sábado, março 31, 2012

terça-feira, março 27, 2012

Dia Mundial do Teatro

[Annie Leibovitz]

"Que o vosso trabalho possa ser apaixonante e original. Que ele possa ser profundo, comovente, contemplativo, e único. Que ele nos ajude a reflectir sobre a questão do que significa ser humano, e que esta reflexão seja guiada pelo coração, sinceridade, candura, e charme. Que consigam ultrapassar a adversidade, a censura, a pobreza e o niilismo, que muitos de entre vós serão obrigados a enfrentar. Que sejam abençoados com o talento e rigor para nos ensinar sobre o batimento do coração humano, em toda a sua complexidade, e com a humildade e curiosidade que faça disto o trabalho da vossa vida. E que o melhor de vós próprios – porque só poderá ser o melhor de vós próprios, e mesmo assim apenas em raros e breves momentos – consiga definir a mais fundamental questão “como vivemos nós?”

John Malkovich, discurso comemorativo do 50º aniversário do Dia Mundial do Teatro

Millôr Fernandes 1923- 2012


"Não devemos resisitir às tentações: elas podem não voltar."

Entrevista publicada no jornal de Negócios em 2008: http://www.jornaldenegocios.pt/archivos/2012_03/millor_doc.pdf

segunda-feira, março 26, 2012

Ivan Búnin: O amor de Mítia


"O que foi para ele aquela Primavera, e sobretudo aquele dia, quando o vento dos campos lhe soprava tão frio na cara, quando o cavalo, vencendo o caminho através das aradas negras e dos restolhais saturados de água, respirava ruidoso pelas narinas largas, bufando e rouquejando a plenos pulmões, com uma magnífica força selvagem? Parecia-lhe então que aquela Primavera, precisamente aquela, com os seus dias repletos de paixão por qualquer coisa e por alguém, em que ele amava todas as colegiais e todas as raparigas campónias do mundo, é que era o seu verdadeiro primeiro amor. Mas como aqueles tempos lhe pareciam agora tão distantes! Na altura ainda um rapazinho, inocente, crédulo, pobre nos seus modestos sonhos, tristezas e alegrias! Um sonho, ou antes, a recordação de um qualquer sonho maravilhoso era, então, o seu abstracto e incorpóreo amor."

[o primeiro escritor russo a ganhar o Nobel, em 1933. Escreveu o poeta Alexander Tvardóvski sobre este livro: "O que mais nos espanta aqui é esta arte antiga dos que sabem amar até ao fim e a que Búnin deu corpo quase só com a descrição da natureza de que nos fala: uma Primavera a florescer pode ser pujante de felicidade e de adjectivos gloriosos se o amor está perto, mas pode ser terrível e de adjectivos arrepiantes se o amor está longe."]

domingo, março 25, 2012

Antonio Tabucchi 1945- 2012


"A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas."

in 'Tristano Morre'

sábado, março 24, 2012

First single



"Podem descrever os álbuns anteriores como optimistas ou depressivos mas este é como uma pintura escapista", disse o vocalista.

sexta-feira, março 23, 2012

Fernando Sobral: Salazar, a pobreza, o pó e o ouro



Os portugueses iludiram-se culturalmente: julgaram que o dinheiro fácil que chegou durante três décadas comprava a solidez da educação e o espírito da invenção e inovação. E do risco. É uma tónica portuguesa: prefere-se a renda ao risco. O resultado está à vista.

Em 1962, António Oliveira Salazar sintetizou de forma clara a visão que tinha do seu Portugal: "Um país, um povo que tiverem a coragem de ser pobres são invencíveis". Este mundo pobre, ou remediado, acabou após a entrada na União Europeia. Em cima da nossa pobreza caíram toneladas de dinheiro. O país ficou sulcado por auto-estradas e rotundas. As mercearias de bairro fecharam e nasceram hipermercados. Os portugueses passaram a preferir ir passear para os centros comerciais do que para os jardins. A democracia de consumo chegou como se fosse um milagre redentor.

Todos acharam que faziam parte da classe média, alimentada pelo crédito fácil. O paraíso tinha também construído na sombra o purgatório, feito de cumplicidades: do BPN à Parque Escolar foi um mundo de oportunidades de "negócio" para muitos. Deixando de ter a coragem de ser remediado o povo português tornou-se uma presa fácil de uma crise que não percebesse.

Destruída a base industrial, agrícola e piscatória do país, com fundos comunitários para abater tudo isso e trazer a "modernidade", Portugal ficou indefeso quando chegou a grande crise de 2008. Já antes era visível mas todos se recusavam a ver: o Estado continuava a ser a mãe de todas as batalhas e de todas as rendas. A própria sociedade civil e iniciativa privada viviam de bem com o Estado, fosse ele guiado pelo PS ou pelo PSD. A mais breve nota de suicídio da história portuguesa foi escrita por José Sócrates, o último da linhagem de destruidores de um país que poderia ser remediado mas inteligente.

Todo se desvaneceu no ar. O crédito fácil foi substituído pela amarga austeridade. António de Oliveira Salazar, em 1963, dizia: "Quero este país pobre, se for necessário, mas independente - e não o quero colonizado pelo capital americano". A colonização é hoje exercida pela Comissão Europeia e pela troika, numa Europa que parece cada vez mais dividida cultural e moralmente, entre um norte protestante e um sul católico. A moral calvinista é uma forma demolidora de salvação (salvamo-nos pelo trabalho), face à forma como se perdoam os pecados, no confessionário, a sul.

Tudo nos divide. A forma como os protestantes criaram o capitalismo moderno enquanto nós víamos as naus carregadas de pimenta e ouro irem directas para Amesterdão e Londres para pagar os nossos prazeres ao sol diz muito do que são formas diferentes de olhar para a civilização.

Mas, ainda assim, os portugueses iludiram-se culturalmente: julgaram que o dinheiro fácil que chegou durante três décadas comprava a solidez da educação e o espírito da invenção e inovação. E do risco. É uma tónica portuguesa: prefere-se a renda ao risco. O regime atolou-se e o BPN representa-o perfeitamente nas suas ligações pouco transparentes a tudo e a todos. Se quisermos estudar este regime estudemos o BPN. Antes e depois da nacionalização. Está lá tudo o que se andou a fazer desde a entrada na União Europeia.

Maquilhou-se a pobreza com um falso riquismo que só encheu os bolsos e a estima de alguns. Que hoje vivem acima dos dramas dos comuns portugueses que só acreditaram no cartão de crédito, na casa acima das suas possibilidades, nas férias nos "resorts" mais aprazíveis, no carro do último modelo e no telemóvel 3G. Esse mundo ruiu para a maioria. Mas na sombra da crise há quem continue a viver de rendas, escudado nos invencíveis contratos com que o Estado prometeu dar tudo sem receber nada. Voltamos assim aos anos de 1960, como se tudo não tivesse passado de uma ilusão. Com uma diferença. Em Agosto de 1968, Oliveira Salazar dizia: "no dia em que eu abandonar o poder, quem voltar os meus bolsos do avesso, só encontrará pó". Hoje, nos bolsos de alguns que nasceram, cresceram e singraram com este regime, só se encontrará ouro.

[Hoje, no jornal de Negócios]

quinta-feira, março 22, 2012

Anna Akhmatova: In dream

[Olivia Bee]

Black and enduring separation
I share equally with you.
Why weep? Give me your hand,
... Promise me you will come again.
You and I are like high mountains
and we can't move closer.
Just send me word,
At midnight sometime through the stars.

[Não é possível escolher o melhor escritor russo, mas é claramente possível eleger a melhor poetisa da Rússia. Anna Akhmatova, no mês em que passam 46 anos sobre a sua morte.]

domingo, março 18, 2012

Último brinde


Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz, 
À solidão dos abraços 
E a ti, num brinde, ergo a voz...
Ao lábio que me traiu, 
Aos mortos que nada vêem, 
Ao mundo, estúpido e vil, 
A Deus, por não salvar ninguém.

Anna Akhmátova, 1934 

sábado, março 17, 2012

José Luís Nunes Martins: "Amar é arriscar"

[Olivia Bee]

O amor é algo extraordinário e muito raro. Ao contrário do que se pensa não é universal, não está ao alcance de todos, muito poucos o mantêm aqui. Chama-se amor a muita coisa, desde todos os seus fingimentos até ao seu contrário: o egoísmo.

A banalidade do gosto de ti porque gostas de mim é uma aberração intelectual e um sentimento mesquinho. Negócio estranho de contabilidade organizada. Amar na verdade, amar, é algo que poucos aguentam, prefere-se mudar o conceito de amor a trocar as voltas à vida quando esta parece tão confortável.

Amar é dar a vida a um outro. A sua. A única. Arriscar tudo. Tudo. A magnífica beleza do amor reside na total ausência de planos de contingência. Quando se ama, entrega-se a vida toda, ali, desprotegido, correndo o tremendo risco de ficar completamente só, assumindo-o com coragem e dando um passo adiante. Por isso a morte pode tão pouco diante do amor. Quase nada. Ama-se por cima da morte, porquanto o fim não é o momento em que as coisas se separam, mas o ponto em que acabam.

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos.

De pouco vale viver uma vida inteira se não sentirmos que o mais valioso que temos, o que somos, não é para nós, serve precisamente para oferecermos. Sim, sem porquê nem para quê. Sim, de mãos abertas. Sim... porque, ainda além de tudo o que aqui existe, há um mundo onde vivem para sempre todos os que ousaram amar...

[Hoje, no i]

sexta-feira, março 16, 2012

Fernando Sobral: "O BPN e o impasse do regime"

[Olivia Bee]

Construir argumentos a partir de premissas falsas é uma das mais velhas tácticas da política. O objectivo é sempre demonstrar que a culpa é do outro. Não basta o catálogo de ficções que nos são oferecidas nas campanhas eleitorais. Em momentos sérios e críticos como o que vivemos percebe-se que nada muda no imutável jogo de ficções em que se entretêm os partidos políticos portugueses.

Os do arco do poder e os outros. O regime entrou em impasse e a crise financeira (que é sobretudo política e cultural - porque nenhum partido apresenta um modelo de futuro para Portugal) é um sintoma dessa falência. Os portugueses vagueiam hoje entre a melancolia e a saudade que Teixeira de Pascoaes nos legou e um Quinto Império que ainda está por cumprir e que o Padre António Vieira, Fernando Pessoa ou Agostinho da Silva delinearam.

Mas o pior é que, passadas tantas décadas depois da derrocada com um sopro do Estado Novo, Portugal volta a entrar no labirinto sem saída. Este país está a tornar-se novamente uma guerra de trincheiras entre quem tem acesso ao poder e quem não tem. Não é já a classe social, a idade ou o sexo que delimitam o futuro. É estar no círculo do poder. E a culpa maior em tudo isto é do arco do poder político que fez do Estado, mesmo quando põe poses liberais, o poder com uma mão visível muito longa. Aquilo que nos últimos dias se viu mostra o esgar anacrónico do regime: PS e PSD (este com o CDS) pedem à vez uma comissão de inquérito parlamentar sobre o caso BPN. Aquele caso, se bem se lembram, do banco que simbolizou este regime, que já custou milhares de milhões de euros dos contribuintes e onde não há um único culpado sobre a catástrofe.

Na sua ânsia de fazer comissões de inquérito de onde nada sairá de relevante, porque a ninguém interessa lavar a roupa suja da máquina BPN, os partidos do arco do poder mostra uma coisa simples. Criam comissões de inquérito para que nada de real seja inquirido. E que tudo não seja mais do que formas de arranjar pedras para arremessar para o outro lado do Parlamento. É assim que um regime se esgota e se esvai. Enquanto os portugueses agoniam com uma crise económica sem limites, com um fisco que lhe saltou para a garganta, e com uma austeridade que tudo está a destruir, PS, PSD e CDS vão-se entretendo a escrever telenovelas. Cheira a fim da Monarquia Constitucional. Cheira a fim da I República. Cheira a fim do Estado Novo.

As comissões de inquérito do PS, do PSD e do CDS ao BPN só merecem uma coisa: uma gargalhada. Porque demonstram que o regime continua a brincar como se a situação de Portugal não fosse séria. Há muitos anos Hannah Arendt, uma autora que deveria ser uma referência para os partidos do arco do poder, escrevia em "A Condição Humana": "O que estamos a ser confrontados é com a perspectiva de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única actividade que lhes foi deixada. Seguramente, nada poderia ser pior".

Arendt via o futuro. E este futuro é o nosso presente, real em quase 15% de desempregados e com a perspectiva de a evolução ser galopante este ano e muito provavelmente no próximo. Assistimos assim a uma comédia sem arte por parte do PS, PSD e CDS, em que o jogo político se sobrepõe ao interesse real dos portugueses. Mas é assim que caminhamos alegremente para a insolvência do regime que julgamos democrático e que se está a tornar numa fortaleza onde alguns têm acesso ao poder e aos benefícios daí decorrentes e a maioria fica às portas, indefesa perante as invasões bárbaras.

[Hoje, no JNegócios]

quinta-feira, março 15, 2012

The problems lies anywhere in there...



I could try to say I'm sorry
But then won't be quite enough
To get you know pain that I feel
And it just won't let...
Oh, it feels like the sky is falling
And the clouds, clouds are falling in
When I lose control, when it all begin.

Please, forgive my heart,
Cause not that the problems
lies anywhere in there
I'm a liar, I'm in a dream
Going my way, nothing to rely on

From the dumb silent weakness
To the blindness of the night
And we see reflexions so clear
And the blush, blush of the morning light
Hmmm time it can pass so slowly
When you face the burden down
The term is not commuted
It lingers, lingers without a sound

Please, forgive my heart,
Cause not that the problems
lies anywhere in there
I'm a liar, I'm in a dream
Going my way, nothing to rely on

quarta-feira, março 14, 2012

Lambchop: disquinho novo

Why I Am Leaving Goldman Sachs


TODAY is my last day at Goldman Sachs. After almost 12 years at the firm — first as a summer intern while at Stanford, then in New York for 10 years, and now in London — I believe I have worked here long enough to understand the trajectory of its culture, its people and its identity. And I can honestly say that the environment now is as toxic and destructive as I have ever seen it.


To put the problem in the simplest terms, the interests of the client continue to be sidelined in the way the firm operates and thinks about making money. Goldman Sachs is one of the world’s largest and most important investment banks and it is too integral to global finance to continue to act this way. The firm has veered so far from the place I joined right out of college that I can no longer in good conscience say that I identify with what it stands for.
It might sound surprising to a skeptical public, but culture was always a vital part of Goldman Sachs’s success. It revolved around teamwork, integrity, a spirit of humility, and always doing right by our clients. The culture was the secret sauce that made this place great and allowed us to earn our clients’ trust for 143 years. It wasn’t just about making money; this alone will not sustain a firm for so long. It had something to do with pride and belief in the organization. I am sad to say that I look around today and see virtually no trace of the culture that made me love working for this firm for many years. I no longer have the pride, or the belief.
But this was not always the case. For more than a decade I recruited and mentored candidates through our grueling interview process. I was selected as one of 10 people (out of a firm of more than 30,000) to appear on our recruiting video, which is played on every college campus we visit around the world. In 2006 I managed the summer intern program in sales and trading in New York for the 80 college students who made the cut, out of the thousands who applied.
I knew it was time to leave when I realized I could no longer look students in the eye and tell them what a great place this was to work.
When the history books are written about Goldman Sachs, they may reflect that the current chief executive officer, Lloyd C. Blankfein, and the president, Gary D. Cohn, lost hold of the firm’s culture on their watch. I truly believe that this decline in the firm’s moral fiber represents the single most serious threat to its long-run survival.
Over the course of my career I have had the privilege of advising two of the largest hedge funds on the planet, five of the largest asset managers in the United States, and three of the most prominent sovereign wealth funds in the Middle East and Asia. My clients have a total asset base of more than a trillion dollars. I have always taken a lot of pride in advising my clients to do what I believe is right for them, even if it means less money for the firm. This view is becoming increasingly unpopular at Goldman Sachs. Another sign that it was time to leave.
How did we get here? The firm changed the way it thought about leadership. Leadership used to be about ideas, setting an example and doing the right thing. Today, if you make enough money for the firm (and are not currently an ax murderer) you will be promoted into a position of influence.
What are three quick ways to become a leader? a) Execute on the firm’s “axes,” which is Goldman-speak for persuading your clients to invest in the stocks or other products that we are trying to get rid of because they are not seen as having a lot of potential profit. b) “Hunt Elephants.” In English: get your clients — some of whom are sophisticated, and some of whom aren’t — to trade whatever will bring the biggest profit to Goldman. Call me old-fashioned, but I don’t like selling my clients a product that is wrong for them. c) Find yourself sitting in a seat where your job is to trade any illiquid, opaque product with a three-letter acronym.
Today, many of these leaders display a Goldman Sachs culture quotient of exactly zero percent. I attend derivatives sales meetings where not one single minute is spent asking questions about how we can help clients. It’s purely about how we can make the most possible money off of them. If you were an alien from Mars and sat in on one of these meetings, you would believe that a client’s success or progress was not part of the thought process at all.
It makes me ill how callously people talk about ripping their clients off. Over the last 12 months I have seen five different managing directors refer to their own clients as “muppets,” sometimes over internal e-mail. Even after the S.E.C., Fabulous Fab, Abacus,God’s work, Carl Levin, Vampire Squids? No humility? I mean, come on. Integrity? It is eroding. I don’t know of any illegal behavior, but will people push the envelope and pitch lucrative and complicated products to clients even if they are not the simplest investments or the ones most directly aligned with the client’s goals? Absolutely. Every day, in fact.
It astounds me how little senior management gets a basic truth: If clients don’t trust you they will eventually stop doing business with you. It doesn’t matter how smart you are.
These days, the most common question I get from junior analysts about derivatives is, “How much money did we make off the client?” It bothers me every time I hear it, because it is a clear reflection of what they are observing from their leaders about the way they should behave. Now project 10 years into the future: You don’t have to be a rocket scientist to figure out that the junior analyst sitting quietly in the corner of the room hearing about “muppets,” “ripping eyeballs out” and “getting paid” doesn’t exactly turn into a model citizen.
When I was a first-year analyst I didn’t know where the bathroom was, or how to tie my shoelaces. I was taught to be concerned with learning the ropes, finding out what a derivative was, understanding finance, getting to know our clients and what motivated them, learning how they defined success and what we could do to help them get there.
My proudest moments in life — getting a full scholarship to go from South Africa to Stanford University, being selected as a Rhodes Scholar national finalist, winning a bronze medal for table tennis at the Maccabiah Games in Israel, known as the Jewish Olympics — have all come through hard work, with no shortcuts. Goldman Sachs today has become too much about shortcuts and not enough about achievement. It just doesn’t feel right to me anymore.
I hope this can be a wake-up call to the board of directors. Make the client the focal point of your business again. Without clients you will not make money. In fact, you will not exist. Weed out the morally bankrupt people, no matter how much money they make for the firm. And get the culture right again, so people want to work here for the right reasons. People who care only about making money will not sustain this firm — or the trust of its clients — for very much longer.
Greg Smith is resigning today as a Goldman Sachs executive director and head of the firm’s United States equity derivatives business in Europe, the Middle East and Africa. (NYT)

terça-feira, março 13, 2012

Universidade pés descalços


Bunker Roy | Aprendendo com os ''pés descalços'' 

"Primeiro eles ignoram-te, depois, riem-se de ti, depois, combatem-te e depois tu vences." 
Mahatma Gandhi

segunda-feira, março 12, 2012

sexta-feira, março 09, 2012

quinta-feira, março 08, 2012

Pedro Lomba: "Mais do que uma carta"


Tarde de segunda. Em 1921. Franz Kafka escreve pela segunda vez no mesmo dia a Milena Jesenská. À noite, haveria ainda de escrever uma terceira vez. Talvez porque na véspera estivera com Milena em Viena, o tom da correspondência não deixa dúvidas sobre o entusiasmo de Kafka com o que era ainda um conhecimento recente. Kafka descreve como foi o seu penoso e atribulado regresso de comboio a Praga. Não há amargura nesta carta; só medo e esperança. "Todo o tempo querem afastar-me de ti, mas não o conseguirão nunca, Milena, não é verdade?"

O século XX trouxe o homem nervoso, assim como o século XIX inventou o romântico. O homem que passou a depender cada vez mais do poder dos outros; o homem que precisa de fazer face a férreas burocracias e organizações; o homem que, arrastado para um mundo que não domina, para um mundo que lhe impõe maior sofreguidão e destreza, não sabe literalmente o que fazer.

Com o visto austríaco expirado, Kafka é barrado na fronteira. O revisor apreende-lhe o passaporte. Vem ter com ele um polícia solícito. Kafka imagina que é Milena, benfeitora, querendo libertá-lo, agindo contra as forças contrárias. Sai do comboio. O polícia acompanha-o até aos serviços de fronteira. Encontra uma judia romena, outra infractora. O inspector-chefe, mais o seu adjunto, são implacáveis. "Tem de regressar a Viena e fazê-lo visar pela polícia." Kafka responde: "Isso é um desastre. Mesmo pagando todas as despesas?" "Tem de voltar."

Conformado em regressar para visar o passaporte, Kafka espera pelo comboio das dez da noite que chegaria às duas e meia a Viena. A essa hora conseguirá alojamento, cogita? Em que estado se encontrará depois desta viagem, visto que terá de voltar para Praga logo a seguir no comboio das dezasseis? Não seria melhor pernoitar na fronteira viajando de manhã no das cinco e meia? E que dirá disto o seu chefe a quem precisa de telegrafar para a prorrogação da sua licença? Mas tem de ir, pensa, pois precisa do visto revalidado na segunda de manhã para voltar a Praga. Ainda assim, pergunta se o obterá de imediato ou se terá de esperar até terça.

Agora o adjunto, antes em silêncio, oferece-se para o ajudar. Se Kafka dormir na estação, ele deixa-o seguir de manhã para Praga, fazendo crer ao inspector que iria para Viena. Combinado com o adjunto, Kafka e a romena saem da estação em busca de um hotel. Mas os desvios não acabam. Ao saírem da estação, os dois avistam um comboio de carga em passagem. A romena quer cruzar a linha antecipando-se no comboio, Kafka escolhe ficar para trás. Seria novo ataque das forças contrárias? Novamente Milena intercedendo por ele? Por não terem passado antes do comboio, conseguem ouvir o polícia: "Voltem depressa, o inspector deixa-os passar."

Será possível, espanta-se Kafka, que já não sabe em que mais acreditar? Ainda há tempo para apanhar o comboio. Recolhe a bagagem, corre para a inspecção da fronteira, depois para a alfândega. Os azares não terminam, não podem terminar. O comboio para Praga está de partida. Não há muito tempo. Incapaz de correr com a mala, esbarra num rapaz carregador. Atropelado pela multidão, um polícia abre-lhe o caminho. Apercebendo-se que tinha perdido as chaves, um empregado encontra-as e entrega-las.

Até entrar finalmente no comboio este Kafka podia ser qualquer um de nós, o homem nervoso, acomoda-se, sossega, limpa o suor do rosto e fecha a carta com um último pedido: "Não me abandones nunca."

[Hoje, no Público]

quarta-feira, março 07, 2012

"Tennis and learning not to care"

Three months before I was born, my father bought an eight-court outdoor tennis club on three acres of land in New Rochelle, New York. The club sits at the bottom of what amounts to a gully, down the block from a swampy lily pond that overflows during thunderstorms and floods the basements of the handsome Tudor homes in the neighborhood.

The courts themselves are made of a material called Har-Tru, a gray-green clay that smells like a mixture of coffee grounds and fresh-cut grass. It’s soft and easy on the knees, perfect for middle-aged investment bankers and ad executives but more difficult to maintain than hard courts.

When it rains, the material softens, expands like a sponge, and turns into a shallow lake. During dry spells, it gets chalky and swirls around on warm breezes. Like lunar dust, Har-Tru sticks to everything. It gunks up sneakers, stains white tennis shorts, and accumulates in socks. As a kid, over the course of a given summer, I’d transfer an entire court’s worth of Har-Tru to our living room.

The courts were our family’s livelihood; their quality was a matter of pride for my father. Like a farmer who knows the precise chemical composition of the soil in his fields, he could step out on the courts, sniff the air, and know whether to water them or let them bake in the sun. He never read weather reports (he called weathermen “crooks”) but developed meteorological instincts. He sensed drops in barometric pressure and intuited the approach of autumnal cold fronts.

“Rain’s coming,” he’d say, looking out over the courts like an Oklahoman homesteader.

Even when I went south to the University of Virginia, I found Har-Tru waiting for me. The company that manufactures it boasts on their homepage that Har-Tru comes from “billion-year-old Pre-Cambrian metabasalt found in the Blue Ridge Mountains.” I could have walked to their corporate headquarters from the center of campus. Charlottesville has brilliant sunsets thanks to the airborne coal dust carried on the wind from mines in West Virginia. I couldn’t help but stare at yellow-orange-pink skies over the Blue Ridge in autumn and think, Look at all that Har-Tru.

My father financed his acquisition of the club with a sizable loan from my grandfather, who had decades before taught him how to play. In the family’s preferred apocryphal rendering of the story, my grandfather, after filling out the loan paperwork at Bank of New York, drove himself to the hospital, dropped his pack of Pall Malls in the trash, and had a heart attack on a gurney in the emergency room.

He never smoked again.

And he was back on the court two months later. To miss a summer would have been out of the question. He’d spent his entire life playing tennis, and had a reputation for ugly but witheringly effective strokes. He sliced and chopped at the air, not so much beating opponents as rendering them insane with menacing angles and spins.

When my grandfather died this past January, my father buried him with a tennis racket and a purple and gold New Rochelle Tennis Club hat. The hat had a typo—a lowercase t in the word tennis—but my grandfather refused to stop wearing it. It wasn’t until my father told me about the racket in the coffin, when his voice wavered and he looked down at his feet, that I realized how pivotal tennis had been in their relationship—how important it had been to show his father he could build a business from the sport they both loved.

My dad never pressured me to play, perhaps because, more than anything else, he feared becoming a Tennis Parent: a particularly nasty breed of authoritarian, best known for the haunted looks of low-grade terror they produce in their children. At tournaments, one can reliably pick out Tennis Parents just by looking at their offspring. They were kids with steely, defiant eyes, primo gear, and meticulously coordinated outfits. Yet they walked hunched over, like they knew something about living under the thumb of oppressive regimes.

“If I ever do that to you,” my father once told me as we watched a furious Russian Tennis Parent lay into his son at a tournament, “kill me.”

I wanted to make him proud, but at no point in my career in the USTA Eastern Section did I demonstrate anything like the facility of a natural. Despite years of line drills, wind sprints, overheads, volleys, buckets of serves smacked into chain-link fences, cross-court ground strokes, and blistered appendages (and a disturbing tendency for my right pinky to lock in a claw-like grip), I wasn’t ever good at tennis. I had a flat but inconsistent forehand that I could hit extremely hard. And I could stay on the court indefinitely, wasting challengers through attrition and a distilled hatred of losing. But I had a spastic service motion and a perpetually in-progress backhand. I worried what spectators thought of my shorts and Har-Tru-covered socks (too short and too high, respectively), and I’d often turn to talk to whatever small crowds assembled to watch me self-destruct. As I got older, I got distracted more easily. I got down on myself. I was temperamental.

Never a racket thrower, but always a screamer.

I screamed when I shanked a forehand into low-Earth orbit and when I dumped a volley into the net. I screamed because tennis felt like an outlet for unspent energies and superfluous aggression. I screamed because it seemed cosmically unfair that I could be so bad at something, having put in so much time. And I screamed because it seemed to matter so much.

This, despite the Zen-inflected instruction of my sometime-coach, Glenn, who taught that mastery of tennis demanded constant repression of one’s preoccupation with success. Glenn was English. He studied law at Cambridge and was the son of a chocolate-factory owner. Rather than continuing in his family’s business, he moved to America and taught tennis with my father in the seventies. After a long radio silence, he showed up in New Rochelle in 1992 looking for work, and my father hired him.

Glenn cultivated the persona of a tennis intellectual—something more than the average tennis pro. He smoked Benson and Hedges, ate an alarming number of Kit-Kat Bars, and lived in Brooklyn. He collected art and quoted Fitzgerald. On the occasion of my sixth-grade graduation, he gave me an inscribed copy of Bulfinch’s Mythology. He commuted to the club every day wearing blazers over black T-shirts and pleated khaki slacks, making for an odd juxtaposition with my father, whom I never saw wearing anything but tennis whites in the months between May and November.

For Glenn, tennis was a purely mental game, its problems solvable through a personal variation on psychoanalysis. He broke down my own palsied serve into three movements, suggesting that I mouth the words “I. DON’T. CARE!” in rhythm with them. He added that I should shout CARE! as I smacked the ball toward the earth. By getting me to renounce my emotional attachment, I guess he thought that I could free up mental energies to enjoy myself. There was something intoxicating about the idea that the mind could exert too much control over the body and that there could be freedom from the mind’s tyranny in the ability to let the body take the helm.

But I never thought it was actually possible.

It wasn’t until years later, when I found David Foster Wallace’s essays on tennis, that I encountered what seemed like a written version of Glenn’s approach. Wallace scrupulously details the sport’s Euclidian logic, its between-the-ears acrobatics, its mid-August sweatiness, its production of near-divine feats of athletic perfection. He obsesses over the labor and dedication necessary to become a world-class anything, and though he’s writing about tennis, he’s also writing about writing. The essays mattered to me precisely because of this connection, and I read them just as I was beginning to take my first stabs at translating childhood material into short fiction.

Yet for Wallace, tennis entails intense aloneness, standing seventy-eight feet away from one’s opponent, warring within and against one’s own brain. Tennis represents an entirely individual struggle to wrest control from the mind: to be at once fully conscious of oneself and yet able to stop thinking.

For me, tennis represented something else. Maybe history, inheritance. Maybe just trying to figure out what to pass on (a service motion, a slice backhand, a tennis club, a philosophy). I’m still figuring it out. Glenn died the same summer I started reading Wallace. My father scattered his ashes in the Har-Tru on court three, where Glenn tried to teach me not to care and seems to have taught me the opposite.

A-J Aronstein teaches writing at the University of Chicago, home, na Paris Review

terça-feira, março 06, 2012

Absolut Kate Moss


Kate Moss, 38 anos, fotografada para a revista masculina Another Man, apenas com um véu desenhado por Sarah Burton para Alexander McQueen. É tão fácil perceber por que razão nunca ninguém conseguiu - e ela começou aos 15 anos - destronar esta rapariga.

domingo, março 04, 2012

Dreamers


Soldiers are citizens of death's gray land,
  Drawing no dividend from time's to-morrows.
In the great hour of destiny they stand,
  Each with his feuds, and jealousies, and sorrows.
Soldiers are sworn to action; they must win         5
  Some flaming, fatal climax with their lives.
Soldiers are dreamers; when the guns begin
  They think of firelit homes, clean beds, and wives.
  
I see them in foul dug-outs, gnawed by rats,
  And in the ruined trenches, lashed with rain,  10
Dreaming of things they did with balls and bats,
  And mocked by hopeless longing to regain
Bank-holidays, and picture shows, and spats,
  And going to the office in the train.

Siegfried Sassoon

sábado, março 03, 2012

Quem disse que de Espanha não vêm bons ventos?


O novo primeiro-ministro espanhol teve a ousadia de dizer que não consegue cumprir o défice acordado com Bruxelas. Ousadia e sensatez, porque não vai mesmo conseguir.

O paradoxo que se abateu sobre nós está bem espelhado na semana que acabámos de atravessar. Na segunda-feira, ouvimos Paul Krugman dizer em Lisboa que este caminho não nos leva a lado nenhum mas que estamos a fazer tudo bem. Ontem, vimos o primeiro-ministro espanhol – acabado de chegar ao poder numa vitória esmagadora do PP – desafiar Bruxelas e os mercados ao dizer que não vai cumprir o défice, porque isso seria dramático para Espanha.

Já sabíamos que vivíamos tempos estranhos, mas o mundo está mesmo de pernas para o ar. Quem esperava ver Krugman a arrasar o Governo ficou decepcionado. E a linha dura que olhava para Rajoy como um monetarista deve ter tido uma síncope ontem à tarde.

Afinal, o primeiro país a desafiar Bruxelas e Berlim não foi um Estado sob resgate nem uma chancelaria tomada de assalto pela extrema-esquerda ou por um grupo de neokeynesianos. Não, quem rasgou o compromisso de atingir um défice de 4,4% este ano foi a Espanha, governada por um primeiro-ministro que garantiu uma execução orçamental implacável e prometeu acabar os anos de despesismo de Zapatero.

Em Portugal há já quem exija ao Governo a mesma ousadia. Mas uma decisão dessas não tinha pés nem cabeça. Há uma enorme diferença entre nós e Espanha. Portugal está sob resgate, Espanha depende do financiamento dos mercados. Se Portugal tomasse unilateralmente a decisão de não cumprir as metas do défice ficava sem financiamento dos nossos credores. Com a decisão que tomou, Espanha enfrenta sozinha os mercados.

É por isso que a decisão espanhola é histórica. Arrisca um processo da Comissão Europeia por apostar num défice de 5,8% (contra os 4,4% prometidos), críticas violentas de Bruxelas e Berlim e revisão imediata das agências de rating. A primeira reacção dos mercados não foi simpática. O risco da dívida espanhola subiu para o mesmo nível da italiana. Mas o verdadeiro teste só será vivido quando Espanha tiver de emitir dívida de médio prazo.

Com plena consciência do que está a fazer, Rajoy pode condicionar o futuro da zona euro. Se os mercados aceitarem a sua decisão e financiarem Espanha apesar do “mau” resultado do défive de 2012, Bruxelas e Berlim sofrem uma derrota histórica. O que Espanha quis dizer é que é possível chegar ao mesmo ponto – défive de 3% em 2013 – sem ter de travar tão bruscamente este ano. Se o caminho estiver certo, talvez esta tenha sido a melhor notícia que Portugal recebeu em muitos meses. Resta esperar.

Ricardo Costa, hoje, no Expresso

De braços bem abertos



Todo aquele que habita a solidão sabe que o medo é o oposto da felicidade. O isolamento de quem foge é assustador e pesado. A solidão de quem dá um passo adiante, quando todos os outros ficam quietos, é bela e voa.

Ser original, nos dias que correm, não é tarefa fácil. A normalidade exige e atinge picos de afinação incríveis. Até mesmo os sonhos são como que versões autorizadas de um sistema que oferece muitas opções, mas sempre só em circuito fechado. Sair do habitual é uma ousadia que a multidão condena a priori. Os odedientes contribuem para a aperpetuação do estado de coisas, vaiando de todas as formas quem desafia sair do caminho.

Porque eu não sou como os outros, devo preocupar-me quando estiver a parecer-me com eles. Mas sair da lógica da multidão é desafiar a irracionalidade. A massa é acéfala e rege-se por princípios de estabilidade e força, alimenta-se da renúncia das vontades individuais, num movimento gigante e potente.

Quem quer ser feliz deve ser original, sempre, desejar criar o novo, aceitar agarrar a sua vida em vez de esperar pelo que possam trazer as mãos do mundo. É preciso expor-se totalmente e arriscar tudo, porque só quando se compromete tudo se pode alcançar o raro prémio de que quase todos desistem cedo demais. A felicidade.

Quando se ama verdadeiramente pouco se teme, por isso se fica mais perto do céu. Os meus braços servem para abraçar e não para me esconder atrás deles. O sofrimento da solidão tem sentido absoluto quando o peito está descoberto. Só com os braços bem abertos se ama.

José Luís Nunes Martisn, hoje, no i