quinta-feira, maio 31, 2012

As intermitências da morte

A partir do romance de Saramago. Ou como assassinar um texto. Candidata a pior peça de teatro do ano.

Dramaturgia: José Caldas e Gianni Bissaca - Encenação: José Caldas - Interpretação: Gianni Bissaca, Marco Alotto, Sara Alzeta - Teatro Carlos Alberto, Porto

terça-feira, maio 29, 2012

A tempestade

[George Jibladze]
"We are such stuff as dreams are made on,
and our little life, is rounded with a sleep."

sexta-feira, maio 25, 2012

Willie Nelson

[Gary Cooper with his wife Rocky, 1930]
"Ninety-nine percent of the world's lovers are not with their first choice. That's what makes the jukebox play."

quinta-feira, maio 24, 2012

Laurie Anderson: Dirtday

[Teatro Aveirense]
Fosfenos. Fosfenos. Fosfenos....

Pedro Santos Guerreiro: O Tal Canals

[Paulo Nozolino]

Os suíços são uns sonsos. Dizem-se neutros mas é só porque é bom para o negócio. Há portugueses que lá desaguam o seu dinheiro, o de angolanos - e o nosso. As contas suíças são o perfeito dormitório onde se lavam as almas. Nas calmas.

A Suíça é apenas um destino. Há outros, asiáticos, onde se fazem ainda menos perguntas e não sequer há respostas. Mas neste caso é a Suíça, a mesma Suíça de sobrinhos taxistas, que serviu de refúgio de capitais que saíram sem declaração de rendimentos, sem reporte nem recorte fiscal, de Luanda e de Lisboa. Na boa.

A operação "Monte Branco" tem uma origem arrepiante, de um caso de assassinato no Brasil de que Duarte Lima é suspeito, no funesto processo da herança Tomé Feteira. E terão sido declarações precisamente de Duarte Lima que levaram à detenção há uma semana de três suspeitos de gerir uma gigantesca operação de fraude fiscal e lavagem de dinheiro para grandes clientes portugueses. O caso, sabe-se agora, estava já a ser investigado pelo Ministério Público, na sequência da Operação Furacão - que se candidata a maior encenação de justiça económica de sempre: dezenas de arguidos cuja inocência é comprada sob a forma de pagamento de impostos. Fizeram uma repartição de Finanças do Tribunal. Tudo normal.

Nas suspeitas da Justiça, Michel Canals é o cabecilha da rede. Canals terá uma lista de clientes cuja existência já pôs meia Lisboa, Cascais inteira e algumas câmaras municipais a tomar calmantes. Até porque há receio justificado de misturar alhos e bugalhos: a gestão de fortunas é uma coisa legal, o planeamento fiscal é outra coisa legal, a fraude e lavagem de dinheiro são crimes. E todas são serviços que podem ser prestados por gente da mesma natureza. Uma beleza.

Ser cliente, ser investigado, estar sob escuta ou conhecer Canals não faz de ninguém suspeito. Ser constituído arguido e acusado sim. E esse processo vai desenvolver-se agora, sob orientação de Carlos Alexandre e Rosário Teixeira, pelos vistos sem grande sigilo. Mas tudo tranquilo.

Atirar nomes para a ventoinha é uma insídia, mas quem procura tão perto não pode perder o que se vê ao longe. Que a operação "Monte Branco" revela que há um submundo no alto dos arranha-céus. Que gente que condena os que "vivem acima das suas possibilidades" tem menos honra, ética e vergonha que um rato. Que enquanto um país inteiro se derrete na incineradora dos impostos, dos salários, das pensões, do desemprego, da austeridade, há dinheiro sacado e expatriado. Que os mesmos que cofiam bigodes por causa dos restaurantes que não pagam IVA e das casas subdeclaradas são os que tiram dinheiro daqui para fora, com um bom génio da finança, advogado ou padrinho. É limpinho.

O que a "Visão" ontem revelou mostra outro entalhe do caso. O de uma espécie de "Angola Connection", uma estrutura de poder que se estende de Luanda até Lisboa, passando pelo BES Angola, um ramo do Grupo Espírito Santo que de Espírito Santo pouco mais tem do que o nome, pois parece ter vida própria e paralela, controlado por accionistas locais. Em Lisboa, essa estrutura angolana está a ganhar um poder grande, que inclui operações imobiliárias, ambições na comunicação social e relações na política, como conta a "Visão". Nem todos os angolanos são iguais, mesmo os ricos. Como nem todos os portugueses são iguais, mesmo os ricos. E se é verdade aquilo de que a Justiça suspeita e os jornais noticiam, esse poder tem de ser questionado. Fazer perguntas não é fazer uma cruzada. "No pasa nada".

E tudo acaba na Suíça. A Suíça não tem culpa, tem desculpa, mas a sua esmagadora monotonia tem este simbolismo adequado aos agentes que transferem dinheiro sem rosto nem rasto. Gente que detesta o alarde porque se encobre no silêncio. Gente que se diz discreta mas é secreta. Gente que se faz de transparente mas é só invisível. Clarice Lispector, quando se aborrecia de morte precisamente na Suíça, escreveu em "A Cidade Sitiada": "Vivo no quase, no nunca e no sempre. Quase, quase - e por um triz escapo." E por um triz escapam...

[Hoje, no JNegócios]

quarta-feira, maio 23, 2012

segunda-feira, maio 14, 2012

Daniel Oliveira: Um rapazola a quem calhou ser primeiro-ministro



"Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade." Pedro Passos Coelho

Há pessoas que tiveram uma vida difícil. Por mérito próprio ou não, ela melhorou. Mas não se esqueceram de onde vieram e por o que passaram. Sabem o que é o sofrimento e não o querem na vida dos outros. São solidárias. Há pessoas que tiveram uma vida difícil. Por mérito próprio ou não, ela melhorou. Mas ficaram para sempre endurecidas na sua incapacidade de sofrer pelos outros. São cruéis. Há pessoas que tiveram uma vida mais fácil. Mas, na educação que receberam, não deixaram de conhecer a vida de quem os rodeia e nunca perderam a consciência de que seus privilégios são isso mesmo: privilégios. São bem formadas. E há pessoas que tiveram a felicidade de viver sem problemas económicos e profissionais de maior e a infelicidade de nada aprender com as dificuldades dos outros. São rapazolas.

Não atribuo às infantis declarações de Passos Coelho sobre o desemprego nenhum sentido político ou ideológico. Apenas a prova de que é possível chegar aos 47 anos com a experiência social de um adolescente, a cargos de responsabilidade com o currículo de jotinha, a líder partidário com a inteligência de uma amiba, a primeiro-ministro com a sofisticação intelectual de um cliente habitual do fórum TSF e a governante sem nunca chegar a perceber que não é para receberem sermões idiotas sobre a forma como vivem que os cidadãos participam em eleições. Serei insultuoso no que escrevo? Não chego aos calcanhares de quem fala com esta leviandade das dificuldades da vida de pessoas que nunca conheceram outra coisa que não fosse o "risco".

Sobre a caracterização que Passos Coelho fez, na sua intervenção, dos portugueses, que não merecia, pela sua indigência, um segundo do tempo de ninguém se fosse feita na mesa de um café, escreverei amanhã. Hoje fico-me pelo espanto que diariamente ainda consigo sentir: como é que este rapaz chegou a primeiro-ministro?

[Hoje, no Expresso]

domingo, maio 13, 2012

Walt Whitman: Canto de mim mesmo


Que arrebatamento é este sobre a virtude e o vício?
O mal impele-me e impele-me o resgate do mal, permaneço indiferente,
O meu caminho não é o caminho de quem o descobre nem de quem o recusa,
Rego as raízes de tudo o que cresce.
(...)
De um lado encontro o equilíbrio e encontro-o no seu oposto,
A dócil doutrina ajuda tanto como a rígida doutrina,
Os pensamentos e acções do presente são o nosso despertar e o ponto de partida.
Este minuto que chega até mim através de todos os milhões de minutos decorridos,
Não há nada melhor do que ele, nem ontem, nem hoje.

Não é de espantar que haja alguém tão bom ontem como hoje,
O que espanta é que sempre e sempre possa existir um homem mesquinho ou infiel.

sábado, maio 12, 2012

quinta-feira, maio 10, 2012

Medida por medida. Shakespeare por Nuno Cardoso


O poder inevitável, por Pedro Lomba



I
Medida por Medida pode bem ser considerada a peça mais explicitamente política, no sentido moderno, de Shakespeare. O seu ponto de partida é uma típica cedência provisória do poder. Um governante, o Duque de Viena, prepara-se discretamente para sair da cidade em missão diplomática e tem de escolher quem o substitua durante a sua ausência. Hoje diríamos que o impedimento do Duque requer um interino. Viena não pode ficar sem governo, entregue a si própria e à crescente anarquia dos seus cidadãos. Mas, ao contrário das nossas sociedades políticas que definem à partida quem poderia ser esse interino e por que meios assumiria o cargo, aqui a escolha é da inteira liberdade do Duque. E, ao contrário de nós que também não confundimos papéis – o interino é sempre e só um interino –, o Duque de Viena não ignora que a cidade passará a ser governada por outro. Mesmo que transitoriamente, o seu poder ficará nas mãos de outro.

No primeiro diálogo com Éscalo, logo na abertura da peça, o Duque torna claros os termos de um dilema, que pode ser caracterizado pela contradição que sempre existe entre a teoria e a prática do poder. Ao perguntar a Éscalo se ele aprova a escolha de Ângelo, o Duque não quer saber se este fará boa figura, nem se procederá com zelo e competência. A preocupação do Duque é que Ângelo possa fazer bem a figura dele, encarnando assim “o seu próprio poder”:

– Parece-vos que ele fará bem a minha figura?
Digo-vos que com especial cuidado
O elegemos para velar a nossa ausência,
Usar o nosso terror, vestir o nosso amor,
E dispor no seu mando de todas as artes
Do nosso próprio poder.

Visto desta perspectiva, Ângelo é um executor da vontade do Duque, de quem recebeu o cargo para ser “inteiro” como ele, para usar do seu “terror” e do seu “amor”, para aplicar a “pena de morte” e o “perdão em Viena”. A medida de Ângelo só pode ser a medida do Duque. Não receberia um poder que pudesse proclamar seu.

Mas esta insistência do Duque nas “artes” que vêm com o poder já nos revela aquilo que mais o preocupa. O Duque cedeu o poder a Ângelo. Para aquilo que mais importa, é Ângelo que agora passa, de facto, a exercer o poder. A entrega do governo a um delegado temporário está carregada de significado político. Ângelo, não o Duque, assumirá a partir daí visível e publicamente os encargos do poder. Será ele o responsável por aplicar as leis e por distribuir justiça ou injustiça em Viena, pois não encontramos aí qualquer separação moderna entre o poder executivo e o poder judicial: o governante é ao mesmo tempo o mais alto magistrado da cidade. Há um só poder, como há um só rosto do poder. O poder de punir, reprimir, julgar. Este poder, na sua visibilidade, na sua presença, existe para ser exercido com todos os custos e sacrifícios inevitáveis. Terá o delegado Ângelo melhores condições do que o Duque para “no seu mando dispor de todas as artes do poder”? Terá o Duque escolhido Ângelo para que este realize aquilo de que o Duque não é capaz: o exercício e a decisão difícil do poder? A ambiguidade de Medida por Medida enquanto teatro da experiência do poder reside nestas perguntas. Pode alguém que tem o poder encontrar formas de escapar ao seu exercício?

II
O diálogo inicial com Éscalo, compreendemos agora, foi retórico. A preocupação do Duque não está tanto em garantir que Ângelo cumpra bem na sua ausência. Pois ficamos a saber que a saída do Duque não passou de uma encenação. O Duque não saiu, está em Viena e disfarçou-se de frade para poder acompanhar Ângelo. O Duque quer testar menos Ângelo do que o povo. A transferência do poder para o delegado é uma hábil estratégia política do Duque, que pretende afastar-se dos “holofotes” para fugir momentaneamente ao fardo do governo.

Viena, ao fim de vários anos de domínio, está afundada na libertinagem e na indisciplina. As leis não são respeitadas. Os costumes estão dissolutos. Viena precisa de governo. Para alterar este estado de coisas, será precisa uma força tal que restitua o sentido da lei e da obediência, que proíba e sancione a “lascívia”, como fará Ângelo sentenciando imediatamente o pobre Cláudio. Chegados aqui, é difícil evitar paralelos entre esta Viena em decomposição, que tinha leis duras, e o Portugal financeiramente assistido de hoje, que igualmente as tinha:

Temos decretos duros e leis apertadas,
Bons freios e bridões em pilecas rebeldes,
Que nestes anos deixámos fugir da mão.

O Duque está cada vez mais afastado do povo, cada vez mais isolado nas vestes formais do seu poder, com os quais não parece confortável. A sua renúncia e a transferência do poder para Ângelo assinalam o fracasso da sua governação:

Amo o povo,
Mas não gosto de me exibir diante deles.
Sabe que amei sempre a vida retirada,
E tive em fraca conta estar em assembleias.

Incapaz de governar, de pôr ordem na cidade, de fazer cumprir decretos e leis, escondido, quais os caminhos que restam ao Duque? Poderia demitir-se, para usarmos a nossa linguagem democrática, mas isso seria uma confissão imperdoável de derrota; ou poderia endurecer o seu poder com uma nova e mais implacável presença, mas aí passaria a ser visto como um abominável tirano e perderia todo o respeito e afecto do povo.

O Duque opta por uma terceira estratégia, a de recorrer a um delegado com reputação de “austero” para impor leis mais duras a um povo que tem vivido às “largas”. Ângelo, voltamos ao nosso paralelo, será o equivalente à troika internacional no Portugal de 2012? A psicologia autoritária de Ângelo é aquilo de que o Duque necessita para restaurar a ordem e a licença em Viena, para fazer a justiça rigorosa e a austeridade, sem as quais o poder pode soçobrar. É o Duque, de resto, que expressamente o admite:

Já que foi erro meu dar largas ao povo,
Era grande tirania açoitá-los e moê-los
[…] Foi por isso, meu padre
Que entreguei a Ângelo este cargo.
E escondido no meu nome ele cumprirá,
Sem que vá a minha autoridade a essa luz
Ouvir calúnias.

Este artifício do Duque não deixa de surpreender pela sua extraordinária actualidade. Os políticos que conhecemos não desejam tanto escapar ao estatuto do poder, de cuja aura naturalmente precisam, como às dificuldades de exercer o poder contra o povo. O Duque encontra-se na mesmíssima posição daqueles governantes democráticos que estão mais disponíveis para a indulgência, para a permissividade, para distribuir favores e prebendas, como diríamos hoje, do que para a face mais agressiva e drástica do poder. Ângelo parece por isso uma via perfeita para o Duque governar por interposta pessoa, protegendo de qualquer maneira todas as formas da sua autoridade – “sem que vá a minha autoridade a essa luta / ouvir calúnias”. As ditas “calúnias” são o julgamento do povo, agora exclusivamente dirigido contra o delegado:

E o novo delegado do nosso Duque –
Seja por falta ou por fogo da novidade,
Ou por ser o corpo do Estado
Um cavalo para o governante montar,
E esse, acabado de sentar, para dizer
Quem manda, dá-lhe logo a espora,
Seja por estar a tirania no seu posto,
Ou apenas a vaidade ter enchido o lugar.

III
Será então legítima esta táctica de o Duque endossar provisoriamente o poder para se poupar a si mesmo? No Príncipe, Maquiavel afirma que sim. Segundo Maquiavel, depois de conquistar a Romagna, Cesare Borgia deparou-se com um território dividido e desgovernado que era necessário pacificar. Em 1501, Borgia nomeou o delegado Remirro de Orco, conhecido por ser enérgico e cruel, à semelhança de Ângelo, e a quem concedeu plenos poderes. Como o delegado fosse bem-sucedido, Borgia arranjou maneira de concentrar em Orco, e não nele, a responsabilidade por todos esses actos violentos e cruéis. Logo que teve oportunidade, exibiu a cabeça de Orco na praça pública a fim de suavizar e impressionar o povo.

Esta aproximação histórica, a que muitos têm recorrido para explicar Medida por Medida, defende que o Duque de Viena manifesta a mesma premeditação do príncipe maquiavélico. O único problema é que, tal como nos mostra a intrincada teia de Medida por Medida, o seu plano inicial falha. A partir do momento em que, disfarçado de frade, o Duque vai percebendo que Ângelo executa cegamente a lei em Viena, a tentativa de fugir ao exercício do poder sai frustrada. E é ele próprio, Duque, quem no fim acaba por ser forçado ao que desejou evitar: o peso do poder. Esconder-se por trás do delegado, ceder a Ângelo a solidão áspera da governação, o embate com o povo, revelam-se ambições simplesmente irrealizáveis para o Duque.

Nesse sentido, com todas as suas ambiguidades e indecisões, Medida por Medida possibilita uma leitura anti-maquiavélica. Se o poder existe para ser exercido, não é apenas impossível escapar ao peso do poder – é impossível escapar à responsabilidade pelo exercício do poder. Correndo o risco de extremarmos a analogia com o presente, pensemos nas nossas democracias, que, dir-se-á, passaram a ser governadas nesta década por delegações temporárias de Ângelos. Sabendo-se provisórios, estes podem atribuir-se o direito de serem tão ríspidos e punitivos contra uma sociedade acusada, certa ou erradamente, de viver como a Viena da nossa peça. Os políticos eleitos destas democracias austeras podem aspirar a esconder-se atrás dos novos delegados, na expectativa de serem publicamente poupados ao severo julgamento popular. Se o fizerem, tarde ou cedo irão perceber o seu fútil engano e experimentarão talvez o mesmo destino do Duque de Viena.

terça-feira, maio 08, 2012

Max Ophüls: Carta de uma desconhecida *****

Milagre

“Voltámos para casa anteontem [sexta-feira], nesse dia sagrado. Não há no mundo maior delícia do que a normalidade. Cada palavra da Maria João soa-me a música amada. Nos livros avisam que a remoção de tumores cancerosos do cérebro pode provocar alterações de personalidade.

Eu tinha medo que ela deixasse de ser a Maria João que eu amo. Mais medo ainda tinha que ela deixasse de me amar. A primeira vez que a vi, poucas horas depois da cirurgia, no remanso dos cuidados intensivos, perguntei-lhe se ela me reconhecia. E ela recuou a cabeça ligada, fez uns olhos de surpresa repugnante e perguntou, com convencimento: “Mas quem é o senhor?”

Nem sequer foi o sentido de humor a primeira coisa a regressar. Nunca se foi embora. A Maria João não recuperou: manteve-se. O milagre não lhe era exterior. O milagre é ela. Ela e todas as pessoas de quem ela gosta, que gostam dela.

Eu bem que tento guardá-la como um segredo. Mas só estou bem, quando tenho a sorte de ouvi-la e a vê-la e a vivê-la. Escrever sobre ela é a coisa mais fácil que faço: é uma preguiça e um prazer, como se conseguisse enganar quem me lê. É virar as costas ao mundo, que vai tão mal. Mas que é um mundo que ainda contém a Maria João, a pessoa que eu amo, que ainda aceita o amor que lhe tenho. Que cresce, ao contrário do cabrão do cancro, previsivelmente, certamente, sem fazer mal; fazendo bem.

Meu grande amor: seja de que maneira for, continua. Mesmo deixando de gostar de mim. Mas continua. Vive!”
 
Miguel Esteves Cardoso, hoje, no Público

segunda-feira, maio 07, 2012

domingo, maio 06, 2012

Paul Krugman: Those revolting europeans


The French are revolting. The Greeks, too. And it’s about time. Both countries held elections Sunday that were in effect referendums on the current European economic strategy, and in both countries voters turned two thumbs down. It’s far from clear how soon the votes will lead to changes in actual policy, but time is clearly running out for the strategy of recovery through austerity — and that’s a good thing.

Needless to say, that’s not what you heard from the usual suspects in the run-up to the elections. It was actually kind of funny to see the apostles of orthodoxy trying to portray the cautious, mild-mannered François Hollande as a figure of menace. He is “rather dangerous,” declared The Economist, which observed that he “genuinely believes in the need to create a fairer society.” Quelle horreur!

What is true is that Mr. Hollande’s victory means the end of “Merkozy,” the Franco-German axis that has enforced the austerity regime of the past two years. This would be a “dangerous” development if that strategy were working, or even had a reasonable chance of working. But it isn’t and doesn’t; it’s time to move on. Europe’s voters, it turns out, are wiser than the Continent’s best and brightest.

What’s wrong with the prescription of spending cuts as the remedy for Europe’s ills? One answer is that the confidence fairy doesn’t exist — that is, claims that slashing government spending would somehow encourage consumers and businesses to spend more have been overwhelmingly refuted by the experience of the past two years. So spending cuts in a depressed economy just make the depression deeper.

Moreover, there seems to be little if any gain in return for the pain. Consider the case of Ireland, which has been a good soldier in this crisis, imposing ever-harsher austerity in an attempt to win back the favor of the bond markets. According to the prevailing orthodoxy, this should work. In fact, the will to believe is so strong that members of Europe’s policy elite keep proclaiming that Irish austerity has indeed worked, that the Irish economy has begun to recover.

But it hasn’t. And although you’d never know it from much of the press coverage, Irish borrowing costs remain much higher than those of Spain or Italy, let alone Germany. So what are the alternatives?

One answer — an answer that makes more sense than almost anyone in Europe is willing to admit — would be to break up the euro, Europe’s common currency. Europe wouldn’t be in this fix if Greece still had its drachma, Spain its peseta, Ireland its punt, and so on, because Greece and Spain would have what they now lack: a quick way to restore cost-competitiveness and boost exports, namely devaluation.

As a counterpoint to Ireland’s sad story, consider the case of Iceland, which was ground zero for the financial crisis but was able to respond by devaluing its currency, the krona (and also had the courage to let its banks fail and default on their debts). Sure enough, Iceland is experiencing the recovery Ireland was supposed to have, but hasn’t.

Yet breaking up the euro would be highly disruptive, and would also represent a huge defeat for the “European project,” the long-run effort to promote peace and democracy through closer integration. Is there another way? Yes, there is — and the Germans have shown how that way can work. Unfortunately, they don’t understand the lessons of their own experience.

Talk to German opinion leaders about the euro crisis, and they like to point out that their own economy was in the doldrums in the early years of the last decade but managed to recover. What they don’t like to acknowledge is that this recovery was driven by the emergence of a huge German trade surplus vis-à-vis other European countries — in particular, vis-à-vis the nations now in crisis — which were booming, and experiencing above-normal inflation, thanks to low interest rates. Europe’s crisis countries might be able to emulate Germany’s success if they faced a comparably favorable environment — that is, if this time it was the rest of Europe, especially Germany, that was experiencing a bit of an inflationary boom.

So Germany’s experience isn’t, as the Germans imagine, an argument for unilateral austerity in Southern Europe; it’s an argument for much more expansionary policies elsewhere, and in particular for the European Central Bank to drop its obsession with inflation and focus on growth.

The Germans, needless to say, don’t like this conclusion, nor does the leadership of the central bank. They will cling to their fantasies of prosperity through pain, and will insist that continuing with their failed strategy is the only responsible thing to do. But it seems that they will no longer have unquestioning support from the Élysée Palace. And that, believe it or not, means that both the euro and the European project now have a better chance of surviving than they did a few days ago.

Hoje, no The New York Times

sexta-feira, maio 04, 2012

Tolstoi: Senhor e servo


Vassili Andréitch permaneceu durante alguns segundos imóvel e silencioso. Depois, bruscamente, com o mesmo ar resoluto que costumava ter quando apertava a mão de um cliente ao concluir qualquer negócio vantajoso, recuou um passo, arregaçou as mangas da peliça e pôs-se, com ambas as mãos, a afastar a neve que cobria Nikita e o trenó. Afastada a neve, desapertou a pelica e, empurrando Nikita para o fundo do carro, estendeu-se sobre ele, cobrindo-o assim com a pelica e com o seu próprio corpo. Entalando as abas da pelica entre Nikita e os lados do trenó a segurando-as com os joelhos, Vassili ficou assim deitado de bruços com a cabeça apoiada na parte dianteira da carruagem. Já não sentia agora movimentos do cavalo, nem silvos da tempestade; prestava atenção apenas à respiração de Nikita. Este permaneceu a princípio imóvel durante algum tempo, depois suspirou e agitou-se suavemente.
- É assim mesmo! E dizias tu que ias morrer. Tranquiliza-te, aquece-te. Nós, cá, somos assim...
Mas com grande espanto seu, Vassili Andréitch não pôde prosseguir porque os seus olhos se lhe enchiam de lágrimas e o lábio inferior se lhe pôs a tremer convulsivamente. Deixou de falar, esforçando-se para abafar o soluço que lhe subia à garganta. "Tive um grande susto... pensou. - Estou muito enfraquecido." Entretanto, não só essa fraqueza lhe não era desagradável, como até, pelo contrário, lhe fazia sentir uma singular alegria, que nunca até então experimentara. 

quinta-feira, maio 03, 2012

Carta a Deus


[Miguel Esteves Cardoso, hoje, no Público]

MEC pôs-nos a rezar com ele, por eles.

quarta-feira, maio 02, 2012

É hoje


É hoje, quarta-feira, às sete e meia da manhã, que deixei de poder estar ao pé da Maria João. Entreguei-a a Alexandre Campos, que vai tirar-lhe o tumor que ela tem no cérebro, sob o olhar de João Lobo Antunes.

Sempre quis conhecer um neurocirugião. Na segunda-feira de manhã conheci logo três. O terceiro foi o primeiro que recebeu a Maria João no Hospital de Santa Maria: Martin Lorenzitti. Fiquei impressionado. Não resisto a dizer que são uber-cool. Quando eu era pequenino, a profissão que usava para indicar grande complexidade não era rocket scientist. Dizia-se de um problema que não era dificílimo que não era preciso ser um brain surgeon para o perceber.

Note-se que os neurocirurgiões não são só cirurgiões do cérebro como de todo o sistema nervoso, espinha abaixo, pela rede elétrica do corpo inteiro, até às pontas dos pés. É a minha Maria João inteira que eles têm de ter na cabeça, nos olhos e nos dedos das mãos. É graças a médicos e cirurgiões que ela está viva. Será graças a médicos e cirurgiões que ela não morrerá.

Prometeram-me que hoje, às cinco da tarde, durante quinze minutos, voltarei a ver a Maria João. É pouco tempo, depois de muito tempo um sem o outro. Mas há-de saber pela vida. Mentira. Há-de saber-me por quinze minutos.

É o tempo que não estamos um com o outro que nos mata. Que nos tira a vida. Que nos tira a vontade de viver. Separadamente. É hoje às cinco da tarde que vamos voltar um para o outro. Durante pouco, pouco tempo.

[Miguel Esteves Cardoso, hoje, no Público]

"Quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é um insulto"


Frei Fernando Ventura, ontem, na SIC N. Maravilhoso!

"Não é tempo de pendurar as esperanças no senhor do tempo, num qualquer messias. Este tempo é um ponto de chegada, um momento de antítese dos ismos todos que não funcionaram à espera da síntese final. É um tempo em que a nossa missão é ser gente com gente para que cada vez mais gente seja gente. É o tempo da serenidade consciente, que terá de levar fatalmente à cidadania praticante. Eu tenho muito medo dos cidadãos não praticantes. É tempo de mobilizar a urgência urgente deste tempo. Não são os nossos governos que nos governam! Nós vivemos numa fatalidade edipiana de termos de bater no pai, mas o pai é pobre. Por ali não haverá salvação.

Quando vi as imagens do Pingo Doce, fiquei triste e alarmado. Vi isto na Venezuela, com o Chavez, exactamente o mesmo tipo de reacção. Fiquei com esta imagem como um ícone, ou como um contra ícone, uma mensagem de sinal contrário daquilo que é uma das urgências a descobrir hoje. Desde logo, querem convencer-nos que economia e finanças é a mesma coisa - e não é. As finanças serão uma pequena parte daquilo que é a economia, a gestão da casa, que tem de ser uma casa comum. Estamos confrontados com um discurso de inevitabilidades - que não existem! Nós, enquanto seres humanos, independentemente das nossas sensibilidades políticas ou religiosas ou seja o que for, nós enquanto seres existimos entre dois abismos de solidão: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, ninguém nasce por nós e ninguém morre por nós. O desafio e o bloqueio que neste momento nos mata... porque a crise não é económica, a crise é racional acima de tudo. A crise tem a ver com isto: quem és tu para mim? Nestes dois limites de solidões, aquilo que se nos pede enquanto seres humanos é que sejamos capazes de criar redes de solidariedade. Desculpem lá puxar a brasa para a minha sardinha franciscana: nós vivemos um mito urbano quando para se falar dos franciscanos se continua a falar da pobreza franciscana, como se Francisco de Assis fosse tolinho da cabeça e como se alguém no seu perfeito juízo fosse capaz de optar por um não-valor. O que Francisco traz à História é uma opção pela fraternidade, o que é outra coisa - e tem consequências. Tem consequências na relação com o outro, tem consequências naquilo que tem que ser - e isto é que nos vai doer muito - o milagre que pode levar à saída da crise. Não quero proclamar que tenho a chave para a saída da crise, mas tenho pelo menos uma pista de reflexão. Ou pelo menos uma ideia que gostava de partilhar. Há uma ideia que me arrelia muito: nos últimos tempos, temos uma sociedade marcada por uma partidarite aguda, tribalizada. E a partidarite é uma inflamação da democracia. Vivemos esta falta de ideias e tantas vezes damos conta que em vez de termos uma linha de pensamento, só temos uns gatafunhos ideológicos que nos matam e que nos prendem, que não nos deixam depois chegar a esta que pode ser uma primeira pista de reflexão para nos entendermos e para nos situarmos. Porque quando o cinzento é a cor da moda, o arco-íris é um insulto. E nós estamos cinzentos, demasiado cinzentos. 

Deixem-me deixar esta ideia bíblica: nós, em alguns arroubos místico-gasosos, ficamos muito alarmados e muito agitados interiormente com a multiplicação dos pães e dos peixes. Se nós percebêssemos o que está ali, se nós percebêssemos o desafio de construção social e de acusação contra o egoísmo cego do capitalismo que mata a História, ou dos ismos todos, quaisquer que eles sejam, quando a pessoa não está no centro, e que matam a História!... Sejam totalitarismos de direita ou totalitarismos de esquerda (mantendo-nos ainda nesta linguagem primitiva de separações destes géneros). O que aconteceu naquele momento? A cena é descrita como tendo sido ao final da tarde, imensa gente, tudo cheio de fome, é preciso dar de comer a esta gente. A resposta de Jesus à cena foi: "dai-lhes vós de comer". Pânico! Como é que vamos arranjar de comer para esta gente toda? Quem teve a solução ali naquele momento? Um catraio, alguém que não tem nada a perder. Só uns pães e uns peixes. Só houve multiplicação porque houve divisão. A solução tem que passar por aqui: é preciso dividir para multiplicar e é preciso somar sem subtrair nada a ninguém. O segredo está aqui. A chave está aqui. E por aqui pode construir-se a esperança. Por aqui pode criar-se redes de relações, por aqui pode dizer-se às pessoas que a esperança é possível. É preciso organizar esta esperança. 

Eu, hoje, vi as cenas do Pingo Doce e vi as cenas das manifestações das duas centrais sindicais. As manifestações têm uma função catártica, porque é preciso gritar e é preciso explodir e é preciso libertar energias. Mas depois do final da manifestação, depois de enrolar a bandeira, o que é que eu faço com aquilo, para onde vai a minha desesperança? Eu que deixei a minha centralidade, e aqui voltamos a Emaús, eu que deixei a minha esperança pendurada na centralidade de uma Jerusalém qualquer, e vou a caminho da minha Emaús do desespero. Hoje não são só dois que vão a caminho de Emaús do desespero, são milhões no mundo inteiro, que perdem o emprego, que deixam de poder satisfazer as necessidades da sua família, onde a esperança desaparece. São às centenas os que morrem como gatos afogados no mediterrâneo a saltar do Norte de África para chegar a Lampedusa, à Sicília, às costas do Sul de Espanha. É este subir, pegar no cachorro para ver o muro do outro lado. Quem tem a História nas mãos somos nós. As revoluções nunca se fazem pelas estruturas, as revoluções começam por baixo contra as estruturas. As estruturas são coisas estáticas, têm um medo desgraçado de serem tocadas. Isto é a piscina de água choca, está toda a gente com a água por aqui [pelo pescoço], quando alguém faz onda, todos gritam: não faças ondas! Todas as estruturas sofrem deste mal.

Hoje, depois da manifestação, pensei: para que Emaús vai esta gente? Que esperança podemos trazer à História? Será que as centrais sindicais, a Igreja, as associações do bairro, não têm uma responsabilidade social? Têm! Têm que ter! A nossa resposta e o nosso grito não pode ser só enrolar a bandeira até à próxima manifestação ou até à próxima greve geral. É preciso sermos imaginativos e fazer outra coisa. Deixem-me ser profundamente demagógico agora: nós estamos todos com a corda ao pescoço. De cada vez que metemos gasolina, os nossos carros andam a impostos, 84% do que metemos no carro são impostos e aquilo anda. E os preços estão a subir, não porque a matéria prima esteja a subir, mas porque o consumo está a baixar. Isto é maquiavélico, um ciclo vicioso. Temos quatro companhias em Portugal a vender gasolina. O Governo já disse, pela activa e pela passiva, várias vezes, que não tem poder para mexer naquilo. O lobi está instalado. Mas nós temos maneira de mexer. Imagine que durante uma semana a CGTP e a UGT dizem: esta semana ninguém compra gasolina e gasóleo em duas destas marcas. Aqueles senhores, ao fim de uma semana, terão os preços mais baixos. E as outras duas vão ter que baixar também, por causa da concorrência. De cada vez que vou na auto-estrada, sinto-me insultado. Porque é que gastaram aqueles milhões a colocar aqueles painéis sobre a informação de preços quando os preços são todos iguais? Isso é brincar!

Ou nos galvanizamos ou nos albanizamos! Não há via do meio.

terça-feira, maio 01, 2012

Valeu tudo. Que triste.


Valeu tudo. Por um desconto de 50% em compras superiores a cem euros nos supermercados da cadeia Pingo Doce, houve tiros e feridos, histeria e agressões, houve polícia e famílias organizadas para poderem comprar a dobrar o que estava sujeito regras - o bacalhau, por exemplo, estava limitado a dez quilos por cada consumidor. Houve quem alugasse táxis para a deslocação ou carrinhos de compras por dez euros. "Vale tudo, porque compensa", dizia-se nas filas de espera. Compensa esperar para entrar, esperar para pagar, esperar para sair." Lutar para não ficar de fora.

O grupo Jerónimo Martins lançou esta terça-feira, mais ou menos em segredo, uma promoção inédita: pague metade de tudo o que levar. A informação espalhou-se de manhã e, ao início da tarde, a maioria das prateleiras ficou vazia: azeite, leite, arroz, açúcar e massas foram os primeiros bens a esgotar. Fraldas e enlatados, também. Os bens perecíveis, fruta, legumes e iogurtes não tiveram saída. Em tempo de crise, os portugueses fizeram uma escolha: encher a despensa com o que não se estraga. A quase totalidade das lojas do grande Porto fechou muito antes das 18 horas, hora oficial de encerramento, por ruptura de stock ou por intervenção policial motivada por desacatos na corrida aos saldos na alimentação.



Depois de uma tentativa gorada para entrar na loja do Padrão da Légua, em Matosinhos, uma das primeiras a fechar por "falta de segurança", o casal Azevedo, Armando e Lurdes, seguiu para a Senhora da Hora. Entrou perto das 13 horas, saiu mais de quatro horas depois. Com eles levavam a intenção de gastar cem euros - gastaram 600. Ou melhor, 300. "Reconheço que comprei muitos produtos supérfluos, sobretudo detergentes e vinhos, algumas reservas que há muito tinha deixado de beber", admitiu o empresário de metalomecânica, distribuindo as compras pela mala do carro enquanto trocava um sorriso com a mulher: estavam "cansados", mas "felizes" por terem conseguido entrar. Àquela hora, à porta da loja, menos afortunada, uma pequena multidão gritava, reclamava, exigia falar com o segurança, com o gerente, pedia o livro de reclamações que aparentemente ninguém viu. Lá dentro, conta Armando, "a desorganização foi total.

A loja do Pingo Doce de Coimbrões, em Gaia, foi a única em que o JN conseguiu entrar e a única que, pouco antes das 18 horas, ainda aceitava clientes. Mas entrar para comprar exigia doses extra de coragem. As filas para pagar desenhavam um comboio pelo interior da loja, um círculo sem intervalo entre o início e o fim, as prateleiras quase todas vazias, o chão maltratado por embalagens perdidas, clientes aos encontrões, funcionários exaltados, muita gente a respirar em pouco espaço. À porta, um desistente desabafava: "Escrevam sobre isto, digam que é o fim do mundo, porque o fim do mundo não deve ser diferente."

Não havia carrinhos para toda a gente, as pessoas arrastavam as compras pelo chão, disputavam as caixas de fruta para as transportar, acotovelavam-se pela última embalagem de papel higiénico." O casal não chegou a tempo para comprar massa ou arroz, mas conseguiu organizar-se para comprar bacalhau. "Cada pessoa só podia comprar dez quilos. Por isso, pagámos como se tivéssemos vindo separados." Valeu a pena, claro.

O cenário de tensão, evidente em várias lojas em Matosinhos, não foi diferente do que encontrámos em várias lojas no Porto. Na da Avenida da Boavista, a meio da tarde, foi dada uma ordem: quem sair não volta a entrar. "Nem para vir buscar ajuda?", perguntou uma senhora. "Para nada", respondeu o segurança. Buscar ajuda significava resgatar o familiar ou amigo que entretanto saíra para levar sacos ou caixas para acomodar as compras.
O anúncio precipitou a confusão. Também ali foi solicitada a presença da polícia, e pouco depois soou a declaração mais temida pela fila: a loja vai fechar durante duas horas e poderá não voltar a abrir. Uma nuvem de desalento desceu sobre o rosto de Sónia Cerqueira. Ela até sabia do segredo desde domingo à noite, fuga de informação partilhada pelo amigo de um amigo, a irmã fizera calmamente compras durante a manhã, naquele mesmo local, ela deixara-se ficar para a tarde - e agora era tarde de mais. Queria sobretudo comprar fraldas para a filha e "mais dois ou três pacotes dos produtos" que já costuma comprar.

Ao lado, Abel Raeiro, reformado, discursava. "Não aceito que nos considerem inferiores, não aceito ser tratado como cidadão do terceiro mundo, exijo falar com o seu patrão", dizia, dedo em riste, virado ao funcionário incumbido de dizer que o stock quebrara. A sua revolta não se deveu à promoção, mesmo questionando-se sobre ela, porque "ninguém dá nada a ninguém", mas sobre a organização. Na fila, sem carro de compras e já sem a expectativa de entrar, perguntava: "como é possível oferecer uma coisa destas sem prever que iria dar nisto?" Isto é a exaltação fruto de "oferecer metade das compras só a metade das pessoas". A metade beneficiada entupiu o parque, o alarme de CO2 manifestou-se durante toda a tarde, todos reclamaram da falta de segurança.