segunda-feira, maio 31, 2010

We love Clint Eastwood

Se fazer greve de fome durante um mês nos assegurasse a eternidade de Clint Eastwood, nós ficaríamos alegremente um mês sem comer. Ou dois. Iríamos onde fosse preciso a pé, em sagrada promessa. E prometeríamos ser pessoas melhores. Clint Eastwood faz hoje 80 anos e de há uns anos para cá, cada ano que passa traz-nos sempre um aperto...

sexta-feira, maio 28, 2010

Radio Muezzin by Stefan Kaegi

A 11 de Setembro de 2001 todos os que até aí não tinham opinião sobre o mundo árabe, passaram a tê-la. Opinião e repulsa, com toda a margem de erro que a generalização sempre transporta. Nós também, claro. Pouco depois, estivemos no Egipto, o território mais próximo dos muçulmanos que conhecemos. Não houve a mais pequena empatia e ainda hoje guardamos na memória a persistência daquele odor ocre a suor e especiarias e pó e sol desbotado. E a igual persistência daquele som rouco dos altifalantes em constante chamamento para as orações. Foi a constatação da nossa intolerância cultural: somos ocidentalíssimos e europeístas. Pequeninos, portanto. Não é muito interessante, talvez nem muito inteligente, mas é assim que somos.

"Radio Muezzin", a peça de Stefan Kaegi, apresentada ontem no Teatro Carlos Alberto, no Porto, no âmbito do Alkantara Festival, é um exercício quase voyeurista sobre o universo dos muezzins, as criaturas contratadas pelo ministério para chamar o povo para as cinco orações diárias que se realizam nas mesquitas em várias partes do mundo à mesma exacta hora (em França e na Alemanha são proibidas). Só no Cairo existem 30 mil mesquitas. E fica-se com a clara impressão de que todo o quotidiano daquela gente é condicionado por esse cíclico apelo. Quotidiano e ambição. Quando não estão em oração, estão à espera dela.

A história, em 80 minutos, é a história de quatro muezzins do Cairo - que não são actores; são mesmo muezzins - e partilham a sua história de vida, as suas ambições, a sua dedicação e a sua aparente redenção. A história do quarto elemento surge apenas em vídeo porque, dizem-nos, ter-se-á desentendido com o resto do grupo. O primeiro sujeito é um professor de Alcorão, cego, que puxa as orelhas a quem não sabe aquilo de cor; o segundo é o filho de um agricultor, cuja função é aspirar a mesquita onde cabem 50 pessoas, chamar para a oração lá dos minaretes e volta e meia dirigir a dita oração; o terceiro é um electricista que depois de ter sido atropelado por um autocarro aprendeu o Corão e rendeu-se; o quarto, o tal do vídeo, é um advogado halterofilista que, seguindo as pisadas do pai, ganhou o segundo lugar no campeonato mundial de recitação do Alcorão.

A peça-documentário, comentava-se no fim, é interessante, porque é neutra. Até pode ser, mas ficámos com algumas dúvidas em relação a essa neutralidade, o que em nada desmerece o trabalho enquanto objecto artístico, que é, desse exclusivo ponto de vista, notável. A ideia do colectivo suíço não é, como facilmente se depreenderá, satisfazer a curiosidade do mundo ocidental explicando e mostrando os rituais da reza; é - pasme-se! -mostrar a preocupação, a indignação diante das novas tecnologias. Os muezzins estão atarantados com as tecnologias (?) chinesas que, em breve, farão com que o apelo para a oração dispense as pessoas, logo, os seus empregos.

Talvez tudo esteja realmente em Deus e Deus seja o mesmo para nós todos e não haja, como eles cantam, outro Deus senão Deus. Mas Deus, visto assim, é um lugar muito estranho.

quinta-feira, maio 27, 2010

Pulp Fiction

Percebeu, enfim, por que razão nunca o poderia ter tido: ele só existira na cabeça dela. Esgotada a imaginação, desapareceu a possibilidade.

quarta-feira, maio 26, 2010

Alberto Pimenta: Discurso sobre o filho-da-puta


“[…] Ao longo do DISCURSO percebemos a reincidência de certos recursos estilísticos, tais como a elipse, o polissíndeto, a anáfora, a palavra-puxa-palavra, etc., que só vêm reforçar a sua estrutura enquanto discurso obediente às regras da gramática e do beletrismo da literatura em língua portuguesa. Assim, mais do que a desintegração, acentuamos a prática subversiva de desfiguração do código, o que vai consolidar a sátira contundente a toda a herança cultural que pesa sobre os nossos ombros. […]” Do posfácio de Eduardo Kac à edição brasileira de 1983, ed. Codecri.
A Editora 7 Nós e a Gato Vadio convidam-no para o que der e vier.
Domingo, às 17horas.
Rua do Rosário, 281
Porto

Íntima Fracção


"Há músicas que são como casas, lares, refúgios,
locais de esperança,
de partida e de chegada.

Suspenso de um sonho, desde sempre, do mesmo, saí acreditando no amanhecer,
e regresso à mesma música para me proteger,
para acreditar que há ainda aquele pedaço de azul entre as núvens por onde possa voar.

Suspenso de um sonho.

Sempre."

Francisco Amaral, aqui.

segunda-feira, maio 24, 2010


Para se esconder do mundo, usava um chapéu preto de poeta chileno. E como os poetas chilenos, quando falava, quebrava-lhe o coração.

"Vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos" by Vera Mantero

Pela primeira vez na história do Alkantara, o Festival [de 21 de Maio a 9 de Junho] tem uma extensão ao Porto. Não é uma certeza, mas é uma suspeita quase definitiva: a proeza, aposto, deve-se a uma criatura chamada Hélder Sousa, fundador do Ao Cabo Teatro e antigo assessor do director artístico do Teatro Nacional S. João, Ricardo Pais, que desde 2008 divide a direcção da associação com Thomas Walgrave e Catarina Saraiva.

Para a abertura do Alkantara Festival no Porto, na passada sexta-feira, foi escolhido o espectáculo de Vera Mantero, "Vamos sentir falta de tudo aquilo de que não precisamos" [de 7 a 9 de Junho, em Lisboa], estreado em Essen e Montpellier durante o ano passado. O trabalho da coreógrafa & Guests é definido como "um jogo de associações, por vezes explícito, outras críptico, lúdico ou desconfortável, tangível ou volátil", que "despoleta várias questões, mas quase nenhuma resposta."

A definição, generosa, é muito mais ambiciosa do que o espectáculo. Mais ambiciosa do que o resultado, seguramente. Aos primeiros minutos percebemos a ideia, de resto, de encontro ao título: cada um dos quatro bailarinos (Vera Mantero, Prémio Gulbenkian Arte 2009, Christophe Ives, Marcela Levi e Miguel Pereira) entra em palco com um busto debaixo do braço ou noutro sítio qualquer, vasculhando no seu interior o que eventualmente terá deixado para trás ou colocado na beira do prato: a infância (em carrinhos e aviões de brincar), a fé (em crucifixos), as dependências (pó branco: cocaína?); a riqueza (tinta dourada: ouro?; tinta preta: petróleo?); as futilidades (recortes de revistas cor-de-rosa). Também há pérolas, rebuçados, máscaras, bandeiras, bonecas insufláveis, cera, fumo, tudo dentro de cada uma das cabeças. Está lançado o mote e exibida a sucessão de caminhos interrompidos para retomar, ou não, mais tarde. A ideia de partida é excelente.

No entanto, a partir daqui, é tudo redundante, demasiado redundante. Como se o trabalho narrativo tivesse ficado incompleto. Além disso, falta-lhe provocação, ingrediente essencial quando a ideia é falar da tralha toda que alojamos no cérebro. No fim, alguém lê um manual sobre como usar a cabeça. É o cúmulo do pleonasmo, porque nos trata a nós, público, como tontos. A mais dispensável das legendas para um espectáculo que é, com pena, óbvio demais.

domingo, maio 23, 2010

Sócrates, o bobo da corte


Sócrates parece um boneco de vudu avariado. Tentam, justa ou injustamente, espetar-lhe agulhas venenosas no corpo - projectos na Guarda, Freeport, Independente, TVI/PT, blá blá blá... - e o raio do boneco nunca se deixa sucumbir. Apontam-lhe as contradições, sublinham-lhe as incoerências, a arrogância, o mau feitio, as falhas, as mentiras parlamentares e eleitorais e o raio do boneco, se as eleições fossem hoje, voltaria a ganhar. Acusam-no de o país estar à beira do precipício, de nos ter hipotecado o futuro, de ter protelado as famigeradas medidas de austeridade, de andar a brincar aos PECs, de ter feito de conta que estava tudo bem quando estava tudo mal e a popularidade do boneco ainda aumenta 2,5% em relação a Abril.

Sócrates não morreu - ainda -, mas não falta quem tenha já envernizado os sapatos para o seu funeral. Contam-lhe os dias dentro e fora do partido. Perfilam-se, sequiosos, os sucessores. Nada de novo. O boneco não morreu, mas está doente. Não terá cura. E até ao fim nunca mais deixará de ser o bobo da corte, o palerma que, faça o que fizer, fará sempre rir os outros. Justa ou injustamente. Transformou-se num alvo fácil. E apesar de o mundo não ter, como ele disse, mudado apenas nos últimos 15 dias, embora o próprio Jean-Claude Trichet reconheça que as coisas se agravaram drasticamente na última quinta-feira, é fácil acusá-lo de quase tudo.

Claro que Sócrates está no Governo desde 2005 e as coisas estão mal, pelo menos desde 2000 (notabilíssimo e de leitura altamente recomendável o trabalho sobre a crise publicado hoje no Público); claro que Durão Barroso já em 2003 dizia que estávamos de tanga e no entanto pôs-se alegremente a andar; claro que toda a gente andou a viver à fartazana sem fazer contas à vida; claro que Portugal tem 600 mil desempregados, mas eu tive seis empregadas em cinco anos, quero substituir a última e não encontro uma única que queira trabalhar por seis euros/hora. Mas quem quer saber?! Quem quer fazer o mea culpa quando pode só ficar a apontar o dedo ao palhaço que nos governa?!

Mesmo assim, filtrando o exagero, o desespero e a partidarite, é possível aceitar o comboio de agulhas de vudu. O que já não é aceitável - fora da mesa de café, da redoma do facebook, twitter e afins -, o que não é definitivamente aceitável - ou é, mas não é sério - é que um semanário como o Expresso dedique uma página inteira (!!!!!) a corrigir o espanhol de José Sócrates no encontro que teve com empresários em Madrid na semana passada. Não é só inaceitável nem só ridículo - é o grau zero do jornalismo. Como dizia Eça de Queirós, o português, se tiver de escolher entre a forma e o conteúdo, vai sempre escolher a forma. Lamento que o Expresso não tenha dedicado também uma página a corrigir o alemão que Rui Rio usou no seu diálogo com o Papa. E espero que, a partir de agora, corrija todos os políticos quando trocam os V pelos B. Não é disto que se trata quando o semanário regista que o PM disse tiengo em vez de tengo? Habemos em vez hemos? E por aí fora...

Ainda a professora Bruna...

[Não, esta não é a Bruna...]

Terminado o campeonato, ainda por cima com o Papa a ofuscar a comemorações dos benfiquistas, e com um Mundial, que não entusiasma sequer os tolos, ainda a três semanas de distância, a professora Bruna de Mirandela fez mais pela líbido deste país do que faria uma nova declaração de Teixeira dos Santos a garantir que afinal não há aumento de impostos para ninguém. E isto, sendo e parecendo primário, dirá muito do que move o nosso pequeno portugalito.

Não foi sem enorme espanto que, ao abrir a imprensa deste fim-de-semana, percebi que abundavam ainda - o caso tem 15 dias - as crónicas, os comentários e os artigos sobre a mulher de 27 anos que decidiu, na plena posse das suas faculdades mentais e direitos individuais, despir-se para a Playboy e que, por causa disso, e de um país que insiste em não despir, ele próprio, a capa de hipocrisia que o mascara, perdeu o emprego de professora de música.

O assunto é picante(zinho), tem alguma piada, roça o surrealismo. E quem tem de escrever para os jornais com assiduidade, adora assuntos picante(zinhos), com alguma piada, que se prestem a dissertações capazes de competir, pelo recambolesco, com os episódios que os motivam. Nada contra. Ou quase nada. Mas quem escreve para os jornais, adora também uma coisa insuportável: exagerar a defesa, despenhando-se numa tremenda falsidade. Porque não é defesa; é uma espécie de entretenimento.

Que defendam a Bruna, parece-me muito bem. Que falem do assunto até que alguém, que não ela, core de vergonha, parece-me ainda melhor. O que já me parece muito, muito mal, é que na mesma cidade transmontana, na mesma Mirandela, tenha há menos de dois meses morrido uma criança, porque saiu da escola em pleno período de aulas, e que isso não tenha entusiasmado ninguém. A criança morreu afogada no rio depois de ter sido espancada pelos colegas, a escola lavou as mãos das responsabilidade e o culpado, sem surpresa, - ah, o nosso Portugalito! - foi o porteiro. Pena que este assunto não tenha entusiasmado quem escreve e que tenha morrido tão depressa. Uma criança morta é bem mais grave do que uma criança que vê o que seguramente já tinha visto antes: um par de mamas.

Imprensa a criar excêntricos todos os fins-de-semana

"A mentira é muito feia, mas, infelizmente muito praticada por muito boa gente e não sei se é mais comum na política ou nos políticos do que no resto. Mas não tenho dúvidas de que os políticos mentem e que, muitas vezes, a gente assobia para o ar e finge que não é importante ou que não demos por nada. Para não ir mais longe, basta recuar um ano e recordar a mentira planeada e subjacente àquela espantosa história da conspiração montada em Belém, com a conivência de um jornal, e com a qual se quis convencer o país de que o Governo escutava as conversas da Presidência da República. Ninguém ficou com dúvidas de que toda a história fora fabricada e plantada para ter efeitos políticos em período pré-eleitoral. E o que sucedeu? O Governo optou por não explorar a história em seu proveito, o regime todo aceitou um pacto tácito de silêncio, o Presidente cumpriu um período de nojo determinado pela evolução das sondagens e quem acabou ainda no banco dos réus foi o Diário de Notícias - acusado de ter revelado um documento interno do Público, que expunha toda a trama, sem pudor."
Miguel Sousa Tavares, Expresso

"Quem revelou fraqueza ao longo dos últimos meses? Não foi o BCE, certamente. Os governos, com o seu alto nível de endividamento, foram fracos. Terei eu sido fraco quando expliquei a todos os chefes de Estado do grupo parlamentar do Bundestag por que razão era importante decidir rapidamente? Ou quando informei os chefes de Estado, com toda a independência, de que a situação era séria e que eles tinham de estar à altura dasresponsabilidades?"
Jean Claude Trichet, I (Der Spiegel)

"Veja o estado a que chegámos, a crise grave que estamos a viver. Os partidos são essenciais para a democracia, mas os seus responsáveis não têm uma cultura de exigência, vivem no desembaraço e chico-espertismo. Padecem de duas grandes doenças nacionais: a maledicência e a inveja. (...) Tenho uma experiência do mundo que nenhum outro candidato tem. Se estão satisfeitos com a política, deixem-se estar. Se querem mudar, têm agora uma possibilidade."
Fernando Nobre, Público

"Joaquim é taxista, e a sua filosofia de vida é tão coerente e concisa que consegue explicá-la numa corrida de Odivelas ao Saldanha. Na sua hierarquia de valores, figuram em primeiro lugar os Xutos & Pontapés. Tatuagens, autocolantes e medalhas mostram o tempo que ele dedica a maior parte do tempo a esta paixão. Depois vem a vida amorosa. É um capítulo bem mai complicado e Joaquim resolveu regulamentá-lo de forma inteligente. Aprendeu com a crise. «Isto agora, nos empregos e nas relações, eu adopto o mesmo sistema», explica. «Contratos a prazo. Já não há empregos para toda a vida, pois não? Pois com os amores é o mesmo. Faço sempre assim: primeiro, 15 dias à experiência. Se resultar, partimos para um contrato de seis meses. No fim, reavaliamos a situação. Se houver acordo de ambas as partes, assinamos novo contrato de seis meses.» (...) «Depois, se quisermos continuar», diz Joaquim um tanto pesaroso, «somos obrigados fazer um contrato de dois anos, o que já é uma grande aposta.» (...) Mas o que acontece se um dos amantes se fartar subitamente do outro? Terá de esperar pelo fim do contrato?, pergunto. «Não. Qualquer um dos contratantes tem direito a rescindir antes do termo. Mas nesse caso tem de avisar com um mês de antecedência. Tal como num trabalho, é sempre preciso dar um mês à empresa, também aqui é necessário dar um mês ao outro, para ele se mentalizar.»
Paulo Moura, Pública

"Seguro parece um bom rapaz e muito trabalhador. Deixo-o reformar o Parlamento, ouvir Céline Dion e escrever isso no facebook. Não o deixo governar-me com o meu voto. Entre a velha geração de Mário Soares e esta, a nona, vai uma distância que, seguramente, não descerei."
Clara Ferreira Alves, Única
"I believe that everything happens for a reason. People change so that you can learn to let go, things go wrong so that you appreciate them when they're right, you believe lies so you eventually learn to trust no one but yourself, and sometimes good things fall apart so better things can fall together."
Marilyn Monroe

domingo, maio 16, 2010

"32, rue Vandenbranden" by Peeping Tom

Estão no cimo da montanha como se estivessem no céu, no lugar que existirá para lá do céu. Ouve-se "O pássaro de fogo", de Stravinsky, e o choro de um bebé enterrado no chão. E uma ventania a fazer tremer as janelas, a fazer dançar as cortinas, capaz de fazer voar corpos. A fragilidade de tudo quanto existe, ali materializada em duas caravanas. Chove. Neva. 32, rue Vandenbranden, do colectivo belga Peeping Tom, é uma tempestade sem arco-íris. Uma tempestade interior. Tudo o que acontece, acontece mais dentro da cabeça deles (da nossa?) do que fora. Ou, pelo menos, nós não conseguimos decifrar o que é real ou imaginário. Ou conseguimos, mas não queremos. E essa é a ideia da dupla de coreógrafos fundadores da companhia, Gabriela Carrizo e Franck Chartier: em certo sentido, o fim é sempre escolhido por nós. Por isso é que qualquer palavra é a mais e ao mesmo tempo a menos para descrever o mais recente trabalho dos Peeping Tom. A companhia está pela segunda vez em Portugal; o trabalho foi ontem apresentado no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. 32, rue Vandenbranden está muito para lá do que será o céu.

Inspirado no filme do japonês Shohei Imamura, A Balada de Narayama (1983), 32, rue Vandenbranden não é bem a história das pessoas que, quando envelhecem, cumprindo a mais cruel das tradições, vão para o topo da montanha morrer sozinhas. Mas é a história de uma comunidade que, como se já tivesse nascido velha, com a solidão dos velhos, as inquietações dos velhos, a prisão dos velhos, o desprezo a que os velhos são votados, confronta-se individualmente com os seus medos, com os seus desejos, os seus sonhos - e com a consequência disso. Em certo sentido, também é a escolha entre viver ou morrer.

Carrizo e Chartier dizem que a coreografia começa sempre pela cenografia. E é fácil perceber porquê. Depois, os bailarinos. Para este projecto, contrataram cinco novos, três dos quais durante as audições em Bruxelas: a belíssima holandesa Sabine Molenaar (não tentem fazer aquilo em casa!!!!), a belga Marie Gyselbrecht e o inglês Jos Baker. Durante a audição no Impulstanz Festival, em Viena, conheceram os sul-coreanos Seoljin Kim e Hun-Mok Jung. A meio-soprano flamenga, Eurudike De Beul, que faz parte dos Peeping Tom desde o início, também participa. O momento em que canta Casta Diva de Bellini é só um dos muitos momentos daqueles 90 minutos em que um arrepio nos atravessa a espinha.

Finalmente, a actriz-bailarina Maria Otal, 83 anos, que morreu dez dias antes da estreia. Os Peeping Tom dedicam-lhe o espectáculo. E um altar na neve. Ela está ali. Sim, é coisa para doer, para chorar. E é coisa para nunca mais se esquecer na vida. Grande, grande, grande!

PS.: E é sempre bom voltar a Guimarães, belíssima cidade onde é Natal todo o ano. Mesmo.

sábado, maio 15, 2010

Swanlights by Antony and the Johnsons


O novo álbum de Antony and the Johnsons, Swanlights, sai no dia 4 de Outubro e traz um livro de 144 páginas com pinturas, colagens, fotografias e textos de Antony Hegarty!!! Outubro em contagem decrescente!!! Esperamos que seja melhor do que "The Crying Light", que está cheio de boas intenções ambientais, mas a milhas do álbum homónimo de 1998 e sobretudo de "I am a bird now" (2005), de três concertos absolutamente inesquecíveis.

Imprensa a criar excêntricos todos os fins-de-semana

“Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presença de Igreja no mundo.”
Papa Bento XVI, ontem, nos Aliados, no Porto

“No final da visita de Bento XVI, não há como negá-lo: a fé católica está viva e bem viva na população portuguesa. Pode não se querer ver, atribuir ao media, ridicularizar, rebaixar, lastimar, mas não se pode negar que o que se passou aqui, durante os quatro dias de visita papal, foi um impressionante testemunho de fé. Não apenas por parte do velhos, dos pobres, dos desesperados: a presença do papa desencadeou o que muitos mais escondem ou guardam para si: “Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais de fé”, pediu o papa. Creio que foi ouvido.”
Esther Mucnik, Público

“O que é extraordinário é a facilidade com que os dois principais líderes partidários portugueses mudam de discurso e defendem medidas opostas de um dia para o outro sem pestanejar, nem explicar sequer. Adoptando uma espécie de Bloco Central, não oficial mas apenas oficioso, os líderes do PS e do PSD, José Sócrates e Pedro Passos Coelho, acertaram entre si a forma como o Governo chefiado pelo primeiro concretizará as imposições europeias sobre como baixar o défice em Portugal. E com o maior à vontade deitaram para o balde do lixo aquilo que até à semana passada afirmavam como convicções políticas profundas."
São José Almeida, Público

“É possível fazer toda uma antologia de epítetos, bem datados, sobre a ferocidade e a irresponsabilidade das reacções a quem prevenia do caminho suicidário para que o Governo caminhava e que acabou num país que não tem outro remédio senão fazer o que lhe pedem, sem cuidar de outra coisa que não sejam os resultados a muito curto prazo. O que ainda restava da nossa soberania foi-se porque os vícios nos fragilizaram tanto que tiveram de nos pôr na ordem. E, por muito que se queira meter mais gente no mesmo saco, José Sócrates foi o primeiro responsável por nos entregar a outrem, o nosso destino de servidão.”
Pacheco Pereira, Público

“Para efeitos práticos, José Sócrates não existe. Ainda não lhe disseram que já deixou de governar. Está em S. Bento como estaria uma planta, à espera do momento próprio de ser removido. É uma espécie de delegado regional da Europa ou, se preferirem, um moço de recados, com um emprego temporário e, ainda por cima, vexatório.”
Vasco Pulido Valente, Público

“Não temos eleições de imediato porque Passos Coelho é calculista e inteligente a programar: José Sócrates que se queime na fogueira económica que andou a atear; que se desgaste na recuperação do país; que perca com ou sem Alegre contra cavaco; que enfrente o inevitável descontentamento interno no PS, no qual algumas vozes não tardarão a ouvir-se. Só o estado de coma da economia portuguesa pode fazer com que esta legislatura chegue ao fim. Mas, visto á luz do que se percebe hoje, só mesmo um milagre poderá evitar que José Sócrates não saia de cena mal os eleitores sejam de novo chamados a pronunciar-se."
João Marcelino, DN

"Por estes dias, José Sócrates cumpre o seu calvário. Lançou dinheiro a rodos sobre a crise para a tentar minimizar. O défice disparou, mas esperava ter quatro anos para conduzir lentamente o barco a porto seguro. A crise grega estragou-lhe os planos. Justa ou injustamente, os mercados puseram-nos na lista logo a seguir à Grécia. (...) O pacotaço de merdidas fiscais que o Governo colocou esta semana em cima da mesa não é uma convicção. É uma obrigação, cumprida com uma pistola apontada ao peito."
Nicolau Santos, Expresso

"Há, em Portugal, um primeiro-ministro em funções. Esqueçam. Chama-se José Sócrates, mas já não é o mesmo. O animal feroz deu lugar a um animal acossado, a arrogância foi substituída pela fraqueza, a estratégia (se é que alguma vez a teve) pela táctica. Uma táctica de sobrevivência a todo o custo, que justifica dizer hoje exactamente o contrário do que afirmou ontem. Há agora um primeiro-ministro eleito e um primeiro-ministro-sombra. O primeiro, José Sócrates, encosta-se ao segundo para fazer o inevitável. O segundo, Passos Coelho, aproveita a oportunidade para se afirmar como alternativa, preparando a sucessão."
Luís Marques, Expresso

"Tornar a educação sexual obrigatória resume-se a dizer: forniquem à vontade, divirtam-se, façam o que quiserem, mas com higiene."
D. Duarte, em entrevista à NS

sexta-feira, maio 14, 2010

Santa hipocrisia!...



Em Lisboa, Bruna Real não passaria de mais uma Carla Matadinho, seria talvez agenciada por uma Fátima Lopes e recrutada para uma qualquer palermice televisiva. No interior do país, em Mirandela, é uma puta. E o mesmo portugalito que pagaria para beijar o chão por onde uma passa, encarregar-se-á rapidamente de condenar a outra.

Bruna Real, professora do primeiro ciclo do ensino básico em Trás-os-Montes, ocupa oito páginas na Playboy deste mês. É a protagonista de uma produção ousada, a que a revista chamou "Le Salon", aparentemente inspirada nos salões de cabeleireiro dos anos 70, contracenando nua com outra mulher. A população, claro, comentou. Os alunos trocaram fotos como cromos. A escola não gostou e ameaça dispensar a docente.

Os vizinhos da professora descrevem-na “como uma mulher bonita”, que “gosta de dar nas vistas”, que “não sai de casa com qualquer trapinho”, nem mesmo quando “está só a cortar a relva do jardim de casa dos pais”, onde vive. Garantem que “ela não dá muita confiança a ninguém”, mas parecem saber o suficiente da vida dela: ainda não fez 25 anos; em 2006 participou no reality show da TVI “Pedro, o milionário”, que consistia em seduzir um milionário para depois casar com ele; e, no ano passado, terá feito um implante mamário. Queixa-se, dizem, de que todos os homens a acham bonita, mas que nenhum aceita uma relação séria. Ela quererá ser famosa. Ou, pelo menos, conhecida. É o que dizem.

Por causa dela, há três semanas, a Playboy esgotou em Mirandela, tanto em Golfeiras, freguesia onde vive, como em Torre de Dona Chama, freguesia onde é responsável pelas Actividades Extra-Curriculares (AEC) da escola. A avó, diz o povo, terá sofrido um grande desgosto. As “pessoas mais velhas disseram mal”. Os alunos fotografaram a revista com o telemóvel e durante dois ou três dias entretiveram-se a trocar imagens. Também houve quem tivesse visto a produção em fotocópias. “Depois, o assunto morreu”, desvalorizou um homem que frequenta o café mais próximo da escola.

Qualquer revista mensal vai para as bancas nos últimos dias do mês anterior. A Playboy de Maio estará, portanto, à venda há quase três semanas. Não aconteceu nada. E nada aconteceria se a escola não fosse questionada por jornalistas. Assim, confrontada, sentiu necessidade de se ofender. E de sublinhar que já tratou de assegurar o despedimento da mulher, porque a sua conduta "é nociva para a comunidade escolar". E atrás do director da escola virão seguramente os pais, os mesmos que provavelmente pousam os filhos durante um dia inteiro em frente à televisão e ao computador. A santa hipocrisia grassa neste país.

quarta-feira, maio 12, 2010

El Papa, un chaval ante Manoel de Oliveira...*


*Título do El Mundo, que nenhum jornal português ousaria

La belle persone



Obrigatório. Para quem se apaixonou em "Dans Paris". Para quem se deixou arrebatar em "Les chansons d'amour". Para quem quase enlouqueceu em "La frontière de Laube" (que não é de Christophe Honoré, mas podia muito bem ser, e mantém o plus de Louis Garrel), eis "La belle personne", adaptação livre do romance La Princesse de Clèves, de Madame de La Fayette, escrito no século XVII. Para nos apaixonarmos e arrebatarmos e enlouquecermos, tudo ao mesmo tempo. Claro que a crítica, sem surpresa, escreveu, quando o filme estreou, tratar-se de uma receita blasé, coisa aborrecida que serve apenas para exercitar a obsessão de Honoré: a durabilidade do amor. Seja. É lindo!

terça-feira, maio 11, 2010

O início de fim da Esquerda na Europa....


Walter Oppnheimer, hoje, no El País

Gordon Brown tiene todas las cualidades de un gran político: intelecto, pasión, ideales, determinación, una capacidad de trabajo fuera de lo común... Pero nunca le ha acompañado el carácter. No por sus aireados malos humores, sino por una falta de confianza en sí mismo que le hace dudar de todo y de todos, y que le ha llevado a convertir en una obsesión personal sus aspiraciones de ser primer ministro. Lo consiguió a última hora, pero no como él hubiera querido: llegó a Downing Street cuando los laboristas sufrían ya el desgaste del poder y pasará a la historia por ser uno de los pocos primeros ministros británicos que nunca ganó unas elecciones.

Con Tony Blair formó una pareja imparable que creó el Nuevo Laborismo y convirtió al partido en una máquina de ganar elecciones. Pero nunca se conformó con el papel de comparsa y el matrimonio duró poco, aunque el divorcio formal tardaría en llegar. Durante 10 años, Brown se dedicó a poner palos en las ruedas de su rival, y este le respondió socavando su imagen y dando a conocer, siempre por debajo de la mesa, las debilidades de su carácter.

Esas debilidades, que le llevan a ser incapaz de tomar decisiones sobre la marcha y acentúan sus manías de controlador, acabarían por cavar su tumba a los pocos meses de conseguir su anhelado deseo de ser primer ministro. Llegó al número 10 de Downing Street en junio de 2007 y empezó a vivir una inaudita luna de miel con la opinión pública y, aún más sorprendente, con los medios. Su gestión durante los intentos de atentado en Londres y en Glasgow, las inundaciones del suroeste de Inglaterra y una epidemia de fiebre aftosa disparó sus niveles de popularidad y las expectativas de voto de los laboristas.

La posibilidad de anticipar las elecciones y asegurar su propio mandato de cinco años le nubló la vista política. Y sus eternas dudas ante las grandes decisiones, las mismas que durante 10 años le habían impedido darle a Blair el golpe de gracia, le empujaron a última hora a dar marcha atrás en cuanto los tories presentaron una oferta fiscal que hizo cambiar la tendencia de los sondeos.

Los laboristas empezaron entonces un constante declive en los sondeos y Brown se hundió aún más que el partido. Ya nunca se recuperaría. Vivió una frágil oleada de optimismo por su actuación decidida —sí, decidida por una vez— durante la crisis financiera. Pero ya había traspasado el punto de no retorno.

Gordon Brown no será recordado por su gestión al frente del Gobierno, pero quizás sí por su gestión al frente del Tesoro. Pero incluso ese legado es puesto ahora en cuestión, a medida que se le hace a él responsable de algunas decisiones que a la larga han agravado el impacto en Reino Unido de la crisis financiera.

En 1997, nada más llegar los laboristas al poder, Brown tomó dos decisiones clave: impidió la entrada de la libra en el euro y consagró la independencia del Banco de Inglaterra. Muchos críticos creen que Brown se opuso a entrar en el euro para fastidiar a Blair, que sí era partidario de la integración. Pero estos días, a la vista de la crisis de la divisa europea, hasta los europeístas británicos empiezan a creer que fue un acierto mantener la independencia monetaria.

Más discutida ha sido su decisión de transferir los poderes de control del Banco de Inglaterra a la FSA, la autoridad reguladora de la City. Los conservadores creen que está en el origen de los problemas que han sufrido los bancos durante la crisis. La propia crisis genera debate sobre la responsabilidad que ha podido tener Brown. Muchos le echan en cara la laxitud del marco regulador, pero él se defiende con el argumento de que ha abogado por endurecer esa regulación desde 1997, pero que eso sólo se podía hacer a nivel global y que nadie le hizo caso en su momento.

Sea cual sea su parte de responsabilidad, sólo los más cicateros le han negado un papel clave en la gestión del cataclismo financiero global. Primero, nacionalizando el primer banco británico afectado, Northern Rock. Y, segundo, inyectando capital público en la banca, una solución luego imitada por muchos otros países.

Brown presumió durante años del alto crecimiento sin inflación de la economía británica, pero ahora ha de correr con la responsabilidad de dejar al país al borde de la bancarrota con una deuda gigantesca. Gran parte de esa deuda se debe a la inyección de capital en servicios públicos, pero se le reprocha haber torpedeado las reformas que quería implementar Blair para mejorar su eficacia. Siempre, la sombra de Blair.

Repeat and repeat and repeat....

segunda-feira, maio 10, 2010

Shut down or save my life tonight



Take me in your hands and please me

To find out we have nothing to say

Don’t know the meaning, the shade of blue of a sad song

How to go back to be running again

Like angels in a crossfire

Waiting for a new play

Like candy in a love fight

Melting on a sweet day

Shut down or save my life tonight

On the line in love with the Lion’s den

Sugar heat of a pearly white snow girl

I need ice, no more honey to drain

Oh, take me as you blow

Oh, ice into the snow

[Finalmente, SNOW GIRL by BLIND ZERO]

domingo, maio 09, 2010

O que pode correr mal se um dia ficares feliz?



Qual é a probabilidade de em quase cem músicas da última década tropeçarmos numa que um dia nos arrancou do peito o coração à dentada? Que nos obrigava a concentrarmo-nos no chão para não chorar? Qual é a probabilidade de ela voltar, impiedosa, numa audição inesperada, a importar da memória aquela dor, aquela aparente ausência de Deus?

A agulha na aparelhagem onde já choraram tantos vinis, horas seguidas, a escarafunchar todos os amores perdidos. Bob Dylan, com "sangue nos olhos", a perguntar: "Entendes a minha dor? Estás disposta a arriscar o amor em vão?". Elvis Costello a protestar: "Deixaste-me sozinho no escuro, apesar de eu achar que nunca iríamos separar-nos". Jeff Buckley a despedir-se: "Este é o nosso último adeus. Odeio sentir que o nosso amor morreu. Mas morreu". E Marvin Gaye e os Chash e os Cure e os Smiths...

Hoje, ao tropeçar numa dessas canções, lembrei-me de "A vida cheia de som & fúria", adaptação de Alta Fidelidade, de Nick Hornby, encenada por Filipe Hirsh, da Subtil Companhia de Teatro de Curitiba, apresentada no Teatro Nacional S. João, no Porto, em Maio de 2004. "Som & Fúria" era um patchwork sonoro a dizer que a angústia não acaba quando se entra na idade adulta. Porque não há manuais para aprender a perder alguém. Porque não há poesia sem angústia.

"No momento em que olhei para o relógio percebi que, a partir daquele momento, a minha vida dividir-se-ia entre o antes e o depois do momento em que ela me deixou", confessava, na peça, o DJ Rob Fleming (numa mais do que perfeita interpretação de Guilherme Weber), abandonado pelo menos seis vezes. Alison, Penny, Jacky, Charlie e Sarah. As mulheres que lhe haviam destruído a vida. E Laura, que insistia em ir... e voltar. "Estou demasiado cansada para te deixar", explicou numa das vezes em que voltou. E o regresso sabia a desistência. Dela? Do amor? Não se percebia. Entrava então Costello a perguntar: O que pode correr mal se um dia ficares feliz?

Do melhor teatro contemporâneo do Brasil, dos tempos em que o Porto fazia parte desse roteiro, Filipe Hirsh transformou uma peça sobre "a geração das 501 e das DcMarteens" num concerto de bar clandestino. Com droga, sexo e suicídios. "As pessoas preocupam-se com a influência que os filmes violentos e as séries de televisão têm nas crianças, mas ninguém se preocupa com a juventude que passa o tempo todo a ouvir músicas tristes." Diz quem sabe. Rob Fleming.

sábado, maio 08, 2010

We don't bleed when we don't fight

A melhor banda do mundo*



"Os fãs dos National são parecidos com os National: gente da classe média, média alta, angustiada com as suas banalidades, fechada sobre a sua cabeça, gente tímida capaz de irrupções psicóticas ou de manifestações de exibicionismo ou decadência a milhas do seu comportamento normal. Frígidos emocionais capazes de um grande coração. Não há como não gostar deles.

(...) Todos os discos dos National são uma variação ad infinitum sobre aquilo a que poderíamos chamar os indiferenciados: gente que se destaca pela sua absoluta falta de destaque, gente que não hesita em hesitar, que caminha passo firme para o tropeção, gente desconfortável com a sua temperatura, que não suporta o pouco peso que tem na vida dos outros.

(...) O discurso dos National é o da dúvida incessante, da culpa e do horror à culpa, do questionamento constante da ideia de identidade, do desdobramento constante das encruzilhadas que se apresentam ao ser humano. Eles não fazem as meninas tirar as cuecas e os meninos tomar drogas. Eles fazem as mulheres divorciar-se e os homens irem à farmácia buscar medicamentos. Pela simples razão de nunca ninguém no rock ter pensado tanto e de forma tão apelativa como Matt Berninger.

Os National são assunto de gente grande. É a diferença entre um tipo sentir-se um super-homem porque toma a droga X, ou aguentar as angústias e calar porque tem crianças para tratar. E isso sim, é perigoso, e agora sim, há perigo numa guitarra eléctrica."

[Título e excerto das seis páginas escritas por João Bonifácio, genial como sempre, ontem, no Ípsilon.]

sexta-feira, maio 07, 2010

Primeiro aniversário do I

[Primeira capa do I]
O dia em que o I nasceu soube-me assim. Desdenhei. Não parecia dispensar-me da compra de outros jornais. O dia em que o I celebrou 100 dias soube-me assim. A história de amor. A fidelidade. O dia em que o I celebra um ano sabe-me a fim de festa. Já fomos muito felizes juntos. Muito mesmo. Mas sem Martim Avillez e sem dinheiro, com uma administração que não sabe se quer o jornal ou se o irá vender, com as óbvias repercussões que isso tem na equipa e no produto final, dificilmente voltará a haver prémios. Suponho que o I viva bem sem prémios, nós é que viveremos pior se o jornal desaparecer.

Filipa Melo: Este é o meu corpo


Poderá um médico legista apaixonar-se pelo dono de um corpo que lentamente vai desmontando para lhe amputar os segredos? Pela pele que descola como se fosse um coelho, pelos órgãos que corta às rodelas como laranjas, pelos negros e longos fios de cabelo que vai minuciosamente colocando no interior de um saco?

Está longe de ser um romance mórbido aquele que marcou, em 2001, a incursão de Filipa Melo pelo romance; mas é um livro que sangra a meio caminho entre a vida e a morte. E sangra porque a história é segura. Desfia os sentimentos provocados pelas várias formas de morrer, sendo que o corpo acaba invariavelmente numa sala de autópsias para a confissão final do defunto, a inescapável e muda confissão, enquanto alguém aprende a viver sem o dono desse corpo. Porque a escrita é absolutamente virtuosa. Aqui e ali emergem descrições tão detalhadas que sugerem imagens rigorosas do interior do corpo humano - sendo científicas, não perdem a intensidade que lhes confere humanidade: o coração do tamanho de um pulso, o cérebro da mulher mais pesado que o do homem... E porque a discreta estrutura que o suporta continua, apesar de tudo, a ser singular.

A história podia ler-se alternadamente - primeiro os capítulos ímpar, depois os par -, porque a escritora introduziu compassos temporais perfeitos: a vida de um lado; a morte do outro. A vida. O neto de António Cernelha dos Santos que acaba de nascer ("O ar a entrar nos pulmões e a vida já a explodir de lá de dentro envolta em golgadas de sangue e muco"); a trivialidade do quotidiano de cada um ("Há muito que aprendo que é em pequenos gestos repartidos por cada dia que permanecemos inteiros, que evitamos desfazer-nos em pedaços."). A morte. A aprendizagem da ausência das pessoas que amámos e que não voltaremos a ver senão em conversas e deambulações interiores. "Todas as mortes são violentas. Sobretudo para os que cá ficam". O rapto dos recados dos mortos num instituto de medicina legal. "Seguro-te nas minhas mãos. Tudo o que foste está aqui. Todos os risos, todas as dores, todos os gestos."

Há cheiros neste livro. É possível senti-los. Tal como a estranheza peganhenta do pacto de lealdade entre um médico e uma defunta. Um confessa-se com palavras; o outro com o corpo. "Serei eu, um homem que não escolheste, quem melhor te conhece por dentro. Sinto-me como um amante desejoso de fazer promessas. Quero dizer-te que respeitarei o que não quiseres contar-me..." É uma espécie de pingue-pongue entre os infortúnios da vida e os desígnios da morte. Sendo que ambos se abraçam. No fim. "Uma autópsia é como um nascimento: nunca se repete."

Filipa Melo nunca mais publicou nada. E eu queria tanto, mas tanto que ela voltasse aqui.

quinta-feira, maio 06, 2010

Local Geographic by Rui Horta

[As lágrimas de Saladino]

É uma metáfora sobre a perda. E, ao mesmo tempo, uma grande homenagem ao Alentejo. Àquela paisagem e àquelas pessoas. É Rui Horta quem o diz. Sobre Local Geographic, a coreografia que completa a trilogia que criou para o Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Estreia marcada para a próxima terça-feira, dia 11.

A peça, explica, "é uma reflexão sobre a identidade, o estudo de uma geografia pessoal que usa o corpo como ferramenta de descoberta do mundo. É uma obra sobre a importância de nos perdermos. De fazermos da perda um método, sobretudo quando a experiência de vida tende a tornar-se um peso que nos leva a não arriscar. Aqui, a perda é usada como método. Porque a melhor maneira de nos encontrarmos é perdendo-nos. É um discurso sobre a busca da identidade na fronteira da ironia."

Local Geographic completa um ciclo iniciado em Outubro de 2009 com "Talk Show", descrito como um road movie do corpo, o que sobra quando o tempo passa e ele desaparece e, já este ano, com "As Lágrimas de Saladino", sobre a ética e a compaixão do uso do poder. No trabalho de Rui Horta as coreografias são sempre sobre a inquietação.
Local Geographic
Na sala de ensaio do CCB, Lisboa, de 11 a 16 de Maio
Coreografia, direcção, conceito visual e luzes: Rui Horta; Interpretação: Anton Skrypiciel; Compositor: Tiago Cerqueira; actor e encenador: Tiago Rodrigues; designer de multimédia: Guilherme Martins

terça-feira, maio 04, 2010

Inês de Medeiros apeada

O problema não é Inês de Medeiros ter aceitado o convite para ser deputada em Portugal, residindo em Paris. Primeiro, sem saber se teria direito às deslocações; depois, dizendo que aceitaria qualquer que fosse a resposta do Parlamento à sua solicitação de esclarecimento; recentemente, aceitando o subsídio, que parecia ser claramente um regime de excepção; e finalmente, abdicando afinal do direito ao subsídio, custeando a própria as despesas de viagem.

O problema não é se a referida despesa representa uma migalha ou uma montanha no orçamento do Parlamento. Seriam cerca de cinco mil euros mensais. Representa pouco no bolo, como se sabe, e há viagens outras (e fossem só as viagens...), de todos os deputados de todos os partidos que, se conhecidas fossem, suscitariam choque muito maior no povo - e um rombo mais significativo no bolso do Parlamento.

O problema, no limite, nem é a actriz, agora deputada e vice-presidente da bancada socialista, ter aceite exercer o seu direito de cidadania neste país, tendo escolhido outro para viver, o que não deixa de ser vagamente esquizofrénico, mas tudo bem. O problema não é sequer não se perceber ao certo qual é a mais-valia que ela traz consigo. Não pode ser a bagagem cultural, que o PS tem passado alegremente ao lado da cultura. Nem o seu glorioso passado político, que a estreia ao lado de Vital Moreira nas europeias não é de boa memória. Mas o que a traz ou o que acrescenta é indiferente num país cuja radiografia ao cérebro dos deputados deixar-nos-ia a todos deprimidos e a ela, por comparação, provavelmente muito bem cotada.

O problema não é Inês de Medeiros. Não é Inês de Medeiros que, ainda por cima, ao abdicar do dinheiro sai razoavelmente bem da história. Ou tão bem quanto é possível sair no varrer dos cacos. Daqui a um ano já ninguém se lembra e quem se lembrar não a poderá acusar de ter sido beneficiada.

O problema, claro, é o Partido Socialista! O que o PS fez foi o equivalente a comprar casa sem saber que a partir de determinado montante, teria de pagar IMI a vida toda. Sem isenção nos primeiros anos, sem isenção depois da eventual hipoteca paga. Sem regime de excepção que lhe valha. Comprar casa sem saber se poderia suportar o IMI. O que o PS fez foi dar o pior dos exemplos num país onde o cliché da mulher de César - não basta ser sério; é preciso parecer sério - tem aplicação científica. E a defesa da dama, em textos publicados no Público - Francisco Assis há dois ou três dias e Vital Moreira hoje -, só veio piorar o cenário. Porque não há desculpa possível para um episódio destes, mesmo que ele se preste a aproveitamento barato por parte da oposição. Como se explica a um eleitorado pobre e desempregado que cinco mil euros é uma ninharia?

Pior do que tudo, ainda ninguém disse se é o PS que vai custear as despesas de Inês de Medeiros. Provavelmente é. E o que o partido faz ao dinheiro é lá com ele. Mas não seria mais decente se o dissesse já?!

domingo, maio 02, 2010

Mar é roleta russa


O mar é uma roleta russa, um jogo de azar, espécie de suicídio encomendado. É colocar uma só bala no tambor de uma arma de seis tiros, fechar o tambor, girá-lo até perder a localização da bala, apontar a arma à cabeça e depois disparar. É uma hipótese em seis de morrer. Parece pouco; é muito. Em Portugal, desde Janeiro, já morreram 13 pescadores – é uma morte a cada duas semanas.

A vida dos homens do mar é essa incerteza ditada pela roleta: às vezes morrem; às vezes sobrevivem. Cada faina é uma rodada nesse jogo que a lenda enaltece como exemplo de bravura e coragem. Pescar todos os dias durante uma vida inteira, torneando o mar e o medo, é justamente isso: bravo e corajoso. Mas sobreviver, contra tantas evidências em sentido contrário, será um mistério muito maior.

Assistir a esse exemplo de perto, dentro de uma embarcação, não é experiência que deixe a salivar pela repetição. Mas foi essa viagem que testemunhámos uma semana antes do acidente que na última quinta-feira voltou a roubar a vida a dois pescadores das Caxinas. O barco, menos de dez metros, que habitualmente leva dois homens, alojou cinco: dois pescadores, dois repórteres e o mestre José Festas, presidente da Associação para a Segurança dos Homens do Mar. “Anjo da guarda nos guie”, o nome do barco de madeira. A motor.

Perto da meia-noite, a noite era de trovoada. Supunha a ignorância o cancelamento da pesca. Cinco horas depois, ainda noite cerrada, na zona piscatória da Apúlia, em Esposende, Júlio Ferreira, o mestre, e António Marques, o tripulante, riam da hipótese aventada. “Não deixamos de ir para o mar só porque o mar está mau”, dizia um, os dois num vaivém constante: preparar baldes, cestos, sacos, oleados, ferramentas, cordas, colocar tudo no “anjo” é tarefa que leva tempo. Para eles, o dia começa às três, quatro horas da madrugada.

Às cinco, a tempestade já passou. Mas a saída ainda parece perigosa. Para inexperientes. Atravessar às escuras a zona da praia, onde rebentam as ondas, pode impressionar. Todos, menos os pescadores, habituados a equilibrarem-se em mar alto como em terra firme. “Quando o mar está bravo é preciso esperar pelo dia para ver melhor. Mas hoje o mar está bom, não vai custar nada. A chegada, vão ver, é mais brusca do que a partida”, avisa António, 40 anos de idade, 30 de mar. “Quem nasce no mar está sempre à vontade, é como se estivesse em terra”.

Palavra de pescador é palavra de escuteiro. A pouco mais de uma milha da costa, Júlio, homem de poucas palavras, um gigante de quase dois metros, idade de Cristo e 22 de mar, desliga o motor da embarcação. Silêncio absoluto. Confirma-se: mar manso, sem nervos, a exalar o cheiro imaginado a algas, a sal, a peixe. Mar de um azul escuro de onde só sobressaem, ao longe, as luzes de outros barcos. Passa pouco das seis horas. Frio ameno, suportável.

Para estreantes, ergue-se outro desafio: não enjoar naquela dança lenta das águas. E esperar que o truque de fixar um ponto no vazio funcione como bálsamo. Truque que os pescadores não podem usar, porque não têm tempo para se entregar à contemplação. Mal o barco estaciona naquele infinito sem chão, o barco já com dois dedos de água dentro, os homens inauguram um frenético exercício de braços sem nunca parar para descansar: colocar ferros na embarcação, lançar cordas, puxar cordas, prender cordas, abrir cestas (chamam-lhe mijonas ou cobres), lançá-las, recolhê-las, fechá-las, as mãos no ar como um arco sempre a balançar entre a esquerda e a direita. Exercício ininterrupto. Pode chegar a demorar quatro horas. E demorou.

António, que já andou pelo mar de Espanha, de Marrocos, da Irlanda, de Inglaterra, ainda tenta usar colete insuflável, o mesmo que o governo português quer agora tornar obrigatório. Mas desiste logo a seguir. “É impossível trabalhar assim, não me deixa fazer os movimentos que preciso”, explica enquanto só com uma mão agarra um polvo, que golpeia com outra. O colete “pega, engata, atrapalha” mais do que ajuda, que o homem não pára de mexer, de se debruçar sobre o barco, de executar mil tarefas por minuto, coreografia ensaiada ao milímetro. É o ensaio da experiência.

E é a falta dela, dessa experiência, que Júlio Ferreira, a usar fato insuflável, lamenta na resolução governativa: “Nunca ninguém falou connosco, ninguém veio ver como é que se faz. Se tivessem vindo, perceberiam que com o fato trabalha-se à vontade, porque não prende. E se a gente, por qualquer razão cair ao mar, fica a boiar."

O dia nasce em câmara lenta, entre as sete e as oito horas, e com ele chegam as gaivotas. A pesca ganha banda sonora. O céu muda de cor, colado ao mar é uma aguarela azul e verde a desbotar. É absolutamente poético, mas só para quem não depende da generosidade do mar, do que ele dá – e do que ele tira. Nas Caxinas, mais de 70% da população vive disso. O Norte todo alberga cerca sete mil pescadores. A lei diz que só podem lançar 200 cestas e 50 redes por cada pesca; eles lançam mais. “Temos de fugir à lei se não não ganhamos para os gastos do dia-a-dia”, confessa mestre Júlio. Quer pesque muito ou pouco ou nada, de cada vez que vai ao mar gasta sempre 100 euros distribuídos por gasolina, iscas e salário diário do tripulante.

Nesta viagem, alou, claro, mais de 200 mijonas. Conseguiu cabaz e meio de polvo e meia dúzia de navalheiras. “Não é bom, não é mau, é o que é”, diz sem desgosto nem entusiasmo.

São quase dez horas quando se regressa à Apúlia, o sol ainda mal aquece e o dia deles, de Júlio e António, já poderia estar ganho. Mas não está. Largam o peixe na praça onde as mulheres já montaram a banca, mulheres que já não vestem de negros, que os tempos são outros, e o peixe não preenche os espaços da bancada. Eles voltam para o mar, repetem tudo outra vez.

Roleta russa. Risco desajustado, muito perigo, demasiado esforço para tão pouco lucro às vezes. Ainda por cima, “o peixe está mais barato do que há dez anos”.A chegada, avisava António, é mais brusca do que a partida. É pior. O barco empina-se todo para dar uma chapada na areia.