend
It's always just around the bend

terça-feira, setembro 03, 2013

Sandór Márai: Rebeldes



"A consciência de uma cumplicidade cruel derramava-se sobre eles, a alegria excitada da afinidade, a felicidade da careta enorme que faziam nas costas do mundo cândido e adormecido, talvez pela última vez. O actor, dentro de um minuto, fecharia o círculo. Nesse instante, esclarecia-se tudo nas suas mentes: as lembranças comuns, o espírito de revolta que os unia, o ódio ardente contra o mundo, tão incompreensível e improvável como o deles, insensível e mentiroso, exactamente como o deles. E a amizade que os sustinha, a esperança e a angústia, cuja tristeza ainda brilhava nos olhos deles. 

(...) A separação não se devia a nenhuma razão especial. Já haviam superado a necessidade de encontrar pretextos para o ódio recíproco. Sofriam muito, mas todo o ódio vinha suavizado, acomodavam-se nos braços das recaídas, e a luta permanente que destruía as almas, travada em si próprios e contra os outros, silenciara. (...) Tudo o que acontecesse depois seria um caminho descendente, talvez na direcção da morte."


segunda-feira, setembro 02, 2013

Anka Zhuravleva


Russa, claro. Maravilhosa.
Da série 'Distorted gravity'.