sexta-feira, março 31, 2006

Coincidências

SMS enviado por um casal de amigos do peito às 3.48 horas da manhã depois de termos estado juntos pela primeira vez em três anos: "Viemos a pensar como é que no século XXI as pessoas que se gostam não estão juntas."
SMS enviado por outro amigo na mesma madrugada, às 4.15 horas: "Tens uma morada para onde te possa escrever? Verdadeiramente? Sem @?"
Dúvida existencial: As novas formas de comunicação (e-mails, sms, blogs..) afastam ou aproximam as pessoas?

quinta-feira, março 30, 2006



O coração devia ser como o telemóvel que deixamos esquecido na mesa de café ou colocamos em silêncio quando não queremos ser incomodados. Ou desligamos. Ou vemos tocar mas não atendemos porque não nos apetece.

quarta-feira, março 29, 2006

Vende-se Rivoli

O delay prova que evitei tocar no assunto, mas o assunto é demasiado bom (ou sexy, como diria Pires de Lima) para não ser tocado. Anteontem, Dia Mundial do Teatro, saiu no caderno de classificados do JN o seguinte anúncio, emoldurado - e não terá sido por acaso - a cor de laranja:
TEATRO
Excelente localização, no centro do Porto, auditório com capacidade para 800 pessoas, mais pequeno auditório, restaurante/bar, sala de ensaios, zona administrativa, amplas áreas para congressos, conferências, casamentos, baptizados e eventos promocionais. Vende-se ou cede-se exploração a privados. URGENTE.
Contacto: Câmara Municipal do Porto - 222 097 000

O anúncio, como se depreende, é uma piada - e nem sequer se pode dizer que seja de mau gosto. Eu, pelo menos, ri-me bastante. (Claro que não descarto a possibilidade de o defeito poder ser do meu mau gosto...) E o teatro, como se depreenderá também, é o Teatro Rivoli, alvo de esvaziamento gradual por parte da Câmara Municipal do Porto e, por isso mesmo, centro de polémica na última reunião camarária.

A meio da tarde, Rui Rio, que entretanto terá sido apanhado de surpresa com o sucedido, destilou no seu meio de eleição privado - o site autárquico -, toda a sua fúria em cima do dito jornal. Um jornal que, "mais uma vez contribuiu para a publicação de uma mentira, enganando os seus leitores"; um jornal que "publicou um anúncio que não é politicamente inócuo"; um jornal que ousou "dar amplo espaço noticioso ao debate sobre o Rivoli que teve lugar na última reunião do executivo".

Por tudo isto, Rui Rio decidiu fazer descer a sua sábia e justa mão sobre o jornal como um pai sobre um filho que falta a escola para ficar a brincar no recreio. O castigo vem anunciado no site: "A Câmara Municipal do Porto decidiu mover uma acção judicial contra o jornal e apresentar uma participação-crime contra o seu director, Leite Pereira, enquanto responsável máximo pela publicação em causa."

Ora, a reacção quase-quase fez com que, por uma vez, tivesse que vergar-me, rendida, diante da inteligência do senhor presidente da Câmara. E isto não é ironia. Ele que andava cheio de vontade de processar o JN; ele que passou meses a publicar diariamente a sua desilusão com as notícias publicadas no jornal e que infelizmente (para ele) nunca conseguiu desmentir; ele que acha que o jornal não o entende e descontextualiza as suas sempre doseadas afirmações; ele que até impôs um travão aos desbocados dos seus vereadores (o 25 de Abril não é como o sol, não nasce para todos) encontrou finalmente um não-assunto para se colocar na poltrona onde se sente melhor: a de vítima. Uff! Estava a ver que não!

Só é pena que Rui Rio, que já provou não perceber nada de jornalismo (valor-notícia; fontes, regras deontológicas, etc e tal) venha agora provar também que não percebe nada do complexo funcionamento de uma máquina como é a de um jornal. Seja a de que jornal for. E a manifestação pública da sua ignorância (por cortesia, não falarei do seu bom-senso) retira imediatamente esse apreço que quase-quase ganhei por ele. Convenhamos, um homem que consegue sempre moldar as histórias por forma a ganharem o formato que mais lhe convém merece sempre algum respeito. Nem que seja o simples respeito pela ginástica mental. Mas quando um autarca chega ao ponto de induzir os munícipes a pensar que o anúncio foi de autoria do jornal, quem é que engana quem, afinal?

A verdade é que mal estariam os jornais deste país se cada director tivesse que verificar cada anúncio do caderno de classificados. E no JN são algumas centenas. Quando muito, Rui Rio poderia lamentar a negligência do departamento comercial por não ter verificado a autoria do anúncio (a quem poderia agora imputar responsabilidades) e exigir um desmentido no dia seguinte. Se, por hipótese, um funcionário da autarquia, sei lá, um cantoneiro (nem sei se ainda existem, mas é um exemplo) me insultar na rua deverei processar o presidente da Câmara? Em última instância, seguindo a sua linha de raciocínio, é ele o responsável, não é?

No meio disto tudo fiquei com uma dúvida. Será que nesses múltiplos telefonemas de "pessoas iludidas" e interessadas em comprar o Teatro Rivoli estaria alguma instituição espanhola? Se sim, é bem provável que tudo isto não tenha passado de uma jogada do Governo de José Sócrates.

P.S.: Para que conste, o JN publicou uma nota, digna, no dia seguinte à publicação do anúncio, ou seja, ontem.


Nota da Direcção Comercial

Foi publicado ontem, no caderno de Classificados, um anúncio com o título "Teatro" que poderá ter levado os leitores a pensar que um qualquer teatro municipal da cidade se encontrava à venda, uma vez que tinha como contacto a Câmara Municipal do Porto. Este anúncio foi recebido no balcão-sede, no dia 24 de março, tendo sido pago em numerário, e sem que tivessem sido tomadas as devidas precauções na identificação do anunciante. A Direcção Comercial do JN lamenta o sucedido.

terça-feira, março 28, 2006

Mudar o mundo

Sempre quis ser jornalista porque achava que era a profissão capaz de ajudar a mudar o mundo. Acreditava mesmo que ia dar voz a quem a não tem, que ia desmascarar os maus e fazer a apologia dos bons. Nunca acreditei quando me diziam que isso havia de passar com a idade. E mesmo depois de ter percebido que a profissão é menos feita de actos de generosidade, de olhos sempre postos na necessidade do outro, e mais feita de disputas infantis, de egos que nunca estão suficientemente alimentados, de atropelamentos diários, uma espécie de selva onde ninguém salva ninguém continuei a dizer (não sei bem se continuei a pensar) que se um texto mudar a vida de uma única pessoa já valerá a pena.
Mas quando hoje te liguei para o hospital, ao fim de tanto tempo sem te ver, para veres como está mãe de uma pessoa que nem sequer é um amigo, é só um conhecido de quem gosto bastante, e tu disseste logo que sim, para eu desligar, que ias a correr, tu a tratares-me pelo diminutivo da infância, e ligaste menos de meia hora depois com o assunto já todo resolvido, com os médicos já todos alerta, a dizeres que exiges que eu não agradeça, para te ligar sempre que precisar, que estás lá para isso, percebi imediatamente que são pessoas como tu, apesar de não haver muitas pessoas como tu na tua profissão, que mudam o mundo. Todos os dias e em silêncio. Como naquele dia em que te liguei porque a namorada do irmão de um amigo tinha tentado suicidar-se e tu disseste que estavas de folga mas saltaste para o hospital em menos de nada. Quando lá cheguei tu já lá estavas, bata branca enfiada, com um séquito de enfermeiros encomendados por ti à volta da rapariga.
E lembrei-me de ti no dia em que perdeste o teu pai. O colo do pai em que te sentavas todos os dias no fim do jantar. O colo que talvez não tivesses perdido se tivesse havido uma enfermeira como tu e com o teu sentido de dever ao lado dele. Eras tão pequenina, tu e a tua franjinha, a seres enganada, escondida, deixada em casa para não assistires ao funeral. Lembro-me das mãos sem cor do teu pai e da minha mãe a vestir-me umas calças azuis de bombazina nesse dia de manhã. Esse dia que depois fez com que te fosses embora com a tua mãe, os teus irmãos e a minha melhor amiga. Cinquenta quilómetros talvez seja uma distância irrisória, mas para duas meninas, melhor, duas marias-rapazes que faziam tudo juntas, desde o acordar ao adormecer, essa distância foi uma traição.
Lembro-me de quando íamos as duas levar-te à pré-primária e ficávamos lá à tua espera deslumbradas com os carrosséis que já nem sequer eram para a nossa idade. E de quando íamos para o sótão ouvir as histórias de amor das tuas empregadas, primeiro a Mila, depois a Isa. E do que chorámos quando elas foram embora. Lembro-me de pareceres sempre uma boneca como as bonecas que guardavas na adega. E de continuarmos a brincar, separadas apenas por uma varanda, quando chegava a hora de ir para casa. E dos dias de chuva em frente à lareira e das cabanas que montávamos no terraço em dias de sol. Lembrei-me do quanto fomos felizes nessas casas que já não existem e nesse tempo em que ainda não sabíamos o que haveríamos de vir a ser. Do quanto fomos felizes mesmo quando o verão chegava ao fim e tu vinhas com a tua mãe buscar a minha melhor amiga e desatávamos todos a chorar. Eu e ela porque não suportávamos o tempo até ao verão seguinte. As nossas mães porque não conseguiam não comover-se com a nossa dor.
Há coisas que não mudam. Por dentro, tu continuas a ser a boneca do coração mais doce, e nós as duas, eu e a minha melhor amiga que até já é mãe, continuamos a ser as duas marias-rapazes que cresceram juntas e que não se deixarão trair pelo tempo como foram traídas pela distância. É por dias como o de hoje que sei que os amigos do coração estarão sempre nesse lugar que nunca ninguém nos poderá roubar. Podemos já não ter três meses de férias, podemos já não passar o verão inteiro a fazer asneiras, mas ao menor indício de contrariedade saltam cá para fora com o dedo indicador esticado a gritar "presente". A nossa infância foi um privilégio.

domingo, março 26, 2006

Cronistas JN

Já aqui foi dito que o JN renovou o seu leque de cronistas. Entre as novas aquisições está Fernando Marques, ex-jornalista do Público. Para quem, como eu, tinha saudades de ler os seus textos, quase sempre brilhantes, poderá lê-lo agora, quinzenalmente, aos domingos.

quinta-feira, março 23, 2006

Dias cinzentos


A maturidade é como uma nuvem que sentimos pousar devagarinho sobre a cabeça. Quando a sombra ofusca o sol percebemos que ela chegou. E tal como as nuvens, volta e meia vai embora, deixando-nos espaço para sermos tresloucadamente felizes. A maturidade nunca vem para ficar - tem dias. E nos dias em que frases ditas há mais de uma mão cheia de anos regressam à nossa cabeça vestidas com um significado mais claro, é sinal que lá está ela, a nuvem, pousada sobre nós. Um dia disseram-me que "a pior forma de agressividade é a indiferença". Nem sequer é uma frase muito elaborada, mas hoje lembrei-me dela. Pelos piores motivos. E soou-me diferente daquela tarde (de sol, claro) em que a ouvi pela primeira vez. Os chineses devem ter um provérbio qualquer para isto.

Vergílio Ferreira: Pensar

"Inventa a eternidade na simples comoção de olhar uma estrela. Basta que a olhes pela primeira vez, depois de a teres olhado inúmeras vezes. E, então, não precisarás de nenhum deus que te ponha a mão no ombro e diga estou aqui. Uma estrela espera-te desde toda a eternidade. Procura-a. E vê se a não perdes durante a vida inteira. A tua estrela pode não estar no céu. Põe-na lá."

Obrigatório: Oswald Le Winter

Oswald Le Winter é um austríaco, ex-agente da CIA, já viveu em Portugal, onde tem livros publicados, e agora reside na Alemanha. Está proibido de entrar nos EUA. É considerado incómodo. Na edição deste mês da revista "Magazine - Grande Informação" dá uma entrevista excelente e bizarra a Pedro Pizarro. Sobre a II Guerra Mundial e o ataque a Pearl Harbor, que poderia ter sido evitado. Sobre a Guerra Fria e os filipinos que disfarçou de vietnamitas, obrigando-os a matar pessoas. Sobre a sua entrada para a CIA e a sua primeira missão na Bolívia. Sobre Che Guevara e o envolvimento de George Bush pai na morte do ícone comunista. Sobre o Vietname e o tráfico de droga. Sobre a Alemanha e os seu contributo para a queda do Governo de Helmut Schmidt. Sobre Bin Laden e a facilidade de entrar em contacto com o terrorista quando George Bush filho o considera em parte impossível de identificar.
E sobre Portugal!!!
Sobre o maquinado fim do império africano; sobre Frank Carlucci "presidente da República e primeiro-ministro português"; sobre a ligação de Mário Soares à CIA; sobre o caso Camarate e a auspiciosa ascenção de Pinto Balsemão depois da morte de Sá Carneiro, sobre a curiosa venda de armas ao Irão, até então proibida, no dia a seguir à sua morte.
E a apoteose:
"Então já percebeu porque tiveram como candidatos a Presidente da República um antigo homem da CIA, Mário Soares, e uma pessoa que conhece bem esses negócios de vendas de armas, Cavaco Silva; era o primeiro-ministro e, segundo sei, foi o último ministro a reunir, precisamente com Sá Carneiro e Amaro da Costa...
Em suma, uma entrevista de revelações em 12 páginas. Absolutamente imperdível.

FC Porto 5 ; Sporting 4


Grande, grande Vitor Baía!!! E grande, grande derrota dos comentadores da RTP1. Pena que não possam levar cartões vermelhos!

terça-feira, março 21, 2006

"Ok, ok, tem um bom papel"

Assiste-se no Porto à morte lenta (?) de uma estrutura chamada Culturporto criada em 1997 para ressuscitar alimentando, isto é, munindo de conteúdos próprios, o Teatro Municipal Rivoli. Daí, chamar-se Associação de Produção Cultural. E daí, possuir uma directora artística (Isabel Alves Costa) a quem, em teoria, caberia definir o conteúdo programático a apresentar naquele espaço. A isto soma-se ainda um programador para a animação da cidade (Júlio Moreira) e uma equipa com cerca de 50 elementos.

Ora, o que acontece desde que Rui Rio - com o aval reforçado da população nas últimas eleições autárquicas, é certo -, tomou conta do leme cultural, é a mais descarada metamorfose de uma instituição, cujos objectivos definidos nos estatutos obrigam a programar, organizar, produzir actividades numa mera sala de acolhimento, de aluguer, espécie de Coliseu 2. Com duas agravantes: o Coliseu ainda não acolhe congressos de criminologia e, não sendo uma entidade pública, não tem responsabilidades acrescidas, que se prenderão também com a formação de públicos ou com o apoio a novos artistas e novas formas de expressão artística. Se no Coliseu não chocará assistir num dia ao comovente e poético espectáculo de novo circo do palhaço russo Slava Polunin e no outro a um concerto do nacionalíssimo Emanuel, já no Rivoli esta mistura é, ou deveria ser, inconcebível. Confundir isto é não perceber nada.
Com um orçamento reduzido a pouco mais do que os salários de quem lá trabalha e uma programação concebida em formato patchwork-de-quem-chegar-primeiro, o Rivoli vê-se assim destituído de qualquer sentido. Ou, pelo menos, do seu sentido original, que era substancialmente mais promissor. Foi isto questionado pelo PS e pela CDU, ontem, numa reunião pública de Câmara. E se o cenário é mau, se é surpreendente que a directora artística não se manifeste publicamente (para quem não percebeu, a senhora poderá estar a fazer muita coisa, mas não está seguramente a programar - excepção eventual feita à dança, mas para essa área existe outra senhora, de méritos reconhecidos, chamada Ana Cristina Vicente), mais desoladora será a explicação do vereador da cultura, Fernando Almeida. Um bancário, para que conste.
Confrontado com as questões do socialista Miguel von Hafe ("O que se faz com 1400 contos no Verão? Com dois mil contos no Serviço Educativo? Com cinquenta funcionários, que custam um milhão de euros, contratados para auxiliar a produção? Qual é o critério de acolhimento, onde constam produtoras independentes como a da Teresa Guilherme?..."), Fernando Almeida limitou-se, paupérrimo no discurso, a elencar uma série de actividades sem nexo. E depois sim, apesar de não ter respondido a uma única questão, foi claro: "Não me preocupa nada que o Rivoli não tenha produção própria. Gostaria de encontrar uma entidade privada para o gerir". Como é que um responsável por uma estrutura pública, com regras próprias, pode dizer, impunemente, que está a borrifar-se para as regras?
No fim da dita reunião, o senhor foi cercado por jornalistas. Perguntaram-lhe que papel sobra a Isabel Alves Costa. Riu-se e deixou verter antes de fugir: "Ok, ok, ela tem um bom papel". Importam-se de me dizer qual é? O dela e das outras pessoas que são pagas com o nosso dinheiro?
P.S.: As reuniões camarárias são aconselhadas a públicos com sentido de humor.

segunda-feira, março 20, 2006

Herman Sic

Alguém deveria explicar a Herman José - que ontem festejou o seu 52º aniversário em directo -, que há ícones que não deixam de o ser só porque ficam... desactivados. Frank Sinatra é um ícone - mais do que isso, é um mito -, e no fim da vida cantava já bastante mal. É só um exemplo; há milhares deles nesse reino do show bizz.
O facto de Herman ter já adquirido esse estatuto - de ícone; não de mito -, não quer dizer que mantenha as qualidades que fizeram dele essa figura que, por certo, habitará o imaginário de várias gerações. Seguramente, não mantém. Logo, não quer dizer que tenhamos que continuar a levar com ele. Com ele e com a pomba gira e outra criaturas decrépitas que ele desencanta sabe deus onde. Logo, é preciso louvar, e muito!!, a coragem de Francisco Penim ao retirar-lhe o espaço nobre de sábado à noite.
Acontece que há pessoas que acham que valem só por existirem. E lidam mal quando lhes dizem que, à semelhança dos outros mortais, têm que trabalhar para provar que merecem o que têm. Herman não gostou da despromoção e começou, desenfreado, a dar entrevistas ameaçando (?) abandonar o país. Talvez, rumar a Nova Iorque ou qualquer outra cidade ao nível da alma cosmopolita que julga possuir.
Os amigos, solidários, prepararam-lhe uma festa. Nada contra se não fosse uma sessão cheia de não-ditos. No Herma Sic de ontem, estava toda a gente vestida de preto. Toda a gente, com excepção de Penim. Não terá sido por acaso. E se dúvidas houvesse quanto a isso, bastaria ouvir as piadas. "Parece que não conseguem queimar-me..."; "Era melhor virem os espanhóis e sermos vendidos a retalho..."; etc, etc, etc...

sexta-feira, março 17, 2006

Muro das lamentações

O blog defunto de Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá continua a somar comentários desesperados. São já 461 as almas que insistem em passar por ali a pedir para ressuscitarem a coisa. Deve ser a isto que chamam popularidade: a populaça sabe que dali já não sai nada mas continua insistentemente a passar por lá. É como comprar todos os dias o jornal do mês passado. Não se pode dizer que não seja comovente.

Plasticina II

O público: houve pessoas a sair da sala, mesmo considerando que foi a estreia e que a maioria do público da estreia não é público real. E quando acabou, só uma pessoa, um senhor já de cabelos brancos, se ergueu para aplaudir de pé. Num segundo regresso dos actores ao palco ter-se-ão levantado mais seis ou sete. Só. Há gente a quem tudo faz confusão: um nu já lhes mete medo, mas um nu seguido de masturbação, seguida de violação, seguida de sexo gratuito, seguida de suicídio, e de morte e de fome e, e, e... se fechar os olhos impedisse a vida de ser tal e qual ela é, também eu teria saído da sala. Mas não só não impede como esse mesmo público está ali ilustradíssimo na peça: são as pessoas para quem apontar o dedo e fazer juízos de valor é tão fácil como respirar. São aquelas cuja ilusória superioridade social lhes permite excluir as outras.

Plasticina

Nunca chorei numa peça de teatro. Nunca achei que a dor, mesmo enquanto pura obra de arte, pudesse parecer tão bela. Até ontem. "Plasticina", escrita pelo dramaturgo russo Vassili Sigarev e encenada por Nuno Cardoso (em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, até 2 de Abril) entra nas veias como um soro letal. Nem vale a pena dizer que é um murro gélido no estômago, porque as peças do Nuno são sempre assim: infinitamente maiores do que texto, mesmo quando o texto é bom. São criações que provocam ressaca. E deixam sempre aquela sensação de que desta vez, sim, desta vez é que ele não irá superar-se. E ele, o encenador, supera-se sempre. Sempre.
Plasticina é o pior do mundo inteiro dentro de cinco metros quadrados. E, no entanto, parece estar dentro de uma caixinha de música. Só que dentro da caixinha parece existir um elevador que nos transporta para vários andares onde todos os botões têm a mesma sigla: DOR. A dor de quem não tem direito a manifestá-la. A dor de quem já se habituou a sofrer sem reclamar. A dor de quem parece imune à dor física, tal é a dor, a outra, mais funda, que não se explica por palavras. A dor de quem apara as dores todas dos outros. A dor de já ter nascido excluído.
Maksim, o protagonista, é isso. Um rapaz desenhado para ter nascido na era pós-comunista, mas que visto daqui, do ano 2006, é só um rapaz igual a todos os rapazes de qualquer bairro social desgraçado. Um rapaz que fica sempre sozinho, no fim, quando todos vão dormir. Um rapaz que já nasceu sozinho. Um rapaz que a dor cegou.
Não é só a melhor peça de teatro que vi nos últimos meses; é das melhores que vi na vida toda. E para isso contribui também a extraordinária sintonia de sempre de Fernando Ribeiro, o cenógrago, com o encenador. E a música de Sérgio Delgado, uma agulha afiada apontada ao coração.

quinta-feira, março 16, 2006

Quiz I

O que é pior: a pessoa certa no lugar errado ou a pessoa errada no lugar certo?

terça-feira, março 14, 2006

Na solidão dos campos de algodão

Raras vezes uma criação do Teatro Plástico é perra. Privilegiando acima de tudo a palavra, Francisco Alves é imbatível na escolha dos dramaturgos: Harold Pinter, Nobel político; Eric-Emmanuel Schmitt, conceituado autor francês contemporâneo; Denis Lachaud, outro francês alvoroçado; Paul Selig, norte-americano avesso ao politicamente correcto; Neil Labute, dono de retratos sombrios sobre a modernidade. E agora, pela segunda vez, Bernard-Marie Koltès, autor por excelência do teatro de ver. Mas sobretudo ouvir.
“Na solidão dos campos de algodão” é a batalha verbal entre dois vultos. Dois homens iguais a esgrimir argumentos para afirmar as suas diferenças, contradições, desejos, a sua prisão, ali materializada em paredes de betão e sem adornos. O cenário é um parque de estacionamento, só. A encenação repete a estratégia de fugir aos palcos convencionais e eleva-a, desmultiplicando soluções criativas. O espectador é um voyeur que assiste de forma excepcionalmente consentida a uma transacção que não conhece. Ouve a conversa através do rádio do carro – um diálogo filosófico, poético – entre o dealer e o cliente, ambos de expressão corporal quase imóvel. Os figurinos acompanham a escuridão das personagens. A luz, esquálida, é perfeita na denúncia do que parece proibido. O fim sente-se; não é anunciado. De repente, tudo ali parece óbvio. Mas, definitivamente, não é.

segunda-feira, março 13, 2006

Rita


Costumo definir a minha família como sendo a santíssima trindade: um pai único, uma mãe única, um irmão único. São a única coisa que tenho na vida em dose individual. Individualmente especial. Sem eles, sem qualquer um deles, a minha não faria sentido. Não sou mãe, mas entendo a dor quem está privado da Rita. E, às tantas, todos podemos dar o nosso contributo. Por pouco que seja.
A Rita tem 18 anos e sofre de esquizofrenia. Tem um metro e meio de altura, cabelo castanho ondulado e um piercing no lábio inferior. Desapareceu perto do mercado de Matosinhos, no dia 17 de Fevereiro. Foi vista pela última vez no Museu de Serralves, onde estava numa visita de estudo. Vestia um casaco preto, calças de ganga escura e sapatos castanhos.

Quem possuir alguma informação sobre o seu paradeiro pode contactar o pai: 93. 972 16 92 . Ou o irmão: 93. 877 30 12. Ou as autoridades policiais.

Novo JN

À falta de campanha de marketing, informo que o Jornal de Notícias tem, a partir de hoje, um grafismo e conceito editorial renovados. Sentindo obrigação de não me pronunciar sobre o lifting, não posso, no entanto, deixar de me congratular pela substituição de alguns pseudo-cronistas. Agostinho Branquinho, essa grande figura da política da paróquia, deixará de animar as nossas quintas-feiras com as suas pérolas.

sábado, março 11, 2006

País esquizofrénico

Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso que nunca votou em Cavaco Silva. Copio-lhe a confissão: eu também não. E mais: votei em Mário Soares para as eleições presidenciais. Votei com aquele sentimento de privilégio que sentem as pessoas que em 1986 não puderam contribuir para esse momento histórico, por serem ainda menores de idade. Votei com a intenção de ver repetidas as proezas. Votei como quem lhe agradece.
Na tomada de posse de Cavaco Silva voltei a sentir orgulho no candidato preterido pelos portugueses. Num país que acusa os políticos de se digladiarem em público para se entreterem amigavelmente em privado, a atitude do ex-presidente da República foi, no entanto, por pura ironia (só pode), ferozmente reprovada. O homem candidatou-se com mais de 80 anos, candidatou-se convencido de que venceria aquela que seria (foi) a sua última batalha. Perdeu. Não tem o direito de ficar zangado? Não tem o direito de manifestar publicamente a sua tristeza ou raiva ou descontentamento ou seja o que for? Ligou a Cavaco no dia das eleições a felicitá-lo, não chega? Podia tê-lo cumprimentado no dia da sua tomada de posse. Não o fez. E depois? Por que raio de razão as pessoas sentem tanta necessidade de alimentar a máquina da hipocrisia?
Pessoalmente, fiquei a admirá-lo ainda mais. Mas a imprensa que já havia levado Cavaco Silva ao colo durante a campanha, a mesma que tratou Mário Soares como um velho decrépito e caquético, saiu logo em defesa de sua excelência de Boliqueime.
Para o Jornal de Notícias, Mário Soares foi deselegante. "Um ex-presidente e ex-candidato não cumprimentar o PS é, no mínino, deselegante. Muito deselegante."

Para o Expresso, Mário Soares foi sobranceiro: "O semblante que exibia e a recusa em falar aos jornalistas eram provas concludentes de que ainda não digeriu os resultados de 22 de Janeiro nem percebeu que a sobranceria (tão evidente na campanha como esta semana) não o levará a reconquistar o coração dos portugueses."
Resta o Público para salvar a honra. O único jornal com coragem de colocar Mário Soares a subir no termómetro. E, já agora, o único com memória e conhecimento. "Pode não ter ido ao beija-mão ao novo Presidente, está no seu direito, até porque tem a desculpa das regras do protocolo relegarem para segundo plano os ex-Chefes de Estado na apresentação de cumprimentos. Pode não ter estado sorridente. Pode até ter estado em “meditação profunda” durante o discurso de tomada de posse de Cavaco. Em tudo esteve igual a si próprio, agiu de acordo com a sua consciência, sem hipocrisia. Mas esteve lá! Algo que o recém-empossado Presidente não fez, quando, há dez anos, foi derrotado por Sampaio."

Estranha coincidência

A blogosfera está de luto. O popularíssimo casal Vasco Pulido Valente/Constança Cunha e Sá decidiu, ao fim de dois preenchidos meses, colocar um ponto final no Espectro. O povo está destroçado, pede a Deus para que os abençoe, implora para que revejam a posição, agradece-lhes terem-lhe mudado a vida... são quase 300 comentários de gratidão. Chega a ser comovente. Só não deixa de ser curioso que o anúncio surja justamente no dia em que já se sabia que o Expresso traria uma notícia maior: Clara Ferreira Alves vai processar, e bem, VPV por difamação. Aquele post medíocre que colocava em causa tudo o que ela, bem ou mal, é. Estranha coincidência...

Despedida

(Fotografia: JMG)

Não é possível despedirmo-nos realmente de alguém de quem nos fomos sempre despedindo ao longo da vida.

sexta-feira, março 10, 2006

Rodrigo Guedes de Carvalho

(Fotografia: Bruno Castanheira)

"O jornalismo passa ao lado do essencial da vida"
Não escreve para que lhe descubram as entranhas, mas reconhece que os seus livros dirão mais de si do que o jornalismo. Não tem a preocupação de obedecer às tendências e teme o dia em que a obra seguinte não esteja à altura da anterior. Rodrigo Guedes de Carvalho, “afinal, é uma pessoa sensível”, diz de si, com ironia.O jornalista é diferente do escritor, é diferente do argumentista. “Coisa ruim”, o filme que escreveu, foi visto por 15.230 espectadores na semana de estreia. “A casa quieta”, romance publicado há meio ano e já na 6.ª edição, foi um dos cinco escolhidos pelo Instituto Português do Livro e da Biblioteca para representar Portugal na Bienal de S.Paulo. O próximo livro, “A mulher em branco”, é apresentado no Porto, a 4 Abril. O seu campeonato é, afinal, o da literatura.
(Entrevista de Helena Teixeira da Silva parcialmente publicada no Jornal de Notícias a 11 de Março de 2006)
Teve a pretensão de inaugurar uma nova etapa no cinema português ao escrever o argumento de “Coisa Ruim”, um filme de terror?
Fizemos história ao ser o primeiro filme português a inaugurar o Fantasporto e a estar em competição em longa-metragem. Filmes são longas-metragens; literatura são romances. Contos e curtas não contam. Não é uma verdade absoluta – é o meu entendimento. Mas não houve qualquer pretensão na feitura ou na montagem do filme de inaugurar o que quer que fosse. Foi uma feliz coincidência.

O centro do filme é uma casa assombrada. É o purgatório?
Pode ser, sobretudo porque trabalho sempre a partir das personagens: quem são, de onde vêm, qual é a sua relação. No filme interessava-me a implosão daquela família. Enquanto está em Lisboa vive um quotidiano cheio de não-ditos, de fantasmas. Provavelmente teria continuado assim se não se tivesse deslocado para aquela casa, na aldeia. Os acontecimentos dão um estado de enervamento e de stress tal que começam a dizer o que realmente sentem.

Porque é que essa aldeia não é identificada?
Porque não é relevante. E porque o filme não tem, de facto, um local. Aquela aldeia é feita de pedacinhos de aldeias da zona. A maior parte dos sítios já estão contaminados por antenas parabólicas e cabos de alta tensão. Relevante é o facto de se passar num interior profundo. Pode ser onde se quiser, neste caso, é tudo na zona de Torrozelo. A casa sobretudo. Não deve haver nenhum português, por mais citadino que seja, que não tenha uma tia ou uma avó, um padrinho de regiões semelhantes. É um imaginário que está presente em todos os portugueses, provavelmente nos mais velhos com mais força e com mais referência, mas os miúdos novos, de uma forma ou de outra, também já vão conhecendo esses locais.
As histórias que o inspiraram foram-lhe contadas como tendo efectivamente acontecido ou já como lendas?
Algumas, poucas, como tendo efectivamente acontecido; outras provêm de leituras. Sou um apaixonado pelo tema. Desde criança que li os mais variados livros, desde os mais naifs sobre lendas religiosas de Portugal ou "Velhas e novas andanças do diabo em Portugal" ou livros que normalmente não são romances - são ensaios ou compilações de lendas. E todo esse universo foi ficando em mim e foi-me aparecendo no momento da escrita. Foi um processo um pouco inconsciente.

Não sendo crente, o imaginário popular merece-lhe respeito?
Sou não crente do ponto de vista estritamente religioso. Não professo nenhuma religião. Sou crente em dados históricos como, por exemplo, a existência de Jesus Cristo, mas não mais do que isso. A existência de um deus omnipresente e todo poderoso não tem cabimento para mim. Em relação a tudo o que seja lenda ou superstição sou céptico. Tenho tendência a racionalizar as coisas. É um mecanismo de defesa. Racionalizamos para não nos permitirmos ter medo. No entanto, perante tantos acontecimentos, alguns profusamente documentados ou testemunhados, acho que deve haver mais coisas entre o céu e a terra do que aquelas que nós conseguimos explicar.

Mas coloca-se sempre no papel do observador, como estando de fora, como não fazendo parte daquilo…
Sim, não fazendo parte daquilo e tentando não me deixar atemorizar por isso. Penso que todos já tivemos situações de medo absolutamente irracional, uma inquietude que não sabemos de onde vem: é o vento, é um animal que passou no restolho. Se é isso, não há razão para ter medo, e no entanto, naquele momento, nós temo-lo. Era um pouco essa sensação que se quis transportar para o filme.

Definiu um público alvo?
Nunca o defino. Primeiro, porque podemos não atingir todo o público-alvo; segundo, porque estaríamos a excluir parte do público. Escrevo na esperança de que toda a gente aprecie, sabendo que isso é impossível. Mas há uma coisa que está a verificar-se e que nos enche de orgulho: na generalidade tivemos boa crítica e estamos a ter muito público. Os dados do primeiro fim-de-semana são muitíssimo prometedores.

Terá a ver também com uma cobertura mediática invulgar?
Sou quem sou e o ano passado lancei um livro que não teve metade deste foguetório.

Também porque não quis...
É verdade. No caso do “Coisa ruim”, o meu nome pode ter ajudado, mas não foi determinante. Gosto da minha posição de mero argumentista. A grande alavanca da promoção deve-se à abertura oficial do Fantasporto e ao facto de o Paulo Branco ter gostado muito do filme e ter apostado na promoção, o que não costuma fazer. O problema dos objectos é que se não os publicitarmos, as pessoas não sabem que existem.

A cultura merecia ter mais expressão nos media?
Completamente! Sou um lutador dentro da SIC para que a cultura tenha mais cobertura mediática. E nós já devemos ser os que lhe prestamos maior atenção.

É um espectador assíduo de cinema português?
Não totalmente assíduo, mas ultimamente vi praticamente tudo. Houve filmes da última década que me escaparam.
Viu os filmes nomeados para os Oscars?
Só vi o Crash.

Dois filmes nomeados para os Oscars levantaram questões essenciais sobre o jornalismo. Entre a vampirização dos afectos [“Capote”] e a incondicional vigilância da verdade [”Boa noite e boa sorte”] onde se situa?
No cinema interessa-me pouco a caução do real. Mas, por natureza, o jornalista é um vampiro, embora não tanto quanto o escritor, que está quase sempre a levitar do seu corpo. Tudo é matéria, mesmo as coisas mais pessoais. O jornalismo tem um drama: passa ao lado do essencial da vida. Toca, como um mosquito, coisas e vidas às vezes graves e segue para a próxima reportagem. Não podemos sentir-nos culpados. Não podemos embrenhar-nos na vida de todas as pessoas que tocamos.

Mas é-lhe permitida emoção, piscar o olho ao espectador?
Não só é permitida como é necessária. Não sou um absoluto fundamentalista da objectividade, até porque, enquanto valor absoluto, não existe. Pelo menos, não é identificável. Como é que nós dizemos que fulano é objectivo e outro não é? Obviamente, o jornalista – passe o lugar comum – é também um ser humano e isso é uma vantagem para a sua profissão, porque no acto de comunicar, as pessoas vão sentir que é uma pessoa como elas que assistiu aquilo e que lhes está a comunicar isso, não foi uma máquina, um robot. Não pode é utilizar as emoções que retirou da reportagem para com isso manietar ou manipular o espectador. Tem que saber usar isso. Tem que lhe ser dada a oportunidade de ser uma pessoa que sente, que se emociona, que não passa incólume pelas coisas.

"Boa noite e boa sorte" retrata sobretudo um período turbulento de pressões. Já as sentiu?
De uma forma geral, acho que não. Portugal não é um bom exemplo para isso. Portugal é tão pequenos em tudo que até nas pressões o somos. Não posso falar por outros colegas ou empresas, mas nunca senti pressão em qualquer sentido: forçar notícia porque interessa ou ocultar dados que fossem de alguma forma comprometedores. Dar-me-ia muito mal com esse tipo de pressão. Não digo o que faria porque nenhum de nós sabe. Seria fácil dizer que batia a porta e ia para debaixo da ponte. Mas na realidade, não sei. E nunca senti pressões, nem na RTP nem na SIC. Aliás, o Pinto Balsemão, com alguns defeitos que possa ter, tem uma tradição, reconhecida por todos, de ser uma pessoa que respeita muito os seus jornalistas.

Os seus livros resultam da adaptação de episódios reais fornecidos pelo jornalismo?
Não preciso de acontecimentos reais para ficcionar. Até agora não o fiz, mas não me choca quem o faz. O escritor não deve ter barreiras que não sejam as do seu bom senso. Tudo serve, desde que seja feito com qualidade. Não pode haver barreiras na arte.

No seu caso, a informação funciona como elemento inibidor?
A informação com que lido não me tem fornecido matéria interessante. No meu próximo livro há uma criança que desaparece. Isso não quer dizer que o escrevi porque tenho dado muitas notícias sobre crianças que desaparecem. Mas como a minha escrita não tem nada de fantasioso – é sempre sobre pessoas e acontecimentos reais –, é normal que algumas situações sejam contaminadas por notícias que apresento.

O livro chama-se “A mulher em branco”. Qual é o fio condutor?
É a história de um divórcio violento. Interessam-me as relações humanas. É sobre isso que gosto de escrever – não sei se é sobre isso que continuarei a escrever. No fim-de-semana em que o homem tem o filho à sua guarda, vai passear com a criança e ela desaparece em circunstâncias que depois se perceberá. O homem, que já tem uma relação difícil com a mulher, tem que informá-la que perdeu o filho de ambos. É o sentimento de culpa elevado à décima casa. A mulher, com o choque, fica amnésica. Uma amnésia retrógrada que se caracteriza pelo facto de sermos capazes de recordar a infância, mas não o passado recente. Com a amnésia, a mulher não se lembra sequer que tem um filho, logo não o pode chorar.

Daí o título...
Sim. Foi desafiante trabalhar o que se passa na cabeça de uma mulher que não tem nada na cabeça.

Fez pesquisa sobre a matéria?
Não, não pergunto nada a ninguém. Estou permanentemente a fazer pesquisa no meu dia-a-dia, em silêncio. E quando escrevo estou completamente a marimbar-me para as tendências, senão teria escrito um romance histórico. E estava garantido. Interessa-me a relação orgânica que tenho com a minha escrita, explorar cada vez melhor a palavra. Vejo a literatura como a escultura: temos um pedaço de granito e começamos a buscar o que está lá por baixo. É uma luta comigo: tentar ser melhor. E como tenho a vantagem de não viver da literatura, escuso de saber o que o mercado quer.

O livro será apresentado em Abril, no Porto, com a mesma discrição de “A casa quieta”?
Está prevista uma apresentação normalíssima. Convidarei sobretudo amigos, porque é um momento de cumplicidades mais do que de fogo de artifício e espavento. Logo se vê quem o apresenta, terá que ser uma pessoa que me é próxima, quer do ponto de vista pessoal quer literário. Ainda não será desta vez que haverá posters gigantes à porta da Fnac.

Fica a ideia de que se protege no jornalismo na proporção em que se expõe na literatura...
Nenhum deles sou eu, nem o escritor nem o jornalista. No jornalismo represento a redacção e as notícias produzidas nesse dia. Cumpro regras básicas: dou voz aos dois lados da notícia, trato com seriedade uns assuntos, permito-me leveza noutros. Basta uma pausa ou um sorriso e percebe-se que tenho uma visão irónica sobre aquilo. Mas não é o meu jornal, é o jornal da SIC. Na escrita, parece que finalmente está a conhecer-se as entranhas da pessoa – afinal é uma pessoa sensível [risos]. Mas a escrita é também a representação de algo. Mesmo que aquilo que escrevo pareça quente e arrancado num repente, o processo de escrita é um mecanismo frio para provocar essa sensação. Se os livros são meus, estará lá muito de mim, mas não quer dizer que tenham que conhecer-me através das minhas personagens.

Não me refiro a literatura autobiográfica. O facto de escrever sobre sangue não quer dizer que esteja a sangrar, mas escrever sobre sangue dirá uma coisa diferente do que diria se escrevesse sobre água.
Sim, nesse sentido, sou muito mais eu na escrita, embora não tenha partido com essa necessidade de me dar a conhecer. Escrevo porque me dá prazer. É natural que diga muito de mim, quer nas escolhas dos temas, quer nos desenhos das personagens. Está lá muito do que amo e muito do que odeio.

Deposita nos livros o que despreza na sua vida?
Não trabalho com essa missão, mas às vezes acontece. No novo romance há um personagem que representa tudo o que me repugna. É como se estivesse a libertar-me de algo que não quero para a minha vida, que não gostaria de ser. Há quem diga que se escrevo aquela cena é porque ela está dentro de mim, não entendo. Por exemplo, em “A casa quieta” escrever sobre a incomunicabilidade entre as pessoas ajudou-me a melhorar a minha vida. Não posso escrever sobre o drama que é perdermos tempo a não dizermos que gostamos uns dos outros se não o praticar na minha vida.

O encanto da escrita reflecte algum desencanto com o jornalismo?
Não, até porque comecei a escrever antes de ser jornalista. O jornalismo, de alguma forma, passa ao lado do essencial da vida. Pela sua natureza, volatilidade, rapidez. Interessam-me coisas onde possa estacionar, pensar mais. A arte, sendo ficção, aproxima-nos mais do que é essencial na vida do que a realidade nua e crua do jornalismo. E o que procuramos na arte são emoções.

A arte dá-nos mais da vida do que a própria vida?
Acho que sim. Porque a arte é imortal. Vai sobreviver-nos. Faz parte das nossas ambições mais básicas. É por isso que lemos livros, vamos ao cinema, apreciamos escultura. Precisamos disso. Ao contrário, há muitas coisas da vida real sem as quais viveríamos bem. Precisamos desse procurar do belo - no limite, é nesse sentido que os artistas trabalham, nem que seja um belo horrível. Nós temos, felizmente, dentro de nós, esse desejo de abstracção.

Questiona o seu talento enquanto escritor?
Todos os dias e cada vez mais. Os elogios são muito bons, mas têm o condão de elevar a fasquia. Há a exigência de que o próximo trabalho seja melhor do que o anterior, e isso é uma angústia. Qual será o meu tecto? Provavelmente o trabalho mais recente de alguém não é o melhor. Angustia-me a expressão: “Desta vez, desiludiu”.

“O problema não é não correspondermos às nossas expectativas; é não correspondermos às expectativas dos outros” escreveu em “A casa quieta”. É isto?
É a desconstrução daquela frase cor-de-rosa dos livros de auto-ajuda que querem sempre convencer as pessoas a não se importarem com os outros. É a mesma coisa que insistir em dizer às pessoas que se sentem feias – aliás, o meu próximo argumento parte daí – que isso não interessa porque são bonitas por dentro. À pessoa isso vale de pouco porque sabe que ser feia numa sociedade cada vez mais exigente em termos estéticos, é agrilhoante. A expectativa dos outros em relação a nós é o que mete mais medo e é o que mais nos agrada quando conseguimos fazer algo bom.

Esse argumento que referiu é o “Entre os dedos”?
Não, é outro. O “Entre os dedos" já está feito, e já estamos a trabalhar sobre ele. Agora estou a escrever outro argumento, que é sobre a forma como uma mulher se vê. Ela vê-se de uma forma diferente daquela que os outros a vêem. Depois, se isto está na cabeça dela ou não... terá que ver o filme.

Essa superação constante nos seus livros passa muito pelo apuramento da forma. É mais importante do que o conteúdo?
A forma é o que realmente nos toca. No jornalismo – e eu costumo dizer sempre isto aos estagiários -, o sensacionalismo nunca está no conteúdo, está sempre na forma. Pode fazer-se uma belíssima peça jornalística sobre um homicídio ou sobre pedofilia. Depende do talento do jornalista. Na literatura, dois escritores podem pegar na mesma história e um tocar-nos e outro não. Tocar, revolver, emocionar está na forma como se escreve. É isso que define um escritor com E grande. Há agora uma corrente de escritores que acha que o importante é a historieta, e que as palavras são mecanismos para se contar a história. Não, não, não. Discordo em absoluto. Uma palavra fora do sítio é completamente diferente. Se eu tiver uma personagem a responder numa discussão: “Não” ou ”Não, não, não” é completamente diferente. As palavras pesam, foram inventadas e têm todas significados diferentes. Há uma lógica para isso. Gosto de caracterizar as personagens pela forma. Alguns capítulos são propositadamente mais pausados, mais clássicos, mais com ponto final e percebe-se que as personagens são serenas. Há outros que não, há um corrido porque quero que a personagem provoque isso. E faço-o através da forma.
E a forma condiciona o ritmo de leitura...
Obrigo a ler de uma forma, guio, pretendo que leiam assim. Podia ter escrito aquela manhã com os quatro filhos (em "A casa quieta") de forma diferente e não teria dado aquela sensação de sufoco.

Chegou a esse registo apenas pela influência de António Lobo Antunes, com quem é invariavelmente comparado?
Não. É a minha forma. A comparação não me chateia – é um elogio; não é um insulto. Como escritor é dos melhores de sempre e tenho grande ternura por ele como pessoa, e sei que ele também tem por mim. Mas penso que é redutor considerarem que escrevo à Lobo Antunes porque, nesta altura, já provei que valho um bocadinho mais do que isso. E isto não é dizer que quero retirar o nome dele, pelo contrário. Quero muito que o Lobo Antunes goste do que escrevo, como quero que pessoas, outras, que gosto e considero e não são escritores, continuem a apreciar-me. Porque são o meu público, são pessoas que considero intelectualmente e por quem tenho afectividade. Preciso que gostem se não era um bocadinho angustiante. Mas, como eu já disse, vai haver um dia em que ele não vai gostar. E isso não pode, de maneira nenhuma, definir a minha carreira. Tenho uma relação muito salutar com o nome e a sombra do Lobo Antunes. Não tenho problemas nenhuns que digam, que tenho influências dele. Tenho, é verdade. Todos temos influências das pessoas que apreciamos.

Assusta-o ser confundido só com mais uma pessoa mediática a publicar livros?
Assusta. Os meus livros têm uma escrita diferente, por exemplo, do José Rodrigues dos Santos ou do Miguel Sousa Tavares. Não é melhor nem pior - é diferente. O público acabará por não ser o mesmo também. O meu medo – e isto tem que ficar claro -, é haver pessoas que podem nem sequer pegar no meu livro por ter sido eu a escrever. Por não gostarem de mim como jornalista, ou por pensarem que sou só mais um da televisão a tentar apanhar a onda. Com este preconceito podem não me ler. Há outro risco: terá havido muitas pessoas que terão comprado o livro por ser meu. “Aposto que conta aqui os podres da sic”, disse-me uma senhora na Feira do Livro. Acham que tenho que escrever um livro que se aproxime do jornalismo. E depois desiludem-se porque não estão à espera deste tipo de escrita. Rejeitam-no. A minha escrita pode ficar num limbo em relação aos potenciais leitores. Não sei o que é pior.

Qual é o balanço entre perdas e ganhos?
Apesar de tudo, para o tipo de leitores que gostava de ter, continuo a achar que é mais uma perda do que um ganho. Mas isso não me preocupa.
Suponho que também não preocupe somar edições...
Não escrevo a pensar no público, mas escrevo para o público. Parece uma contradição, mas não é. Para o livro soar verdadeiro às pessoas, ele tem que sair de mim e eu tenho que estar preocupado sobretudo com a minha escrita. A partir do momento em que é publicado, quero que chegue ao maior número de pessoas possível. Em termos de D. Quixote vendeu bastante bem. Não se aproxima nada das cifras de José Rodrigues dos Santos ou de Miguel Sousa Tavares. Mas mais importante do que isso, mais do que a quantidade, foi o feed back que recebi de alguns críticos e de alguns leitores. As pessoas sentiram o livro, tiveram uma experiência emocional muito forte e esperam que eu escreva outro. Eu nunca conseguiria dizer: “Claro que vai ser um sucesso”, porque não me cabe dizê-lo. Cabe-me trabalhar uma coisa que me dê prazer e esperar que ela dê prazer às pessoas.

Se lhe perguntar se é escritor provavelmente dir-me-á que não...
Dir-lhe-ia que sou um escritor e um jornalista porque tenho conseguido conciliar as coisas. Mas eu tenho tanto respeito pela palavra escritor que não quero ser eu a considerar-me. Felizmente, há já muita gente que o faz. Gosto tanto de literatura, de livros, que tenho muita parcimónia em utilizar essa expressão. Adoro ler e escrever e espero que a qualidade da minha escrita faça com que me considerem um escritor. Mas nunca serei eu a utilizar essa denominação.

Mas o seu campeonato é o da literatura...
Sim, é o de querer ser considerado escritor.

quinta-feira, março 09, 2006

Snif, snif...

Rodrigo Guedes de Carvalho: A casa quieta

Esqueçam tudo o que sabem sobre Rodrigo Guedes de Carvalho, jornalista irónico, mordaz, não raras vezes despropositado nos comentários de rodapé. Também podem esquecer - embora não seja obrigatório -, o argumentista do filme "Coisa ruim". E leiam o livro "A casa quieta". O melhor do homem - e o melhor é realmente bom -, está concentrado nesse romance.

Frida Khalo


"Creio que o melhor é partir, ir-me e não fugir.
Que tudo acabe num instante. Oxalá."
Não foi uma desilusão a exposição sobre a vida e obra de Frida Kahlo patente no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, até 21 de Maio. A perturbação que provoca o tamanho reduzido das telas impossibilita qualquer desgosto. A percepção real de uma obra concebida numa cama e o concentrado de dores várias e fundas - a fertilidade, a traição, a solidão -, e, ao mesmo tempo, a imponderável coragem reflectida num humor, quase sempre negro, engole-nos, desarma-nos, atira-nos para o que há de mais indecoroso em nós. Porque nos confronta com o que damos como adquirido por oposição a uma mulher que praticamente desafiou as leis da natureza.
No entanto - e apesar de estarem em exibição alguns dos quadros mais emblemáticos da pintora mexicana -, apresentar-se como retrospectiva exaustiva uma exposição que não tem mais de 40 obras parece-me abusivo. Frida Khalo pintou 200 quadros. Iria ao CCB mesmo que só lá estivesse um. Mas não gosto de ser ludibriada.

segunda-feira, março 06, 2006

Contagem decrescente

Faltam dois dias, DOIS DIAS, para que Cavaco Silva venha tomar conta "do futuro dos nossos filhos e dos nossos netos". Lembram-se da promessa?

Vasco, Constança e Clara

Li hoje o que jamais julguei poder ler no Espectro. Vasco Pulido Valente, mestre em soltar a língua e deixar verter o veneno, debruçou-se sobre o percurso académico - ou a falta dele -, de Clara Ferreira Alves. Questionou o título, os textos, a crítica literária... E os fiéis foram ao rubro. No momento em que escrevo, o post medíocre de VPV tem 160 comentários. Todos igualmente medíocres. Há, entre os fiéis, quem diga que o post foi escrito por Constança Cunha e Sá. Quem quer que o tenha escrito - poderá até ter sido uma coisa escrita a quatro mãos -, escreveu, entre outras pérolas, que CFA é "dona de uma coluna ilegível" no Expresso. Seria aconselhável fazer o exercício de comparação entre os textos de Clara, no semanário, e os de Constança, na Sábado. Não há nada mais deprimente do que alguém que nem sequer necessita de afirmação sujeitar-se a uma figura destas. Uma figura triste. Já agora, quem sabe se o post não teve também uma ajudinha de Maria Filomena Mónica, ex-mulher de Vasco, e também ela portadora do síndrome "eu sou melhor do que os outros"?!

Oscars 2006




1) Não entendo porque razão "O segredo de Brokeback Mountain" perdeu o oscar de melhor filme. Não entendo porque é que o perdeu para "Crash".

2) Não entendo porque razão Felicity Huffman (Transamérica) perdeu o oscar de melhor actriz principal. Não entendo porque é que o perdeu para Reese Witherspoon (Walk the line).

3) Não entendo porque é que George Clooney não foi oscarizado com "Good night and good Luck". Não entendo porque é que foi distinguido como actor secundário em Syriana.

4) Não entendo porque é que a Academia insiste em ser sempre só isto.



A academia no seu pior

Eis uma edição dos Oscars pouco arrojada e preconceituosa, a fazer vingar a lei divisão do mal pelas aldeias: três para todos para nenhum ficar triste. Brokeback Mountain tinha oito nomeações; venceu apenas três. E nenhuma delas a distinguiu como o melhor filme do ano, como efectivamente é. Foi uma edição pobre em várias categorias. E não me venham dizer que não houve surpresas. Não houve surpresas para quem? Para a malta que vive em L.A.? É tarde. Amanhã regressarei ao assunto.

domingo, março 05, 2006

Hotel do Chiado


Tem o ar das múltiplas mulheres que diz ter amado, indianas ou orientais de qualquer espécie. E acaba de chegar de Timor, onde terá hipotecado mais uma aventura. A dois imperdoáveis anos da barreira implacável dos 40, fazer uma reportagem num cenário adverso, ainda que em absoluta fase de rescaldo, parece-lhe um troféu, que teme, apesar disso, estar mascarado de prémio de consolação. Ele, que sempre se vira como um repórter de guerra, encarou os últimos meses na redacção, a vasculhar blogs e a trocar conversas inúteis no messenger, praticamente como uma sentença de morte.

Inesperadamente, apaixonou-se pelo oposto do chocolate do oriente, quando ela - mais branca, mais magra, mais baixa, mais nova do que todas as outras mulheres que lhe haviam roubado a atenção -, se encontra já na recta final do estágio no mesmo jornal onde ele se estreara, e que agora acusa de o subestimar. “Passei metade da vida a recusar propostas. Abandonei o curso de Direito, o ensino na universidade, as noites na rádio. Adiei os livros que tenho escritos na cabeça, não levei nenhum dos três casamentos a sério”. Mas, reconsidera, “que culpa tem o jornal da minha cegueira?”

Vou, sem querer, acompanhando aquela conversa, a vários andares do chão, no hotel do Chiado – para mim, escala obrigatória -, onde vestígios de caipirinhas do lado dele, reforços de saquinhos de chá do dela, e a luz de uma Lisboa inteira a ser progressivamente substituída por sombra, ajudam a denunciar há quanto tempo devem já estar ali a colar frases ao sol do fim da tarde.

Faço as contas com a injustiça que pode conter a aparência. Deve haver mais de 15 anos a separá-los. Quando ele começou a trabalhar, ela deveria ter, no máximo, oito anos, a idade de uma das filhas dele, qualquer coisa começada por V, que acaba de ligar a pedir para o pai não se esquecer de levar a bicicleta a casa da mãe, em Sintra. Ele, barba por desfazer, parece ainda mais velho, debruçado sobre a mesa, a tentar digerir, sem parecer ridículo, a ternura da voz da criança que lhe deixou estrelas nos olhos. Ela, mais insegura do que é possível descrever, a enrolar incessantemente os caracóis com a ponta de dois dedos esguios, parece incontornavelmente mais nova.

“Como sabes”, inicia ele a enésima história, “foi em 1859, com um acordo rectificado em 1904, que se estabeleceu o domínio da parte oriental de Timor por Portugal, constituindo uma excepção em todo o arquipélago asiático, que era dominado pela Holanda”. Um acordo tácito. Ela não sabe. Não faz a mais pequena ideia. Ele sabe que ela não sabe, mas insiste em começar as frases assim. Não será inocente. Há ali a intenção de abolir qualquer distância entre eles, mesmo a intelectual, mais óbvia do que a própria idade. Mas ela nem sequer parece muito incomodada com as coisas que desconhece. Limita-se, claramente rendida, a ouvir as histórias. De Timor, do Kosovo, da Guiné, da passagem de Macau para a China. E da política da cidade. E do novo presidente da República. E da vida dos músicos que coabitam com ele no carro. É, aliás, o que mais parece gostar nele. As histórias que ele, imparável, vai depositando no regaço dela.

”Nunca te agradeci por teres aparecido na minha vida”, diz-lhe, pegando-lhe na mão, perdendo o tom pedagógico. Ela sorri. Fala pouco e muito baixo. Quase não ouço o que diz. Olha-o como quem se despede. “Eu sei que posso viver sem ti, mas sou mais feliz contigo”, continua ele, desfazendo o cliché ao explicar que “as pessoas que importam são aquelas que conseguem ver para além daquilo que dizem que somos”. Ela, ao que parece, consegue. Mas o estágio dela acaba amanhã. Diz-lhe que não se imaginaria a viver em Lisboa. Ele pede-lhe para ficar. Insiste. Discorre argumentos profissionais e outros. Levanto-me antes de se separarem talvez para sempre.

Oscars no Mafia

A Antena 3 vai fazer emissão directa dos Oscars a partir do restaurante La Mafia, em Matosinhos. Jorge Alexandre Lopes modera o programa cujo painel de comentadores será constituído por Tiago Alves, João Lopes, João Paulo Alcobia e Álvaro Costa. Começa à meia-noite.

sexta-feira, março 03, 2006

Blogs no feminino

A Livraria Almedina, em Lisboa, continua alegremente a fazer dos blogs femininos um tema de discussão académica. O que os distingue dos blogs masculinos, por que razão são as mulheres que mais os utililizam, blá, blá, blá. Hoje deve ter sido a terceira ou quarta sessão. Nada contra. Se fosse convidada gostaria de dizer que, para mim, o exercício de blogar dá-me apenas a ilusão de que alguém possa ler o que escrevo, uma vez que o sítio que me paga para escrever não me permite escrever sobre o que gosto de escrever. Não sei se isso me distingue dos sujeitos que têm blogs masculinos.

Depressão na estrada

(Fotografia: José Miguel Gaspar)

Gosto de andar de carro com a cara voltada para as outras caras que vão nos outros carros. Gosto de ver as caras das pessoas. E de ver o que fazem quando vão a conduzir ou quando, como eu, vão só ao lado de quem conduz. Gosto sobretudo de ver se vão felizes. E quase nunca vão. A média será de dez para um. Nas filas paradas é mais perceptível, como é óbvio. Os casais vão a discutir, quase sempre, ou vão terrivelmente calados - não sei o que é pior. Os condutores solitários têm o olhar mais preso no vazio do que na estrada, o que poderá, digo eu, que nem sequer conduzo, explicar alguns acidentes. Continua a haver muita gente a falar ao telemóvel, apesar de ser proibido. Algumas falam através daqueles kits, que são permitidos, mas que lhes dá uma aparência completamente tresloucada. Dou comigo a ter saudades da alegria dos emigrantes de Agosto que conduzem com o cotovelo de fora e fazem questão de partilhar a sua música estridente. Mas hoje vi duas pessoas felizes no mesmo carro. E isso contagiou-me.

Rui Rio é um energúmeno?

Augusto M. Seabra está a ser julgado no Tribunal Criminal por ter escrito em 2003 que o presidente da Câmara do Porto é um energúmeno. Não seria mais importante aferir se Rui Rio é efectivamente um energúmeno do que discutir se energúmeno é um insulto? E no caso de ser confirmada, mesmo que pontualmente, a primeira hipótese, que culpa poderá ter o cronista do Público de o autarca ter uma esposa frágil, incapaz de aguentar os duelos políticos do seu mais-que-tudo? Não seria até justo que Seabra pedisse uma indemnização? Não sei se ele é casado, mas se for, não poderá também a sua mulher sentir-se incomodada por ver que a arte do seu marido - escrever é uma arte -, não só não é compreendida como é transformada num potencial alvo de sanção?
E depois, tanto quanto vejo nos filmes, as sessões em tribunais obrigam sempre àquele ritual da mão direita empinada (ou é no peito?): "Juro dizer a verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade". Alguém no seu perfeito juízo e com a exigida verdade consegue imaginar que Rui Rio, após a leitura da famigerada crónica, se despenhou em lágrimas e desatou a citar Florbela Espanca: "Quem nos deu asas para andar de rastos?/ Quem nos deu olhos para ver os astros/ Sem nos dar braços para os alcançar?!..." E a sua mulher, comovida, a consolá-lo: "Rui, amor, achas mesmo que vale a pena continuares na política?"
Haja decoro e poupem-se!
Energúmeno: s.m. possesso do Demónio; [fig.] pessoa que, dominada por uma obsessão, pratica desatinos (Do grego energoúmenos, «possesso», pelo latim energumenos, «possesso do domónio»).
Dicionário da Língua Portuguesa. Porto Editora, 8ª edição
Energúmeno: s.m. pessoa que, dominada por uma obsessão ou fúria, pratica disparates; [fig] pessoa desprezível ou ignorante; [ant.] pessoa possuída perlo demónio; possesso
Grande Dicionário de Língua Portuguesa. Porto Editora, 2004
Energúmeno: desnorteado; endemoninhado; espiritado; exaltado; fanático; furioso; louco; possesso
Dicionário de Sinóninos. Porto Editora, 2ª edição

Oliveira no Fantas


Não é certo que Manoel de Oliveira tenha sido alguma vez, nestes vinte e tal anos, espectador do festival de cinema fantástico do Porto. Também não é certo que o público do Fantas seja o mesmo que o dos filmes do realizador português, que conta 98 anos e 30 longas e médias metragens. Ainda assim, o casal anfitrião Dorminsky-Beatriz decidiu homenageá-lo ontem à noite. E a homenagem soube-me francamente bem. "Uma homenagem que ele aceitou sem dela precisar".
Seguiu-se a ante-estreia do seu novo filme "O espelho mágico", fruto da adaptação da obra "A alma dos ricos" de Agustina Bessa Luís. Um filme sobre a obsessão de Alfreda (Leonor Silveira, claro) pela aparição da Virgem Maria. Gostei. Gostei mesmo. Gostei do desempenho de Ricardo Trepa, gostei do humor que o cineasta imprimiu ao texto. E gostei da fotografia.

quinta-feira, março 02, 2006

Lost


Levando cada vez mais a sério a sua obrigação de prestar serviço público, a RTP 1 começou a exibir esta semana a segunda temporada da série 'Lost' em horário nobre... ou tão nobre quanto possível. Como da primeira vez a passou aos domingos ao início da tarde, a estação redimiu-se voltando a passar todos os episódios da primeira temporada em dias seguidos. E depois, exibiu o concentrado de episódios realizado pelos produtores da série, e não pelo canal de televisão, como foi falsamente divulgado. O que foi autoria da estação foi a narração da retrospectiva. E isso foi lamentável. Tranformar uma série absolutamente genial numa espécie de documentário animal é ridículo. Ainda assim, é de louvar a aposta numa série de excepção. Esperemos que a saibam tratar bem.

quarta-feira, março 01, 2006

Vergílio Ferreira (1916-1996)

"De vez em quando a eternidade sai do teu interior e a contingência substitui-a com o seu pânico. São os amigos e conhecidos que vão desaparecendo e deixam um vazio irrespirável. Não é a sua 'falta' que falta, é o desmentido de que tu não morres".
Vergílio Ferreira morreu. Faz hoje dez anos.

The others