sexta-feira, junho 29, 2012

Henry James: Diário de um homem de 50 anos


"Houve momentos, nos últimos dez anos, em que me senti tão ominosamente velho, tão exausto e acabado, que teria tomado como piada de muito mau gosto qualquer insinuação de que a presente sensação de jovialidade me estava ainda reservada. De qualquer maneira, não durará; mais vale, portanto, aproveitá-la o melhor possível.

(...) E depois, feitas as contas, parece-me tão feliz! Hesita-se em destruir uma ilusão, por mais funesta que seja, que é tão deliciosa enquanto dura. São os momentos raros da vida. Ser novo e ardente, em plena primavera italiana, e acreditar na perfeição moral de uma bela mulher - que situação mais admirável! Deixe-se levar pela corrente; eu ficarei na margem a vigiá-lo.

(...) Não há nada mais analítico do que a desilusão."

domingo, junho 24, 2012

sábado, junho 23, 2012

terça-feira, junho 12, 2012

Rui Nunes: O choro é um lugar incerto


Os barcos, sedimentos de um negro mais compacto, movem o silêncio entre dois mundos: a viagem anuncia os seus despojos. Longe, a rasar o horizonte, o dia é o que resta da descida de uma pálpebra.

Todos os portos descrevem um abandono: a sua repetição: sobre os guindastes, as amarras e os navios, inscreve-se sempre o mesmo sinal.

O terror refugiou-se no tempo, mas de vez em quando alguém
diz um dos seus nomes.
E a multidão rejubila,

abrir a luz à fragmentação. Estilhaçar uma cidade doente. Cada coisa atravessa-se na trajectória de outra coisa, e cada trajectória parte o mundo. Hoje, os olhos cansam-se de continuamente tentarem juntar o que se dispersa,
[Ceuta]

segunda-feira, junho 11, 2012

Rui Nunes: Ouve-se sempre a distância numa voz


por vezes a tua cara torna-se nítida e insuportável. Outras vezes, esbate-se e com o esbatimento vem-me a resignação de te ter perdido. Às vezes, esqueço-te. Ou ficas escondido numa casa, num quadro, numa árvore, de onde ressurgirás. Um dia olharei o quadro, a casa, a árvore, e lembrar-me-ei de ti. Mas cada vez haverá menos sítios onde te esconderes.

a tua face vem e atira-me sempre para o mesmo tempo, é uma face que o ódio esquece, anterior à deserção, a face de quem encontrou a primeira palavra, é essa que me olha nos sítios mais vulgares. Não te procuro: de repente, estás ali. Como uma arma. O límpido assassino.
(...)
vejo uma pessoa a fumar e o gesto de levar o cigarro à boca é o teu, é o teu corpo todo que esse gesto recria, vejo-te nos sítios mais improváveis como alguém que me foge, como uma impostura que desaparece quando me aproximo: outra cara contamina a tua cara numa metamorfose alucinante, de repente nada há de ti em quem me olha e pergunta: quer alguma coisa? não, não, digo com repugnância e com medo, quase estendo os braços para afastar aquele desconhecido, encobri-lo com as minhas mãos abertas, chorar porque não és tu, nunca és tu, sentar-me na cadeira e ouvir a mulher perguntar-me: que tens?
nada, não tenho nada. 

domingo, junho 10, 2012

Juan Luis Panero: Poemas


Quando te esqueceres do meu nome,
quando o meu corpo for apenas uma sombra
a apagar-se entre as húmidas paredes daquele quarto.
Quando já não te chegar o eco da minha voz
nem ressoarem as minhas palavras,
então, peço-te que te lembres do que fomos
uma tarde, umas horas, felizes juntos e foi belo viver.
(...)
Tu chegaste, sem que me desse conta apareceste e começámos a falar,
tropeçávamos de riso nas palavras, balbuciávamos
no estranho idioma que nem a ti nem a mim pertencia.
(...)
Sim, às vezes é simples e é belo viver,
quero que recordes, que não esqueças
a passagem daquelas horas, o seu esperançado resplendor.
Eu também, longe de ti, quando perdida na memória
estiver a sede do teu sorriso, lembrar-me-ei, tal como agora,
enquanto escrevo estas palavras para todos aqueles
que por um momento, sem promessas nem dádivas, limpamente se entregam.
Desconhecendo raças ou razões de fundem
num único corpo mais aventurado
e depois, acalmado já o instinto,
se separam e cumprem o seu destino
e sabem que, talvez só por isso,
a sua existência não foi em vão.
[O que resta depois dos violinos]

quinta-feira, junho 07, 2012

Primavera Sound. Dia 1: Warming...

19h30 Atlas sound
20h30 Yann Tiersen
21h30 The Drums
23h Suede
O Primavera Sound é um caleidoscópio mágico.

Primavera Sound Porto 2012




Hoje
Palco Optimus

•The Rapture- 02h00
•Suede - 22h45
•Yann Tiersen- 20h15
•Bigott - 19h00
Palco Primavera
•Atlas Sound - 00h30
•The Drums - 21h30
•StopEstra! - 17h00


Amanhã
Palco Optimus

•M83 - 02h15
•Wilco - 23h15
•Rufus Wainwright - 20h15
•We Trust - 18h00
Palco Primavera
•The Walkmen - 01h00
•The Flaming Lips - 21h30
•Yo La Tengo - 19h00
•Linda Martini - 17h00
Palco ATP
•Thee Oh Sees - 02h30
•Wolves In The Throne Room - 01h00
•Shellac - 23h30
•Codeine - 22h00
•Rafael Toral - 20h45
•Tennis - 19h30
•Tall Firs - 18h15
Palco Club
•Numbers Showcase: Jackmaster, Oneman, Deadboy, Spencer, Redinho - 02h30
•Beach House - 01h00
•Neon Indian - 23h30
•Black Lips - 22h00
•Chairlift - 20h45
•The War On Drugs - 19h30
•Other Lives - 18h15
•Esperit! - 17h00


Sábado
Palco Optimus

•The xx - 01h50
•Kings Of Convenience - 23h00
•Death Cab For Cutie - 20h15
•The Right Ons - 18h00
Palco Primavera
•Saint Etienne - 00h35
•The Afghan Whigs - 21h35
•Spiritualized - 19h00
•Gala Drop - 17h00
Palco ATP
•Forest Swords - 01h00
•Demdike Stare - 02h30
•Dirty Three - 23h30
•Lee Ranaldo - 22h00
•I Break Horses - 20h45
•Sleepy Sun - 19h30
•Siskiyou - 18h15
Palco Club
•Erol Alkan - 04h00
•John Talabot (Live) - 02h30
•Washed Out - 01h00
•Wavves - 23h30
•The Weeknd - 22h00
•James Ferraro and the Bodyguard - 20h45
•Baxter Dury - 19h30
•Veronica Falls - 18h15
•Mujeres - 17h00

Domingo
Casa da Música
•Jeff Mangum (Neutral Milk Hotel) - 16h00 e 22h00
•James Ferraro and The Bodyguard - 22h00
•The Olivia Tremor Control - 20h30
•Nick Garrie - 16h00
•Best Youth - 20h30
Hard Club
•Kindness - 00h15
•Julie & the Carjackers - 23h00
•Veronica Falls - 22h30
•You Can't Win, Charlie Brown - 21h15

segunda-feira, junho 04, 2012

Trânsito de Vénus. Até 2117


O planeta Vénus vai passar em frente ao Sol, terça e quarta-feira. O acontecimento é raro e só voltará a acontecer em 2117.

A passagem do planeta Vénus em frente do Sol, fenómeno conhecido como "trânsito de Vénus", só ocorre quando o planeta passa directamente entre o Sol e a Terra, uma vez que a órbita de Vénus não está alinhada com a da Terra. Desde que há registo - século XVII, quando foram inventados os primeiros telescópios - Vénus deslocou-se pela frente do Sol em seis ocasiões (1639, 1761, 1769, 1874, 1882 e 2004).

Em 2004, o trânsito ocorreu a oito de junho e foi registado por observadores da "European Space Agency" ESA, em Portugal. Desta vez, Portugal encontra-se na zona onde o trânsito não é visível.

domingo, junho 03, 2012

Sándor Márai: A herança de Eszter


"Transcorrido um certo tempo, nada se pode "pôr em ordem" entre duas pessoas; compreendi essa verdade sem esperança naquele instante, quando nos sentámos, ali, no banco de pedra. O homem vive, e corrige, e ajusta, edifica, e destrói, algumas vezes, a sua vida; mas, passado um tempo, dá-se conta de que o todo, tal como está, por força dos erros e do acaso, é imodificável. Quando alguém emerge do passado para anunciar, em voz comovida, que quer pôr "tudo" em ordem, só podemos lamentar e sorrir das suas intenções; o tempo já tudo "pôs em ordem", à sua estranha maneira, da única maneira possível. 

(...) Não basta amar alguém. É preciso amar com coragem. É preciso amar de tal modo que nenhum ladrão, ou má intenção, ou lei, lei divina ou deste mundo, possa seja o que for contra esse amor. não nos amámos com coragem... foi esse o mal."

sábado, junho 02, 2012

Paris Review: Entrevistas


"Todos nós falhámos na tentativa de corresponder ao nosso sonho de perfeição. Por isso, eu avalio as pessoas com base neste nosso esplêndido fracasso para realizar o impossível. (...) No momento em que o conseguisse [o artista reescrever a sua obra], no momento em que fosse capaz de fazer corresponder a obra à imagem, ao sonho, já só lhe restaria cortar o pescoço, atirar-se para o lado de lá do pináculo da perfeição, em direcção ao suicídio. Eu sou um poeta falhado.

(...) Nunca nada é tão como aquilo de que somos capazes. É preciso sonhar e apontar sempre para mais alto do que aquilo que sabemos poder fazer. (...) As pessoas, de facto, têm medo de descobrir até que ponto aguentam a adversidade e a pobreza. Têm medo de descobrir até que ponto resistem."
William Faulkner

[Dez entrevistas absolutamente ma-ra-vi-lho-sas.]