sexta-feira, maio 31, 2013

Primavera Sound: Dia 2

Local Natives
Blur
Glass Candy

17h00 Dear Telephone
17h25 Ghostigital
17h55 Memória De Peixe
18h30 OM
18h50 Neko Case
20h00 Local Natives
20h00 Daniel Johnston
21h00 Swans
21h00 SVPER
22h20 Melody's Echo Chamber
22h50 Grizzly Bear
23h00 Shellac
23h55 Metz
00h25 Meat Puppets
00h15 Four Tet
01h25 Blur
01h25 Do Make Say Think
01h55 Hot Snakes
03h00 Glass Candy
03h25 Fuck Buttons
04h00 Julio Bashmore

quinta-feira, maio 30, 2013

Primavera Sound. Dia 1


18h00 Guadalupe Plata
18h35 Merchandise
19h50 Wild Nothing
21h The breeders performing Last Splash
22h10 Dead can dance
23h30 Nick cave
01h00 Deerhunter
02h15 James Blake

Intervalo de três dias para ser feliz


quarta-feira, maio 29, 2013

Ivo Andric: A ponte sobre o Drina


"Há coisas que, pela sua natureza, não podem permanecer ocultas, pois quebram todas as barreiras, por mais fortes que sejam, e atravessam todas as fronteiras, por mais guardadas que estejam. ("Há três coisas que se não podem esconder", dizem os turcos otomanos: "o amor, a tosse e a pobreza.") Era esse o caso daquele par de enamorados. Não havia na cidade um velho ou criança, homem ou mulher que os não tivesse encontrado num dos seus passeios por trilhos solitários nos arredores, perdidos na sua conversa e completamente cegos e surdos relativamente a tudo o que os rodeava. Os pastores estavam tão habituados a eles como àqueles pares de escaravelhos que se vêem em Maio nas folhas ao longo dos caminhos, sempre dois a dois num abraço amoroso. Eram vistos em toda a parte: juntos do Drina e do Rzav, ao pé das ruínas do velho alcácer, na estrava que vem da cidade ou nas imediações de Straziste, a qualquer hora do dia. É que para os apaixonados o tempo é sempre curto e nenhum caminho é longo demais. Por vezes iam a cavalo ou numa pequena carroça, mas a maior parte das vezes iam a pé, naquele andamento que se costuma ver em duas pessoas que apenas existem uma para a outra e cm aquele passo característico de quem está indiferente a tudo neste mundo a não ser o que cada um tem a dizer um ao outro."

terça-feira, maio 28, 2013

Eduardo Lourenço: Os militares e o poder (O fim de todas as guerras e a guerra sem fim)


"Portugal é, neste momento, um país nu. Quer dizer, um país nem nenhum álibi histórico, entrincheirado na sua confinada faixa atlântica, sem possibilidades de sonhar outro sonho que não o seu próprio, caseiro. Nós passámos séculos a fugir de nós mesmos enquanto apenas portugueses. Fuga simultaneamente estelar e criadora que não nos permitiu nunca que nos encontrássemos connosco mesmos. Fomos sempre outros. Essa fuga é agora impossível. Chegou a hora desse encontro secularmente adiado para o qual ninguém sabe até que ponto estamos colectivamente preparados. Uma das tentações que nos espreita é de novo a invenção de mitos, de esquemas orientadores, destinados a superar imaginariamente os obstáculos inevitáveis de o nosso longo passado de irrealismo histórico e político acumulou. A nossa aventura histórica é a de um povo que viveu sempre em bicos de pés, , acima das suas possibilidades reais, esperando tudo de milagres que às vezes aconteciam, de dons sebastiões e de caldos de portaria, a ponto de converter esta existência pícara em segunda natureza. Quando os desastres aconteceram, descobriu-se-les logo o antídoto, criando a especialidade lusitana por excelência de transfigurar os alcáceres-quibires reais em aljubarrotas fictícias. O espaço para estes jogos e miragens históricas desapareceu, sumiu, como dizem os brasileiros, com a supressão dos horizontes quiméricos do nosso pseudo-imperialismo. Encurralados na nossa autêntica realidade,  não podemos nem devemos procurar saídas que continuem a ser, como sempre foram as nossas, "portas pintadas na parede". Temos de ajustar-nos ao que realmente somos e podemos para a partir daí construirmos um Portugal possível e não uma quimera. O que somos é considerável e nada desprezível, como nos grandes momentos de realismo e unanimismo pátrio o provámos. E o que podemos, se soubermos adequar os meios de que dispomos à invenção do país possível, permite a esperança de dominar o desafio incomum que a situação actual e a nossa aposta histórica requerem. Mas é perfeitamente inócuo e nocivo recriar sob outra roupagem novos "orgulhosamente sós", ou exaltar-se com o pavor suposto ou efectivo que inspiramos neste momento a um "certo mundo" como demagogos em delírio apregoam."
(Expresso, 03-05-1975)

segunda-feira, maio 27, 2013

Pedro Santos Guerreiro: As Instituições


País, Estado e Nação não são sinónimos. República, democracia e política não são sinónimos. Habituados à estrutura, julgamo-la eterna. Mas todas as histórias acabam – e a História acaba nunca. Para servir o Estado não basta o melhor possível – em épocas como esta, tem de ser o necessário impossível. Não é fácil nem é leve – é o Estado. Temos instituições fracas por conveniência do sistema que nelas se auto-preserva. Eis o drama.

A qualidade das instituições é o que determina ou aniquila a prosperidade perene de um país. Essa é a conclusão do livro “Porque Falham as Nações”, já aqui citado. Instituições fortes protegem um Estado dos vícios e capturas de quem o lidera. Instituições fracas jazem aos pés de quem fica e excluem quem passa. A força dos poderosos que mandam contra as forças poderosas dos que desafiam. As nossas instituições vivem num situacionismo de conservação que tem projectado Portugal para o declínio. Económico. E social.

Portugal vive num sistema de poderes penetrável mas irredutível. Não é uma pirâmide, é, como lhe chamou uma vez Paulo Morgado, um mikado, em que as peças se amontoam, sendo impossível mexer numas sem tocar as outras – e assim se mantêm.


A Operação Furacão foi o primeiro ataque a este mikado económico. Um grupo de bancos vendia serviços de “optimização fiscal” a empresas, que terão lesado o Estado em milhões de euros em impostos. Centenas de arguidos, dezenas de notáveis, as maiores empresas do país, buscas, escutas, escândalo. O que aconteceu? As empresas pagaram os impostos e, nisso, o bilhete para a imunidade. O que há de pensar o país do seu Parlamento, quando foi esta instituição que, alterando o Código do Processo Penal, permitiu a escapatória ao Furacão? 

Que há de pensar o país do Banco de Portugal quando há um BPP e dos partidos políticos quando há um BPN? Que há de pensar o país se os seus tribunais não prendem por corrupção?
Que há de pensar um país de um Governo que vende por 7,5% amnistias aos seus homens mais ricos, para que legalizem o dinheiro que irregularmente tinham fora de Portugal?


É frustrante observar a incapacidade de combater este compadrio que muitas vezes não é corrupto, apenas complacente. Por isso é importante ter novas instituições como o Conselho de Finanças Públicas, que questiona o Governo antes de o mal estar feito. O INE e o Tribunal de Contas são respeitados, mas actuam a posteriori. Mas o Conselho de Finanças Públicas é importante porque tem Teodora Cardoso à frente, e são já notórias as forças políticas que tentam descredibilizá-la. Assim é com o Banco de Fomento, que o sistema instalado contesta, porque vai mudar a forma de distribuição dos fundos comunitários. O Banco de Desenvolvimento será tão importante quanto o primeiro presidente que tiver. Assim foi com Abel Mateus na Autoridade da Concorrência: as empresas tinham medo dele. Hoje não têm medo da Autoridade.

As pessoas importam porque fazem as instituições fortes e desfazem as fracas. E quem quebra o verniz, e às vezes os dentes, no fim perde sempre, é excluído. Paulo Morais, que saiu da Câmara do Porto, parece um maluco a falar de corrupção, ninguém o ouve. Teixeira dos Santos pode ter feito tudo errado mas quando apressou o pedido de resgate foi um homem de Estado. Como não baliu com o rebanho do PS, está proscrito.


A Presidência da República é o pináculo do sistema. É uma instituição respeitada mas, hoje, o Presidente tem a popularidade mais baixa de sempre. Não foi o insulto que arrasou a reputação de Cavaco, foi a reputação do Presidente que tornou possível o insulto. Não é preciso recuar ao que disse Soares, Galamba ou Sousa Pinto há semanas. Como escreveu Vasco Pulido Valente no mesmo dia em que Sousa Tavares comparou Cavaco a Beppe Grillo, “sozinho, completamente sozinho, o Dr. Cavaco Silva conseguiu arruinar a Presidência da República. A Presidência da República não tem hoje autoridade, influência ou prestígio”. O insulto não é o debate político aceitável, nem das elites nem contra elas, ele tem de ser civilizado. Ao mesmo tempo, foi vestindo de cores garridas um Presidente que se percebeu que o rei vai nu.

Comparar Cavaco com Soares é demasiado radical. Mas Eanes foi um Presidente essencial e corajoso. Sampaio teve coragem quando ela foi necessária, na mudança de Governo, e encheu os portugueses de orgulho na entrega do Nobel da Paz a Ramos-Horta e Ximenes Belo. Cavaco Silva não esteve sempre mal, ainda há dias foi aqui elogiado pelo papel na crise da coligação, mas neste segundo mandato, quando já não tinha nada a perder, perdeu o respeito de muitos.


Começou com o BPN. Na tomada de posse, fez um discurso arrasador a Sócrates, e esta coluna foi das únicas que o apoiou. Mal sabíamos que esse discurso precedia a apresentação do PEC 4, que o Presidente desconhecia – mas sabia que desconhecia. Como conta o livro “Resgatados”, de David Dinis, Carlos Costa ligou para Belém pensando que o assunto era lá conhecido, assim revelando-o. O Presidente, traído, fez um discurso dois dias antes vingando-se não só do passado (o uso do BPN nas eleições) mas do futuro (o PEC 4). Nesse Março de 2011 aqui se escreveu que o chumbo do PEC 4 era um erro que gerava “a crise política mais estúpida de sempre”. Assim foi.

Cavaco é um homem eleito pelo povo, líder de um povo mas súbdito da Nação que esse povo é. Está longe desse povo. Banalizou o Conselho de Estado. Fazer cordão policial ao Governo não é a melhor maneira de defender as instituições, é colocar-se entre o povo e elas.


As instituições estão inutilizadas pela tibieza de uns e capturadas por um  sistema que assim se preserva. O sistema de justiça permanece enredado e o sistema politico é intocável. O povo descrê. Quem lidera as instituições depressa alinha, desiste ou é mudado. O Estado é o seu estrado. Uma tábua. Um trampolim. Um pódio. Mas às vezes as circunstâncias mudam, fazem da tábua uma prancha num navio em alto mar e é então que os homens se revelam ou não competentes e corajosos. Portugal não é um lugar nem um grupo de pessoas. É uma Nação. Uma República. Uma democracia. Um país. Ainda é um Estado. E merece passar do declínio para a regeneração. Ainda que para isso seja necessário pôr pessoas em causa. É sempre.

[Hoje, no Jornal de Negócios]



domingo, maio 26, 2013

A melhor canção do álbum



I couldn't find quiet
I went out in the rain
I was just soakin' my head to unrattle my brain
Somebody said you disappeared in a crowd
I didn't understand then
I don't understand now

Am I the one you think about when you're sitting in your faintin' chair
Drinking pink rabbits?
Am I the one you think about when you're sitting in your faintin' chair
Drinking pink rabbits?

And everybody was gone
You were standin' in the street 'cause you were tryin' not to crack up
It wasn't like a rain it was more like a sea
I didn't ask for this pain it just came over me
I love a storm, but I don't love lightning
All the waters coming up so fast, that's right

Am I the one you think about when you're sitting in your faintin' chair
Drinking pink rabbits?
Am I the one you think about when you're sitting in your faintin' chair
Drinking pink rabbits?

And everybody was gone
I was standing in the street 'cause I was trying not to crack

I was solid gold
I was in the fight
I was coming back from what seemed like a ruin
I couldn't see you coming so far
I just turn around and there you are

I'm so surprised you want to dance with me now
I was just getting used to living life without you around
I'm so surprised you want to dance with me now
You always said I held you way too high off the ground

You didn't see me I was falling apart
I was a white girl in a crowd of white girls in the park
You didn't see me I was falling apart
I was a television version of a person with a broken heart
You didn't see me I was falling apart
I was a white girl in a crowd of white girls in a park
You didn't see me I was falling apart
I was a television version of a person with a broken heart

And everybody was gone
You were standin' in the street cause you were trying not to crack up
And Bona Drag was still on
Now I only think about Los Angeles when the sun kicks out
Now I only think about Los Angeles when the sun kicks out

You said it would be painless
The needle in the dark
You said it would be painless
It wasn't that at all
You said it would be painless
The needle in the dark
You said it would be painless
It wasn't that at all (when the sun kicks out)

You said it would be painless
The needle in the dark (when the sun kicks out)
You said it would be painless
It wasn't that at all

sábado, maio 25, 2013

Paulo Morais: "O meu maior combate é contra o medo"



A entrevista que Paulo Morais deu a Clara Ferreira Alves, publicada hoje no Expresso, devia ser lida por toda a gente. E toda a gente devia lê-la com um bloco de notas ao lado. Porque há nomes que convém não esquecer.

Sobre Pedro Passos Coelho:
(...) ele não estava completamente dominado pelos grandes grupos, Mello, Espírito Santo, Mota... Não tinha ligação profissional directa como tinha tido Durão Barroso.- Teve, indirecta, ao BPN, ou não?- Na altura, eu não sabia. Nem sabia que o Grupo Espírito Santo foi aumentando o seu capital na Fomentivest à medida que Passos Coelho foi aumentando o capital político. Estranho. Achei que ele dava alguma esperança, até por conversas que tinha tido com ele sobre as PPP. Mais uma desilusão. Está na altura de Passos ler o seu próprio livro.

Sobre Cavaco Silva e Eduardo Catroga:

Há uma fase inicial em que Cavaco Silva não estava condicionado pelos grandes grupos. Ele teve uma queda brutal no momento em que as privatizações deixam de ser feitas na Bolsa, com leilão competitivo, e passam a ser feitas por negociação. Com a chegada de Catroga ao Governo. A corte absorveu Cavaco Silva. Como todos.

Sobre a corrupção em Portugal:
A corrupção em Portugal está a subir. No indicadores internacionais, entre 2000 e 2010, passámos de 23º para 33º. Somos o país que mais caiu em transparência no mundo. O que mais regrediu. Somos o pior da Europa, com a Itália, onde predominam as máfias, e a Grécia, onde predomina a desorganização. Nós temos as duas coisas. Se a corrupção diminuir, o país melhora.

Momento isto-pode-mudar-(esperemos!)-as-próximas-eleições-autárquicas:
Estamos a criar um site de transparência municipal [site de contas], com um indicador de transparência face a cada município ainda antes das eleições autárquicas. 

Quero ir mais longe, de modo a que as pessoas saibam para onde vai cada euro que metem na administração pública. Estamos a trabalhar nisso. Mas o que falta, o passo essencial? A criação da censura social à corrupção.

Sobre tachos e clientelas partidárias:
No litoral, ou nas áreas metropolitanas, estar ligado a um partido é garantia de emprego. Nos pequenos municípios, no interior, não estar ligado é garantia para o desemprego.

O primeiro empregador é a Câmara, o segundo é a misericórdia ou uma IPSS local ligada à Câmara. Quem não estiver na rede clientelar do presidente, fica sem emprego.

Sobre negócios trafulhas (parte I) e Ferreira do Amaral:
Expropriação já, da Ponte Vasco da Gama. Não é um negócio, é uma mentira. 

Existe a luta contra a corrupção, a luta contra o medo e a luta contra a mentira. (...) Percebi ao fim de não sei quantos anos que os privados entraram com pouco mais de 20% do valor da ponte. E ficaram não só com aquela ponte como com a outra e com as travessias do Tejo. E se pensar que os tipos que compraram a ANA são sócios da Lusoponte, espere mais uns tempos e vai ver o aeroporto do lado de lá e a Vasco da Gama com um inflacionamento da faturação da ordem dos 30% a 40%.

E o Ferreira do Amaral estar a gerir o negócio que ele próprio montou é absurdo.

Sobre jornalismo:
O problema é que temos poucos jornalistas a fazer jornalismo. Por razões históricas, as redacções estão cheias de estagiários e os que pegavam em determinadas causas estão arredados ou foram arredados. E a propriedade tem sido tomada pelos grupos. Na maioria dos casos, os jornalistas não têm formação para estudar estas matérias. Temos um espaço público, mediático, tomado pela gente da política. 


Conhece algum país onde os políticos sejam comentadores?

Sobre a ERC:
Não serve para nada. Bom jornalismo precisa de jornalismo forte e bons jornalistas. Em Portugal não temos massa crítica a uns e outros.

Sobre as supostas tentativas públicas para combater a corrupção:

"A primeira foi a Alta Autoridade contra a Corrupção, presidida por pessoa estimável mas sem a energia necessária para isso. O Costa Brás. Depois tivemos aquela comissão parlamentar com deputados com fortíssimas ligações a grupos empresariais e bancos. O Vera Jardim, o presidente, era e é do Bilbao Y Vizcaya. 

Só por anedota se põe a chefiar uma comissão destas uma pessoa ligada a um banco. 

E nada disto é secreto. O Conselho de Prevenção da Corrupção é um organismo muito governamentalizado. Não é bom nem é mau, é inócuo. Pediu a todas as entidades públicas que fizessem planos de risco de corrupção, há uns anos. E quem fez esses planos? As pessoas mais susceptíveis de estarem envolvidas em corrupção. É pedir ao assaltante o plano de segurança do edifício. Fizeram-se mil e tal papéis que ficaram todos arquivados. E nada aconteceu.

E onde o Conselho podia intervir, nas privatizações, aparece a fiscalizar a privatização da EDP depois de concluído o processo.

Quando o memorando foi assinado, 4 de maio de 2011, fizemos na Associação de Transparência, uma reunião com a Troika, antes de irem para o aeroporto. Ficou estabelecido que analisaríamos o memorando e identificaríamos as áreas mais susceptíveis de corrupção. (...) Identificámos as áreas e identificámos as privatizações. Ou mais uma vez eram feitas em leilão competitivo em bolsa ou tinham de ser completamente transparentes, com uma comissão a fiscalizar o processo.

[A comissão] era o Daniel Bessa e mais outros. Uma comissão governamental para fiscalizar o Governo. Ninguém fiscalizou coisa nenhuma."

CFA: Com o telefonema do Ricciardi para o primeiro-ministro.

"Devem ter tido sucesso, porque ganharam o concurso público no caso da REN. Com o apoio do Miguel Frasquilho, vice-presidente da comissão parlamentar que fiscalizou isso.

Sobre a Troika, Resgate vs Sequestro:
Da troika, prefiro nem falar. Devíamos ter tido uma intervenção externa se tivéssemos tido um resgate. Mas não tivemos um resgate, tivemos uma intervenção para garantir que o Estado português continuava a pagar os empréstimos à banca. Um resgate é outra coisa. Existem resgates nas empresas, os chamados acordos de credores. Processos de reestruturação da dívida em que se isola a exploração do problema da dívida. Isto é um resgate. Óptimo exemplo que salvou muitas empresas em Portugal. Quando a primeira das despesas a efectuar é dívida, isto não é um resgate, é um sequestro. Não vale a pena dizer que não vamos pagar, o que faz sentido é fazer um resgate a sério. Reestruturar a dívida.

Sobre a banca, os três segredos da governação do país e a teoria de viver acima das possibilidades:
A dívida portuguesa está toda titulada. A banca estava toda entalada com a dívida portuguesa e deixou de estar.

70% da dívida privada era bolha imobiliária. E só 15% da dívida era consumo. A história de que os portugueses andaram a gastar acima das suas possibilidades é o maior embuste. São as três maiores mentiras. Essa é uma, outra é de que não há alternativas à austeridade. E a terceira é a mania dos desvios, cada Governo que vem diz que havia um desvio do Governo anterior. O Durão Barroso falou da tanga do Guterres, o Sócrates falou dos desvios, este falou do desvio colossal.

Ou estes tipos não conhecem a estrutura da dívida, e não têm desculpa porque são incompetentes, ou andaram a mentir porque a conheciam. Na Administração Pública não pode haver desvios. Toda a despesa pública tem de estar orçamentada e cabimentada. Sem cabimentação prévia, quem fizesse despesa incorreria em perda de mandato. Como ninguém perdeu o mandato... pode haver despesa pública não cabimentada e casos extremos, tremores de terra, pontes caídas, etc. Ora como não há despesa pública não cabimentada, não há despesa contratada sem documentos. Dizer que há desvios é brincar com as pessoas.

Sobre o Tribunal de Contas:
Porque não actua? Tem lá gente do Ministério Público que tem de intervir. Num destes dias o presidente [Guilherme de Oliveira Martins] veio dizer que havia contratos secretos nas PPP. Não pode haver contratos secretos na Administração Pública. Ou eram secretos e são nulos. Ou só eram secretos para o Tribunal de Contas. Tem que ser explicado. Tem que ter seguimento. Depois disto, o presidente ou os torna públicos e explica, ou os anula ou se demite. Se existe contratos válidos secretos, o TC é um organismo inútil. Não pode haver proclamação de seriedade sem consequências.

Sobre o BPN, SLN, Galilei e afins:
O caso BPN está para este regime coo o caso Alves dos Reis para a I República. O maior projecto imobiliário do país, neste momento, é o projecto dos Salgados, no Algarve, da Galilei [ex SLN]. Na Parvalorem estão, além dos resíduos tóxicos, os maus negócios e todos os passivos de todas as empresas que a SLN teve com gestão danosa deliberada. Existiam com prejuízo que era todo mandado para o BPN. Está tudo documentado. Até os carros eram comprados e financiados duas vezes. Se houver uma investigação competente, conseguem identificar toda a gente. E confiscar os bens. A justiça tem meios para actuar, com a legislação da recuperação de activos que existe em Portugal. Não são precisas novas leis.

O BPN tem uma solução política, que tinha de ser ao mais alto nível. E a SLN resolvia-se de uma de duas formas: ou os accionistas dão três milhões de euros ao Estado, ou então confiscam-se os bens deles. A maioria são accionistas da Galilei. Isso implicava que tivéssemos outro Governo. Porque a negociação teria de ser feita pela cabeça do Estado e ratificada pelo Parlamento.

Sobre os conflitos de interesses (eufemismo para descaramento) dos que habitam o Parlamento e respectivas comissões que integram:
O pior [do Parlamento] são as comissões.

As mais escandalosas.

A da Defesa, por causa da questão dos submarinos, onde o presidente tem sido sempre proveniente da mesma sociedade de advogados, a do Rui Pena. Agora é o Matos Correia, que vem daí, antes o José Luís Arnaut, que vem daí, e que foi ministro na altura da compra dos submarinos. 

E temos o José Luís Cnavarro, presidente da Comissão da Segurança Social e ao mesmo tempo consultor do Montepio, que actua na área da solidariedade.

Temos Manuel Isaac e Pedro do Ó Ramos, que estão na comissão da Agricultura e que nas suas empresas recebem subsídios desse ministério. 

A mais escandalosa é a comissão parlamentar eventual do Programa de Assistência Financeira a Portugal, a comissão que acompanha os trabalhos da troika, que tem a presidir o Vieira da Silva e como vice-presidente o Miguel Frasquillho, que além de ser deputado é membro do Grupo Espírito Santo, e ainda por cima trabalha na ESSI, a sociedade que ajudou os chineses a comprar a EDP. 

Como é possível?

E tinha lá o Adolfo Mesquita Nunes, que agora é secretário de Estado do Turismo e trabalhava ao mesmo tempo no escritório Morais Leitão, Galvão Telles, Soares da Silva e Associados. Os grandes escritórios são as grandes irmandades.

Sobre os grupos, parcerias, financiamento dos partidos, transferências dos figurões dos governos para as empresas privadas, e a negociata ANA/Relvas/Costa:
Criou-se a impunidade de alguns grupos económicos. Reorganizaram-se muito rapidamente para tomar conta do Estado português. Estes grupos conseguem resolver problemas insolúveis. 

O grande negócio que a Câmara de Lisboa, o António Costa fez com o Miguel Relvas, para os terrenos do aeroporto, só foi um grande negócio para os compradores da ANA. A partir do momento em que os terrenos deixam de ser da Câmara, passam a estar sob a tutela da ANA durante o período de concessão. Os concessionários podem fazer o que lhes apetecer. A Câmara ganhou o dinheiro.

Como é que a CML anda anos em diferendo com a Administração Central, um problema insolúvel, tantos professores de Direito Administrativo, tantos pareceres, anos e anos de litigância, e de repente tudo se resolve numa semana, ao aparecerem os compradores da ANA?

Eles podem, quando quiserem, fazer o novo projecto imobiliário na Portela e o novo aeroporto de Alcochete e com isso rentabilizam o equipamento da Ponte Vasco da Gama. E o projecto imobiliário da Portela terá uma rentabilidade muito superior ao custo do aeroporto de Alcochete.

A privatização da ANA foi barata e não foi transparente.

CFA - A Oposição nem beliscou.

É a central de negócios. É a história de Portugal nos últimos 25 anos. Pessoas que estão na administração política para captar recursos do Orçamento do Estado para beneficiar os grupos 
económicos para que estão a trabalhar. O seu trabalho é a corrupção. A verdadeira corrupção.

quinta-feira, maio 23, 2013

Nuno Bragança: Square Tolstoi

[Edição de 1981 (a primeira é de 1969),
com fotografia de Cartier-Bresson na capa]


"Como era grande a tua solidão. Tão vasta quanto a minha. Mas por razões ocultas, encontrámos vasos comunicantes. Que nos nivelavam o sentir no que me parecia prometida paz. Esquecia-me de um risco que a experiência submarina assinala a todo o mergulhador: a partir de certa fundura, ele fica exposto aos perigos da chamada embriaguês das profundidades.

Espontaneamente, vinham-nos recordações da infância mais remota. Às vezes parecia-me que estávamos tentando remontar aos nossos primeiros anos de vida sobre a terra, para que o encontro começasse nesses tempos e assim crescesse em sintonia. Era como se tudo o que nós os dois tínhamos vivido separadamente exigisse uma qualquer compensação da perda originada por não termos feito o caminho sempre juntos. Resumindo: devíamos ter nascido ao mesmo tempo, brincado juntos, crescido juntos até nos desvirginarmos mutuamente. E termos prosseguido assim. Pelo menos era desta cor que eu sentia as coisas entre nós. 

Naquela intimidade eu entendia o alcance da paixão-relâmpago entre adultos: faísca formidável ateando um incêndio que altera tudo. E vinha mais esta descoberta: era como se só agora eu entrevisse a razão de haver uma maneira física intensíssima para relacionar duas pessoas. E - num crescendo desse estar-com - dava comigo, estupefacto, no limiar da invenção do sexo. A partir de tal aprendizagem, tomava consciência horrorizada do que cada ser humano desperdiça (irremediavelmente) na relação sexual à toa. 

(...) Tenho passado a vida a tentar despir-me até não ter medo de ficar nu."

[Não parece a partir desde excerto, mas é um livro sobre o fim da ditadura em Portugal. E é uma descoberta maravilhosa. Não conhecia Nuno Bragança (1929-1985), é escritor praticamente apagado da História, vá lá saber-se porquê. E desta vez, a culpa nem é das editoras. A Assírio e Alvim reeditou-lhe a obra completa em 1995, parece que não vendeu mais de seis mil exemplares. Em 2009, a D. Quixote voltou a tentar, compilando as suas cinco obras num único volume. Não terá sido suficiente para que se tornasse, quase trinta anos depois da sua morte, suficientemente conhecido. E que pena. É tão, mas tão bom....]

quarta-feira, maio 22, 2013

Em estágio para o Primavera Sound



"Mermaids" entra directamente para o lote de canções mais tristes do ano. Nick Cave acredita em sereias, acredita em Deus, acredita no arrebatamento, mas as sereias pertencem ao mar e Deus sabe-se lá ond...e está quando é preciso. É uma despedida. Terrível, porque insuportavelmente descrente. É uma porrada. "Wide lovely eyes" entra directamente para o lote de canções mais tristes do próprio Cave. Ameaça quebrar-nos os ossos só com uma palavra. E até mete sereias e borboletas, e mitos e lendas, dá quase a ilusão de redenção, mas tudo é já pretérito imperfeito. Ele diz que desmantelaram o parque de diversões, desligaram a máquina e é tarde. É o fim, e o fim é escuro e é definitivo. "Push the sky away", que dá nome ao 15º disco de Cave, entra directamente para o lote de canções mais tristes de sempre. É como estar no corredor da morte, o baixo está ali só para nos esmurrar o coração, o piano para nos estrangular o sonho, e Cave para guiar a procissão, assombração a sussurrar: só tens de continuar a empurrar o céu para longe, empurrar o céu para longe, para longe, longe. "Water's edge" põe-nos de joelhos. Nick Cave tem 55 anos e não grita, antes gritasse, a voz são lâminas invisíveis mas afiadas. Não está aqui para nos salvar nem para ter piedade de nós. Está aqui para nos avisar: quando envelhecemos ficamos frios. E o frio mata o amor. "Jubilee street" pesa dez toneladas, esmaga-nos, deixa-nos a sangrar. A puta da roda do amor é tão difícil de empurrar quando se está no lugar errado à hora errada. As pessoas boas deviam praticar aquilo que pregam. Pois. Voltam os violinos, ele fica sozinho, começa a voar, porque soa então a condenação? A resposta está no lado B da canção, na aranha negra que chora em "Finishing jubilee street", tudo está perdido. "We real cool" parece absolvição, é condenação, claro. É quase humor negro, é libertação desiludida derramada em batimentos cardíacos, em lágrimas, em planetas separados. O passado é passado e está aqui para ficar. E o baixo também. Continua a esmurrar-nos o coração esmurrado. Em "Higgs boson blues" nem Martin Luther King escapa, Cave ressuscita os demónios e as maldições todas, mas o futuro já tanto faz, já não importa o que traz. E se nada há para perdoar (ou nada que possa perdoar-se?), que se cumpra então o que diz em "We no who you are": respirar, respirar profundamente.


"Push the sky away", talvez o disco mais aguardado deste ano, são nove canções de cortar os pulsos. Um livro em que todas as histórias acabam mal. É um manual para aprender a enlouquecer de dor. É isto que Nick Cave (com os Bad Seeds) traz ao Primavera Sound - música para doer. Muito. E para não perder.


"And some people say it's just rock and roll, but it gets you right down to your soul."

Quinta-feira, 30 de Maio, 23h30
Parque da Cidade, Porto

segunda-feira, maio 13, 2013

The place beyond the pines by Derek Cianfrance ***



Se me tivessem dito que o Ryan Gosling aparece apenas em vinte minutos do filme, não tinha sofrido tantos meses à espera que saísse. Grande lata! 

domingo, maio 12, 2013

Paulo Nozolino: "Só fotografei coisas que sabia que ia perder"


[Se só pudesse escolher um fotógrafo, Paulo Nozolino seria de olhos fechados o meu único fotógrafo.]

A sua luta diária é com o entorpecimento da visão. "Eu não estou aqui para mudar o mundo, mas para ver como é que ele evolui." Há 40 anos que Paulo Nozolino se dedica à fotografia. Nasceu em Lisboa em 1955, mas ainda antes do 25 de Abril foi estudar para Londres, onde descobriu que afinal a grande escola são as viagens. Mais tarde partia para Paris, onde esteve durante quase toda a década de 1990 e início de 2000. Dali descobriu o mundo árabe, onde se descobriu como fotógrafo. Tem livros publicados na prestigiada editora Steidl; já expôs na Maison Européenne de la Photographie de Paris e em 2005 o Museu de Serralves, no Porto, dedicou-lhe uma extensa exposição antológica chamada Far Cry. Nunca quis ser artista, mas a fotografia foi o que lhe permitiu andar pelo mundo a experimentar a liberdade. O negro, as ruínas, a morte e a violência têm sido os lugares para onde mais tem olhado - só assim pode enfrentar o sofrimento que o mundo carrega - devolvendo-nos imagens sempre a preto e branco.

Até dia 20 de Junho apresenta na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, Gloom, uma exposição sobre a história, as ruínas, as ausências e o abandono. E sobre a persistência das imagens e da beleza.

Gostava de começar a conversa pela sua última exposição, Gloom.
Foi uma encomenda sobre Toulouse, em regime muito aberto e flexível, sem tempos e sem data fixa para mostrar o trabalho. A encomenda era sobre a religião na Bretanha.
Religião na Bretanha?
Sim, ou o que resta dela. Fiquei espantado com a falta de espiritualidade e com as igrejas totalmente vazias de figuras e pessoas. E o trabalho acabou por se dirigir para a questão do abandono e para o modo como Deus passou a estar ausente nas relações humanas e foi substituído pelo dinheiro ou pelo cartão de crédito. Naturalmente, comecei a vaguear por sítios abandonados e caídos em desuso.
Interessam-lhe o abandono e o desuso?
Sim, ver até que ponto pode ir a degradação. Eu não estou aqui para mudar o mundo, mas para ver como é que ele evolui. E desde sempre que o meu trabalho tem um eixo relacionado com a decadência e o esboroar do mundo.
O que é lhe interessa nessas questões?
Ver o que já foi e o que ainda não é: quando se consegue perceber que algo foi importante, mas que ainda não é pó. Interessa-me este estado intermédio. Interessam-me as cidades quando caem em desuso e ficam desabitadas. E os vestígios, aquilo que fica, as ruínas.
E sempre foi assim? Ou tem-se vindo a acentuar esse gosto?
Sempre foi assim, mas estes tempos de miséria intelectual e financeira acentuaram estes aspectos, que me fazem procurar imagens.

Ainda que fale da decadência, do desaparecimento e do abandono, o seu trabalho é composto de imagens muito belas e sedutoras. Isso não é um paradoxo?
Eu não sei como é que as pessoas chegam ao meu trabalho, mas sei que, de algum modo, ficam contagiadas por certo modo de ver. E isso resulta de eu conseguir descobrir beleza em algumas das coisas para que olho: é como se ao fim de algum tempo, e para sobreviver, a decadência se transformasse num resto de beleza. Porque, se eu não conseguir amar as coisas que fotografo, não consigo sobreviver.
E ama as ruínas, o vazio, a ausência?
Sim. Há aí um certo sublime de que gosto e que é comum às pirâmides do Egipto, aos buracos das balas nos prédios de Beirute, aos bairros de lata. Este caos e violência fazem-me encontrar algo que me deixa em paz. É difícil explicar isto, mas estou naquela situação do príncipe do Guerra e Paz: está a ver S. Petersburgo a arder e diz: "Isto é horrível, mas ao mesmo tempo magnífico." Talvez isto seja uma forma de ultrapassar os medos.
Esse fascínio pela violência e pela guerra é um fascínio pela situação ou pela oportunidade de fazer boas imagens?
Pela situação, pela adrenalina, pelo extremo. Mas agora encontro essa adrenalina na banalidade, no tédio do quotidiano das cidades.

É uma questão de boas imagens?
Não sei, mas nunca fui à procura de imagens fáceis, nem nunca fiz fotojornalismo. As situações são diferentes: fotografar a violência é uma experiência muito reactiva, enquanto as imagens das ruínas são mais demoradas.
Fotografa pouco por reacção?
Não sou um fotógrafo de instantâneos.
Mas prepara e encena as suas fotografias?
Não, mas deixo que as imagens entrem. Quando vou fotografar, na minha cabeça a fotografia já está feita e, por isso, não tenho surpresas quando olho para os trabalhos. Orienta-me sempre o instinto e a disponibilidade para que as coisas me toquem.
Quando faz trabalhos de viagem, também não prepara nada?
Rigorosamente, nada. Leio alguma poesia sobre os sítios para onde vou, estudo um bocado da história local e deixo-me arrastar. O curioso é ver que, nas várias idas, acabo sempre por voltar aos mesmos lugares e a fotografar as mesmas coisas.

Nestes seus trabalhos, como nos que temos estado a falar, aparece só paisagem, arquitectura, mas nem sempre foi assim. Já fotografou pessoas, inclusive pessoas muito próximas, em situações muito violentas, como acontece na guerra e na morte. Nunca tem preocupações éticas? Mostra tudo, desde que seja uma boa fotografia?
Não. Claro que tenho preocupações éticas, senão não poderia ser a pessoa que sou. Nunca passei a linha da exploração e do roubar imagens a que não tinha direito. Sou um fotógrafo que se passeia pelo mundo e o meu trabalho é tirar fotografias. Se sinto que me estou a intrometer numa situação pessoal desisto. E há sempre pequenos sinais que as pessoas dão e que permitem perceber se as posso ou não fotografar. No caso destes últimos trabalhos sobre a Bretanha, são quase naturezas-mortas. Foram dias e dias a andar de carro sem se ver ninguém.
No caso da Bretanha é inexistente o tal conflito ético, mas já expôs muita nudez, a morte dos seus pais, entre outros exemplos que podíamos dar. O que lhe queria perguntar era se sentiu sempre que tinha direito a essas imagens?
Para mim, desde que haja o acordo das pessoas fotografadas, essas imagens são públicas. Mas essas imagens não surgem de forma gratuita e só as mostro se dentro de um determinado contexto [exposição ou livro] fizerem sentido.
Nunca mostra nada de forma gratuita?
Não mostro nus só pelo prazer do nu, mas se esse nu estiver relacionado com outra imagem são essas duas imagens que se devem ver. Tudo isto tem um contexto para o qual é preciso olhar.
Há quem diga que o seu trabalho tem uma enorme falta de pudor. E essa crítica acentuou-se quando fez a exposição onde mostrou a morte dos seus pais (Makulatur, 2011). Foi fácil fazer isso?
Foi horrível, mas foi a única maneira que encontrei de lhes fazer uma homenagem. E foi assim que exorcizei a morte deles, que foi uma coisa que deu cabo de mim. No espaço de um ano, perdi ambos os meus pais, que eu adorava. E conheci a terrível dor de ter ficado órfão. Foi muito, muito duro. Mas tive de fazer essa exposição, até porque esta é que é a verdadeira dimensão do trabalho, senão, são só jogos florais ou papel de parede.
E há aquela relação intensa, profunda e inultrapassável entre a fotografia e a morte. Consegue perceber essa permanência do tema da morte na fotografia?
Há algo terrivelmente mortífero na fotografia, porque as coisas nunca mais serão como na fotografia. E essa capacidade terrível que a fotografia tem de para sempre congelar o momento está ligada à morte. A fotografia é a morte.
Muitas das suas imagens reflectem não só a intimidade das coisas que fotografa, mas também a sua intimidade. Não se sente agredido?
Em 1997, entrei na morgue de Sarajevo e mostraram-me o corpo de uma criança em cima de uma mesa de morgue. O corpo estava ali há três dias sem ser reclamado e a criança tinha morrido de fome três anos depois do fim da guerra. O homem que me mostrou isto mostrou-o como um crime hediondo que tinha acabado de ser cometido. Para mim, a imagem daquela criança não vale só por si, mas por todas as crianças: aquela criança na fotografia são todas as vítimas inocentes das guerras. Nunca mais fiz imagens assim. Penso muito na família daquela criança. Depois, quando vejo o meu pai a morrer na cama do hospital, sinto que tenho a obrigação de o fotografar, porque se fotografei aquela criança eu tenho de fotografar o meu pai. E essa era uma imagem que tinha de ser feita.

Fotografar os seus pais a morrer é uma maneira de se redimir de todas as outras mortes que fotografou?
Não. É uma maneira de olhar a face da morte, de a enfrentar. E dói muito mais fotografar um pai que vai morrer que aquela criança de Sarajevo. E isto é uma forma de dizer que eu não estou nisto sem pagar o meu preço.
Há outro modo de fazer fotografia sem ser com essa violência?
Certamente que sim. A fotografia é o sujeito, é aquele que está a fotografar. Não há violência nenhuma em fotografar o mar ou uma árvore, mas pode-se fotografar violentamente esse mesmo mar e essa mesma árvore. Depende do que se quer dizer.
E sabe o que quer dizer?
Sei.
Pode dizer o que é?
Quem vê os meus livros e as minhas exposições tem noção daquilo que eu quero dizer e aquilo contra o qual me estou a insurgir.
E o que é isso?
Há um sentimento de injustiça enorme na vida e eu estou muito marcado por esse sentimento. Quando era criança não me prepararam, nem me explicaram que o mundo era um sítio tão violento e essa violência confronta-me diariamente. E para lhe sobreviver tenho de gerar mais violência: uma espécie de contraviolência. Não há bem palavras para explicar isto.
Podemos então dizer que a intensidade, o choque e o negro, que caracterizam tão intensamente o seu trabalho, não são uma retórica ou uma estética, mas uma necessidade?
É o que eu considero valer a pena ser mostrado. Trata-se da materialização daquilo que vejo, sinto e experimento todos os dias. As fotografias são o equivalente disto. Não vejo qualquer interesse numa fotografia de um casal aos beijos por baixo de uma palmeira numa praia tropical. Essa é uma falsa felicidade. As imagens sombrias são a realidade.
Mas só há morte e escuridão?
Sim, só há isso. Depois há uns intervalos em que pensamos que somos felizes e que a vida tem beleza. O mundo é um sítio onde há infinitamente mais gente infeliz que feliz.
Considera que só há morte, escuro e infelicidade no mundo?
Eu sou feliz. E é com o amor e a felicidade que eu sobrevivo. O amor, a amizade e a arte é o que ainda me faz estar vivo. Isso compensa tudo o que vejo e não posso ignorar. Mas um momento de felicidade não se fotografa.
Há aqui uma contradição. Não se pode fotografar um momento de felicidade, mas pode-se fotografar o momento da morte?
A gravidade do momento da morte obriga-me a fotografá-la e depois a morte é uma coisa que ninguém sabe o que é, enquanto a felicidade se sabe. Sabemos distinguir e identificar os sentimentos. Já a morte e a dor são os grandes mistérios. E o mundo é feito de contínuas mortes e da percepção de que está sempre alguém ou alguma coisa a morrer: uma planta, uma loja que fecha num centro comercial, os olhos de um amigo que começam a perder brilho e é aqui que está a gravidade do mundo. E é a estas coisas que devo prestar atenção.

O que lhe interessa com a morte e a perda é a maneira como isso nos coloca frente a um desconhecido de que quer fazer uma imagem?
Claro. Eu gostava de fazer a imagem desse desconhecido, do buraco negro, do que está para lá do espelho. Sim, no fundo, era isso. Se conseguisse fazer essa imagem, a imagem que tivesse tudo pararia.
E sempre foi assim?
Comecei a fotografar há exactamente 40 anos, em 1973.
E como é que começou "a coisa" da fotografia?
Uma namorada disse-me no Parque Eduardo VII que ia acabar comigo, eu fiquei em pânico e disse "mas eu nem sequer tenho uma fotografia tua". Fui a correr a casa dos meus pais buscar uma "instamatic" [modelo de câmara fotográfica da Kodak], que ainda tenho, e só depois de a fotografar é que nos despedimos. A fotografia para mim sempre esteve ligada ao sentimento de perda. Guardar qualquer coisa que foi extremamente importante e ficar com uma imagem. Só percebi isto muito tempo depois, mas é um facto que eu só fotografei coisas que sabia que ia perder depois.
As suas mulheres?
Pois. Para mim houve sempre uma ligação muito forte entre as minhas fotografias e as mulheres.
Mas não são só as mulheres, também as amantes, namoradas, companheiras.
Sim, as mulheres que fotografei foram as mulheres que amei e que mudaram a minha vida. Fizeram-me mudar de cidade, pensar de maneira diferente, assumir a paternidade, fazer loucuras. As mulheres sempre foram um grande motor.
Depois daquela primeira fotografia, foi estudar?
Sim. Estudei em Lisboa e era tudo muito mau e decidi ir para Londres em 1974.
Nessa altura já sabia que tipo de trabalho queria fazer ou andou a fazer experiências?
Eu demorei dez anos a perceber o que me interessava. Estas coisas da fotografia demoram muito tempo. Nessa altura, interessava-me a ideia romanesca de passear pelo mundo com uma máquina.
E por que é que a máquina de fotografar fazia parte dessa ideia de liberdade?
Nunca viajei senão para fotografar e nunca me considerei um turista, e a máquina era o objecto ideal para levar: cabia num bolso, permitia-me aceder a sítios e alimentava a minha curiosidade.

Esteve quantos anos em Londres?
Três. Tirei um diploma em Fotografia Criativa e viajei. E a minha grande escola foram as viagens.
E regressou a Lisboa?
Sim, porque tinha pendente o serviço militar, para o qual, felizmente, fui dado como inapto.
Em Londres não foi obrigado a fotografar coisas e a fazer experiências que não lhe interessavam?
Sim, eu sei fazer tudo. Estive numa escola técnica onde aprendi a fazer tudo: naturezas-mortas, arquitectura, retratos, etc. Tenho todo esse conhecimento técnico, mas depois esta minha vontade de viajar não era compatível com ter um estúdio, assistentes. E nunca quis ser funcionário da fotografia. Queria mesmo viajar e viver coisas e registar tudo. E os primeiros dez anos de fotografia são uma procura do modo de vida que queria para mim.
Então a fotografia serviu-lhe para concretizar o desejo do homem aventureiro perdido pelo mundo?
Tal qual.
Na verdade, serve-se da fotografia para estar livre?
Isso foi ao princípio e tinha que ver com a época que se vivia e com o desejo enorme que eu tinha de experiências do mundo. E a fotografia era a prova de que tinha estado naqueles sítios a viver aquelas coisas.
E quando é que mudou?Mudou quando percebi que não podia fazer outra coisa. E que era para aquilo que estava escolhido.
Foi escolhido para a fotografia?
Sim. Há um determinado momento em que o trabalho começa a ganhar peso na vida que temos e passa a ser uma obsessão e o motivo director. E a certa altura eu estava completamente preso pela fotografia.
Sabe identificar esse momento?
Pouco a pouco, percebia que via de uma maneira diferente das outras pessoas. Comparava as minhas fotografias com as dos outros e notava as diferenças de sensibilidade e visão. E houve alguns com quem senti grande afinidade.
Com quem?
O Robert Frank ou o Larry Clark, por exemplo. Fotógrafos que conheci através de exposições que vi em Inglaterra e nunca foram coisas que eu aprendi em livros, mas que vi e vivi. Acabei por conhecê-los, mas nunca quis ir trabalhar com eles, não queria gurus, porque já sabia que esta profissão é uma profissão de solidão.
Quando saiu de Londres, fixou-se em Lisboa?
Sim, e tive um filho. Durante um tempo tive um óptimo grupo de amigos e estávamos a tentar fazer coisas, e a certa altura isto não avançava. E em 1989 voltei a sair.
Foi para Paris?
Sim.
Com uma nova mulher?
Sim. Fomos viver para Paris, onde estive 12 anos.
Foi importante?
Extremamente, porque foi nesta altura que o meu olhar começou a ficar com uma grande maturidade. Já tinha exposto muitas vezes em França e os franceses abriram-me as portas para imensas coisas: deram-me bolsas, acarinharam o meu trabalho e motivaram-me muito. Foi uma altura em que me senti muito protegido e acarinhado. Tratou-se de conhecer um novo mundo. E em Paris o isolamento que sinto tão intensamente em Portugal era menor.

Que trabalhos fez nesses anos de Paris?
Comecei num projecto sobre o mundo árabe. Fiz uma viagem ao Cairo que mudou a minha vida. É desta altura o projecto Penumbra, que é o meu primeiro trabalho com cabeça tronco e membros.
Ou seja?
Eu gosto de juntar fotografias de circunstâncias diferentes, mas em Penumbra queria dizer alguma coisa sobre a paz e espiritualidade que encontrei no mundo árabe. Nos anos [19]90 era maravilhosa a paz daqueles sítios.
E como é que relaciona essa paz com a perda, o abandono e as ruínas com que começámos esta conversa?
Atenção que "penumbra" é um lugar escuro e significa viver uma existência sem glória. E o que me impressionou foi perceber que havia qualquer coisa recalcada que mais tarde ou mais cedo tinha de vir cá para fora. Era impossível ser de outra maneira. Tudo levava a um condicionamento que com a Internet e a rapidez da comunicação actual explodiu.
Como é que se orientava nesses países?
Com o meu instinto. Não levava muitas coisas, porque já nessa altura eu não fotografava muito e era muito económico. Numa viagem à Índia, roubaram-me tudo e aprendi que só se podia continuar com uma máquina, uma objectiva, um filme e um bom par de sapatos e ser o mais livre possível.
Como é que consegue essa economia fotográfica?
Com a presença no local há uma natural triagem naquilo que se escolhe ver, nas ruas que se escolhem ver e por aí fora. É muito difícil explicar, porque as coisas vão-se fazendo. O que eu sei é que não é necessário fazer milhares de fotografias, pelo contrário. No final de cada dia de trabalho, fazia o exercício de desenhar num caderno as fotografias que julgava ter feito durante o dia.
Qual foi o período mais longo que teve sem ver verdadeiramente as fotografias que estava a fazer?
Cheguei a estar dois anos sem revelar um único filme. Sempre a produzir, mas sem revelar.
Onde andam esses desenhos?
Deitei fora. Não gosto dos croquis, dos desenhos, nem das notas. Uma vez feita a fotografia, tudo o resto pode ir fora. Não penso nos historiadores do meu trabalho. O que penso ou escrevo não é importante, o que é relevante são os livros e as exposições que faço. Ainda que muitas vezes as pessoas não se apercebam da quantidade de trabalho exigido por uma exposição e entrem displicentemente numa exposição e estejam lá cinco minutos sem dar atenção a nada. Mas mesmo assim eu não sinto necessidade de mostrar o trabalho que está atrás de cada fotografia.

Depois do mundo árabe, voltou a Paris?
Paris era a base onde sempre voltava. Depois comecei a fotografar a Europa. E isto aconteceu com uma visita a Auschwitz. Fui lá parar por causa de uma encomenda do Pompidou e esta viagem mudou-me profundamente. Nunca mais fui a mesma pessoa.
O que é que lá encontrou?
O horror.
E o turismo da catástrofe não o incomodou?
Não. São muito corajosas as pessoas que visitam um campo de concentração. Trata-se de enfrentar o horror absoluto que um dia foi vivido. E este é o nosso passado. E toda a construção da Europa está baseada neste genocídio. Por isso, temos de lá ir. Como costumo dizer: há pessoas que foram a Auschwitz e há as que não lá foram.
Pode-se nunca lá ter ido fisicamente, mas pode-se já lá ter estado através dos filmes, livros, fotografias.
Tudo o que eu vi ou li é incomparável com aquilo que se sente quando se põe o pé no sítio e se toca na parede. Quando se toca nas pedras das paredes das câmaras de gás de Birkenau marcadas pelas unhas de quem lá foi assassinado, é tudo diferente. Pode-se ter lido o Primo Levi, ter visto o Claude Lanzemann, mas ali está-se a sentir. Ter conhecimento não é ter experiência.
Então as suas fotografias, os livros e as exposições servem para quê?
Para os outros, não sei para que é que servem. Eu trabalho para mim e depois quando está feito tenho o maior prazer em partilhar. É uma actividade pessoal e egoísta.
Não ambiciona partilhar essas suas experiências?
Sim, mas não com o público em geral, só com dois ou três amigos. Eu sei que há livros, filmes e fotografias que podem mudar a vida, mas como é que isso acontece eu não sei. O que me interessa é poder exprimir livremente o mundo em que vivo.

As obras de arte não são experiências?
Sim, mas são cerebrais. Uma fotografia das pirâmides pode ser linda, mas não tem nada que ver com tocar naquelas pedras e ter percepção da sua escala e da relação do nosso corpo com aquelas construções arquitectónicas. É mesmo preciso caminhar dez horas no deserto para saber o que é o deserto.
A arte não dá uma espécie de acesso a essas experiências?
Dá-nos uma espécie de apetência para descobrir em nós próprios o que nos interessa no mundo, mas depois é preciso ir e experimentar por nós mesmos. E isto é insubstituível.

Foi para Auschwitz em 1994 e que trabalho é que resultou dessas viagens?
Esse é um trabalho que ainda ando a fazer sobre a Europa, a que ainda não dei forma final.
Consegue perceber que Europa é essa que anda a tentar fotografar?
Ando à procura do espírito, do intocável e daquilo que nos une a todos. Ou seja, o que é que Pessoa tem que ver com Rimbaud, Rimbaud com Goethe, Goethe com Rilke. Falo de poesia, porque são os poetas que acabam por exprimir melhor uma espécie de indizível e de identidade universal que interessa. E pode-se dizer que eu procuro esse tal denominador comum da Europa, porque me sinto profundamente europeu. E essa Europa é a verdadeira Europa, o resto são arranjos económico-financeiros. O meu trabalho é encontrar pontos de contacto entre tudo isto.

Fala muito de poesia. É um grande leitor de poesia?
Sempre fui. Comecei muito novo e estragou-me a vida. Os livros fazem-nos bem, mas também nos fazem muito mal e eu parece que escolhi os que faziam pior.
E como é que a poesia o ajuda a organizar visualmente o mundo? Porque há sempre uma relação forte entre a poesia e a sua obra.
Sei que alguns poetas conseguem captar coisas que andam no ar e são estas coisas que me interessam. E, quando sinto que algum poeta está a tocar a mesma coisa que eu, vou atrás dele.
Por isso é que leva poemas e poetas para as suas exposições? Nesta exposição, à entrada, está o poema do Brecht chamado Aos que virão a nascer; na exposição Usura, do ano passado, era um dos Cantos de Ezra Pound.
Levo esses poemas porque é um complexo que eu tenho de o público não saber bem ler imagens e precisar de uma pequena ajuda.
Pode explicar como é que um poema ajuda a ler fotografias?
Ele não ajuda a ler as imagens, mas sim mostra um estado de espírito ou uma ideia. [Os poemas] são uma espécie de diapasão.
Estas foram as únicas exposições em que convocou poetas?
Não, numa exposição antológica de 2002 que fiz em Paris e que se chamava Nada, mandei traduzir e fixar na parede o poema do António Osório chamado Ofício. E que diz assim: "Armazenar sofrimento, distribuí-lo depois límpido." E isto é um grande poema que descreve o meu ofício, o dele e o de algumas pessoas.
E na sua exposição em Serralves?
Nessa, foi o Rui Nunes que pegou nas minhas fotografias e fez um magnífico texto com elas. E depois trabalhei com o Rui Baião para o livro Bone Lonely. Durante seis meses, fomos trocando fotografias e poemas e dessa troca nasceu o livro. Aqui era mais uma interrogação sobre o que se sente quando se tem cinquenta e tal anos e sente a solidão e a crise do meio da vida.
Já se percebeu que os poemas ajudam quem vê as suas fotografias a ficar na temperatura e atmosfera correctas, mas a si como é que a poesia o ajuda? Molda-lhe o olhar?
Não, não é bem isso. Até porque agora os poetas escrevem acerca de imagens e não acerca de sensações. Herdei do Rui Nunes a desconfiança acerca das palavras e que é preciso escolhê-las muito bem, porque elas já foram traídas, trituradas e são usadas ligeiramente. E ele gosta da fotografia porque diz sentir na fotografia uma verdade que a palavra já não tem. Mas hoje em dia, fruto da banalização, a poesia já não me alimenta tanto. O importante é ver como os poetas quebram a sintaxe e hoje quem escreve está demasiado preocupado em escrever bem. E o que me interessa não são os textos bem escritos. Tal como não me interessa fotografar ou pintar bem. Interessam-me os momentos de clivagem e destruição e as tentativas de reestruturação das coisas.

Mas no seu trabalho nota-se um esforço em fotografar bem. O seu trabalho é exemplar no enquadramento, na escala, na revelação.
Isso é o pior que eu consigo fazer. Mas gostava muito de fazer pior. Gostava que as minhas imagens fossem mais cruas, porque ainda há um sentimento estético que me liga a cada uma das imagens e do qual gostava de me libertar. E é sobre isto que estou a trabalhar.
Na sua grande exposição antológica de Serralves, havia no chão a indicação da data e do local em que cada uma das fotografias tinha sido feita. E desse percurso cronológico Lisboa estava quase ausente. Por que é que precisa de ir tão longe para fotografar?
Porque o olhar banaliza-se. E depois é preciso estar num certo espírito para ver as coisas, senão passamos por elas sem as ver. Na cidade em que se vive, os percursos são quase sempre os mesmos e às vezes vêem-se umas coisas, mas quase nunca se consegue ver nada. É mais fácil apanhar um avião e ir para longe, porque aí fica-se mais propenso a ver. Eu preciso muito dessa distância. Para fotografar, preciso de cheiros, luzes, ambientes e cansaços diferentes. Ainda que no fundo ande sempre à procura da mesma coisa e a verdade seja que se olharmos bem encontramos a mesma coisa tanto em Lisboa como em Kiev.

Tendo uma tão forte consciência dos processos fotográficos, nunca teve vontade de ensinar?
Eu ensinei, mas depois tive de ser honesto comigo próprio e percebi que não podia estar a ensinar pessoas se não era suficientemente bom fotógrafo. Eu próprio não sabia como fazer correctamente e, por isso, não podia estar ali a ensinar. E depois o importante na fotografia é que as pessoas aprendam a saber quem são e é por isso que em fotografia o reconhecimento só pode ser tardio. É preciso passar por muita coisa e envelhecer. Sem isto, aquilo que fazemos é muito superficial.
Não pode haver lugar para um olhar novo, bruto e quase primitivo?
Sim, mas só há um por século. O Rimbaud é um bom exemplo. Se se vir bem, os jovens fotógrafos não estão a aprender técnica fotográfica, mas a sair da escola para a galeria de arte. E isto é o oposto do olhar bruto e da expressão animal dos sentimentos. Esses jovens fotógrafos estão na escola a ler os teóricos da fotografia e a fotografia não é isso.
Mas não há óptimos fotógrafos que leram essas coisas?
Sim, há, mas isso não me interessa nada.
Nem o Jeff Wall, que é um fotógrafo reconhecido mundialmente, doutorado em História da Arte e com um muito sólido corpo de textos teóricos?
Não, não me interessa rigorosamente nada. A primeira vez que vi um trabalho dele ao vivo fiquei muito admirado. Aquela luz e aquela crueza são impressionantes, mas depois toda aquela dimensão intelectual não me interessa para rigorosamente nada.

Diz sentir-se muito isolado, mas é um fotógrafo muito bem sucedido nacional e internacionalmente.
O isolamento de que falo é das pessoas com quem verdadeiramente posso falar, porque depois só tenho monólogos. Tenho pouco amigos com quem posso estar a falar no silêncio. É preciso entender-se que a fotografia não é para mim uma carreira, mas uma obsessão vital, porque quero chegar a algum lado não como fotógrafo, mas como pessoa. A fotografia para mim é a vida.
Quis ser fotógrafo?
Sei lá, eu não queria era picar o ponto.
E sempre foi assim tão crítico?
Sempre. E sou muito severo e implacável comigo próprio. Deito muitas coisas fora. E tem de ser assim.
Agora vai ficar por Lisboa?
Sim.
E como articula a estabilidade que agora tem com a sua necessidade vital das viagens?
Isso depende de tantas coisas. Do dinheiro, das pessoas que amo e com quem escolhi partilhar a minha vida.
[Hoje, no Público, entrevista de Nuno Crespo]