sexta-feira, novembro 30, 2012

Primavera Club: Guimarães


Há uma altura do ano em que começamos a ressacar de concertos. É esta. O Verão já foi há seis meses, faltam outros seis para ser Verão outra vez. E mesmo se há um ou outro concerto no meio, não é suficiente para nos matar a sede. Por isso, o Primavera Club em Guimarães, ainda por cima em Guimarães, soube tão bem. Foi só um dia para nós, um dos três, mas valeu por muitos. Houve Sharon Van Etten, que tínhamos perdido no Lux, em Lisboa, e que não foi o que dela esperávamos, mas às tantas esperámos tanto por ela que dificilmente ela poderia caber-nos na expectativa; houve Destroyer, talvez o melhor concerto da noite, se é que é possível escolher um; houve um intrigante Daughn Gibson, mesmo se não resistimos a abandoná-lo a meio para ver Sharon, mas que gostaríamos muito de ver outra vez; e houve uma descoberta incrível, Sensible Soccers. Incrível quer dizer mesmo incrível. E houve a descoberta de São Mamede, sala onde nunca tínhamos entrado, e que devia ser aproveitada para isto, para partilhar magia. 

quinta-feira, novembro 29, 2012

Almeida Faria: Rumor Branco


Não foi há muito tempo. Anos noventa, o país a verter dinheiro por todos os lados e nós a entrarmos na universidade, dinheiro quase nenhum no bolso, na carteira um papel com a lista de livros que não tínhamos como comprar mas que queríamos muito ler. E na alma a esperança de que a biblioteca os tivesse, porque imaginávamos que as bibliotecas tinham tudo. Não tinha todos, mas tinha alguns. Foi assim que lemos muitos livros, fotocopiados com dinheiro que devia ser para investir em apontamentos. Foi assim que lemos pela primeira vez Rumor Branco, de Almeida Faria. Passaram mais de quinze anos. Na memória ficou-nos a ideia de um longo poema. Quando já havia dinheiro para comprar livros, não havia este livro no mercado. E sempre o quisemos recuperar. Não só porque tentámos substituir todas as fotocópias por livros verdadeiros, mas porque queríamos muito voltar a lê-lo. Foi agora, graças a uma edição da Assírio e Alvim para celebrar os 50 anos da obra. Que maravilha de texto! Que maravilha de texto escrito aos dezanove anos! E quanta ignorância quando julgamos que José Saramago foi o primeiro escritor em Portugal a escrever àquela velocidade "despontuada" ou valter hugo mãe o primeiro a iniciar frases com minúsculas. São ambos escritores maravilhosos, mas não foram os precursores deste tipo de literatura. Quanta injustiça quando um homem como Almeida Faria, ainda vivo, abençoadamente vivo, é tão esquecido. A nossa memória não nos traiu: Rumor Branco é um longo poema. Esta edição mantém o prefácio da primeira edição (1962), escrito por Vergílio Ferreira. Há privilégios indescritíveis na literatura.

"Na pejada noite de mistérios surdos ele avançava rápido sem pressa e aquelas azinheiras de silêncio, aqueles ecos de vozes, voos, saltos animais, aquele tremor leve de estrelas, tudo ali lhe infundia respeito em vez de medo, em lugar de ansiedade, espanto, enquanto a cada movimento decidido dos seus pés havia folhas esmagadas, imperceptíveis sobressaltos e, porque a noite a isso convidava, via com lúcida claridade o que haviam sido para ele os tempos últimos e o que poderia vir a ser o futuro e via sobretudo ter de ter com ela uma atitude (...), pois, tinha de ter com ela uma atitude, clara como atalho que trilhava na noite hermética, povoada de bichos que espiavam seus passos por entre rasteiras moitas de estevas e de carqueja e interrogava-se qual poderia ser o seu caminho e entre os múltiplos dispersos despistados destinos permanecia indeciso, sufocado pela grandeza da planície entre outeiros e oliveiras e sobreiros e trigo que dá o pão quando não vem o suão e traz a fome e a seca, pela terra de antigos conventos por onde correm os ventos..."

quarta-feira, novembro 28, 2012

Em Bruges by Martin McDonagh *****



Não é surpresa nenhuma, basta dizer que este rapaz é aquele que escreveu o Pillowman.
Este rapaz é um génio.

terça-feira, novembro 27, 2012

Sándor Márai: A ilha


Sándor Márai, a nossa mais maravilhosa descoberta de 2012.

"Um dia mentes a alguém, nem sabes muito bem porquê, é uma questão de segundos, talvez queiras parecer mais inteligente ou mais elegante, ou fazê-lo apenas para dizer algo. Às vezes é como se não falasse, mas ouço a minha voz. A mentira acompanha-te. Nalgum sítio há uma pessoa que sabe algo sobre ti; faças o que fizeres, por muito que assegures que, de um modo geral, agistes com as melhores intenções, que trabalhaste pelo bem dos outros, essa pessoa fará um sorriso de superioridade, sozinho no seu quarto. Todos temos uma pessoa assim..."

segunda-feira, novembro 26, 2012

Resgatados: Os bastidores da ajuda financeira a Portugal



É como ler a história do naufrágio do Titanic, sabemos que chocou contra um iceberg, sabemos que teria sido possível evitá-lo se não se tivessem ignorado os avisos, sabemos que todos os responsáveis tentaram depois disfarçar. Sabemos que afundou no dia 6 de Abril de 2011. Aqui, mostra-se a cara dos músicos da orquestra, dos que saltaram do navio e dos que morreram no mar. Não consigo decidir se parece que isto foi na outra vida ou se parece que foi ontem. Mas sei que ler História de Portugal viva dói e mexe brutalmente com o sistema nervoso. É um livro impressionante.

Sócrates pode ser um escroque. Não sei se é ou não, não sei se é mais ou menos do que os outros. Este livro não o iliba do Freeport, nem das PPP, nem da TVI, nem do BPN, nem da licenciatura ao domingo (ainda que à beira de uma licenciatura no micro-ondas, a dele pareça um MBA), nem de substancial quota da dívida, nem da arrogância, nem da teimosia, nem das trapalhadas todas em que se enfiou e nos enfiou. Mas iliba-o do fracasso das tentativas para que Portugal não tivesse de pedir ajuda financeira externa. Há quem diga que este relato, de 2010 a 2011, iliba disso toda a gente, incluindo Passos Coelho. Mentira! Iliba Sócrates, que fez o possível e quase o impensável, engolindo sapos e elefantes, para que Portugal não fosse resgatado. Iliba Teixeira dos Santos, o único "traidor" que não traiu, o ministro das Finanças a quem algum dia alguém fará, espero, a devida justiça. Iliba - não tenho a certeza que precisasse de ser ilibado, mas enfim - Luís Amado. Não iliba, nem de longe, Passos Coelho. Nem Paulo Portas. Nem muito menos Cavaco Silva. E não só não iliba como demonstra que Durão Barroso é aquilo que penso dele desde a tanga de 2003: rato do porão, homem com duas caras, dois discursos, duas pistas de jogo, criatura que nunca esteve nem está à altura dos cargos que desempenha. Há quem diga que saem todos bem na fotografia, eu acho que saem todos mal. Sócrates, apesar de tudo, menos mal. Teixeira dos Santos, apesar de tudo, bem. A pandilha europeia, como passado, presente e futuro se encarregarão de demonstrar, pessimamente. 

Passos Coelho e o seu séquito moveram-se sempre - sempre! - pela gula do poder. Foi isso que lhes condicionou as decisões, os momentos de espera, as alianças, os avanços e os recuos. Foi pela gula e não pela missão de salvar o país que passaram um ano a fazer contas. Não as contas que nos interessavam - Onde cortar? Como cortar? -, mas as contas que lhes interessavam - E se Portas votasse o OE? E se Portas aceitasse governar com Sócrates? -, "calculismo partidário", dizia Portas. Sórdida ironia. Se Passos fosse o aluno aplicado, a cumprida promessa do homem que estudou o país, relatórios e relatórios vertidos num livro vagamente ideológico, que pretendia ser uma espécie de "Yes, We Can" à escala do país, não estaríamos onde estamos hoje. Mesmo com toda a catástrofe que lhe precedeu. Mas aquele primeiro pedido de desculpas denunciava já muito do homem que em azar nos haveria de tocar.

Uma vez suspeito, toda a vida culpado. Sócrates não seria capaz de cumprir a palavra, dizia-se. Alguém foi? Pedro Passos Coelho mentiu. Pedro Passos Coelho continua a mentir. E está a provar o veneno que deixou no copo dos seus antecessores. Este livro é uma certidão de óbito de políticos no activo. E mostra também que a saúde da coligação PSD/CDS-PP era pouco mais do que nada mesmo antes de o ser. Política e lealdade parecem ser duas palavras impossíveis de conjugar na mesma frase.

Quando exerce o direito de voto, o país não escolhe políticos, rejeita políticos. Não escolheu Passos, rejeitou Sócrates. Como no passado, não escolheu Sócrates, rejeitou Santana. É compreensível se considerarmos que o leque de escolha é escasso e pobre. Mas é também, por ironia, um exercício de cidadania suicida. É este povo que por desconhecimento ou desistência cauciona estes políticos.

Sócrates era um guerreiro. Herói ou vilão? Sócrates foi traído por quase todos, menos por Teixeira dos Santos, por muito que o próprio tenha porventura dificuldade em reconhecê-lo e ainda hoje não lhe perdoe. Ou teremos sido nós os traídos por todos menos por Teixeira dos Santos? Há uma frase na página 145, uma frase dita por Catroga, esse mesmo Catroga que há dois anos parecia o D. Sebastião, que diz muito da escumalha a quem estamos entregues, uma frase dirigida a Passos: "Se eu fosse a si, ainda viabilizava mais este [PEC], porque isto vai rebentar mais à frente, antes do fim do ano. Aguente e o Sócrates cai para os 10% [juros da dívida], e então fica bem enterrado." Era esta gente que estava preocupada com o país?!

Este livro dava um filme. Mais do que um patchwork de notícias com algumas idas aos bastidores (que lidas assim, de uma vez só, provocam calafrios) é o guião de um filme de terror, passado num país cujo povo talvez não seja, de facto, "o melhor do mundo", mas os políticos são seguramente os piores do mundo. Ou tão maus como os piores, vai dar ao mesmo. Este livro serve ainda para outra coisa: para mostrar que por muito acintosa que seja alguma comunicação social, os políticos fazem o que querem, como querem, quando querem. E finalmente para mostrar a evidência maior: nesta altura, não faz sentido um governo que não meta toda a gente lá dentro. Se o Titanic afundar de vez, como tudo indica que irá acontecer, convém que desta gente nos vejamos livres para sempre. Quem sabe se poderemos salvar-nos na próxima reencarnação?

Não conheço o Hugo Filipe Coelho. Conheço o David Dinis, um dos melhores jornalistas com quem trabalhei na vida. Este livro não podia ser mais imparcial. É isso que assusta. Olhamos para trás e perguntamos: como deixámos que nos fizessem isto?

(Há uns dias, um amigo de longa data perguntou-me o que penso da anarquia. Não penso nada de favorável, gosto de regras, não concebo o mundo sem regras. Mas depois fiquei a pensar que talvez não tenha sido completamente honesta, talvez porque o conceito de anarquia esteja ainda em fase de incubação dentro de mim. E talvez tenha sido essa a grande mudança que o resgate operou em mim: não o facto de ter menos dinheiro ou menos futuro ou menos esperança, mas a violência. Se vir um político a atravessar a estrada, mesmo que seja na passadeira, sei que não irei travar, irei acelerar. No fim, responderei apenas: "foi em legítima defesa".)

sábado, novembro 24, 2012

José Tolentino Mendonça


 
"(...) Um texto recente de um teólogo contemporâneo, Christoph Theobald, intitula-se “O cristianismo como estilo”. E, de facto, o cristianismo não é uma ideologia. Não é no plano ideológico que nós o encontramos. O cristianismo é um estilo no sentido em que ele é a expressão de um modo de ser, de um modo de viver. É uma decisão histórica por um determinado estilo de vida, uma determinada vivência, que depois se torna uma marca. É muito interessante reflectir sobre isso, mesmo a partir do texto bíblico.

 
Há uma parábola de Jesus em que parece que Jesus está a falar do ponto de vista dos mercados, de uma lógica da procura do lucros, que é a parábola dos talentos. Aquele senhor que sai em viagem e distribui de forma diversa talentos pelos seus colaboradores: a um dá cinco, a outro dá três, a outro dá dois, e a outro dá um. Todos vão multiplicar os talentos, vão investir, vão criar coisas novas com aquilo que receberam. Mas aquele que recebeu só um talento faz este raciocínio: eu sei que ele é um homem severo, que quer recolher onde não semeou. Por isso, o que vou fazer é enterrar este talento, conservá-lo intacto, e quando ele voltar e pedir-me o talento, vou entregar-lhe o talento que recebi.

Nós vivemos hoje, epocalmente, historicamente, um período depressivo como sociedade. Temos medo do futuro, estamos apreensivos com o presente, com o que virá. E a nossa lógica social ou pessoal é muito a de decidirmos que não nos estão a ser oferecidos cinco talentos, nem três, mas apenas um talento. E a questão é: o que é que nós fazemos com isso? De facto, a grande tentação é a de enterrarmos o talento. E porque é que o homem enterra o talento? Enterra o talento porque a representação que ele tem do seu Senhor é de alguém severo, intransigente, que não o compreende, que não o apoia e que de forma muito intrusiva acaba por querer o que ele não pode dar. Então, ele enterra simplesmente o talento e desiste. Desiste de viver, desiste de apostar.

Nós sabemos que todos os outros são elogiados pelo Senhor, mas este é repreendido. E aquele talento é-lhe retirado. Porquê? Porque o pior que nos poderia acontecer seria interiorizarmos, no tempo actual, uma representação do presente, do futuro, daquilo que é a vida, como sendo uma vida severa que nos quer tirar aquilo que não nos deu. Porque aí, nós simplesmente desistiremos de ser.
O cristianismo como estilo desenvolve-se em circunstâncias que nem sempre são as circunstâncias ditas favoráveis ou aquelas que reúnem todas as condições necessárias para nós fazermos a aposta. É Pascal quem define o cristianimo como uma aposta. Quais são as condições que cada um de nós requer para fazer da sua vida uma aposta? Uma aposta fecunda, uma aposta em vista da plenitude?

Lembro o testemunho de uma mulher, ela era judia, mas muito próxima do cristianismo, Era uma mulher que nas horas mais sombrias do século XX, aquando da invasão dos nazis, ela tinha possibilidade de fugir, tinha amigos na clandestinidade que a aconselhavam e a pressionavam a fugir, mas ela resistiu e impôs-se contra esses amigos dizendo: "este momento para o povo judeu (pena no Holocausto) é um momento de tal forma misterioso que não posso isentar-me de participar nele até ao fim, até ao fundo no seu destino." Ela recusa passar à clandestinidade. E mais: faz um gesto absolutamente insensato, insolente, ofecere-se como voluntária para o campo de concentração. Depois, é feita prisioneira, e ela também morre em Auschwitz.

Mas a história desta mulher e o caminho de descoberta que ela faz noutros momentos mais frágeis, mais duros, mais sem salvação do século XX, é uma coisa que se torna numa parábola da própria esperança. No fundo, que imagem é que nós interiozamos e que imagem é que ela interiorizou? Eu penso que também a ela só lhe foi dado um talento. E contudo ela fez daquele talento uma história de vida.

De maneira que o estilo cristão não depende dos tempos, não é apenas uma coincidência com o nosso tempo. O cristão é chamado a não coincidir com o seu tempo, o cristão estabelece ele próprio uma crise, porque o cristão é chamado a sinalizar a iminência. A iminência de uma realidade outra. O cristão é chamado a ser sentinela de uma outra realidade em todos os tempos. Em todas as circunstâncias. Se nos conformamos apenas com o tempo não seremos capazes de exercer a nossa função de fermento, de inspiração, no próprio tempo. E estes tempos que nós estamos a viver, tempos maus, tempos duros, estes tempos precisam de inspiração, precisam daquilo que João Paulo II, na profética carta que preparava a entrada no terceiro milenio, dizia ser a fantasia da caridade. Desafiar os cristãos a terem, a reinventarem, a ousarem a imaginação, a fantasia, a ousadia, a pensar aquilo que pode ser a caridade.

Para nós, esta hora não é apenas uma hora de restrição. Não é uma hora de abrandamento, é uma hora de aceleração. Não pode ser apenas a hora do medo em que enterramos o talento, mas esta é a hora para fazermos a aposta. E eu penso que no interior deste poli território social – e as redes sociais em que cada um de vós é um actor privilegiado dessa multiplicidade de expressões que a Igreja tem no campo sicial – esta é uma hora para fazer apostas. Não é hora do medo, não é hora de dúvidas. É hora da imaginação, do empreendedorismo, a hora de ousar passos novos, realidades novas, de uma forma muito testemunhal. Desde a capacidade de termos projectos em conjunto, de nos ajudarmos mais, de uma cultura muito mais de colaboração, de solidariedade, até de facto atitudes que podem surgir, este é um tempo de inovação. Este é um tempo em que a realidade se torna um laboratório para a caridade, para o amor, para a solidariedade, para aqueles valores que fazem parte do nosso ADN como cristãos,

Pensando no cristianimo como estilo, e usando as palavras de Sigmund Barth, o teólogo polaco, ele diz: "é preciso passar da cultura de consumo, da vida que se consome - e no fundo nós sabemos que estas duas últimas décadas foram do endeusamento do consumo, pensando que essa era uma fonte de felicidade, de progresso infinito, ilimitado, que no consumo é que nos realizávamos como pessoas - passarmos de uma vida que consome a um vida que não desiste de se consumar. A verdade é que nós consumimos experiências, consumimos bens, consumimos realidades, e a nossa vida fica adiada, fica por consumar.

Quando se diz que mais importante que consumir é consumar, há aí de facto um desafio a fazermos escolhas muito concretas de modelos de felicidade. No fundo, esta crise também é uma crise de modelos de felicidade. O que é para nós a felicidade? A realização pessoal? Que tipo de mulher, que tipo de homem somos? Que tipo de sociedade estamos a construir? Essa é a reflexão mais funda que é necessário fazer. E, sem dúvida, há aqui um trânsito que nós temos de operar.

Outro desafio importante tem a ver com a redescoberta do dom. O Santo Padre Bento XVI tem na encíclica social uma página admirável sobre a necessidade de redescobrir o dom, a lógica do dom, a circulação do dom. E a verdade é que nós proprios desacreditamos muito no dom, na força que o dom tem, que não é apenas de somar. O dom tem uma lógica de multiplicar. Os evangelhos estão cheios disso, como a experiência do pão que se multiplica. Um pão que se reparte em princípio fica mais pequeno. No entanto, ali, pelo contrário, quando se reparte multiplica-se, acaba por sobreabundar. Essa multiplicação é uma lógica interna ao dom. A experiência que fazemos do dom é que as coisas crescem, dão para muito mais. A sua finalidade torna-se muito mais clara. É a sua capacidade de chegar a todos, que é uma coisa da qual não podemos desistir, mas torná-se uma realidade efectiva. E no dom temos que fazer perguntas.

Lembro-me de uma conversa na televisão entre Manoel de Oliveira e Judite de Sousa. Ele colocava uma questão muito curiosa: "Imaginemos uma sociedade sem dinheiro, em que o instrumento de troca era o dom, a dádiva. Se calhar, como socidade no seu todo não podemos dispensar o dinheiro, mas se calhar a nível da família, das relações mais próximas, a nivel do nosso prédio, bairro, instituição, nós podemos encontrar formas colaborativas que não precisam de dinheiro, que tenham outras fórmulas de valoração, com divisão e partilha. E o que me parece importante é a ousadia das perguntas. Ou seja, não considerar que os modelos que nos serviram até aqui são o único caminho e que sem eles não conseguimos mais viver. Isso seria um engano. A vida sobrepõe-se aos próprios modelos organizacionais. É preciso encontrar novos modelos e ter ousadia de colocá-los em prática e de chamar a atenção para eles, iluminá-los."

*Na Semana Social, no Porto

quinta-feira, novembro 22, 2012

Desenho de Blankets vendido por 20 mil euros!



In 2003, the american author Craig Thompson published the unforgettable autobiography graphic "Blankets". In 600 boards, in a confessional language, pure and sweet, which marked a shift in comic books, Thompson makes a trip to the past, to childhood and adolescence in the midst of a deeply catholic family. And remembers his first love and how he learned that love, even when it is strong and true, it may be impossible. It's a story about the discovery and the pain of growing up.

It's impossible to read Thompson without getting a hangover. We had to wait eight long years for "Habibi" (Eisner Award for Best writer/artist ... again), another memorable book. And now, in hangover mode again, we do not know how long we have to wait for "Violet".

With "Blankets", Thompson won the critics, added several awards (Eisner Awards for Best Graphic Album-New and Best Writer-Artist; three Harvey Awards for Best Artist, Best Cartoonist and Best Graphic Album of Original Work; two Ignatz Awards for Outstanding Graphic Novel or Collection and Outstanding Artist), but he never agreed to sell a drawing.

Made an exception this month. He has donated this original cover art of "Blankets" to raise funds for flood victims during the monsoon rains August 2012 in the Philippines. The work was at an auction for a week. It was sold on November 19... for $ 21,211.11. It is an awesome price for a 14x17.

quarta-feira, novembro 21, 2012

ATEM le souffle by Josej Nadj


Quando o teatro é bom, há poucas coisas melhores. ATEM é profundamente comovente.


Entrevista com Josef Nadj. Por Renan Beyamina.

Renan Beyamina Pode falar-nos da génese de ATEM?
Josef Nadj O primeiro momento chave dessa história é uma encomenda da Quatrienal de Praga sobre o tema da relação íntima no espetáculo. Foi a primeira vez que o festival dirigiu uma proposta concreta aos artistas: cada um deles deveria ocupar uma caixa de quatro por quatro metros e produzir aí uma forma acessível ao público durante oito horas por dia. Imaginei então uma presença possível dentro desse espaço restrito. Mandámos construir a nossa caixa, dentro da qual os espectadores podiam observar-nos através de um vidro. Desafiei Anne-Sophie Lancelin, que interpretou a minha peça anterior, Cherry-Brandy [2010], a ocupar esse espaço comigo.

O que imaginou no interior da caixa?
Dentro desse dispositivo comecei por refletir e por procurar o estado de espírito mais ajustado a esse lugar tão particular. Senti necessidade de não começar no vazio total. Era necessário encontrar um elemento central entre Anne-Sophie e eu, criar um signo que nos fosse comum. Encontrámos uma vara. Será que já estava ali, perto de nós, ou tivemos de a procurar? Não sei responder. Essa vara constituiu a matriz da peça: coloquei-a verticalmente entre Anne-Sophie e eu. Perguntámo-nos então: como fazer um gesto em direção ao outro, sabendo que existe qualquer coisa entre nós? Pergunta simples e cruel. Impercetivelmente, a vara impôs-se como o resíduo da árvore do bem e do mal, mas também como o eixo do mundo. Esta interpretação resultou da vontade de nos situarmos não só num espaço concreto, como também num espaço e num tempo absolutos. Avançávamos como se fôssemos guiados por esse objeto. Desenvolveu-se então entre nós um diálogo gestual. Sentimos, ao viver essa situação, que tínhamos encontrado um centro de jogo possível.

Portanto, tudo partiu de uma vara. Contudo, o espetáculo evoca também a importância do pintor Albrecht Dürer.
A pouco e pouco, tornou-se-me evidente que o espaço que construíamos tinha a ver com as gravuras de Albrecht Dürer, um artista muito importante para mim. Tinha catorze anos quando descobri a gravura intitulada Melencolia I. Mais tarde, perguntei-me por que razão me fascinava tanto essa obra. Na gravura vemos um anjo, ou melhor, uma mulher alada, envergando um vestido, sentada junto a um homenzinho. As figuras encontram-se diante de uma casa. No espetáculo, foi como se tivéssemos decidido fazer entrar na casa essas duas personagens. Estudámos cuidadosamente essa gravura muito rica em pormenores (os pregos, as correntes, uma balança, etc.), bem como as duas outras gravuras que compõem, com Melencolia I, uma trilogia: São Jerónimo na sua Cela e O Cavaleiro, a Morte e o Diabo. São obras de uma grande multiplicidade de significados. São como um jogo de charadas, de sugestões, que refletem uma visão do mundo. Transcendem as intenções do seu criador e oferecem-nos a possibilidade de abrir, de desdobrar espaços sugeridos, mas não figurados.

Anne-Sophie Lancelin e você são as personagens dessa gravura. Constituem um casal?
Não exatamente. Somos dois seres em busca de uma harmonia que abole o tempo do aqui e agora. Dois seres que criam um tempo absoluto, onde a divisão entre masculino e feminino desaparece. Comunicamos a um nível espiritual; o corpo arde e desaparece na intensidade dessa comunicação. Desenvolvemos uma série de improvisações, imaginando, por exemplo, aonde iria aquela mulher, que circunstâncias ditaram a presença do homenzinho, como ocorreu o encontro de ambos. Assim produzimos um certo número de jogos que funcionavam como um todo.

O som é um elemento igualmente importante nesta peça…
Na primeira fase do trabalho, em Praga, senti necessidade de um ambiente sonoro. Tive vontade de trabalhar com o compositor Alain Mahé. Compusemos um espaço sonoro sobretudo com sons da natureza – os sons dos elementos e dos nossos gestos. O ambiente, ou melhor, o interior sonoro e íntimo, foi composto a partir de sons gravados no meio natural: podem ouvir-se, entre outros, o som do mar, do vento, do fogo, do metal ou da cera, através dos quais flutua o som do contrabaixo de Pascal Seixas. Recolhemos esses elementos sonoros para os harmonizar, num trabalho de pesquisa a meias, como já fiz anteriormente, no domínio da dança, com Anne-Sophie Lancelin.

De onde vem o título da peça: ATEM?
Durante a criação do espetáculo, li textos de Celan. Ler poesia favorece esse estado poético necessário à minha pesquisa. É um alimento espiritual essencial, que ajuda à minha busca interior. Ao ler esses poemas, tive uma sensação peculiar, como se Celan os tivesse escrito enquanto assistia ao espetáculo. As suas palavras são, pois, naturalmente acolhidas por nós. A palavra Atem é tirada de um dos seus poemas – significa, em alemão, “respiração”. E impôs-se rapidamente como o título da peça.

Essa respiração é também a das velas, presentes entre os atores e o público.
As velas constituem a única iluminação do espetáculo. Permitem criar uma relação íntima e natural com o público, além de remeterem para o fogo presente na gravura Melencolia I. Trata-se do fogo dos alquimistas, que faz borbulhar a substância até à transformação. Com todas as ressonâncias metafóricas que isso implica para o teatro. Além disso, os olhos adaptam-se muito rapidamente ao bruxulear das velas, de modo que os espectadores podem ver sem dificuldade todos os pormenores cénicos. Essa luz reforça a sensação de se estar num quadro vivo, conferindo ao conjunto um aspeto muito pictórico.

Anteriormente, em Paso Doble [2006] e Les Corbeaux [2010, espetáculo apresentado no Teatro Carlos Alberto, em 2011], e agora em ATEM, a impressão que fica é que o Josef Nadj restringe o espaço, como que à procura de um máximo de intimidade.
É um reflexo de ciclos de vida e de trabalho. A minha companhia completa este ano o seu vigésimo quinto aniversário. Tenho refletido sobre o meu percurso anterior e sobre como me posso lançar a um novo grande ciclo de trabalho. Como se estivesse a meio de uma demanda. Intuitivamente, torno o espaço o mais próximo possível de mim mesmo, de modo a poder sentir a respiração dos meus desejos. Para tanto, sinto necessidade de pequenos espaços e de estar sozinho ou em diálogo com um único parceiro. Trabalho muito sobre a depuração dos meios e do texto, sobre a intensidade de momentos escolhidos que quero tornar o mais evidentes possível. Procuro simplesmente apurar a minha linguagem.

Falou-nos de respiração e da árvore do bem e do mal: trata-se de uma procura de natureza mística?
Diria antes que é uma investigação sobre o sagrado. Uma reflexão global sobre a nossa existência, sobre as nossas relações humanas mediadas pelas leis do universo. Já falámos aqui de alquimia: o teatro é um lugar de transformação, onde se põem à prova as nossas capacidades psíquicas e físicas. Daí extraímos uma substância que tem a ver com a energia do jogo, com a qual criamos novas formas, novos modos de ser. Não é o resultado de um conceito ou de um trabalho cerebral, mas sim de uma sucessão de experiências físicas e espirituais. A cada espetáculo, reinvocamos esse estado obtido através das experiências. A magia do espetáculo nunca produz exatamente a mesma coisa: os nossos corpos transportam a experiência de cada travessia.


Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto
21 | 25 novembro 2012
quarta a sexta-feira 21:30 sábado + domingo 16:00 + 21:30

Melancolia I


Albrecht Dürer

"A melancolia não é apenas depressão psíquica ou tristeza retorcida e doentiamente acalentada. A fugacidade e a imperfeição da nossa vida fazem dela uma corda fundamental do espírito, até daqueles que gostariam de se assemelhar mais ao rabino David de Lelov (que, na hora da morte, disse: “Rio-me de Deus, porque aceitei o seu mundo como é.”) do que aos monges propícios ao demónio do meio-dia. Nenhuma vida e nenhuma poesia podem ignorar a melancolia, a caducidade do tempo que passa, essa coisa que falta sempre em toda a felicidade e em todo o amor, até no que é feliz, a decomposição das coisas e dos sentimentos, inclusive os mais puros, o desencanto, a mudança incessante e o perecimento. Tal falta pode ser vivida não necessariamente com voluptuosidade masoquista, mas com um sentido forte – clássico, antigo – da inevitável distância que há entre o coração e mundo, do mesmo modo que para o teólogo Romano Guardini a melancolia é o sentido de uma insuficiência terrena que pode levar a Deus. Não há encanto sem conhecimento e não há conhecimento sem melancolia. Há um século, um cultor da fisiognomonia, ao descrever a belíssima boca de Cléo de Mérode, grande atriz e grande amante, notava que, com o passar dos anos, em torno daquela boca se havia esboçado um halo de melancolia. Talvez assim fosse ainda mais bela."

“Melancolía y Modernidad” (2007).

terça-feira, novembro 20, 2012

De um amor morto


De um amor morto fica
um pesado tempo quotidiano
onde os gestos se esbarram ao longo do ano

De um amor morto não fica
nenhuma memória
o passado se rende
o presente o devora
e os navios do tempo
agudos e lentos
o levam embora

Pois um amor morto não deixa
em nós seu retrato
de infinita demora
é apenas um facto
que a eternidade ignora


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, novembro 19, 2012

Quarteto de Alexandria, nova edição


Infinitamente grata a quem me fez descobrir "O Quarteto de Alexandria", o livro foi-me oferecido numa belíssima edição em inglês que, no entanto, fui incapaz de ler. Não é um livro fácil, sequer em português. Na altura, tive que procurar a edição em português, não havia no mercado, tive que encomendar, esperar, e depois receber a obra em quatro volumes impressionantemente feios. A Dom Quixote mudou isso, lançando hoje uma nova edição da obra de Durrell num razoavelmente belo calhamaço obrigatório.

domingo, novembro 18, 2012

you would have been there




we bide our time
though the time is fine
oh, to be there
i could be there
say oh, be there

you know the way i

can't resist you
i said to myself
i'd try
why do we waste time
hiding it inside
i want you to be mine

and now it's been and gone

you say what you would have done
you would have been there
i wish you'd been there
i needed you there

and if we try once more

would you give me it all
i won't believe it
'til i can feel it
can you feel it?

you know the way

i can't resist you,
i said to myself
i'd try

sexta-feira, novembro 16, 2012

Lovesong



He loved her and she loved him
His kisses sucked out her whole past and future or tried to
He had no other appetite
She bit him she gnawed him she sucked
She wanted him complete inside her
Safe and sure forever and ever
Their little cries fluttered into the curtains

Her eyes wanted nothing to get away
Her looks nailed down his hands his wrists his elbows
He gripped her hard so that life
Should not drag her from that moment
He wanted all future to cease
He wanted to topple with his arms round her
Off that moment's brink and into nothing
Or everlasting or whatever there was

Her embrace was an immense press
To print him into her bones
His smiles were the garrets of a fairy palace
Where the real world would never come
Her smiles were spider bites
So he would lie still till she felt hungry
His words were occupying armies
Her laughs were an assassin's attempts
His looks were bullets daggers of revenge
His glances were ghosts in the corner with horrible secrets
His whispers were whips and jackboots
Her kisses were lawyers steadily writing
His caresses were the last hooks of a castaway
Her love-tricks were the grinding of locks
And their deep cries crawled over the floors
Like an animal dragging a great trap
His promises were the surgeon's gag
Her promises took the top off his skull
She would get a brooch made of it
His vows pulled out all her sinews
He showed her how to make a love-knot
Her vows put his eyes in formalin
At the back of her secret drawer
Their screams stuck in the wall

Their heads fell apart into sleep like the two halves
Of a lopped melon, but love is hard to stop

In their entwined sleep they exchanged arms and legs
In their dreams their brains took each other hostage

In the morning they wore each other's face
Ted Hughes

quarta-feira, novembro 14, 2012

Diogo Macedo



Diogo Macedo. O nome persegue-me desde 2008. A história também, desde que consultei o processo. Hoje, dia em que soube que a  Relação do Porto confirmou a decisão do Tribunal de Famalicão que obriga a Universidade Lusíada a indemnizar a família daquele aluno do 4º ano de Arquitectura, 22 anos, assassinado pelos ex-colegas da tuna numa praxe estúpida e extemporânea em 2001, devia ser um dia feliz. De manhã, até me pareceu que seria, mas depois a raiva pela impunidade daqueles escroques que o mataram retirou-me a sensação de redenção que a justiça-feita deveria dar.

Estive a reler a história, os apontamentos, as notas do processo. Quando a justiça demora mais de uma década a chegar, poderá ainda ser considerada justiça? O pai do Diogo já não está cá para saber. A mãe, das maiores guerreiras que conheci na vida, como só uma mãe sabe ser, foi acusada de tudo durante a luta. De estar doida também, claro. Perdeu o filho, perdeu a saúde. Ganhou a causa? Os criminosos continuam à solta, hoje provavelmente a serem tratados por doutores e engenheiros, e seguramente com a certeza de que se safaram. A Universidade pagará 90 mil euros, como se um filho valesse 90 mil euros, mas nunca assumiu a culpa, a negligência, nunca reconheceu que falhou. E em dez anos a única coisa que fez foi tentar abafar o caso, aquele dia 8 de Outubro de 2001.

sábado, novembro 10, 2012

Fim da canção


Chegámos ao fim da canção
E paro um pouco pra dormir
É tarde pra voltarmos atrás
Já nem há motivo algum para rir
É como ouvir alguém dizer
Vê nessa procura
Uma razão
Pra virar a dor para dentro
Que é virar o amor para dentro
Falo de um amar para dentro
Que é virar a dor para dentro

Eu vou dizer até me ouvir
A dor chegou para ficar
Eu vou parar quando eu sentir
Não haver motivo algum pra negar
É como ouvir alguém dizer
Vê nessa procura
Uma razão
Pra virar a dor para dentro
Que é virar o amor para dentro
Falo de um amar para dentro
Que é virar a dor para dentro
Chegámos ao fim da canção

sexta-feira, novembro 09, 2012

I'm still looking for a promise




I still talk to you in my sleep
I don't say much 'cause the hurt runs too deep
I gave you the moon and the stars to keep
but you gave them back to me

The hill I'm walkin up is gettin good and steep
but I'm still looking for a promise even I can't keep

I still lay on my side of the bed
I dance alone when the last bottle's spent
memories like a river runnin through my head
I'll have me an ocean before I'm dead

The hill I'm walkin up is gettin good and steep
but I'm still looking for a promise even I can't keep

I still whisper sweet words to you
and when I'm busy, with nothing to do
I pray to god, that my words ring true
and that your words might reach me too

The hill I'm walkin up is gettin good and steep
but I'm still looking for a promise even I can't keep
i can't keep it...

My hearts in pieces so please understand
I've tried to jump, but I've nowhere to land
so give me your heart and I'll give you my hand
and I'll try as goddamn hard as I can

terça-feira, novembro 06, 2012

Obama, round II



“Se alguém ainda duvida que a América é o lugar onde todos os sonhos são possíveis, se ainda questiona se os sonhos dos nossos fundadores ainda estão vivos, se ainda questiona o poder da nossa democracia, teve esta noite a resposta. Foi a resposta dada pelas filas que se estendiam à volta das escolas, das igrejas em números que a nossa nação nunca viu antes, feitas de pessoas que esperaram três a quatro horas, muitas pela primeira vez nas suas vidas, porque acreditavam que desta vez tinha de ser diferente, que as suas vozes podiam fazer a diferença.

Foi a resposta dada por jovens e velhos, ricos e pobres, Democratas e Republicanos, negros, brancos, latinos, asiáticos, homossexuais, heterossexuais, deficientes, americanos que enviaram a mensagem ao mundo de que não somos somente um conjunto de indivíduos ou um conjunto de estados vermelhos ou azuis. Nós somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América. Foi a resposta que levou aqueles a quem foi dito durante tanto tempo para serem cínicos e receosos e duvidarem do que somos capazes de fazer e para colocar as mãos na arca da história e vergá-la mais uma vez em direcção à esperança num dia melhor. Levou muto tempo, mas esta noite, por causa do que fizemos hoje nesta eleição e neste momento decisivo, a mudança chegou à América.

Há pouco tempo antes, no início da noite, recebi uma simpática chamada do senador McCain. O senador McCain  lutou muito durante esta campanha. E lutou ainda mais e durante mais tempo pelo país que ama. Ele fez sacrifícios pela América que a maior parte de nós não consegue sequer imaginar. Estamos bem pelo serviço que ele prestou, pela sua bravura e abnegação. Dou-lhe os parabéns. Também dou os parabéns à Governadora Palin por tudo o que conquistou. E fico na expectativa de trabalhar com eles para renovar as promessas feitas a esta nação nos meses que se aproximam. Quero agradecer ao meu companheiro nesta jornada, um homem que fez a campanha com todo o seu coração, e falou por homens e mulheres com quem cresceu nas ruas de Scranton e com quem partilhou o comboio de volta a casa no Delaware, o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. E não estaria aqui esta noite sem o apoio incondicional da minha melhor amiga nos últimos 16 anos, o pilar da nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama. Sasha e Malia amo-vos mais do que podem imaginar. E conquistaram o cãozinho que vem connosco para a nova Casa Branca. E, apesar de já não estar entre nós, sei que a minha avó nos está a ver, com o resto da família que fez de mim  quem sou. Sinto a vossa falta. Sei que a minha dívida para com eles não é mensurável. À minha irmã, Maya, à minha irmã Alma, a todos os meus irmãos e irmãs, obrigado por todo o apoio que me deram. Estou-vos muito grato. E ao director da minha campanha, David Plouffe, o herói não celebrado desta campanha,  que construiu, acho eu,  a melhor campanha política na história dos Estados Unidos da América. Ao meu responsável pela estratégia, David Axelrod, que tem sido meu companheiro ao longo de todo o caminho. À melhor equipa de campanha alguma vez reunida na história política e que tornou tudo isto possível, estou eternamente grato pelo que sacrificaram para conseguir tudo isto.

Mas, acima de tudo, nunca esquecerei que esta vitória vos pertence, na verdade, a todos  vós. É vossa. Não era o candidato mais provável para este cargo. Não começamos com muito dinheiro ou patrocínios. A nossa campanha não foi planeada nos corredores de Washington. Começou em Des Moines, nas salas de Concord, nas varandas de Charleston. Foi crescendo com o trabalho de homens e mulheres que contribuíram com o que tinham e que recorreram às suas poupanças para dar 5, 10 ou 20 dólares. Ganhou força com  os mais novos que  rejeitaram o mito de geração apática, que deixaram as suas casa, famílias por  empregos  mal pagos e noites mal dormidas.

Ganhou força com a geração já não tão jovem que se aventurou no frio e no calor para bater a portas de estranhos  e dos milhões de americanos que se voluntariaram e organizaram e provaram que passados mais de dois séculos um governo de pessoas, pelas pessoas e para as pessoas continua a existir na Terra. Isto é vitória. E sei que não fizeram isto somente para ganhar a eleição. E sei que não o fizeram por mim.

Fizeram-nos porque perceberam a enorme tarefa que nos espera. Porque apesar de celebrarmos esta noite, sabemos que os desafios que o dia de amanhã nos trás são os maiores da nossa vida (...?) duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira num século. Apesar de estarmos aqui esta noite, sabemos que existem americanos no deserto do Iraque, nas montanhas do Afeganistão que arriscam as suas vidas por nós. Há mães e pais que não conseguem adormecer e que ficam a pensar como pagar as hipotecas ou as contas do médico ou se conseguem poupar o suficiente para a educação dos filhos. Temos de rentabilizar a nossa energia, criar novos postos de trabalho, construir novas escolas e lidar com ameaças e reparar alianças.

O caminho que nos espera é longo. A nossa subida difícil. Podemos não chegar lá num ano, ou mesmo num mandato. Mas, América, nunca tive tanta esperança como a que tenho hoje de que chegaremos lá. Prometo-vos, que como pessoas chegaremos lá. Teremos contrariedades e falsas partidas. Haverá muitos que não irão concordar com cada decisão que tome como presidente. E sabemos que o governo não é capaz de resolver todos os problemas. Mas serei sempre honesto convosco em relação aos  desafios que enfrentamos. Vou ouvir-vos, em especial quando discordarmos. E, acima de tudo, vou pedir-vos para que se juntem a mim no trabalho de reconstrução desta nação, da única forma que sempre foi feito na América nos últimos 221 anos – bloco a bloco, mão calosa em mão calosa.

O que começou há 21 meses no inverno não pode terminar nesta noite de Outono. Não é esta vitória a mudança que pretendemos. É a única forma de começarmos a mudança. E isso não pode acontecer se voltarmos a ser como éramos. Não acontece sem vós, sem o novo espírito de serviço, o novo espírito de sacrifício. Vamos unir-nos num novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, em que cada um de nós resolve participar e trabalhar, olhar não só por nós mesmos mas também pelos outros. Não nos esqueçamos que se a crise financeira nos ensinou alguma coisa foi de que não podemos ter uma Wall Street florescente enquanto que os outros sofrem.

Neste país, levantamo-nos e caímos como uma nação só, como um povo.  Resistamos à tentação de voltar a cair no mesmo sectarismo, mesquinhez e imaturidade que envenenou a nossa política durante tanto tempo.
Relembremos que foi um homem deste Estado que pela primeira vez carregou a bandeira do Partido Republicanos até à Casa Branca, um partido que teve por base a autoconfiança, a liberdade individual e a unidade nacional.

Esses são os valores que todos partilhamos. E apesar do Partido Democrata ter conquistado uma grande vitória esta noite, fazemo-lo com a humildade e a determinação de sarar o que nos divide e que impediu o nosso progresso. Como Lincoln disse a uma nação muito mais dividida do que a nossa, não somos inimigos, mas sim amigos. Apesar da paixão nos levar a exageros, não deve quebrar os nossos laços afectuosos. E aqueles americanos cujo apoio ainda tenho de conquistar, posso não ter ganho o vosso voto esta noite, mas ouço a vossa voz. Preciso da vossa ajuda. E serei, também, o vosso presidente.
E para todos os que têm os olhos postos em nós esta noite,  para além das nossas costas, dos parlamentos aos palácios, para aqueles que  se juntaram à volta de rádios nos cantos mais esquecidos do mundo, as nossas histórias são diferentes mas o nosso destino é partilhado, e uma  nova aurora se levanta na liderança americana.

Para aqueles que querem destruir o mundo: nós vamos destruir-vos. Para os que querem paz e segurança: nós apoiamos-vos. E para aqueles que se interrogam sobre se a luz de liderança da América continua viva: esta noite provamos, mais uma vez, que a força da nossa nação não vem do nosso poder militar ou da escala da nossa riqueza, mas do enorme poder dos nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e esperança.

Essa é a verdadeira genialidade da América: a sua capacidade de mudança. A nossa união pode ser perfeita. O que conseguimos dá-nos ainda mais esperança em relação ao que podemos conseguir amanhã.
Esta eleição tinha muitas estreias e muitas histórias que serão contadas ao longo de gerações. Mas uma que está na nossa mente hoje é sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ele assemelha-se a muitos milhões que estiveram na fila para fazer ouvir a sua voz nesta eleição por uma razão: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.
Ela nasceu na geração da escravatura; num tempo em que não havia carros na estrada, aviões no céu; quando alguém como ela não podia votar por duas razões: porque era mulher e por causa da cor da sua ele.
E, esta noite, penso em tudo o que viu no centenário de vida na América – o desespero e a esperança; a luta e progresso; as vezes que nos disseram que não eram capazes e aqueles que mantiveram a sua capacidade de dizer: Sim, somos capazes.

E este ano, nesta eleição, ele tocou com o dedo no ecrã e fez o seu voto, porque depois de 106 anos na América, depois dos melhores tempos e dos mais obscuros, ela sabe que a América pode mudar. Sim, somos capazes. América, chegamos até aqui. Já vimos muito. Mas ainda há muito para fazer. Por isso, esta noite, perguntemos a nós mesmos: se as nossas crianças viverem para chegar ao próximo século; se as nossas filhas tiverem a sorte de viver tanto como Ann Nixon Cooper, que mudanças vão poder ver? Quer progressos teremos feito? Esta é a nossa oportunidade de responder a essa questão. Este é o nosso momento.

Este é o nosso tempo, de voltar a dar trabalho à nossa gente, de abrir as portas da oportunidade aos nossos filhos; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de reclamar o sonho americano e de reafirmar a verdade fundamental de que, no meio de muitos, somos um; que enquanto respiramos, mantemos a esperança. E aqui estamos nós, frente a frente com o cinismo e as dúvidas daqueles que nos dizem que não somos capazes, e a quem respondemos com o credo intemporal que representa o espírito de um povo: Sim, somos capazes.
Obrigado. Deus vos abençoe. E que Deus abençoe os Estados Unidos da América.”

quinta-feira, novembro 01, 2012

Tomas Transtromer: 50 poemas


"Olhamos um para o outro, ela e eu. É como subir por aquelas encostas acima, cobertas de flores silvestres, sem acusar o menor sinal de fadiga. Já vivemos tantas experiências juntos, recordamos nós, até momentos de que não éramos especialmente merecedores, acontecimentos que nos teriam separado se não nos tivessem unido, e recordámos casos que esquecemos juntos - mas que não se esqueceram de nós! Foram pedras, umas escuras, outras claras, pedras de um mosaico delapidado. E agora sucede isto: os cacos que esvoaçaram reúnem-se, o mosaico fica restaurado. Fica à nossa espera.

(...) Fortalecemo-nos com os outros, mas também com nós próprios. Com aquilo que, dentro de nós, o outro não vê. Aquele que tem o seu igual só em si mesmo. O paradoxo mais profundo, a flor que brota do chão da garagem, o ventilador voltado para o negrume benéfico. Uma bebida efervescente num copo vazio. Um altifalante que emite silêncio. Um atalho que fica intransitável à medida que por ele avançamos. Um livro que só pode ser lido nas trevas."